29 de fevereiro de 2016

Capítulo 68

A carruagem de Lysandra serpenteava pelas ruas da cidade embalada. Cada quarteirão levava três vezes mais tempo que o de costume para ser percorrido graças à multidão que fluía para os mercados e praças para celebrar o solstício. Nenhum deles estava ciente do que acontecia, ou porque ela atravessava a cidade.
As palmas das mãos de Lysandra suavam dentro de suas luvas de seda. Evangeline, sonolenta com o calor da manhã, cochilava levemente, a cabeça apoiada no ombro de Lysandra.
Elas deveriam ter ido embora durante a noite, mas...
Foliões vestidos com roupas alegres entraram na frente da carruagem, e o condutor gritou para abrirem caminho.
Todos o ignoraram.
Deuses, se Aelin queria uma plateia, ela escolheu o dia perfeito para isso.
Lysandra olhou para fora da janela quando eles pararam em um cruzamento. A rua oferecia uma visão clara do castelo de vidro, cegante ao sol do meio da manhã, suas torres erguidas como lanças que perfuravam o céu sem nuvens.
— Já chegamos? — Evangeline murmurou.
Lysandra acariciou o braço dela.
— Mais um pouco ainda, querida.
E ela começou a orar – orar para Mala Portadora do Fogo, cujo feriado amanhecera tão brilhante e claro, e à Temis, que nunca esquecia dos enjaulados deste mundo.
Mas ela já não estava em uma gaiola. Por Evangeline, ela poderia permanecer nesta carruagem, e poderia deixar esta cidade. Mesmo que isso significasse deixar seus amigos para trás.



Aedion rangeu os dentes contra o peso que segurava tão delicadamente entre suas mãos. Aquela seria uma longa e maldita caminhada para o castelo. Especialmente quando tinham que liberar as vias transponíveis e tomar cuidado com os pedaços de pedra desmoronando que tornavam até mesmo o seu equilíbrio feérico instável.
Mas esta era a rota que os cães de caça de Wyrd seguiam. Mesmo que Aelin e Nesryn não tivessem fornecido um caminho detalhado, o mau cheiro persistente os teria conduzido.
— Cuidado — Rowan disse por cima do ombro quando o recipiente que ele carregava mais alto e em torno de um pedaço solto de rocha. Aedion conteve sua réplica para a medida óbvia. Mas ele não podia culpar o príncipe. Um tombo, e eles arriscariam que as diversas substâncias se misturassem.
Há poucos dias, não confiando na qualidade do produto do mercado negro, Chaol e Aedion encontraram um celeiro abandonado fora da cidade para testar apenas um décimo da urna que eles agora transportavam.
Funcionara muito bem. Quando correram de volta para Forte da Fenda diante dos olhos curiosos que poderiam vê-los, a fumaça podia ser vista à quilômetros.
Aedion estremeceu ao pensar sobre o que um recipiente deste tamanho – e dois deles, então – poderia fazer se eles não tomassem cuidado.
Todavia com o tempo que eles levariam para montar os mecanismos desencadeantes, acender o pavio e correr a enorme distância para longe... bom, Aedion esperava que ele e Rowan fossem rápidos o suficiente.
Entraram num túnel de esgoto tão escuro que até mesmo os seus olhos demoraram um momento para se ajustar. Rowan apenas seguiu em frente. Eles tiveram sorte que Lorcan tivesse matado aqueles cães de caça de Wyrd e liberado o caminho. Sorte que Aelin tivesse sido implacável e inteligente o bastante para enganar Lorcan a fazer o trabalho por eles.
Ele não parou para considerar o que poderia acontecer se essa implacabilidade e esperteza falhasse com ela hoje.
Eles fizeram outra curva, o fedor agora sufocante. A fungada afiada de Rowan foi o único sinal de seu desgosto mútuo. O portão.
Os portões de ferro estavam em frangalhos, mas Aedion ainda conseguia distinguir as marcações gravadas nelas.
Marcas de Wyrd. Antigas, também. Talvez esse outrora fora o caminho que Gavin usara para visitar o templo do Comedor de Pecados sem ser visto.
O fedor de outro mundo das criaturas empurrava e puxava os sentidos de Aedion, e ele fez uma pausa, perscrutando a escuridão do túnel que se aproximava.
Ali a água terminava. Passado os portões, um caminho quebrado e de rocha que parecia mais antigo do que qualquer outro que eles tivessem passado na escuridão impenetrável.
— Cuidado onde pisa — recomendou Rowan, observando o túnel. — É tudo pedra solta e detritos.
— Posso ver tão bem quanto você — disse Aedion, incapaz de parar a réplica desta vez.
Ele girou o ombro, a manga de sua túnica deslizando até revelar a marca de Wyrd que Aelin os instruíra a pintar com seu próprio sangue no peito, braços e pernas.
— Vamos — foi a única resposta de Rowan quando ele puxou sua urna para cima como se não pesasse nada.
Aedion cogitou dar-lhe uma resposta afiada, mas... talvez fosse por isso que o príncipe guerreiro continuava dando-lhe advertências estúpidas. Para irritá-lo o suficiente e distraí-lo, e talvez ao próprio Rowan, do que acontecia acima deles. O que eles levavam entre eles.
Os antigos costumes – de proteger sua rainha e seu reino, mas também os outros.
Droga, era quase o suficiente para fazê-lo querer abraçar o bastardo. Então Aedion seguiu Rowan através dos portões de ferro. E para as catacumbas do castelo.



As correntes de Chaol rangiam, as algemas já esfolando a pele crua quando Aelin o arrastou pela rua lotada, um punhal prestes a afundar em sua lateral. Um quarteirão até chegarem à cerca de ferro que rodeava a colina inclinada em que o castelo de vidro empoleirava-se.
Multidões passavam, não percebendo o homem acorrentado no meio deles ou a mulher de manto negro que o arrastava o mais e mais próximo do castelo de vidro.
— Você se lembra do plano? — Aelin murmurou, mantendo a cabeça baixa e a adaga pressionada contra suas costelas.
— Sim — ele sussurrou. Foi a única palavra que conseguiu dizer.
Dorian ainda estava lá – ainda aguentando. Isso mudava tudo. E nada.
A multidão silenciava perto da cerca, como se cautelosos com os guardas de uniforme preto que certamente acompanhavam sua entrada. O primeiro obstáculo que teriam que enfrentar.
Aelin endureceu quase imperceptivelmente e parou tão de repente que Chaol quase trombou nela.
— Chaol...
A multidão se moveu, e ele viu o muro do castelo.
Havia cadáveres pendurados nas grades de ferro forjados imponentes.
Cadáveres em uniformes vermelho e dourado.
— Chaol...
Ele já estava se movendo, e ela praguejou e caminhou com ele, fingindo levá-lo pelas correntes, mantendo a adaga contra suas costelas.
Ele não sabia como não ouvira os corvos grasnando enquanto bicavam a carne morta presa ao longo de cada poste de ferro. Com a multidão, ele não pensara em notar. Ou talvez tivesse apenas concluído que eles grasnavam em todos os cantos da cidade.
Seus homens.
Dezesseis deles. Seus companheiros mais próximos, seus guardas mais leais.
O primeiro tinha a gola do uniforme desabotoado, revelando um peito cruzado com vergões, cortes e marcas.
Ress.
Há quanto tempo o torturaram – torturaram todos os homens? Desde o resgate de Aedion?
Ele atormentou a sua mente para pensar na última vez que entraram em contato. Supôs que a dificuldade fosse porque eles estavam com dificuldades. Não porque... porque eram sendo...
Chaol notou o homem pendurado ao lado Ress.
Os olhos de Brullo tinham ido embora, fosse por causa da tortura ou dos corvos. Suas mãos estavam inchadas e torcidas – parte de sua orelha faltava.
Chaol não tinha sons em sua cabeça, nenhum sentimento em seu corpo.
Era uma mensagem, mas não para Aelin Galathynius ou Aedion Ashryver. A culpa dele. Dele.
Ele e Aelin não falaram enquanto se aproximavam dos portões de ferro, a morte desses homens remanescente sobre eles.
Cada passo era um esforço. Cada passo era rápido demais.
Culpa dele.
— Eu sinto muito — Aelin murmurou, empurrando-o para mais perto dos portões, onde os guardas uniformizados de negro estavam de fato monitorando cada rosto que passava na rua.— Eu sinto muito...
— O plano — ele disse, com a voz trêmula. — Nós o mudamos. Agora.
— Chaol...
Ele lhe disse o que precisava fazer. Quando terminou, ela enxugou as lágrimas quando agarrou sua mão e falou:
— Eu vou fazer valer a pena.
As lágrimas tinham desaparecido no momento em que eles se separaram da multidão, nada entre eles e aqueles portões familiares, apenas paralelepípedos vazios.
Casa – aquela tinha sido sua casa.
Ele não reconheceu os guardas de pé sob o relógio, nas portas que antes ele protegera com tanto orgulho, os portões por onde havia cavalgado há menos de um ano com uma assassina recém-libertada de Endovier, suas correntes amarradas à sela.
Agora, ela o levava em correntes através desses portões, uma assassina uma última vez.
Sua caminhada adquiriu um ar de superioridade, e ela se moveu com facilidade fluída em direção aos guardas que sacaram suas espadas, os anéis pretos devorando a luz do sol.
Celaena Sardothien parou a uma distância saudável e ergueu o queixo.
— Digam a Sua Majestade que a sua campeã voltou – e ela lhe trouxe o inferno de um prêmio.

8 comentários:

  1. Laura do Bom Senso 42 #Zueira2 de março de 2016 18:31

    cara, vai dar treta, sabe como eu sei disso? Primeiro: pq ela sempre arranja treta, ela consegue arranjar treta até com uma parede, Segundo: eu sou psíquica e meus sentidos psíquicos me dizem que ... https://www.youtube.com/watch?v=g6kmlpNH_nI

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  2. To com a impressão que esse rei só ta jogando com eles e principalmente com ela,acho que ele ja sabe sobre ela

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  3. eu acho q o rei sabia todo tempo e se n sabia descobrio quando ela foi para terrasem e tipo quando ela se apresenta vai dar merda pq o rei ja vai ta sabendo

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  4. Aneinn,o Ress e o Brullo morrem.No final desse livro não vai sobrar ninguém desse jeito.

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  5. Bem que ela disse que ia entrar pelo portão da frente! Ela é demais! Kkkkkkk. ...

    Flavia

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  6. Ela é muito corajosa! Merece os meus parabéns!👏👏👏👏

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  7. Ress e Brullo... tá virando GoT

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