29 de fevereiro de 2016

Capítulo 80

Elide estava no calabouço há tanto tempo que perdera a noção do tempo.
Mas sentiu uma ondulação no mundo, podia jurar que ouviu o vento cantando o nome dela, ouviu gritos e pânico – e então nada.
Ninguém explicou o que era, e ninguém veio. Ninguém viria por ela.
Ela se perguntou quanto tempo Vernon iria esperar antes de a entregar a uma daquelas coisas. Tentou contar as refeições para controlar o tempo, mas a comida que lhe davam era a mesma no almoço e no jantar, e seus horários de refeição mudavam... Como se quisessem que ela perdesse o controle. Como se quisessem que ela se curvasse para a escuridão da masmorra, para que quando viessem buscá-la, ela estivesse disposta, desesperada para ver o sol novamente.
A porta de sua cela se abriu, e ela cambaleou de pé quando Vernon entrou. Ele deixou a porta entreaberta, e ela piscou para a luz das tochas, uma vez que ardiam em seus olhos. O corredor de pedra além estava vazio. Ele provavelmente não trouxera os guardas com ele. Ele sabia quão fútil uma corrida seria para ela.
— Estou contente de ver que eles estão te alimentando. Uma vergonha o cheiro, apesar de tudo.
Ela se recusou a ser constrangida por ele. O cheiro era a menor das suas preocupações.
Elide apertou-se contra a parede de pedra congelada e lisa. Talvez se tivesse sorte, encontraria uma maneira de colocar a corrente em torno de sua garganta.
— Vou mandar alguém para limpá-la amanhã.
Vernon começou a virar, como se sua inspeção estivesse feita.
— Para quê? — ela conseguiu perguntar. Sua voz já rouca com desuso.
Ele olhou por cima do ombro fino.
— Agora que a magia voltou...
Magia. Isso era o que a ondulação fora.
— Quero saber o que estava adormecido em seu sangue – nosso sangue. O duque está ainda mais curioso para saber o que virá daí.
— Por favor — pediu ela. — Eu vou desaparecer. Nunca vou incomodá-lo. Perranth é de vocês, é tudo seu. Você ganhou. Apenas me deixe ir.
Vernon estalou a língua.
— Eu gosto quando você implora — ele olhou para o corredor além e estalou os dedos. — Cormac.
Um jovem entrou no campo de visão.
Ele era um homem de beleza sobrenatural, com um rosto impecável sob o cabelo vermelho, mas seus olhos verdes eram frios e distantes. Horrível.
Havia um colar preto em torno de sua garganta.
Escuridão vazava dele em ondas. E quando seus olhos encontraram os dela...
Memórias a puxaram, memórias horríveis, de uma perna que quebrara lentamente, de anos de terror, de...
— Controle-se — Vernon estalou. — Ou ela não será nada divertida para você amanhã.
O jovem ruivo absorveu a escuridão novamente para si mesmo, e as memórias pararam.
Elide vomitou sua última refeição sobre as pedras.
Vernon riu.
— Não seja tão dramática, Elide. Uma pequena incisão, alguns pontos, e você será perfeita.
O príncipe demônio sorriu para ela.
— Você será entregue aos cuidados dele mais tarde, para se certificar de que tudo acontecerá como deveria. Mas com a magia tão forte em sua linhagem, como poderia não acontecer? Talvez você ofusque aquelas Pernas Amarelas. Depois da primeira vez — Vernon meditou — talvez Sua Alteza vá mesmo realizar suas próprias experiências com você. O conhecido que o vendeu mencionou em sua carta que Comarc apreciava... jogar com jovens mulheres quando morava em Forte da Fenda.
Oh, deuses. Oh, deuses.
— Por quê? — ela implorou. — Por quê?
Vernon deu de ombros.
— Porque eu posso.
Ele caminhou para fora da cela, levando o príncipe demônio – seu futuro par – com ele.
Assim que a porta se fechou, Elide correu para ela, puxando a maçaneta com as mãos até elas ficarem em carne viva, implorando a Vernon, implorando a qualquer um, que a ouvisse, que lembrassem dela.
Mas não havia ninguém.



Manon estava mais do que pronta para finalmente cair na cama. Depois de tudo o que aconteceu... ela esperava que a jovem  rainha tivesse rondado Forte da Fenda e entendido a mensagem.
Os salões do castelo estavam em polvorosa, apressando-se com mensageiros que evitavam olhar para ela.
Fosse o que fosse, ela não se importava. Ela queria tomar banho, e depois dormir. Por dias.
Quando acordasse, diria a Elide o que descobriu sobre sua rainha. A parte final da dívida vida que ela devia.
Manon entrou em seu quarto. O colchão de feno de Elide estava arrumado, o quarto impecável. A menina estava provavelmente escondida em algum lugar, espionando quem parecia mais útil para ela.
Manon estava a meio caminho para a sala de banhos quando percebeu o cheiro. Ou a falta dele.
O cheiro de Elide estava desgastado – obsoleto. Como se ela não tivesse aparecido ali por dias.
Manon olhou para a lareira. Não havia brasas. Ela estendeu a mão para ela. Nenhuma dica de calor.
Manon esquadrinhou o quarto.
Não havia sinais de luta. Mas...
Manon estava fora da porta no momento seguinte, voltando lá para baixo.
Deu três passos antes que sua espreita se transformasse em uma corrida rápida completa. Subiu as escadas de dois e três degraus de uma vez e saltou os últimos três metros para o patamar, o impacto tremendo através de suas pernas, agora fortes, tão perversamente forte, depois que a magia retornou.
Se havia um momento para Vernon dar a volta e tirar Elide dela, teria sido enquanto ela estava fora. E se a magia da família de Elide corria nas veias dela junto com o sangue das Dentes de Ferro... esse retorno teria despertado alguma coisa.
Eles querem reis, Kaltain tinha dito naquele dia.
Salão depois de salão, escada após escada, Manon correu, suas unhas de ferro faiscando quando agarrava as esquinas e as dobrava. Servos e guardas disparavam para fora de seu caminho.
Ela chegou às cozinhas momentos depois, dentes de ferro para fora. Todos caíram em silêncio mortal enquanto descia as escadas correndo, indo direto para o cozinheiro chefe.
— Onde ela está?
Rosto corado do homem empalideceu.
— Q-quem?
— A garota, Elide. Onde ela está?
Colher do cozinheiro caiu no chão.
— Eu não sei, não a vejo há dias, Líder Alada. Ela às vezes é voluntária na lavanderia, então talvez...
Manon já estava correndo para fora.
A lavadeira chefe, um elefante arrogante, bufou e disse que não tinha visto Elide, e que talvez a aleijada tivesse conseguido o que a aguardava. Manon a deixou gritando no chão, quatro linhas escavadas em seu rosto.
Manon se arremessou escadas acima e através de uma ponte de pedra aberta entre as duas torres, a rocha preta lisa contra suas botas.
Tinha acabado de chegar do outro lado quando uma mulher gritou do lado oposto da ponte:
— Líder Alada!
Manon parou de correr com tanta força que quase colidiu com a parede da torre. Quando se virou, uma mulher humana em um vestido caseiro corria para ela, cheirando a quaisquer sabões e detergentes que eles usavam na lavanderia.
A mulher engoliu grandes respirações de ar, sua pele escura brilhando. Ela tinha que apoiar as mãos sobre os joelhos para recuperar o fôlego, mas, em seguida, levantou a cabeça e disse:
— Uma das lavadeiras viu um guarda que trabalha nas masmorras da Fortaleza. Ela disse que Elide está trancada lá embaixo. Ninguém está autorizado a descer, apenas o tio dela. Não sei o que eles estão planejando fazer, mas não pode ser nada bom.
— Qual masmorra?
Havia três diferentes aqui, juntamente com as catacumbas em que eles mantiveram o clã de Pernas Amarelas.
— Ela não sabia. O guarda não falava muito. Algumas de nós tentaram descobrir, ver se havia algo a ser feito, mas...
— Não diga a ninguém o que me contou — Manon se virou. Três masmorras, três possibilidades.
— Líder Alada — a jovem mulher chamou. Manon olhou por cima do ombro. A mulher colocou uma mão em seu coração. — Obrigada.
Manon não se permitiu pensar sobre a gratidão da lavadeira, ou o que significava para os fracos seres humanos indefesos terem sequer considerado tentar resgatar Elide por conta própria.
Ela não achava que o sangue dessa mulher seria aguado ou com gosto do medo.
Manon se lançou em uma corrida – não para o calabouço, mas ao quartel das bruxas. Para as Treze.

2 comentários:

  1. Oh Deus!! Acho que era a Marion a mãe da Elide, como fantasma.

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