29 de fevereiro de 2016

Capítulo 78

Aelin Galathynius olhou para o assassino de sua família, de seu povo, de seu continente.
— Não dê ouvidos às mentiras dele — Dorian falou, monótono e oco.
Aelin estudou a mão do rei, onde o anel escuro fora quebrado e voara para longe. Apenas uma faixa pálida de pele permaneceu.
— Quem é você? — ela perguntou calmamente.
Humano – o rei parecia mais e mais... humano. Brando.
O rei se virou para Dorian, expondo suas palmas abertas.
— Tudo o que eu fiz... foi para mantê-lo seguro. Longe dele.
Aelin ficou imóvel.
— Eu encontrei a chave — o rei continuou, as palavras saindo. — Encontrei a chave e levei-a para Morath. E ele... Perrington. Nós éramos jovens, e ele me levou sob a Fortaleza para me mostrar a cripta, apesar de ter sido proibida. Mas eu a abri com a chave... — lágrimas, reais e claras, desceram pelo seu rosto corado. — Eu a abri e ele veio, pegou o corpo de Perrington... e... — ele olhou para a mão nua. Vendo-a tremer. — Deixou seu favorito me levar.
— Isso é suficiente — Dorian falou.
O coração de Aelin tropeçou.
— Erawan está livre — ela sussurrou.
E não só livre, Erawan era Perrington. O Rei das Trevas a tinha maltratado, vivido neste castelo com ela – e não a descobriu, por sorte ou por destino, ou pela proteção da própria Elena, enquanto ela estava ali. Ela nunca percebera, ou o detectara. Deuses, Erawan a forçou a fazer uma reverência naquele dia em Endovier e nenhum deles percebeu ou sentiu o que o outro era.
O rei concordou, suas lágrimas caindo em sua túnica.
— O Olho... você pode prendê-lo novamente com o Olho...
O olhar no rosto do rei quando ela revelou o colar... ele via não uma ferramenta de destruição, mas de salvação.
— Como é possível que ele estivesse dentro de Perrington esse tempo todo e ninguém percebeu? — Aelin perguntou.
— Ele pode se esconder dentro de um corpo como um caracol em sua concha. Mas disfarçar sua presença também sufoca suas próprias habilidades para perceber os outros como você. E agora que você está de volta... todos os jogadores do jogo inacabado estão aqui. As linhagens Galathynius e Havilliard, que ele odiou tão ferozmente todo esse tempo. As famílias que ele marcou, a minha, e a sua.
— Você massacrou meu reino — ela conseguiu dizer. Naquela noite que seus pais morreram, houvera aquele cheiro no quarto... O cheiro do valg. — Você abateu milhões.
— Eu tentei pará-lo — o rei apoiou uma mão na ponte, como se para não entrar em colapso sob o peso da vergonha que agora revestia suas palavras. — Eles poderiam encontrar pessoas apenas com base em sua magia, e queriam o mais forte de vocês. E quando você nasceu... — suas feições porosas enrugaram quando ele se virou para Dorian mais uma vez. — Você era tão forte, tão precioso. Eu não podia deixar que o levassem. Tomei o controle apenas por tempo suficiente.
— Para fazer o quê? — Dorian perguntou com voz rouca.
Aelin olhou para a fumaça flutuando em direção ao rio muito além.
— Para construir as torres — ela percebeu — e usar esse feitiço para banir a magia.
E agora que eles tinham libertado a magia... os mágicos seriam atacados por cada demônio valg em Erilea.
O rei suspirou – um suspiro trêmulo.
— Mas ele não sabia como eu tinha feito isso. Pensou que a magia tivesse desaparecido como castigo dos nossos deuses e não sabia por que as torres foram construídas. Todo esse tempo usei a minha força para manter esse conhecimento escondido dele... deles. Toda a minha força – de modo que eu não podia lutar contra o demônio, pará-lo quando... quando ele fez todas aquelas coisas. Eu mantive o conhecimento seguro.
— Ele é um mentiroso  disse Dorian, girando sobre o calcanhar. Não havia piedade em sua voz. — Fui capaz de usar a minha magia, ele não me protegeu de todo. Ele vai dizer qualquer coisa.
O mal diz coisas somente para nos confundir... Para nos assombrar com coisas que já lidamos, Nehemia tinha avisado.
— Eu não sabia  o rei implorou. — Usar o meu sangue no feitiço deve ter tornado a minha linhagem imune. Esse foi um erro. Me desculpe. Me desculpe. Meu garoto... Dorian...
— Você não pode chamá-lo assim — Aelin estalou. — Você foi para a minha casa e matou a minha família.
— Eu fui procurá-la. Fui procurá-la para que você o queimasse para fora de mim! — o rei soluçou. — Aelin do Fogo Selvagem. Tentei levá-la a fazê-lo. Mas sua mãe a deixou inconsciente antes que pudesse fazê-lo... e o demônio dedicou-se a acabar com sua linhagem depois disso, assim nenhum fogo jamais poderia tirá-lo de mim.
O sangue de Aelin virou gelo. Não – não, não podia ser verdade, não podia estar certo.
— Tudo isso foi para encontrá-la  disse o rei a ela. — Então, você poderia me salvar – poderia dar um fim em mim. Por favor. Acabe com isso. — O rei chorava agora, e seu corpo parecia definhar pouco a pouco, suas bochechas esvaziando, as mãos finas cobrindo o rosto.
Como se a sua força de vida e o príncipe demônio dentro dele de fato estivessem ligados e um não poderia existir sem o outro.
— Chaol está vivo  o rei murmurou através de suas mãos emagrecidas, baixando-as para revelar olhos avermelhados, já leitosos com a idade. — Fraco, mas eu não o matei. Havia uma luz ao seu redor. O deixei vivo.
Um soluço saiu de sua garganta. Ela esperou, tentou lhe dar uma chance de sobreviver...
— Você é um mentiroso  disse Dorian novamente, sua voz fria. Muito fria. — E merece isso — luz acendeu na ponta dos dedos de Dorian.
Aelin murmurou seu nome, tentando recuar, reunir sua inteligência. O demônio dentro do rei a caçara não por causa da ameaça que ergueria Terrasen – mas pelo fogo em suas veias. O fogo que poderia acabar com os dois.
Ela levantou uma mão quando Dorian deu um passo em direção a seu pai. Eles tinham que perguntar mais, aprender mais...
O príncipe inclinou a cabeça para o céu e gritou, e foi o grito de guerra de um deus.
Em seguida, o castelo de vidro se estilhaçou.

17 comentários:

  1. What??? Que viagem... Estão querendo bugar meu cérebro.

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  2. Essa foi a cena que deu origem a série. Na vdd foi uma das inspirações da autora após ver o balé: O lago dos cisnes! Ela imaginou Cel/Aelin e Dorian explodindo o castelo de vidro. Foi a partir daí que ela começou a traçar o caminho da história até esse ponto.

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  3. Erawan possuiu o Perrington?! WTF

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    1. Siiim :o
      Ou será que o rei estava mentindo? o.O

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    2. O meu celebro já bugou a tempos... WTF
      Karina agora você me deixou confusa...
      Ainda estou me perguntando se Chaol se foi msm...😭😿💔

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    3. kkkkkkkkk
      Essa é a intenção :P
      E, hã, cérebro* :v

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  4. O pior é que não tinha como evitar isso, se a magia não fosse liberada o demônio no rei continuaria destruindo tudo e a Aelin nunca conseguiria parar o exército em Morath
    Agora ela tem uma chance, minúscula, mas tem.
    Foco Fé e Força que vai da certo \O/

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  5. CHAOL TÁ VIVO, THANK GOD!!! Sobre o rei: WTTTF? COMO ASSIM? Não sei se ele tá mentindo ou não, mas se for isso, nós estávamos focados o tempo todo no rei, enquanto o fdp de verdade era o Perrigton :OOOOO

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    1. Néee! Isso era algo de que eu nunca desconfiaria

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