29 de fevereiro de 2016

Capítulo 84

Dorian Havilliard tinha acordado sozinho, em um quarto que ele não reconhecia.
Mas estava livre, apesar de um pedaço de pele pálida agora em seu pescoço. Por um momento, ele se deitou na cama, ouvindo.
Sem gritos. Nenhuma lamentação. Apenas alguns pássaros chilreando do lado de fora da janela, a luz do sol de verão entrando, e.... silêncio. Paz.
Havia um vazio em sua cabeça. Um vazio nele.
Ele até colocou a mão sobre o seu coração para ver se estava batendo.
O resto era um borrão – e ele se perdeu nele, ao invés de pensar sobre esse vazio. Tomou banho, vestiu-se e falou com Aedion Ashryver, que olhou para ele como se ele tivesse três cabeças e que aparentemente era agora responsável pela segurança do castelo.
Chaol estava vivo, mas ainda se recuperando, disse o general. Ainda não tinha acordado – e talvez fosse uma coisa boa, porque Dorian não tinha ideia de como iria enfrentar seu amigo, como explicaria tudo. Mesmo quando a maioria era meros fragmentos de memória, peças que ele sabia que o destruiriam ainda mais se ele os colocasse juntos.
Poucas horas depois, Dorian ainda estava naquele quarto, juntando coragem de examinar o que tinha feito. O castelo que tinha destruído; as pessoas que tinha matado. Ele via o muro: prova do poder de sua inimiga... e de sua maldade.
Não sua inimiga.
Aelin.
— Olá, Dorian — disse ela.
Ele se afastou da janela quando a porta se fechou atrás dela.
Ela permaneceu junto à porta, com uma túnica azul profunda e dourada, desabotoada com graça descuidada no pescoço, o cabelo solto em seus ombros, as botas marrons arranhadas. Mas a maneira como ela se mantinha, o jeito como permanecia em silêncio absoluto... A rainha olhava para ele.
Ele não sabia o que dizer. Por onde começar.
Ela andou para a pequena área de estar onde ele estava.
— Como está se sentindo?
Até mesmo o jeito como ela falava era um pouco diferente. Ele já tinha ouvido sobre o que ela dissera ao seu povo, as ameaças que fizera e a ordem que dera.
— Bem — ele conseguiu dizer.
Sua magia retumbou profundamente dentro dele, mas era pouco mais que um sussurro, como se tivesse sido drenada. Como se estivesse tão vazia quanto ele.
— Você não está se escondendo aqui, não é? — ela perguntou, caindo em uma das cadeiras baixas sobre o bonito e ornamentado tapete.
— Seus homens me colocaram aqui para que pudessem manter um olho em mim — disse ele, mantendo-se perto da janela. — Eu não sabia que tinha permissão para sair.
Talvez fosse uma boa, considerando o que o príncipe demônio o obrigara a fazer.
— Você pode sair quando quiser. Este é o seu castelo, seu reino.
— É? — ele ousou perguntar.
— Você é o rei de Adarlan agora — ela falou suavemente, mas não gentilmente. — Claro que é.
Seu pai estava morto. Nem mesmo um corpo restou para revelar o que eles fizeram aquele dia.
Aelin havia declarado publicamente que o matou, mas Dorian sabia que ele matara o pai quando destruiu o castelo. Ele tinha feito isso por Chaol, e por Sorscha, e sabia que ela reivindicara o assassinato para não ter que fizer ao seu povo... dizer que ele matara o próprio pai.
— Eu ainda tenho que ser coroado — ele respondeu, por fim. Seu pai afirmara aquelas coisas selvagens naqueles últimos momentos; coisas que mudavam tudo e nada.
Ela cruzou as pernas, inclinando-se para trás na cadeira, mas não havia nada casual em seu rosto.
— Você diz isso como se esperasse que não acontecesse.
Dorian sufocou a vontade de tocar seu pescoço e confirmar que o colar tinha ido embora e apertou as mãos atrás das costas.
— Eu mereço ser rei depois de tudo o que fiz? Depois de tudo o que aconteceu?
— Só você pode responder essa pergunta.
— Você acredita no que ele disse?
Aelin mordeu a parte interna das bochechas.
— Eu não sei em que acreditar.
— Perrington entrará em guerra comigo – conosco. Me fazer rei não vai parar um exército.
— Nós vamos descobrir isso — ela soltou um suspiro. — Mas se tornar rei é o primeiro passo.
Além da janela, o dia estava brilhante, claro. O mundo havia acabado e começado de novo, e ainda nada tinha mudado, no entanto. O sol ainda subiria e desceria, as estações ainda passariam, indiferente se ele era livre ou escravo, príncipe ou rei, sem se importar com quem estava vivo e quem tinha ido embora. O mundo se manteria em movimento. Não parecia certo, de alguma forma.
— Ela morreu — ele falou, sua respiração irregular, o quarto esmagando-o. — Por minha causa.
Aelin se levantou em um movimento suave e caminhou até onde ele estava, perto da janela, apenas para puxá-lo para baixo no sofá ao lado dela.
— Vai demorar um pouco. E nunca poderá estará de novo. Mas você... — ela agarrou sua mão, como se ele não tivesse usado essas mãos para ferir e mutilar, para esfaqueá-la. — Você vai aprender a enfrentar, e suportar. O que aconteceu, Dorian, não foi culpa sua.
— Foi. Eu tentei te matar. E o que aconteceu com Chaol...
— Chaol escolheu. Ele escolheu  ganhar tempo, porque seu pai era o culpado. Seu pai, o príncipe valg dentro dele, fez isso com você, e com Sorscha.
Ele quase vomitou com o nome. Seria desonrá-la não dizer outra vez, nunca mais falar dela novamente, mas ele não sabia se podia falar aquelas duas sílabas sem que uma parte dele morresse outra vez.
— Você não vai acreditar em mim — Aelin continuou. — O que acabei de dizer, você não vai acreditar em mim. Eu sei disso, e isso é bom. Eu não esperava que o fizesse. Quando estiver pronto, eu estarei aqui.
— Você é a rainha de Terrasen. Não pode estar aqui.
— Quem disse? Nós somos os mestres dos nossos próprios destinos, decidimos como seguir em frente — ela apertou sua mão. — Você é meu amigo, Dorian.
Um lampejo de memória, a partir da névoa de escuridão, dor e medo. Eu voltei por você.
— Vocês dois voltaram — ele falou.
Sua garganta se fechou.
— Você me tirou de Endovier. Achei que poderia devolver o favor.
Dorian olhou para o tapete, para todos os fios entrelaçados.
— O que eu faço agora? — eles tinham ido embora: a mulher que ele amava, e o homem que ele odiava. Ele encontrou o olhar dela. Nenhum cálculo, nenhuma frieza, nem piedade naqueles olhos azul-turquesa. Apenas honestidade inflexível, como tinha sido desde o início com ela. — O que eu faço?
Ela teve que engolir antes de dizer:
— Você ilumina a escuridão.



Chaol Westfall abriu os olhos.
O mundo parecia um destino terrível naquele quarto no castelo de pedra.
Não havia dor em seu corpo, pelo menos. Não como a dor que o derrubara, seguida pela batalha entre a luz azul e a escuridão e. E, em seguida, nada.
Ele poderia ter cedido à exaustão que ameaçava arrastá-lo de volta para a inconsciência, mas alguém – um homem – soltou uma respiração áspera, e Chaol virou a cabeça.
Não havia sons, não havia palavras nele quando o encontrou Dorian sentado em uma poltrona ao lado da cama.
Sombras marcavam a área sob seus olhos; seu cabelo estava despenteado, como se ele tivesse passado as mãos por ele, mas – mas além de sua blusa desabotoada, não havia colar. Apenas uma linha pálida maculando sua pele dourada.
E os olhos... assombrados, mas limpos. Vivos.
A visão de Chaol ficou turva e embaçada.
Ela tinha conseguido. Aelin conseguira. O rosto de Chaol contorceu-se.
— Não sabia que eu parecia tão ruim assim — Dorian falou, sua voz rouca.
Ele sabia então que o demônio dentro o príncipe tinha ido embora. Chaol chorou.
Dorian saiu da poltrona e caiu de joelhos ao lado da cama. Ele agarrou a mão de Chaol, apertando-o quando pressionou a testa contra a dele.
— Você estava morto — disse o príncipe, a voz embargada.
— Pensei que você estivesse morto.
Chaol finalmente dominou a si mesmo, e Dorian se afastou o suficiente para ver seu rosto.
— Acho que eu estava — ele respondeu. — O que... o que aconteceu?
Então Dorian lhe contou.
Aelin tinha salvado sua cidade.
E salvou sua vida, também, quando escorregou o Olho de Elena em seu bolso.
A mão de Dorian apertou a de Chaol um pouco mais.
— Como você está se sentindo?
— Cansado — admitiu Chaol, flexionando a mão livre.
Seu peito doía onde a explosão o acertara, mas o resto dele parecia...
Ele não sentia nada.
Não conseguia sentir as pernas. Seus dedos do pé.
— Os curandeiros que sobreviveram — Dorian falou muito baixo — disseram que você não deveria ter sobrevivido. Sua espinha... penso que meu pai a partiu em alguns lugares. Disseram que Amithy poderia ter sido capaz de... — um lampejo de raiva. — Mas ela morreu.
Pânico, lento e gelado, rastejou para dentro dele. Ele não podia se mover, não podia...
— Rowan curou duas das lesões mais acima. Você estaria paralisado... — Dorian engasgou com as palavras: — do pescoço para baixo de outra forma. Mas a fratura inferior, Rowan disse que era muito complexa, e não se atreveu a tentar curá-lo, não quando poderia torná-la pior.
— Diga-me que há um “mas” chegando — Chaol conseguiu falar.
Se ele não pudesse andar – se não pudesse se mover...
— Nós não vamos correr o risco de lhe mandar para Wendlyn, não com Maeve lá. Mas os curandeiros na Torre Cesme poderiam ajudá-lo.
— Eu não vou para o continente do sul — não agora que ele tinha trazido Dorian de volta, não agora que eles tinham todos, de alguma maneira sobrevivido. — Vou esperar por um curandeiro aqui.
— Não existem curandeiros aqui. Não os magicamente talentosos. Meu pai e Perrington os exterminaram.
Frio cintilou naqueles olhos de safira. Chaol sabia que o pai dele reivindicara o que Dorian fizera, mas apesar de tudo, isso assombraria o príncipe por um tempo.
Não o príncipe – o rei.
— Torre Cesme pode ser a sua única esperança de andar de novo — disse Dorian.
— Eu não vou te deixar. Não de novo.
A boca de Dorian apertou.
— Você nunca me deixou, Chaol — ele balançou a cabeça uma vez, as lágrimas escorrendo pelo seu rosto. — Você nunca me deixou.
Chaol apertou a mão do amigo.
Dorian olhou para a porta um momento antes de uma batida soar hesitante, e sorriu levemente.
Chaol se perguntou o que a magia de Dorian lhe permitia detectar, mas, em seguida, o rei enxugou as lágrimas e falou:
— Alguém está aqui para ver você.
A maçaneta calmamente foi girada e a porta se abriu, revelando uma cortina de cabelo pretos pintados de tinta e, um rosto bonito bronzeado. Nesryn viu Dorian e fez uma reverência profundo, seu cabelo balançando com ela.
Dorian se pôs de pé, acenando com a mão em dispensa.
— Aedion pode ser o novo chefe de segurança do castelo, mas a senhorita Faliq é minha capitã temporária da Guarda. Acontece que os guardas acham o estilo de liderança de Aedion é... qual a palavra, Nesryn?
A boca de Nesryn se contraiu, mas seus olhos estavam em Chaol, como se ele fosse um milagre, como se ele fosse uma ilusão.
— Polarizador — Nesryn murmurou, caminhando direto para ele, seu uniforme vermelho e dourado caindo como uma luva
— Nunca houve uma mulher na guarda do rei antes — Dorian falou, indo em direção à porta. — E uma vez que você é agora lorde Chaol Westfall, conselheiro do rei, preciso de alguém para ocupar o cargo. Novas tradições de um novo reinado.
Chaol rompeu com os olhos arregalados o olhar de Nesryn para embasbacar com seu amigo.
— O quê?
Mas Dorian estava na porta, abrindo-a.
— Se eu tiver que me prender ao dever de um rei, então você se prenderá comigo. Então, vá para a Torre Cesme e cure-se rápido, Chaol. Porque temos trabalho a fazer — o olhar do rei moveu-se para Nesryn. — Felizmente, você já tem um guia experiente.
Em seguida, ele se foi.
Chaol olhou para Nesryn, que mantinha a mão sobre a boca.
— Acontece que acabei quebrando a minha promessa a você depois de tudo — ele falou. — Uma vez que eu tecnicamente não consegui sair deste castelo.
Ela começou a chorar.
— Lembre-me de nunca fazer uma piada de novo — ele falou, mesmo enquanto o pânico o atravessava e se colocava sobre ele. Suas pernas... não. Não... eles não o mandariam para Torre Cesme, a menos que soubessem que havia uma possibilidade de que ele voltaria a andar. Ele não aceitaria nenhuma outra alternativa.
Os ombros magros de Nesryn balançaram enquanto ela chorava.
— Nesryn — ele resmungou. — Nesryn, por favor.
Ela deslizou para o chão ao lado da cama e cobriu o rosto com as mãos.
— Quando o castelo foi destruído — ela falou, com voz embargada — pensei que você estivesse morto. E quando vi o vidro vindo para mim, pensei que eu estaria morta. Mas então o fogo veio, e eu rezei... rezei para que de alguma forma ela o salvasse, também.
Rowan fora o responsável, mas Chaol não estava disposto a corrigi-la.
Ela baixou as mãos, finalmente olhando para seu corpo debaixo dos cobertores.
— Nós vamos corrigir isso. Vamos para o Continente Sul, e vou fazê-los curarem-no. Eu vi as maravilhas que podem fazer, e sei que eles conseguem. E...
Ele pegou a mão dela.
— Nesryn.
— E agora você é um lorde — continuou ela, balançando a cabeça. — Você era um lorde antes, quero dizer, mas é o segundo em comando do rei. Eu sei que é... sei nós...
— Nós daremos um jeito — disse Chaol.
Ela encontrou seu olhar fixo no passado.
— Eu não espero nada de você...
— Nós daremos um jeito. Você pode até não querer um homem aleijado.
Ela se afastou.
— Não me insulte por supor que eu sou tão superficial ou inconstante.
Ele engasgou com uma risada.
— Vamos viver uma aventura, Nesryn Faliq.

9 comentários:

  1. mintira ne?! chal fico deficiente

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  2. Ah não, só o Chaol que se lasca no final das contas.

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  3. ESSES DOIS ÚLTIMOS CAPÍTULOS, SÓ OS FEELINGS ❤❤❤❤❤❤
    Dorian e Chaol, Dorian e Aelin, Rowan e Aelin,Nesryn e Chaol 💕💕💕

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  4. Gente, em a lâmina da assassina a Celaena n ficou amiga de uma curandeira mágica?
    Será q ela vai voltar?

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    1. Acredito que sim! A curandeira, a aprendiz lá, até o pirata, quem sabe...

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  5. O Dorian esta com indiferença com a Aelin ou e impressao minha?

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