29 de fevereiro de 2016

Capítulo 70

Este lugar cheirava a morte, como o inferno, como os espaços escuros entre as estrelas.
Séculos de treinamento mantinham os passos de Rowan leves, o manteve focado no peso letal que carregava enquanto ele e o general seguiam através da passagem seca e antiga.
O caminho de pedra era marcado por garras brutais, o espaço tão escuro que os olhos, até mesmo os de Rowan, falhavam. O general parou logo atrás, não fazendo nenhum som exceto pelo deslizar de um seixo ocasional debaixo de suas botas.
Aelin estaria no castelo agora, o capitão a reboque como seu passe para a sala do trono.
Apenas alguns minutos mais, se tivessem calculado direito, e então eles poderiam inflamar sua carga mortal e saírem.
Minutos depois ele estaria ao lado dela, repleto de magia que usaria para sufocar o ar para fora dos pulmões do rei. E então gostaria de ver como ela o queimaria vivo. Devagar.
Embora soubesse que a sua satisfação nada seria em comparação ao que o general sentiria. A que cada filho de Terrasen sentiria.
Eles atravessaram uma porta de ferro sólido que estava escancarada como se enormes mãos com garras a tivessem arrancado de suas dobradiças. O corredor além era de pedra lisa.
Aedion ofegou no mesmo momento o soco atingiu o cérebro de Rowan, bem entre os olhos.
Pedras de Wyrd.
Aelin o avisara da torre – que a pedra lhe dera uma dor de cabeça, mas isto...
Ela estivera em seu corpo humano, então.
Era insuportável, como se seu próprio sangue recuasse com a sensação errada da pedra.
Aedion praguejou, e Rowan o ecoou.
Mas havia uma grande lasca na parede de pedra à frente, e ar livre além dela. Não se atrevendo a respirar muito alto, Rowan e Aedion espreitaram pela fresta.
Uma grande câmara redonda os saudou, ladeada por oito portas de ferro abertas. A parte inferior da torre do relógio, se os seus cálculos estivessem corretos.
A escuridão da câmara era quase impenetrável, mas Rowan não se atreveu a acender a tocha que trouxera com eles. Aedion fungou, um som molhado. Molhado, porque...
Sangue escorria pelo lábio e queixo de Rowan. Hemorragia nasal.
— Depressa — ele sussurrou, pousando seu recipiente na extremidade oposta da câmara. Só mais alguns minutos.
Aedion postou seu tonel de fogo infernal em frente ao Rowan de na entrada da câmara. Rowan ajoelhou-se, sua cabeça doendo cada vez mais a cada pulsar.
Ele continuou se movendo, empurrando a dor para baixo enquanto conectava o fio do estopim e o levou para onde Aedion estava agachado. O gotejamento de suas hemorragias nasais no chão de pedra negra era o único som.
— Mais rápido — Rowan ordenou, e Aedion rosnou suavemente, não estando mais disposto a ficar irritado com avisos como distração. Ele não sentia como se dizer ao general o que fazer ajudaria como minutos atrás.
Rowan desembainhou sua espada, retornando para a porta por onde haviam entrado. Aedion o seguiu, desenrolando os fios unidos enquanto isso. Eles tinham que estar longe o suficiente antes que de acendê-lo, ou então se transformariam em cinzas.
Ele enviou uma oração silenciosa a Mala – para que Aelin conseguisse aguardar a hora e que o rei estivesse focado demais na assassina e no capitão para considerar enviar qualquer um ali embaixo.
Aedion chegou até ele, desenrolando centímetro após centímetro do estopim, o fio uma faixa branca através da escuridão.
A outra narina de Rowan começou a sangrar.
Deuses, o cheiro daquele lugar. A morte, fedor e miséria. Ele mal podia pensar. Era como ter sua cabeça girando como um pião.
Eles se retiraram para dentro do túnel, que se fundia na sua única esperança e salvação.
Algo pingou sobre seu ombro. A primeira gota vindo de orelha. Ele a limpou com a mão livre. Mas não era sangue em sua capa.
Rowan e Aedion ficaram rígidos quando um rosnado baixo encheu a passagem.
Algo se moveu no teto, então.
Sete algos.
Aedion jogou o carretel de lado e desembainhou a espada.
Um pedaço de tecido – cinze, pequeno e desgastado caiu da boca da criatura agarrando-se ao teto de pedra. O pedaço que faltava de seu manto.
Lorcan havia mentido.
Ele não matara o restante dos cães de caça. apenas deu-lhes o cheiro de Rowan.



Aelin Ashryver Galathynius enfrentou o rei de Adarlan.
— Celaena, Lillian, Aelin — ela falou lentamente. — Eu particularmente não me importo como você chama.
Nenhum dos guardas atrás deles se agitou.
Ela podia sentir os olhos de Chaol nela, sentir a atenção implacável do príncipe valg dentro de Dorian.
— Será que você pensa — o re falou, sorrindo como um lobo — que eu não podia ver dentro da mente do meu filho e perguntar o que ele sabia, o que viu no dia do resgate de seu primo?
Ela não sabia, e certamente não planejara se revelar desta forma.
— Estou surpresa que tenha demorado tanto para perceber quem deixou entrar pela porta da frente. Honestamente, estou um pouco decepcionada.
— Então o seu povo pode dizer o mesmo de você. Como foi, princesa, ir para a cama com o meu filho? O seu inimigo mortal? — Dorian não fez mais que piscar. — Terminou com ele por causa da culpa, ou porque ganhou uma posição no meu castelo e não precisava mais dele?
— É preocupação paterna que estou detectando?
Uma risada baixa.
— Por que o capitão não para de fingir que está preso nessas algemas e se aproxima?
Chaol endureceu. Mas Aelin deu-lhe um aceno sutil.
O rei não se incomodou em olhar para os guardas quando disse:
— Saiam.
Como um, os guardas os deixaram, fechando a porta atrás deles. O vidro pesado gemeu ao fechar, fazendo o chão tremer. Os grilhões de Chaol caíram, e ele flexionou os pulsos.
— Essa imundice traidora, habitando minha própria casa. E pensar que uma vez eu a tive em correntes, tão perto da execução, e não tinha ideia do prêmio que condenei a Endovier. A rainha de Terrasen, escrava e minha campeã — o rei abriu seu punho para olhar para os dois anéis em sua palma. Atirou-os de lado. Eles saltaram sobre o mármore vermelho, tilintando fracamente. — Pena que não tenha suas chamas agora, Aelin Galathynius.
Aelin puxou o pano do punho da espada de seu pai e desembainhou a espada de Orynth.
— Onde estão as chaves de Wyrd?
— Pelo menos você é direta. Mas o que fará comigo, herdeira de Terrasen, se eu não responder? — ele gesticulou para Dorian, e o príncipe desceu os degraus do estrado, parando na parte inferior.
Tempo – ela precisava de tempo. A torre não estava destruída ainda.
— Dorian — Chaol chamou suavemente.
O príncipe não respondeu.
O rei riu.
— Não vai correr hoje, capitão?
Chaol nivelou seu olhar com o rei e desembainhou Damaris – presente de Aelin para ele.
O rei bateu com um dedo contra o braço de seu trono.
— O que os nobres de Terrasen dirão se souberem que Aelin do Fogo Selvagem teve uma história tão sangrenta? Se descobrirem que ela matou a meu serviço? Que esperança poderia lhes dar saber que mesmo a sua princesa há muito perdida foi corrompida?
— Você certamente gosta de se ouvir falar, não é?
O dedo do rei acalmou no trono.
— Vou admitir que não sei como não vi. Você é a mesma criança mimada que desfilava em seu castelo. E aqui estava eu, pensando que a tinha ajudado. Vi sua mente certa vez, Aelin Galathynius. Você amava seu lar e seu reino, mas tinha esse desejo de ser comum, de ser livre de sua coroa, mesmo assim. Mudou de ideia? Eu ofereci-lhe a liberdade em uma bandeja dez anos atrás, e ainda assim você acabou escrava de qualquer maneira. Engraçado.
Tempo, tempo, tempo. Deixe-o falar...
— Você tinha o elemento surpresa então — disse Aelin. — Mas agora nós sabemos o poder que controla.
— E você? Sabe o custo das chaves? O que se torna ao usar uma?
Ela apertou sua mão sobre a Espada de Orynth.
— Gostaria de um contra um comigo, Aelin Galathynius? Para ver se os feitiços que aprendeu, os livros que roubou de mim, são páreos? Pequenos truques, princesa, em comparação com o poder bruto das chaves.
— Dorian — Chaol chamou novamente.
O príncipe permaneceu concentrado nela, um sorriso faminto exibido agpra aqueles lábios sensuais.
— Deixe-me demonstrar — disse o rei.
Aelin preparou-se, seu estômago apertado.
Ele apontou para Dorian.
— Ajoelhe-se.
O príncipe caiu de joelhos. Ela escondeu o estremecimento do impacto do osso em mármore. As sobrancelhas do rei franziram. A escuridão começou a se erguer, partindo do rei como relâmpagos bifurcando-se.
— Não — Chaol engasgou, dando um passo à frente.
Aelin agarrou o capitão pelo braço antes que ele pudesse fazer algo incrivelmente estúpido.
Um tentáculo de escuridão acertou as costas de Dorian e ele arqueou, gemendo.
— Penso que você sabe mais, Aelin Galathynius — disse o rei, o negrume bastante familiar crescendo. — Coisas que talvez apenas a herdeira de Brannon Galathynius poderia saber.
A terceira chave de Wyrd.
— Você não ousaria — disse Aelin.
O pescoço do príncipe estava tenso enquanto ele ofegava, a escuridão o chicoteando.
Uma vez, duas vezes. Chibatadas.
Ela conhecia a dor.
— Ele é seu filho, seu herdeiro.
— Você esquece, princesa — falou o rei — que tenho dois filhos.
Dorian gritava quando outro chicote das trevas cortava suas costas. Relâmpago preto cruzava seus dentes expostos.
Ela atacou – e foi jogada para trás pelas próprias marcas que desenhara em seu corpo. Uma parede invisível de dor negra erguida em torno de Dorian agora, e seus gritos não tinham fim.
Como uma besta arrebentando a coleira, Chaol atirou-se contra ela, rugindo o nome de Dorian, o sangue escorrendo pelo punho de sua jaqueta a cada tentativa.
Mais uma vez. E mais uma. E mais uma.
Dorian soluçava, a escuridão saindo de sua boca, acorrentando suas mãos, marcando em sua volta, seu pescoço...
Em seguida, ela desapareceu.
O príncipe caiu no chão, o peito arfante. Chaol interrompeu, sua respiração irregular, o rosto exausto.
— Levante-se — ordenou o rei.
Dorian ficou de pé, o colar preto reluzente enquanto seu peito arfava.
— Delicioso — a coisa dentro do príncipe disse.
Bile queimou a garganta de Aelin.
— Por favor — pediu Chaol com voz rouca ao rei, e seu coração rachou com as palavras, pela agonia e desespero. — Liberte-o. Dê o seu preço. Eu lhe darei qualquer coisa.
— Gostaria de entregar a sua ex-amante, capitão? Não vejo nenhum uso em perder uma arma se não ganhar outra em troca — o rei acenou com a mão na direção dela. — Você destruiu o meu general e três dos meus príncipes. Penso de alguns outros valg que estão se doendo para colocar as garras em você para... que aproveitariam a chance de deslizar em seu corpo. Seria bem justo.
Aelin ousou um olhar para a janela. O sol subiu mais alto.
— Você entrou na casa da minha família e os assassinou enquanto dormiam — Aelin devolveu. O relógio de carrilhão começou a soar as doze batidas. Um segundo depois, o miserável relógio da torre retiniu lá fora. — É justo — ela respondeu ao rei quando recuou um passo em direção às portas — que eu o destrua em troca.
Ela puxou o olho de Elena debaixo de sua camisa. A pedra azul brilhava como uma pequena estrela.
Nada além de uma proteção contra o mal.
Mas uma chave à sua própria forma, que poderia ser usada para desbloquear a sepultura de Erawan.
Os olhos do rei se arregalaram ligeiramente e ele se levantou de seu trono.
— Você acabou de cometer o erro de sua vida, garota.
Ele podia ter um ponto.
Os sinos do meio-dia tocavam.
No entanto, a torre do relógio parou.

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