29 de fevereiro de 2016

Capítulo 74

Tempo. Ela precisava ganhar mais tempo, ou roubá-lo, enquanto a ponte ainda estava na sombra, enquanto o sol se movia lentamente.
— Dorian — Aelin implorou novamente.
— Eu vou estraçalhá-la de dentro para fora — falou o demônio.
Gelo se propagou através da ponte. O vidro à sua volta se moveu, e cada passo que ela dava em direção à porta da torre doía.
Ainda assim, a torre do relógio não tinha sido destruída.
Mas o rei ainda não chegara.
— Seu pai está atualmente na sala do conselho — ela falou, lutando contra a dor espalhando através dela. — Ele está com Chaol – com o seu amigo – e seu pai provavelmente já o matou.
— Bom.
— Chaol — Aelin repetiu, com a voz embargada. Seu pé escorregou contra um pedaço de gelo, e o mundo se inclinou quando ela firmou o equilíbrio. A queda para o chão a centenas de metros fez seu estômago revirar, mas ela manteve os olhos sobre o príncipe até mesmo quando a agonia ondulou abaixo de seu corpo novamente. — Chaol. Você se sacrificou. Deixou que colocassem o colar em você para que ele pudesse fugir.
— Eu vou deixá-lo colocar um colar em você, e então nós poderemos jogar.
Ela chegou à porta da torre, procurando freneticamente trinco. Mas estava atrás do gelo. Ela arranhou a cobertura sólida, olhando entre o príncipe e o sol que tinha começado a espreitar ao lado da torre.
Dorian estava a dez passos de distância.
Ela girou de volta.
— Sorscha, o nome dela era Sorscha, e ela o amava. Você a amava. E eles a levaram para longe de você.
Cinco passos.
Não havia nada de humano naquele rosto, nenhum lampejo de memória naqueles olhos de safira.
Aelin começou a chorar, mesmo quando o sangue vazou de seu nariz por sua proximidade.
— Eu voltei por você. Assim como prometi.
Uma adaga de gelo apareceu na mão dele, sua ponta brilhando letal como uma estrela na luz do sol.
— Eu não me importo — Dorian disse.
Ela ergueu a mão entre eles, como se pudesse afastá-lo, agarrando uma de suas mãos com força. A pele dele era tão fria quando ele usou a outra mão para mergulhar a faca em suas costelas.



O sangue de Rowan pulverizava a partir de sua boca quanto a criatura se chocou contra ele, derrubando-o no chão.
Quatro estavam mortos, mas três permaneceram entre ele e o detonador.
Aedion gritou de dor e fúria, mantendo-se firme, deixando os outros três afastados enquanto Rowan girava sua lâmina...
A criatura voltou para trás, fora de alcance.
As três bestas convergiram novamente, selvagens com o sangue feérico que agora encharcava a passagem. O sangue dele. De Aedion. O rosto do general já estava pálido pela sua perda. Eles não aguentariam por muito mais tempo.
Mas ele tinha que derrubar aquela torre.
Como se se fossem apenas uma mente, um corpo, os três cães de caça de Wyrd se lançaram, dirigindo-se para ele e Aedion, um pulando para o general, outros dois atacando-o...
Rowan foi ao chão quando mandíbulas de pedra se fecharam em sua perna.
Osso estalou, e escuridão o envolveu...
Ele rugiu contra a escuridão que significava a morte.
Rowan enfiou a faca de combate no olho da criatura, cavando fundo, assim quando a segunda besta se equilibrou sobre seu braço estendido.
Mas algo maciço acertou a criatura, e ela gritou quando foi atirada contra a parede. A que estava morta foi lançada para longe um batimento cardíaco mais tarde, e então...
E então havia Lorcan, espadas em movimento, um grito de guerra em seus lábios enquanto ele rasgava as criaturas restantes.
Rowan berrou contra a agonia em sua perna quando ficou de pé, equilibrando o seu peso.
Aedion já estava de pé, o rosto cheio de sangue, mas os olhos limpos.
Uma das criaturas se lançou para Aedion, e Rowan arremessou a adaga de combate – forte e fiel, direto em sua boca escancarada. O cão de caça de Wyrd caiu no chão a menos de quinze centímetros do pé do general.
Lorcan era um turbilhão de aço, sua fúria incomparável. Rowan sacou a outra adaga, preparando-se para atirá-la...
No mesmo momento que Lorcan enfiou sua espada no crânio da criatura.
Silêncio – silêncio absoluto no túnel ensanguentado.
Aedion se mexeu, mancando e balançando, para o estopim a vinte passos de distância. Ele ainda estava ligado aos fios.
— Agora — Rowan rosnou.
Ele não se importava se não conseguissem sair. Por tudo o que eles sabiam...
O fantasma de uma dor atingiu suas costelas, brutalmente violenta e nauseante.
Seus joelhos se dobraram. Não era a dor de uma ferida sua, mas de outra pessoa.
Não.
Não, não, não, não, não.
Ele poderia ter gritado, poderia ter rugido enquanto corria para o túnel que o levaria à saída – quando sentiu a agonia, o toque de frio.
As coisas tinham dado muito, muito errado.
Ele deu mais um passo antes de sua perna ceder, e foi só essa ligação invisível, esticando e desgastando, que o manteve consciente. Um corpo duro e encharcado de sangue bateu no seu, um braço passou ao redor de sua cintura, puxando-o para cima.
— Corra, seu estúpido idiota — Lorcan assobiou, rebocando-o além do fusível.
Aedion estava agachado sobre o fio, as mãos sangrentas firmes quando pegou a pedra e golpeou.
Uma vez. Duas vezes.
Em seguida, uma faísca, e uma chama que saiu rugindo para a escuridão.
Eles correram como o inferno.
— Rápido — disse Lorcan e Aedion foi até eles, erguendo o outro braço de Rowan e acrescentando à sua força e velocidade.
Correndo pelo túnel. Passando pelos portões de ferro quebrados, para os esgotos.
Não havia tempo e espaço suficiente entre eles e a torre.
E Aelin...
O vínculo esticou e afinou, estilhaçando. Não
Aelin...
Eles ouviram antes de sentir.
A total falta de som, como se o mundo tivesse parado. Seguido por um estrondo de rachaduras.
— Movam-se — disse Lorcan, uma ordem rosnada que Rowan obedeceu cegamente tal como fazia há séculos.
Em seguida o vento – vento seco, queimando e esfolando sua pele. E então, um flash de luz ofuscante.
Veio o calor, tão quente que Lorcan praguejou, empurrando-os em uma alcova. Os túneis balançaram; o mundo tremeu. O teto desabou.
Quando a poeira e detritos baixaram, quando o corpo de Rowan estava cantando com dor e alegria e poder, o caminho para o castelo estava bloqueado. E por trás deles, estendendo-se para a escuridão dos esgotos, estavam cem comandantes valg e soldados a pé, armados e sorrindo.



Fedendo ao reino de Hellas com sangue valg, Manon e Asterin estavam subindo até o continente, de volta à Morath, quando...
Um vento suave, um tremor no mundo, um silêncio.
Asterin emitiu um grito, a cela da serpente alada esticando como se as rédeas tivessem sido arrancadas. Abraxos soltou um rugido, mas Manon apenas olhou para baixo na terra, onde as aves voavam no brilho que parecia vir do passado...
Na magia que agora percorria o mundo, livre.
Escuridão a abraçou. Magia.
O que quer que tivesse acontecido, que a libertara, Manon não se importava.
Aquele peso mortal, humano desapareceu. Força a percorreu, revestindo seus ossos como uma armadura. Invencível, imortal, imparável.
Manon inclinou a cabeça para trás para o céu, abriu os braços, e rugiu.



A Fortaleza estava um caos. As bruxas e os seres humanos corriam, gritavam.
Magia.
A magia estava livre. Não era possível.
Mas ela podia sentir, mesmo com o colar em volta do pescoço e aquela cicatriz em seu braço.
Algum grande animal liberto dentro dela. A besta que cuspia fogo de sombras.



Aelin se arrastou para longe da porta manchada com seu sangue, para longe do príncipe valg que riu quando ela apertou sua lateral e avançou através da ponte, o seu sangue um rastro atrás dela.
O sol ainda rastejava em torno da torre.
— Dorian — ela chamou, com as pernas empurrando contra o vidro, o sangue pingando por entre os dedos congelando, aquecendo-os. — Lembre-se.
O príncipe valg a seguiu, dando um leve sorriso quando ela desabou para frente no centro da ponte. As torres sombrias do castelo de vidro surgiram em torno dela – um túmulo. Seu túmulo.
— Dorian, lembre-se — ela pediu, ofegante.
Ele tinha perdido seu coração, totalmente.
— Ele disse para eu capturá-la, mas talvez eu tenha a minha diversão em primeiro lugar.
Duas facas apareceu em suas mãos, curvas e maléficas. O sol começou a brilhar acima da torre.
— Lembre-se de Chaol — ela implorou. — Lembre-se de Sorscha. Lembre-se de mim.
Um estrondo sacudiu o castelo de algum lugar do outro lado do edifício.
E, em seguida, um grande vento, um vento suave, um vento adorável, como se a canção do coração do mundo estivesse soando dele.
Ela fechou os olhos por um momento e apertou a mão em sua lateral, respirando.
— Nós temos que voltar — disse Aelin, apertando sua mão cada vez mais forte na ferida até que o sangue parou, até que fossem apenas suas lágrimas que corriam. — Dorian, você tem que voltar desta perda... dessa escuridão... Tem que voltar, eu voltei por você.
Ela chorava agora, chorando quando o vento desapareceu e sua ferida finalmente fechou.
Os punhais do príncipe tinham se afrouxado em suas mãos. E no dedo dele, o anel de ouro de Athril brilhava.
— Lute — ela ofegou. O sol se aproximou mais um pouco. — Lute contra isso. Temos que voltar.
Mais e mais brilhante, o anel de ouro pulsava em seu dedo.
O príncipe recuou um passo, com o rosto torcido.
— Sua verme humana.
Ele estivera ocupado demais esfaqueando-a para notar o anel que ela escorregou em seu dedo quando agarrou sua mão como se para empurrá-lo.
— Tire-o — ele rosnou, tentando tocá-lo e assobiando como se fosse queimado. — Tire!
Gelo cresceu, se espalhando na direção dela, rápido como os raios de sol que agora surgia entre as torres, refratando através de cada ponte e cada parapeito de vidro, preenchendo o castelo com a luz gloriosa de Mala portadora do Fogo.
A ponte – a ponte que ela e Chaol tinham escolhido para este fim, um momento no ápice do solstício, bem no meio de tudo.
A luz chegou até ela, e encheu seu coração com a força de uma estrela em supernova.
Com um rugido, o príncipe valg enviou uma onda de gelo para ela, lanças e adagas destinadas ao seu peito.
Então Aelin ergueu as mãos para o príncipe, na direção de seu amigo, e lançou sua magia com tudo o que tinha.

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