29 de fevereiro de 2016

Capítulo 82

Elide olhou para o jovem de cabelos escuros.
E Kaltain olhou para trás.
Manon deixou escapar um grunhido de advertência.
— A menos que queira morrer, ou obter o inferno, saia do caminho.
Kaltain, o cabelo solto, o rosto pálido e magro, disse:
— Eles estão vindo agora. Para descobrir por que ela ainda não chegou.
A mão ensanguentada de Manon estava pegajosa e úmida quando ela apertou em torno do braço de Elide e puxou-a para a porta. O único passo, a liberdade nos movimentos sem a corrente... Elide quase chorou.
Até que ela ouviu a luta pela frente. Atrás delas, a partir da escada escura, no outro extremo do corredor, pés se apressavam de mais homens vindo de baixo.
Kaltain afastou-se quando Manon a empurrou para passar.
— Espere — chamou Kaltain. — Eles vão virar esta Fortaleza de cabeça para baixo procurando por você. Mesmo se começar a sair por via aérea, eles vão mandar as batedoras atrás e usar seu próprio povo contra você, Bico Negro.
Manon deixou cair o braço de Elide. Elide mal se atrevia a respirar quando a bruxa respondeu:
— Quanto tempo se passou desde que destruiu o demônio no interior do colar, Kaltain?
Um riso baixo, quebrado.
— Um tempo.
— O duque sabe?
— Meu Lorde Sombrio vê o que quer ver — ela moveu os olhos para Elide. Exaustão, vazio, tristeza e raiva dançavam ali, juntos. — Tire o robe e me dê.
Elide recuou um passo.
— O quê?
Manon olhou entre elas.
— Você não pode enganá-los.
— Eles veem o que querem ver — Kaltain repetiu.
Os homens se aproximando de ambos os lados estavam mais perto a cada batimento cardíaco irregular.
— Isso é loucura — Elide respirou. — Nunca vai funcionar.
— Tire o seu robe e entregue a ela — Manon ordenou. — Faça isso agora.
Não havia espaço para a desobediência. Então Elide concordou, corando em sua própria nudez, tentando cobrir-se.
Kaltain simplesmente deixou o vestido preto escorregar de seus ombros. E ondular no chão.
Seu corpo – o que haviam feito com seu corpo, os hematomas, a magreza...
Kaltain envolveu-se com a túnica, o rosto vazio de novo.
Elide deslizou sobre o vestido, o tecido horrivelmente frio, quando deveria estar quente.
Kaltain ajoelhou-se diante de um dos guardas mortos – oh, deuses, eram cadáveres deitados lá – e passou a mão sobre o buraco no pescoço do guarda. Ela ficou suja de sangue e esfregou o rosto, o pescoço, os braços, o robe. Espalhou pelos cabelos, puxando-a para frente, escondendo o rosto, até que manchas de sangue eram tudo o que podia ser visto, dobrando os ombros para dentro, até...
Até Kaltain parecer Elide.
Vocês poderiam ser irmãs, Vernon havia dito. Agora, elas poderiam ser gêmeas.
— Por favor, venha conosco — Elide sussurrou.
Kaltain riu baixinho.
— Punhal, Bico Negro.
Manon puxou um punhal.
Kaltain cortou profundamente o caroço cicatrizado hediondo em seu braço.
— Em seu bolso, menina — disse Kaltain para ela.
Elide enfiou a mão no vestido e tirou um pedaço de tecido escuro, desgastado e rasgado nas bordas, como se tivesse sido arrancado de alguma coisa.
Elide segurou em direção à moça quando Kaltain enfiou a mão no braço, nenhuma expressão de dor no bonito rosto ensanguentado, e tirou uma lasca de pedra escura reluzente.
O sangue vermelho de Kaltain pingava. Cuidadosamente, a senhora fixou o pedaço de tecido que Elide estendeu, e fechou os dedos de Elide em torno dele.
Lentamente, um baque maçante e estranho bateu através de Elide quando ela agarrou a pedra.
— O que é aquilo? — Manon perguntou, farejando sutilmente.
Kaltain apenas apertou os dedos de Elide.
— Encontre Celaena Sardothien. Entregue-lhe isso. A ninguém mais. Ninguém. Diga a ela que você pode abrir qualquer porta, se tiver a chave. E diga-lhe para lembrar da sua promessa para mim, de punir a todos. Quando ela perguntar por que, responda que eu disse que não me deixaram trazer a capa que ela me deu, mas mantive um pedaço dela. Para lembrar da promessa que ela fez. Para lembrar de retribuir por um manto quente em uma masmorra fria.
Kaltain se afastou.
— Nós podemos levá-la conosco — Elide tentou novamente.
Um sorriso pequeno e detestável.
— Não tenho nenhum interesse em viver. Não depois do que eles fizeram. Não acho que meu corpo poderia sobreviver sem o poder deles — Kaltain bufou uma risada. — Vou aproveitar isso, acho.
Manon puxou Elide para o seu lado.
— Eles vão perceber que é você sem as correntes...
— Eles estarão mortos antes que percebam — respondeu Kaltain. — Sugiro que vocês corram.
Manon não fez perguntas, e Elide não teve tempo de dizer “obrigada” antes de a bruxa puxá-la e elas correram.



Ela era um lobo.
Ela era a morte, devoradora de mundos.
Os guardas a encontraram enrolada na cela, estremecendo com a carnificina. Eles não fizeram perguntas, não olharam duas vezes em seu rosto antes de a arrastaram pelo corredor e para as catacumbas.
Havia gritos aqui. Havia terror e desespero. Mas os horrores sob as outras montanhas eram piores. Muito piores. Pena que ela não teria a oportunidade de poupá-los também, matá-los.
Ela era um vazio, oco, sem a lasca de poder que construiu, devorou e rasgou mundos dentro dela.
Seu precioso dom, sua chave, ele a chamou. Um portão da vida, ele prometeu. Logo, disse que adicionaria o outro. E, em seguida, encontraria o terceiro.
Assim que o rei dentro dele pudesse governar novamente.
Eles a levaram para uma câmara com uma mesa no centro. Um lençol branco a cobria, e homens observavam quando a empurraram para a mesa – um altar. Eles a acorrentaram.
Com o sangue sobre ela, eles não notaram o corte em seu braço, ou o rosto que ela usava.
Um dos homens se aproximou com uma faca, limpa, afiada e reluzente.
— Isto vai levar apenas alguns minutos.
Kaltain sorriu para ele. Abriu um largo sorriso, agora que fora trazida para as entranhas deste buraco.
O homem fez uma pausa.
Um jovem ruivo entrou na sala, cheirando à crueldade nascida em seu coração humano e amplificada pelo demônio dentro dele. Ele congelou ao vê-la.
Ele abriu a boca.
Kaltain Rompier desencadeou seu fogo de sombras sobre todos eles.
Este não era o fantasma de fogo de sombras que havia feito para matar – a razão pela qual eles haviam se aproximado dela primeiramente, mentido para ela quando a convidaram para o castelo de vidro – mas a coisa real. O fogo que ela abrigara desde que magia tinha voltado – chamas douradas agora se tornaram pretas.
O quarto tornou-se cinzas.
Kaltain empurrou as correntes de cima dela como se fossem teias de aranha e se levantou.
Ela se despiu quando caminhou para fora da sala. Deixe-os ver o que tinha sido feito com ela, o corpo que tinham desperdiçado.
Ela fez deu dois passos para o corredor antes de eles a notaram, e viu as chamas negras ondulando para fora dela.
Morte, devoradora de mundos.
O corredor virou pó preto.
Ela caminhou em direção à câmara onde a gritaria era mais alta, onde gritos femininos vazavam através da porta de ferro.
O ferro não aqueceu, não drenou a sua magia. Então ela derreteu um arco através das pedras.
Monstros, bruxas e homens-demônios giraram.
Kaltain correu para o quarto, abrindo os braços, e tornou-se fogo de sombras, tornou-se liberdade e triunfo, tornou-se uma promessa sussurrando em um calabouço debaixo de um castelo de vidro: Punirei todos eles.
Ela queimou os berços. Queimou os monstros dentro deles. Queimou os homens e os seus príncipes demoníacos. E então queimou as bruxas, que olharam para ela com gratidão em seus olhos e abraçaram a chama escura.
Kaltain desencadeou o último de seu fogo de sombras, inclinando o rosto para o teto, em direção a um céu ela nunca veria novamente.
Ela destruiu todas as paredes e cada coluna. Quando trouxe todas as falhas desabando ao seu redor, Kaltain sorriu, e, finalmente, queimou-se em cinzas em um vento fantasma.



Manon corria. Mas Elide era tão lenta – tão dolorosamente lenta com aquela perna.
Se Kaltain desencadeasse seu fogo de sombras antes que elas saíssem...
Manon agarrou Elide e puxou-a sobre um ombro, o vestido frisando o corte na mão de Manon, enquanto ela correu até as escadas.
Elide não disse uma palavra quando Manon chegou ao patamar do calabouço e viu Asterin e Sorrel terminando com o último dos soldados.
— Corram! — ela ordenou.
Eles estavam revestidas em sangue negro, mas viviam.
Para cima e para cima, elas se arremessaram para fora das masmorras, quando Elide tornou-se um peso suportável em pura provocação à morte certamente correndo em direção a elas a partir de níveis inferiores.
Houve um tremor...
— Mais rápido!
Sua imediata chegou às portas da masmorra gigante e se atirou contra elas, mantendo-as abertas.
Manon e Sorrel correram através; Asterin empurrou, selando com um estrondo. Ele só atrasaria a chama um segundo, se tanto.
Para cima e para cima, em direção à torre.
Outro tremor e um estrondo...
Gritos, e calor...
Pelos corredores elas voaram, como se o Deus do Vento estivessem empurrando seus calcanhares.
Elas atingiram a base da torre. O resto das Treze estava reunido na escadaria, esperando.
— Para os céus — Manon ordenou quando chegou nas escadas, degrau após degrau, Elide tão pesada agora que ela pensava que fosse deixá-la cair.
Apenas mais alguns degraus para o alto da torre, onde as serpentes aladas estavam esperançosamente seladas e preparadas. Elas estavam.
Manon se arremessou para Abraxos e empurrou a menina tremendo para a sela. Subiu atrás dela quando as Treze moveram suas montarias. Envolvendo os braços ao redor de Elide, Manon cravou seus calcanhares nas laterais de Abraxos.
— Voem, agora! — ela gritou.
Abraxos saltou através da abertura, voando para cima e para fora, as Treze saltando com elas, asas batendo com força, batendo descontroladamente...
Morath explodiu.
Chama negra explodiu, atirando pedra e metal, correndo mais e mais alto. Pessoas gritavam e, em seguida, foram silenciadas, quando até mesmo a rocha derreteu.
O ar entrou e estalou nos ouvidos de Manon, e ela enrolou seu corpo em torno de Elide, abraçando-a de modo que o calor da explosão chamuscou suas próprias costas.
A torre da fortaleza foi incinerada, e desmoronou atrás delas.
A explosão as enviou para baixo, mas Manon agarrou a menina com força, apertando a sela com suas coxas, o vento seco e quente conforme explodia por elas. Abraxos guinchou, movendo-se e subindo na rajada.
Quando Manon se atreveu a olhar, um terço de Morath era uma ruína fumegante.
Onde as catacumbas estiveram uma vez, onde as Pernas Amarelas haviam sido torturadas e quebradas, onde tinham produzido monstros, não havia mais nada.

7 comentários:

  1. Interessante,Kaltaim.Ela deu a Segunda Chave de Wyrd para Elide,isso deixa Aelin com duas no futuro e Perrington,Erawan,com apenas uma.
    Brilhante.

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    1. Mas Elide ira conhecer sua rainha como Aelin, e não como Celaena...

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    2. Mas é claro que ela perguntará a Aelin, e assim entregará a ela. Dã.

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    3. Sim, imagina a surpresa dela! Adorei o que Kaltain e Manon fizeram <3

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  2. Muito brilhante. Obrigada Kaltain e Manon ❤

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  3. Independentemente de qualquer coisa, Kaltain morreu como uma heroína pra mim. E foi tão triste...

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  4. Por isso nunca odiei a Kaltain no primeiro livro, mesmo quando ela agia como uma vaca <3 Sabia q a autora n tinha colocado ela no livro pra ser uma "vadia" q provocava a Celaena e tentava roubar o par romântico dela ~ronco~

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