29 de fevereiro de 2016

Capítulo 75

Havia fogo e luz e escuridão, e gelo.
Mas a mulher – a mulher estava lá, do outro lado da ponte, com as mãos erguidas diante dele quando se levantou.
Sem sangue escorrendo de onde o gelo a esfaqueou. Apenas a pele limpa e lisa espiava através do tecido preto de seu traje.
Curada – com magia.
Ao redor dele havia muito fogo e luz, indo para ele.
Nós temos que voltar, disse ela. Como se soubesse o que esta escuridão era, os horrores que existiam. Lute.
A luz queimava em seu dedo – uma luz que o rachava. Uma luz que fez uma lasca na escuridão. Lembre-se, disse ela.
Suas chamas rasgaram até ele, e o demônio gritava. Mas não o machucou. Suas chamas se limitaram ao demônio dentro dele.
Lembre-se.
Uma lasca de luz na escuridão. Um porta quebrando. Lembre-se.
Acima dos gritos do demônio, ele empurrou – empurrou, e olhou para fora através de seus olhos. Olhos dele.
E viu Celaena Sardothien de pé diante dele.



Aedion cuspiu sangue sobre os escombros. Rowan mal permanecia consciente quando se inclinou contra o desmoronamento atrás deles, enquanto Lorcan tentava abrir caminho através do ataque dos valg.
Mais e mais derramava-se para dentro dos túneis, armados e sanguinários, alertados pela explosão.
Drenado e incapaz de reunir toda a profundidade de sua magia tão cedo, mesmo Rowan e Lorcan não seriam capazes de manter os valg ocupados por muito tempo.
Aedion tinha duas facas restantes. Sabia que não sairiam vivos destes túneis. Os soldados vinham em uma onda interminável com seus olhos vazios brilhando e com sede de sangue.
Mesmo aqui, Aedion podia ouvir as pessoas gritando nas ruas, quer pela explosão ou pela magia retornando e preenchendo-os. Esse vento... ele nunca sentira o cheiro de nada assim, e nunca sentiria outra vez.
Eles haviam derrubado a torre. Tinham conseguido.
Agora sua rainha teria magia. Talvez agora ela tivesse alguma chance.
Aedion eviscerou o comandante valg mais próximo, espirrando sangue negro em suas mãos, e se ocupou com os dois que entraram em cena para substituí-lo. Atrás dele, a respiração de Rowan vinha aos trancos. Muito difícil.
A magia do príncipe, drenada com a perda de sangue, começara a agir vacilante momentos atrás, não era mais capaz de tirar o ar dos pulmões dos soldados. Agora, não era mais que um vento frio empurrando contra eles, mantendo a maior parte à distância.
Aedion reconheceu a magia de Lorcan como os ventos escuros quase invisíveis. Mas onde atingia, soldados caíam. E não se levantavam.
Isso, também, agora falhava com ele.
Aedion mal conseguia levantar o braço da espada. Apenas um pouco mais; apenas mais alguns minutos mantendo esses soldados envolvidos para que sua rainha pudesse permanecer livre de distrações.
Com um gemido de dor, Lorcan foi engolido por meia dúzia de soldados e empurrado para fora de vista na escuridão.
Aedion continuou atacando e atacando até que não houvesse valg diante dele, até que percebeu que os soldados tinham recuado alguns metros e se reagrupado.
A linha sólida de soldados valgs a pé, os seus números aumentando longe à escuridão, os observava, segurando suas espadas. Esperando o fim da resistência. Demais. Demais para escaparem.
— Foi uma honra, príncipe — Aedion disse a Rowan.
A única resposta de Rowan foi uma respiração rascante.
O comandante valg caminhou até a frente da linha, a própria espada erguida. Em algum lugar no fundo do esgoto, os soldados começaram a gritar. Lorcan – idiota egoísta – deve ter aberto um caminho através deles, afinal. E fugido.
— Sigam ao meu sinal — falou o comandante, seu anel preto brilhando quando ele levantou uma mão.
Aedion entrou na frente de Rowan, tão inútil quanto seria. Eles matariam Rowan uma vez que ele estivesse morto, de qualquer maneira. Mas pelo menos ele cairia lutando, defendendo seu irmão. Pelo menos teria mantido sua obrigação.
As pessoas ainda gritavam na rua acima – gritando de terror cego, os sons de seu pânico se aproximando, mais alto.
— Aguardem — o comandante disse aos espadachins.
Aedion respirou fundo – sua última respiração, ele percebeu. Rowan se endireitou o melhor que pôde, vigoroso contra a morte que já acenava, e Aedion podia jurar que o príncipe sussurrou o nome de Aelin. Mais gritos dos soldados dos fundos; alguns da frente se viraram para ver o pânico que estava prostrado atrás deles.
Aedion não se importava. Não com uma fileira de espadas, diante deles, brilhando como os dentes de algum animal poderoso.
A mão do comandante desceu.
E foi arrancada por um leopardo fantasma.



Por Evangeline, por sua liberdade, pelo seu futuro.
Onde Lysandra avançava, cortando com garras e presas, soldados morriam.
Ela fizera isso do outro lado da cidade antes de sair da carruagem. Disse à Evangeline que fosse até a casa de campo dos Faliq, que fosse uma boa menina e ficasse segura. Lysandra correra as duas quadras em direção ao castelo sem se importar que tivesse pouco a oferecer em sua luta, quando o vento a acertou e uma canção selvagem reluziu em seu sangue.
Em seguida, ela saiu de pele humana, a gaiola mortal, e correu, seguindo o cheiro de seus amigos.
Os soldados do esgoto gritavam enquanto ela os rasgava – uma morte para cada dia infernal, uma morte pela infância tirada dela e de Evangeline. Ela era fúria, ela era a ira, ela era a vingança.
Aedion e Rowan estavam apoiados contra a parede, seus rostos sangrentos e boquiabertos quando ela saltou sobre as costas de uma sentinela e arrancou sua espinha.
Oh, ela gostava daquele corpo.
Mais soldados correram para os esgotos e Lysandra girou na direção deles, entregando-se inteiramente à besta cuja forma ela usava. Ela encarnou a morte.
Quando não havia nenhum restando, quando o sangue embebia sua pele pálida – o sangue com gosto desprezível – ela fez uma pausa no último.
— O palácio — Rowan murmurou de onde estava caído contra as pedras, Aedion pressionando a mão numa ferida na perna do guerreiro feérico. Rowan apontou para o esgoto a céu aberto atrás deles, cheio de sangue. — Vá para a rainha.
Uma ordem e um apelo.
Lysandra assentiu com a cabeça peluda, sangue nojento escorrendo por sua boca, sangue preto em suas presas, e correu de volta por onde veio.
As pessoas gritavam para o leopardo fantasma que disparou pela rua, elegante como uma flecha, esquivando-se dos relinchos dos cavalos e carruagens.
O castelo de vidro surgiu, meio envolto pelas ruínas fumegantes da torre do relógio, e luz – fogo – explodindo por entre suas torres. Aelin.
Aelin ainda estava viva, e lutando como o diabo.
Os portões de ferro do castelo apareceram à frente, com cadáveres fedendo presos a ele.
Fogo e escuridão batalhavam no topo do castelo, e as pessoas ficaram em silêncio enquanto apontavam.
Lysandra correu para as portas, e a multidão viu-a finalmente, lutando e gritando para sair de seu caminho. Eles abriram caminho até os portões...
Revelando trinta guardas valg enfileirados e armados com bestas, prontos para dispararem.
Todos eles apontando suas armas para ela.
Trinta guardas armados – e além deles, um caminho aberto para o castelo. Para Aelin.
Lysandra saltou. O guarda mais próximo disparou um tiro direto e aberto para o seu peito.
Ela sabia que, com os sentidos de leopardo, que acertaria em cheio. No entanto, Lysandra não diminuiu.
Ela não parou.
Por Evangeline. Por seu futuro. Por sua liberdade. Pelos amigos que foram atrás dela.
O tiro se aproximava de seu coração.
E foi desviado no ar por uma flecha.
Lysandra pousou na rosto do guarda e o estraçalhou com suas garras.
Havia apenas um atirador com pontaria assim.
Lysandra soltou um rugido, e tornou-se uma tempestade de morte para os guardas mais próximos dela enquanto flechas choveram sobre o resto.
Quando Lysandra ousou olhar, foi a tempo de ver Nesryn Faliq atirar outra flecha do topo do telhado vizinho, ladeada por seus rebeldes, e acertar o olho do último guarda restando entre Lysandra e o castelo.
— Vá! — Nesryn gritou por cima da multidão em pânico.
Chamas e escuridão guerreavam nas mais altas torres, e a terra tremeu.
Lysandra já corria pela rua inclinada, fazendo a curva no caminho entre as árvores.
Nada além a grama e as árvores e o vento.
Nada, só este elegante corpo poderoso, o coração ardente de metamorfo, a incandescência de cada passo, cada curva que fazia, fluída e rápida e livre.
Mais e mais rápido, cada movimento do corpo do leopardo uma alegria, enquanto sua rainha lutava pelo seu reino e seu mundo lá, lá em cima.

12 comentários:

  1. Laura do Bom Senso 42 #Zueira2 de março de 2016 21:29

    Mano, que foda esse final cara, tô vomitando arco-íris parindo unicórnios chorando doces, tirando que eu não tô chorando

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  2. Essa turma e demais cara .to amando esse livro

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  3. VO NEM VO COMENTA MAS EU PIIIIRAANNDO AQ!!!!!

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  4. THAAAANK GOD, LYSANDRA ❤❤❤ AINDA BEM, EU ESTAVA QUASE INFARTANDO.
    Geeeente, nem dá pra acreditar que eu odiava a guria em Lâmina da Assassina.

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  5. Eu quero retirar e renegar tudo o que disse, pensei, achei e imaginei sobre Lysandra. E gente, todos são fodas demais, quero ser todos eles quando crescer <3

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  6. HAAAAHEEEEEEEEE DORIAN !!!!
    ELE TA DE VOLTA MINHA GENTE!
    Chaol ñ pode ter morrido!!

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  7. Passando para falar "QUE CAPÍTULO FODA!" A Sarah ama nos enganar né?
    Vão morrer. Lorcan.
    Vão morrer. Lysandra.
    Vai morrer. Nesryn.
    Só não enfartei pq tenho que ler o resto.

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  8. AAAAAAAAAAAA Lizandra, Manon e AELIN > as meeeeelhores ever!!!!!@!

    Ass Thalissa

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  9. " A mão do comandante desceu. E foi arrancada por um leopardo fantasma."
    Adorei esta parte!!

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