6 de fevereiro de 2016

Capítulo 6

Yrene fez como disse a jovem, colocando outro vestido e avental antes de ir para a cozinha limpar o sangue das roupas. As mãos estavam tão trêmulas que levou mais tempo do que deveria para lavá-las, e, quando terminou, a luz pálida do alvorecer já se esgueirava pela janela da cozinha.
Precisava acordar... bem, agora. Resmungando, a moça arrastou os pés até o quarto para pendurar as roupas molhadas. Se alguém visse as vestimentas em um varal, pareceria suspeito.
Yrene imaginou que precisaria fingir que havia encontrado os corpos também. Pelos deuses, que confusão.
Retesando o corpo ao pensar no longo dia diante de si, tentando entender a noite que acabara de ter, entrou no quarto e fechou a porta suavemente. Mesmo que contasse a alguém, provavelmente não acreditariam.
Somente quando terminou de pendurar as roupas nos ganchos embutidos na parede, reparou na bolsinha de couro sobre a cama e no bilhete preso sob o objeto.
Yrene sabia o que havia dentro, poderia adivinhar com facilidade, considerando as saliências e as pontas. A atendente perdeu o fôlego ao pegar o bilhete.
Ali, em caligrafia elegante e feminina, a jovem havia escrito:

Para onde precisar ir – e mais um pouco. O mundo precisa de mais curandeiros.

Sem nome, sem data. Enquanto encarava o papel, quase conseguia visualizar o sorriso selvagem e a audácia nos olhos da jovem. Aquele bilhete, se significava alguma coisa, era um desafio... uma aposta.
Com as mãos trêmulas novamente, Yrene despejou o conteúdo da bolsa.
A pilha de moedas de ouro reluziu, e a moça cambaleou para trás, desabando na cadeira bamba diante da cama. Piscou uma vez, então de novo.
Não apenas ouro, mas também o broche que a garota estava usando, o enorme rubi incandescente à luz da vela.
Com a mão na boca, Yrene encarou a porta, o teto, então voltou os olhos para a pequena fortuna sobre a cama. Encarou e encarou e encarou.
Os deuses haviam sumido, alegara a mãe dela certa vez. Mas haviam mesmo? Será que fora alguma deusa que a visitara naquela noite, disfarçada na pele de uma jovem castigada? Ou foram meramente os sussurros distantes que haviam impelido a estranha a entrar naquele beco? Jamais saberia, supunha Yrene. E talvez esse fosse o objetivo.
Para onde precisar ir...
Deuses ou destino ou apenas coincidência e gentileza, era um presente. Aquilo era um presente. O mundo estava esperando – escancarado e dela para que o tomasse. Poderia ir para Antica, frequentar Torre Cesme, ir para onde desejasse.
Se ousasse.
Ela sorriu.
Uma hora depois, ninguém impediu Yrene Towers quando saiu da Porco Branco e jamais olhou para trás.



Limpa e vestida em uma nova túnica, Celaena entrou no navio uma hora antes do amanhecer.
Sentia-se oca e zonza depois de uma noite sem descanso, mas a culpa era de si mesma. Não importava – poderia dormir naquele dia – poderia dormir a viagem toda pelo golfo de Oro até a Terra Desértica. Deveria dormir porque, depois de aportar em Yurpa, teria uma caminhada através de areias impiedosas e mortais: uma semana, pelo menos, pelo deserto antes de chegar ao Mestre Mudo e à fortaleza dos Assassinos Silenciosos.
O capitão não fez perguntas quando Celaena colocou uma moeda de prata na palma da mão do homem e desceu, seguindo as orientações, até encontrar o camarote. Com o capuz e as lâminas, nenhum dos marinheiros a incomodaria. E embora agora precisasse tomar cuidado com o dinheiro que havia restado, sabia que entregaria uma ou duas moedas de prata antes do fim da viagem.
Suspirando, entrou na cabine, pequena, mas limpa, com uma janela que dava para a baía cinza-alvorada. Ela trancou a porta atrás de si e desabou na minúscula cama. Vira o bastante de Innish; não precisava se incomodar em observar o navio zarpando.
Estava saindo da estalagem quando passou por aquele armário terrivelmente pequeno que Yrene chamava de quarto. Enquanto a menina cuidava de seu braço, Celaena ficara assombrada com as condições entulhadas, a mobília aos pedaços, os cobertores finos demais. Planejara deixar algumas moedas para Yrene de qualquer forma – no mínimo porque tinha certeza de que o estalajadeiro a obrigaria a pagar por aquelas ataduras.
Mas ficou diante daquela porta de madeira que dava para o quarto, ouvindo a atendente lavar as roupas na cozinha próxima. Percebeu que era incapaz de dar as costas, de parar de pensar na aspirante a curandeira com os cabelos castanho-dourados e os olhos caramelo, no que Yrene perdera e como se tornara indefesa. Havia tantas delas agora... crianças que perderam tudo para Adarlan. Crianças que haviam crescido e se tornado assassinas e atendentes de bar, sem um lugar para chamar verdadeiramente de lar, com os reinos de origem deixados em ruínas e cinzas.
A magia tinha sumido havia tantos anos. E os deuses estavam mortos ou simplesmente não se importavam mais. No entanto, ali, bem no fundo do estômago, havia um puxão leve, mas insistente. Um puxão no fio de alguma teia invisível. Então Celaena decidiu puxar de volta, apenas para ver a distância e a amplitude das reverberações.
Em apenas minutos, escreveu o bilhete, então enfiou a maioria das moedas de ouro na bolsa.
Um segundo depois, apoiou o objeto na cama esfarrapada.
Celaena acrescentara o broche de rubi de Arobynn como uma última ideia. Questionou se uma jovem da fustigada terra de Charco Lavrado não se incomodaria em ter um broche nas cores reais de Adarlan. Contudo, a jovem estava feliz por se livrar da joia e esperava que Yrene penhorasse o broche pela pequena fortuna que valia. Esperava que a joia de uma assassina pagasse pela educação de uma curandeira.
Então talvez fossem os deuses em ação. Talvez fosse alguma força além delas, além da compreensão mortal. Ou talvez fosse apenas por algo e alguém que Celaena jamais seria. Yrene ainda lavava as roupas ensanguentadas na cozinha quando a assassina saiu do quarto, desceu o corredor e deixou a Porco Branco para trás.
Ao caminhar pelas ruas cobertas por neblina na direção do cais decrépito, Celaena rezou para que Yrene Towers não fosse tola o bastante para contar a alguém – principalmente ao estalajadeiro – sobre o dinheiro. Rezou para que Yrene Towers agarrasse a vida com as duas mãos e zarpasse para a cidade de pedras brancas de Antica. Rezou para que, de alguma forma, anos à frente, Yrene Towers voltasse àquele continente e talvez, apenas talvez, curasse um pouquinho o mundo despedaçado delas.
Sorrindo consigo mesma no confinamento da cabine, Celaena se aninhou na cama, puxou o capuz sobre os olhos e cruzou as pernas. Quando o navio zarpou pelo golfo verde-jade, a assassina estava em sono profundo.

2 comentários:

  1. Amei essa história!
    Ela se faz de má. Mais tem compaixão pelos iguais a ela.

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  2. Ela é uma boa pessoa... Ela entende o sofrimento do povo...

    Ass:Shay Santos

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