29 de fevereiro de 2016

Capítulo 64

Rowan mal se lembrava da viagem angustiante de volta para Forte da Fenda. No momento em que atravessaram as muralhas da cidade e os becos para chegar ao armazém, ele estava tão exausto que mal chegou ao colchão antes de a inconsciência o arrastar para baixo.
Ele acordou naquela noite – ou seria na noite seguinte? – com Aelin e Aedion sentados ao lado da cama, conversando.
— O solstício será em seis dias; precisamos ter tudo alinhado até então — ela dizia para seu primo.
— Então você apenas pedirá a Ress e Brullo para deixarem uma porta aberta por onde você possa se esgueirar?
—N ão seja tão ingênuo. Vou entrar pela porta da frente.
É claro que entraria. Rowan deixou escapar um gemido, a língua seca e pesada na boca. Ela se virou para ele, metade do corpo se lançando ao lado da cama.
— Como está se sentindo? — ela colocou a mão em sua testa, verificando a febre. — Você parece bem.
— Tudo bem — ele resmungou.
Seu braço e ombro doíam. Mas ele já havia suportado pior. A perda de sangue foi o que o tirou do eixo, mais sangue do que ele já tinha perdido uma vez – pelo menos tão rapidamente, graças à sua magia sufocada. Ele correu um olho sobre Aelin. Seu rosto estava contraído e pálido, um hematoma em sua bochecha e quatro arranhões marcavam seu pescoço. Ele ia matar aquela bruxa. Ele disse isso, e Aelin sorriu.
— Se está com disposição para a violência, então suponho que esteja bem. — Mas a voz estava grossa, e seus olhos brilharam. Ele estendeu a mão com o braço bom para agarrar uma de suas mãos e apertou com força. — Por favor, não faça isso de novo — ela sussurrou.
— Da próxima vez, vou pedir-lhes para não disparar flechas em você ou em mim.
Sua boca apertada vacilou, e ela descansou a testa em seu braço bom. Ele ergueu o outro braço, o esforço enviando um choque dor através dele enquanto acariciava seus cabelos. Ela ainda estava emaranhada em alguns pontos com sangue e sujeira. Não devia ter se incomodado com um banho completo. Aedion pigarreou.
— Temos que pensar em um plano para libertar magia e derrubar o rei e Dorian.
— Assim, conversaremos amanhã — disse Rowan, uma dor de cabeça já florescendo.
O simples pensamento de explicar-lhes novamente que cada vez que ele vira o fogo infernal sendo utilizado fora mais destrutivo do que qualquer um poderia antecipar o fez querer voltar a dormir. Deuses, sem a sua magia... Os seres humanos eram dignos de nota. Por serem capazes de sobreviver sem tocar a magia... Ele tinha que dar-lhes crédito.
Aedion bocejou – o pior fingimento que Rowan já vira – e despediu-se.
— Aedion — disse Rowan, e o general parou na porta. — Obrigado.
— A qualquer hora, irmão.
Ele saiu. Aelin olhava entre eles, os lábios franzidos novamente.
— O quê? — ele perguntou.
Ela balançou a cabeça.
— Você é muito bom quando está ferido. É inquietante.
Ver as lágrimas brilhando em seus olhos agora quase perturbara a ele. Se a magia já tivesse sido libertada, aquelas bruxas teriam virado cinzas no momento em que a flecha o atingiu.
— Vá tomar um banho — ele ordenou. — Não vou dormir ao seu lado enquanto você estiver coberta de sangue de bruxa.
Ela examinou as unhas, ainda ligeiramente revestidas com sujeira e sangue azul.
— Ugh. Já lavei dez vezes já.
Ela se levantou de seu assento ao lado da cama.
— Por quê? — perguntou ele. — Por que a salvou?
Ela passou a mão pelo cabelo. Uma bandagem branca em torno de seu braço espreitava por sua camisa com o movimento. Ele não sabia da ferida. Sufocou o impulso que exigia para ver – avaliar o prejuízo e puxá-la perto contra ele.
— Porque aquela bruxa de cabelos dourados, Asterin... ela gritou o nome de Manon da maneira como gritei o seu.
Rowan parou. Sua rainha olhou para o chão, como se lembrando do momento.
— Como posso matar alguém que significa o mundo para outra pessoa? Mesmo que ela seja minha inimiga — um pequeno encolher de ombros. — Pensei que você estivesse morrendo. Parecia má sorte deixá-la morrer por despeito. E... — ela bufou. — Cair de um barranco parecia uma merda de forma de morrer para alguém que luta espetacularmente.
Rowan sorriu, bebendo a visão dela: a pele do rosto pálida e as roupas sujas; as lesões. No entanto, seus ombros estavam eretos, o queixo erguido.
— Você me deixa orgulho de servi-la.
Uma inclinação alegre nos lábios, mas a prata brilhou nos olhos.
— Eu sei.



— Você parece uma merda — disse Lysandra para Aelin. Então se lembrou de Evangeline, que olhava para ela com os olhos arregalados, e estremeceu. — Desculpe.
Evangeline dobrou novamente o guardanapo no colo, cada movimento fino digno de uma pequena rainha.
— Você disse que eu não posso usar essa linguagem e ainda assim você usa.
— Eu posso usar — respondeu Lysandra quando Aelin reprimiu um sorriso — porque sou mais velha, e sei quando é mais eficaz. E agora, a nossa amiga se parece com merda absoluta.
Evangeline ergueu os olhos para Aelin, seu cabelo vermelho dourado brilhando no sol da manhã através da janela da cozinha.
— Você parece ainda pior quando acorda, Lysandra.
Aelin sufocou uma risada.
— Cuidado, Lysandra. Você tem uma diabinha em suas mãos.
Lysandra lançou à jovem um longo olhar.
— Se tiver acabado de comer as tortas, pode recolher nossos pratos, Evangeline, e ir para o telhado levar o inferno para Aedion e Rowan.
— Tome cuidado com Rowan — Aelin acrescentou. — Ele ainda está se recuperando. Mas pode fingir que não está. Homens ficam irritados se você provocar.
Com um brilho malicioso nos olhos, Evangeline saltou para a porta da frente. Aelin escutou para garantir que a menina, de fato, ia lá para cima, e, em seguida, virou-se para a amiga.
— Ela vai ser demais quando for mais velha.
Lysandra gemeu.
— Você acha que não sei disso? Onze anos de idade, e ela já é uma tirana. É um fluxo interminável de “Por quê?” e “eu preferiria que não” “por quê?”, “por quê?”, “por que” e “não, eu não gostaria de ouvir o seu bom conselho, Lysandra”.
Ela esfregou as têmporas.
— Uma tirana, mas uma lutadora — disse Aelin. — Não acho que haja muitas crianças de onze anos que fariam o que ela fez para salvá-la. — O inchaço diminuíra, mas as contusões ainda marcavam o rosto de Lysandra, e o pequeno corte perto de seu lábio permanecia num vermelho irritado. — E não acho que haja muitas crianças de dezenove anos que lutariam com unhas e dentes para salvar uma criança — Lysandra olhou para a mesa. — Sinto muito. Mesmo que Arobynn tenha orquestrado, me desculpe.
— Vocês foram por mim — Lysandra falou tão baixo que era quase um sussurro. — Todos vocês, vocês foram por mim.
Ela havia contado a Nesryn e Chaol em detalhes sobre sua estadia de uma noite em um calabouço escondido sob as ruas da cidade. Os rebeldes já procuravam nos esgotos por ele. Lembrava-se pouco do resto, tendo sido vendada e amordaçada. Imaginar se eles colocariam um anel de pedra de Wyrd em seu dedo era o pior de tudo, ela disse. Esse temor a assombraria por um tempo.
— Você pensou que não iríamos atrás de você?
— Nunca tive amigos que se importavam com o que acontecia comigo, com exceção de Sam e Wesley. A maioria das pessoas teria me deixado ser levada, me descartado como apenas mais uma prostituta.
— Estive pensando sobre isso.
— Oh?
Aelin enfiou a mão no bolso e empurrou um pedaço de papel dobrado sobre a mesa.
— É para você. E ela.
— Nós não precisamos... — os olhos de Lysandra caíram sobre o selo de cera. Uma cobra em tinta da meia-noite: o selo de Clarisse. — O que é isto?
— Abra.
Olhando entre ela e o papel, Lysandra quebrou o selo e leu o texto.
— Eu, Clarisse DuVency, declaro que quaisquer dividas devidas a mim por... — o papel começou a tremer. — Quaisquer dívidas a mim por Lysandra e Evangeline agora estão pagas na íntegra. E mais cedo possível, elas podem receber a marca de sua liberdade.
O papel caiu para a mesa quando as mãos de Lysandra afrouxaram. Ela levantou a cabeça para olhar para Aelin.
— Ai — Aelin disse, mesmo quando seus próprios olhos se encheram. — Eu te odeio por ser tão bonita, mesmo quando você chora.
— Você sabe quanto dinheiro...
— Acha que eu a deixaria ser escravizada por ela?
— Eu não... eu não sei o que dizer. Não sei como agradecer.
— Você não precisa — Lysandra colocou seu rosto entre as mãos e soluçou. — Sinto muito se você queria fazer a coisa orgulhosa e nobre e aguentá-la por mais uma década — Aelin começou. Lysandra chorou mais. — Mas você tem que entender que não havia nenhuma maneira no mundo de eu deixar que vocês...
— Cale a boca, Aelin — disse Lysandra através de suas mãos. — Apenas cale a boca — ela baixou as mãos, o rosto inchado e borrado agora.
Aelin suspirou.
— Oh, graças aos deuses. É possível você parecer horrorosa quando chora.
Lysandra desatou a rir.



Manon e Asterin permaneceram nas montanhas durante todo o dia e a noite após sua imediata revelar sua ferida invisível. Pegaram cabras da montanha para si e suas serpentes aladas e as assaram numa fogueira noturna enquanto cuidadosamente consideravam o que poderiam fazer.
Quando Manon finalmente cochilou, enrolada contra Abraxos sob um manto de estrelas no céu, sua cabeça parecia mais clara do que estava em meses. E ainda algo a incomodava, mesmo durante o sono.
Ela sabia o que era quando acordou. Um fio solto no tear da Deusa de Três Faces.
— Está pronta? — Asterin perguntou, montando sua serpente azul celeste e sorrindo, um sorriso de verdade.
Manon nunca tinha visto aquele sorriso. Ela se perguntou quantas pessoas já tinham visto. Perguntou-se se ela própria já sorrira dessa forma.
Manon olhava para o norte.
— Há algo que preciso fazer.
Quando ela explicou à sua imediata, Asterin não hesitou em declarar que iria com ela.
Então elas pararam em Morath por tempo suficiente para recolher suprimentos. Deixaram que Sorrel e Vesta soubessem dos detalhes, e as instruiu a dizer ao duque que ela haviam sido convocadas.
Elas estavam no ar dentro de uma hora, voando forte e rápido acima das nuvens para se manterem escondidas.
Quilômetro após quilômetro elas voaram. Manon não podia dizer por que aquele fio continuava puxando, por que parecia tão urgente, mas ela o empurrou, fundo, a caminho para Forte da Fenda.



Quatro dias. Elide estava naquele isolamento, no calabouço gelado, há quatro dias.
Estava tão frio que ela mal conseguia dormir, e os alimentos que lhe atiraram eram dificilmente comestíveis. O medo a mantinha alerta, levando-a a testar a porta, a ver os guardas que sempre que abriam, a estudar os salões por trás deles. Ela não aprendeu nada útil.
Quatro dias – Manon não viera por ela. Nenhuma das Bico Negro viera.
Ela não sabia por que esperava. Manon a forçara a espionar essa câmara, depois de tudo. Ela tentou não pensar sobre o que esperar agora.
Tentou, e falhou. Ela se perguntou se alguém se lembraria do nome dela quando ela estivesse morta. Se teria seu nome esculpido em algum lugar.
Ela sabia a resposta. E sabia que não havia ninguém vindo por ela.

11 comentários:

  1. Laura do Bom Senso 42 #Zueira2 de março de 2016 15:29

    HA! Acho que você está errada, elas viram, não por você, mas viram UHAUHAUHAUHAUHAUHA

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    1. Virão (futuro)

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    2. Laura do Bom Senso 42 #Zueira20 de outubro de 2016 22:54

      EXATAMENTE

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  2. Esse fio misterioso... Será que tem a ver com a Aelin? Ou o Dorian? Tá muito bizarro

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  3. Acho q eh Aelin ela senti-o o mesmo fio puxando para Manon

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  4. Pobre Elide... E sinto coisa boa vindo de Manon.

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  5. De todos os personagens,a que me faz sofrer...ter o coração rasgado é a Elide. Desde primeira aparição ;-;

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  6. Aedion bocejou – o pior fingimento que Rowan já vira – e despediu-se.
    Preciso ver esse fingimento

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  7. — Você parece uma merda — disse Lysandra para Aelin. Então se lembrou de Evangeline, que olhava para ela com os olhos arregalados, e estremeceu. — Desculpe.
    AMEI essa conversa, o trecho de Ly, Aelin e Eva.

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  8. Elide.... Mds q dor no coração...

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