29 de fevereiro de 2016

Capítulo 63

— Onde na terra você poderia ir? — Vernon perguntou enquanto se levantava, presunçoso como um gato.
Pânico rugiu em suas veias. O vagão – o vagão...
— Era esse o plano o tempo todo? Se ocultar entre as bruxas e depois fugir?
Elide girou na direção da porta. Vernon estalou a língua.
— Nós dois sabemos que não faz sentido correr. E a Líder Alada não chegará aqui tão rápido.
Os joelhos de Elide vacilaram. Oh, deuses.
— Mas a minha linda e inteligente sobrinha é humana... ou algum tipo de bruxa? É uma questão muito importante.
Ele a segurou pelo cotovelo, uma pequena lâmina na mão. Ela não pôde fazer nada quando ele abriu um corte em seu braço, o sangue vermelho escorrendo.
— Não uma bruxa completamente, parece.
— Eu sou uma Bico Negro — Elide respirou.
Ela não se curvaria a ele, não se acovardaria.
Vernon a circulou.
— Pena que elas estejam todas para o norte e não possam ajudá-la.
Lute, lute, lute, o sangue dela cantou, não deixe que ele a prenda. Sua mãe morreu lutando. Ela era uma bruxa, e você é uma bruxa, e você não cede... você não cede...
Vernon atacou, mais rápido do que ela podia evitar com suas correntes, uma mão segurando-a sob o braço enquanto a outra bateu sua cabeça com tanta força na madeira que seu corpo apenas... parou.
Isso era tudo o que ele precisava – essa pausa estúpida – para prender seu outro braço, apertando a outra mão que estava agora em seu pescoço com força suficiente para machucar, para fazê-la perceber que seu tio havia treinado como seu pai fazia.
— Você virá comigo.
— Não — a palavra foi um sussurro sob sua respiração.
Seu aperto era forte, torcendo seus braços até que ela ganiu de dor.
— Você não sabe o dom que tem? O que pode ser capaz de fazer?
Ele puxou-a para trás, abrindo a porta. Não – não, ela não o deixaria levá-la, não seria...
Mas gritar não faria nenhum bem. Não em uma fortaleza cheia de monstros. Não em um mundo onde ninguém se lembrava que ela existia, ou se preocupava em se importar. Ela se acalmou, e ele tomou isso como aquiescência. Ela podia senti-lo sorrindo atrás dela enquanto a cutucava na direção da escada.
— Sangue Bico Negro corre em suas veias, juntamente com a generosa magia da linhagem da nossa família — ele a levou escadas abaixo, e bile queimou sua garganta. Não havia ninguém vindo para ela, porque ela não pertencia a ninguém. — As bruxas não tem magia, não gostam de nós. Mas você, uma híbrida de ambas as linhagens... — Vernon agarrou seu braço com mais força, exatamente sobre o corte que tinha feito, e ela gritou. O som ecoou, vazio e pequeno, para baixo na escada de pedra. — Você traz a sua casa uma grande honra, Elide.



Vernon deixou-a em uma masmorra congelando.
Sem luz.
Não havia som, salvo o gotejamento de água em algum lugar. Tremendo, Elide não tinha sequer palavras para implorar quando Vernon a jogou para dentro.
— Você trouxe isso para si, você sabe, quando se aliou com aquela bruxa e confirmou minhas suspeitas de que o sangue delas fluía em suas veias — ele a estudou, mas ela estava ocupada capturando os detalhes da cela, buscando qualquer coisa que pudesse tirá-la dali. Não encontrou nada. — Eu a deixarei aqui até que esteja pronta. Duvido que alguém vá notar a sua ausência, de qualquer maneira.
Ele bateu a porta, e escuridão a engoliu inteiramente. Ela não se incomodou em tentar a maçaneta.



Manon foi convocada pelo duque no momento em que pôs os pés em Morath.
O mensageiro estava encolhido na entrada da torre, mal conseguindo pronunciar as palavras enquanto olhava o sangue, a sujeira e a poeira que ainda cobria Manon.
Ela contemplara libertar os dentes de ferro apenas para fazê-lo tremer como um tolo covarde, mas ela estava drenada, sua cabeça latejava e o mais básico movimento exigia pensar demais.
Nenhuma das Treze ousara dizer nada sobre sua avó – que ela havia aprovado a reprodução.
Com Sorrel e Vesta apenas alguns passos atrás dela, Manon escancarou as portas da câmara do conselho do duque, deixando o som da madeira batendo dizer o suficiente sobre o que ela achava de ser convocada imediatamente.
O duque – Kaltain era a única ao lado dele – ergueu os olhos para ela.
— Explique sua... aparência.
Manon abriu a boca.
Se Vernon ouvisse que Aelin Galathynius estava viva – se suspeitasse por uma batida do coração que Aelin pudesse se sentir em dívida com Elide pela mãe dela ter salvo sua vida, ele podia muito bem decidir acabar com a vida de sua sobrinha.
— Rebeldes nos atacaram. Matei todos eles.
O duque atirou um arquivo de papéis sobre a mesa. Eles bateram no vidro e deslizaram, espalhando-se em um leque.
— Por meses, você queria explicações. Bem, aqui estão elas. Relatórios do estado dos nossos inimigos, os maiores alvos para atacarmos... Sua Majestade os envia com seus melhores votos.
Manon se aproximou.
— Será que ele também enviou aquele príncipe demônio em meus aposentos para nos atacar? — ela olhou para o pescoço grosso do duque, querendo saber quão facilmente a pele áspera rasgaria.
A boca de Perrington torceu-se.
— Roland teve sua utilidade. Quem melhor para cuidar dele do que as suas Treze?
— Eu não tinha percebido éramos suas carrascas.
Ela devia realmente rasgar sua garganta pelo o que ele tentara fazer. Ao seu lado, Kaltain estava totalmente sem expressão, uma concha. Mas aquele fogo de sombras... ela o invocaria se o duque fosse atacado?
— Sente-se e leia os arquivos, Líder Alada.
Ela não gostou do comando, e soltou um grunhido para dizer-lhe isso, mas se sentou. E leu.
Relatórios sobre Eyllwe, Melisande, Charco Lavrado, Deserto Vermelho e Wendlyn.
E de Terrasen.
De acordo com o relatório, Aelin Galathynius – que há muito tempo acreditavam estar morta – aparecera em Wendlyn e derrotara quatro dos príncipes valg, incluindo um general letal do exército do rei. Usando fogo.
Aelin tinha magia de fogo, Elide tinha dito. Ela poderia ter sobrevivido ao frio.
Mas... mas isso significava que a magia...
— A magia ainda funciona em Wendlyn. E aqui não.
Manon apostaria uma grande quantidade do ouro acumulado que as Bico Negro guardavam que o homem na frente dela – e o rei em Forte da Fenda – eram a razão disso.
Em seguida, um relatório do príncipe Aedion Ashryver, ex-general de Adarlan, parentes dos Ashryvers de Wendlyn, ser preso por traição. Por associar-se com os rebeldes. Ele havia sido resgatado de sua execução poucas semanas atrás por forças desconhecidas.
Possíveis suspeitos: lorde Ren Allsbrook de Terrasen...
E lorde Chaol Westfall de Adarlan, que havia servido lealmente o rei como seu capitão da Guarda até que juntou forças com Aedion na primavera passada e fugiu do castelo no dia da captura de Aedion.
Eles suspeitaram que o capitão não tinha ido longe – e que tentaria libertar seu amigo de toda uma vida, o príncipe herdeiro.
Libertá-lo.
O príncipe zombou dela, a provocara, como se tentando levá-la a matá-lo. E Roland tinha implorado pela morte.
Se Chaol e Aedion estavam ambos agora com Aelin Galathynius, todos trabalhando juntos...
Eles não tinha ido à floresta espionar.
Mas para salvar o príncipe. E quem quer que prisioneira fosse. Eles haviam resgatado um amigo, pelo menos.
O duque e o rei não sabiam. Eles não sabiam quão perto os rebeldes estiveram de todos os seus objetivos, ou quão perto os seus inimigos estiveram de libertar o seu príncipe.
Foi por isso que o capitão viera correndo.
Ele fora matar o príncipe – a única misericórdia que ele acreditava que poderia lhe oferecer.
Os rebeldes não sabiam que o homem ainda estava lá dentro.
— Bem? — o duque exigiu. — Alguma pergunta?
— Você ainda tem que explicar a necessidade da arma que minha avó está construindo. Uma ferramenta que poderia ser catastrófica. Se não há magia, então certamente destruir a rainha da Terrasen não pode valer a pena o risco de usar essas torres.
— É melhor estar preparado do que ser surpreendido. Nós temos controle total das torres.
Manon bateu uma unha de ferro sobre a mesa de vidro.
— Estas são informações-base, Líder Alada. Continue a se provar, e receberá mais.
Se provar? Ela não tinha feito nada, recentemente, para se provar, exceto... exceto destruir um dos seus príncipes demoníacos e assassinar aquela tribo na montanha sem uma boa razão. Um tremor de raiva passou por ela.
Logo, libertar o príncipe no quartel não tinha sido uma mensagem, mas um teste. Ver se ela poderia agir contra o seu pior, e ainda obedecer.
— Já escolheu um clã para mim?
Manon se obrigou a dar de ombros desdenhosamente.
— Eu estava esperando para ver o que se comportava o melhor enquanto eu estava fora. Será a recompensa.
— Você tem até amanhã.
Manon olhou para ele.
— No momento em que eu sair desta sala, tomarei um banho e dormirei por um dia. Se você ou seus pequenos comparsas demônios me incomodarem antes disso, aprenderá o quanto gosto de ser uma carrasca. No dia seguinte tomarei a minha decisão.
— Não estaria evitando isso, a sua obrigação, Líder Alada?
— Por que eu deveria me preocupar em distribuir favores a clãs que não os merecem? — Manon se deu uma batida de coração para contemplar o que a Matriarca estava deixando que estes homens fizessem. Ela recolheu os arquivos, os empurrou para os braços de Sorrel, e saiu.
Tinha acabado de chegar às escadas para a sua torre quando avistou Asterin encostada na arcada, escolhendo suas unhas de ferro.
Sorrel e Vesta seguraram a respiração.
— O que é isso? — Manon exigiu, libertando suas próprias unhas.
O rosto de Asterin era uma máscara de tédio imortal.
— Nós precisamos conversar.



Ela e Asterin voaram para as montanhas, e ela deixou sua prima liderar – deixou Abraxos seguir a fêmea azul celeste de Asterin até que elas estavam longe de Morath. Elas desceram em um pequeno planalto coberto de flores silvestres roxas e laranjas, a grama sibilando no vento. Abraxos estava praticamente grunhindo com alegria, e Manon, sua exaustão tão pesada quanto o manto vermelho que ela usava, não se incomodou em repreendê-lo.
Elas deixaram suas serpentes aladas no campo. O vento da montanha era surpreendentemente quente, o dia claro e o céu cheio de gordas nuvens inchadas. Ela ordenara a Sorrel e Vesta que ficassem para trás, apesar de seus protestos. Se as coisas tinham chegado ao ponto em que Asterin não era confiável para ficar sozinha com ela... Manon não queria pensar nisso.
Talvez fosse por isso que ela concordara em vir.
Talvez fosse por causa do grito que Asterin soltara, do outro lado da ravina.
Foi igual ao grito da herdeira Sangue Azul, Petrah, quando a serpente alada foi rasgada em pedaços. Como o grito da mãe de Petrah quando Petrah e sua serpente, Keelie, tinham caído no ar.
Asterin caminhou até a borda do planalto, as flores silvestres balançando em suas pernas, o couro de sua roupa de montaria brilhando no sol. Ela soltou seu cabelo, balançando as ondas de ouro, em seguida, soltou a espada e as adagas e as deixou cair com um baque forte no chão.
— Preciso que você ouça, e não fale — ela disse quando Manon a alcançou.
Era uma demanda grande para fazer à herdeira, mas não havia nenhum desafio, nenhuma ameaça. E Asterin nunca falara com ela dessa maneira. Então Manon assentiu.
Asterin olhou para fora, através das montanhas – tão vibrantes ali, agora que estavam longe da escuridão de Morath. Uma brisa amena esvoaçava entre elas, despenteando os cachos de Asterin até que eles assumiram determinados o brilho do sol.
— Quando eu tinha vinte e oito anos, estava fora caçando Crochans em um vale a oeste das montanhas Canino. Eu dezenas de quilômetros a percorrer antes da aldeia mais próxima, e quando uma tempestade aconteceu, não vi nenhum lugar para pousar. Então tentei ultrapassar a tempestade na minha vassoura, tentei voar sobre ela. Mas a tempestade continuou e foi aumentando e aumentando. Eu não sei se foi o relâmpago ou o vento, mas de repente eu estava caindo. Consegui recuperar o controle sobre minha vassoura por tempo suficiente para pousar, mas o impacto foi brutal. Antes de desmaiar, eu sabia que meu braço estava quebrado em dois lugares diferentes, o meu tornozelo torcido além do uso, e minha vassoura quebrada.
Mais de oitenta anos atrás – isso tinha acontecido há mais de oitenta anos, e Manon nunca tinha ouvido falar disso. Ela estivera fora em sua própria missão – onde, ela não conseguia se lembrar agora. Todos os anos que ela passou caçando Crochans tinha virado um borrão uniforme.
— Quando acordei, eu estava em uma cabana humana, minha vassoura em pedaços ao lado da cama. O homem que havia me encontrado disse que voltava para casa no meio da tempestade e me viu cair do céu. Ele era um jovem caçador, na maior parte do esporte exótico, e era por isso que possuía uma cabana em meio à mata selvagem. Acho que o teria matado se eu tivesse alguma força, mesmo porque eu queria seus recursos. Mas eu desvanecia para fora e para dentro da consciência... ele me alimentou o suficiente para que parasse de vê-lo como comida. Ou como ameaça.
Um longo silêncio.
— Fiquei lá por cinco meses. Não cacei uma única Crochan. Eu o ajudei a perseguir as caças, encontrei pau-ferro e comecei a entalhar uma nova vassoura... e nós dois sabíamos o que eu era, o que ele era. Que eu era uma imortal e ele era humano. Mas tínhamos a mesma idade, e naquele momento, não nos importamos. Então fiquei com ele até as minhas ordens me mandarem retornar à fortaleza Bico Negro. Eu lhe disse... disse que voltaria quando pudesse.
Manon dificilmente conseguia pensar, mal conseguia respirar sobre o silêncio em sua cabeça. Ela nunca tinha ouvido falar disso. Nem um sussurro. Para Asterin ter ignorado seu dever sagrado... para ela ter ficado com aquele homem humano...
— Eu estava grávida de um mês quando voltei à fortaleza Bico Negro.
Os joelhos de Manon vacilaram.
— Você já tinha partido para sua próxima missão. Não contei a ninguém, não até que eu soubesse que a gravidez realmente duraria os primeiros meses.
Não era inesperado, a maioria das bruxas perdia seus filhos durante esse tempo. As bruxas donzelas crescerem após esse limiar era um milagre por si só.
— Mas eu fiz isso por três meses, depois quatro. E quando não podia mais esconder, contei para sua avó. Ela estava contente, e ordenou que eu ficasse em repouso na cama da fortaleza, então nada me perturbaria ou à bruxa donzela em meu ventre. Eu lhe disse que queria voltar, mas ela se recusou. Eu sabia que não devia dizer a ela que eu queria voltar para aquela cabana na floresta. Sabia que ela ia matá-lo. Então permaneci na torre por meses, uma prisioneira paparicada. Você até apareceu, duas vezes, e ela não lhe disse que eu estava lá. Não até a bruxa donzela nascer, ela dissera.
Uma respiração longa e desigual.
Não era incomum as bruxas serem superprotetoras em relação àquelas que carregavam bruxas donzelas. E Asterin, tendo linhagem da Matriarca, teria sido uma mercadoria valorizada.
— Eu bolei um plano. No momento em que me recuperasse do nascimento, no momento em pudesse sair, eu pegaria a bruxa donzela e iria ao pai, apresentá-la a ele. Pensei que talvez uma vida na floresta, calma e pacífica, seria melhor para a minha bruza donzela do que o derramamento de sangue que vivemos. Pensei que talvez fosse melhor... para mim.
A voz de Asterin quebrou nas duas últimas palavras. Manon não teve coragem de olhar para sua prima.
— Eu dei à luz. A bruxa donzela quase me rasgou em duas ao sair. Pensei que fosse porque ela era uma lutadora, porque era uma verdadeira Bico Negro. E eu estava orgulhosa. Mesmo enquanto gritava, ao mesmo tempo em que sangrava, eu estava tão orgulhosa dela.
Asterin ficou em silêncio, e Manon olhou para ela por fim.
Lágrimas rolavam pelo rosto de sua prima, brilhando ao sol. Asterin fechou os olhos e sussurrou contra o vento.
— Ela nasceu morta. Eu esperei ouvir o grito de triunfo, mas só havia silêncio. Silêncio, e, em seguida, sua avó... — ela abriu os olhos. — Sua avó me surpreendeu. Ela me bateu. Uma e outra vez. Tudo o que eu queria era ver minha bruxa donzela, e ela ordenou que a queimassem em vez disso. Ela se recusou a me deixar vê-la. Eu era uma desgraça para cada bruxa que viera antes de mim... era a culpada por uma bruxa donzela com defeito. Eu tinha desonrado as Bico Negro. Eu a desapontei. Ela gritou para mim de novo e de novo, e quando eu chorei, ela... ela...
Manon não sabia para onde olhar, o que fazer com seus braços.
Um natimorto era a maior tristeza de uma bruxa – e a maior vergonha. Mas para sua avó...
Asterin desabotoou o casaco e endireitou os ombros para as flores. Ela tirou a camisa, até embaixo, até que sua pele dourada brilhava à luz do sol, os seios cheios e pesados. Asterin virou, e Manon caiu de joelhos na grama.
Ali, marcado no abdômen de Asterin em letras brutas e cicatrizadas, estava uma palavra: Impura.
— Ela me marcou. Aquecido o ferro na mesma chama onde minha bruxa donzela foi queimada e escreveu cada letra por si mesma. Ela disse que eu não nunca mais teria como tentar conceber uma Bico Negro novamente. Que a maioria dos homens daria um olhar para a palavra e correria.
Oitenta anos. Durante oitenta anos, ela escondera isso. Mas Manon a tinha visto nua, tinha...
Não – não, ela não tinha. Não há décadas e décadas. Quando eles eram bruxas donzelas, sim, mas...
— Na minha vergonha, eu não contei a ninguém. Sorrel e Vesta... elas sabiam porque estavam naquele quarto. Sorrel lutou por mim. Implorou à sua avó. Sua avó agarrou o braço dela e mandou-a para fora. Mas depois que a Matriarca me jogou na neve e me disse para rastejar para algum lugar e morrer, Sorrel me encontrou. Ela procurou Vesta, e as duas me levaram à torre de Vesta escondida nas montanhas, onde secretamente cuidaram de mim enquanto eu... enquanto eu não conseguia sair da cama. Então, um dia, eu acordei e decidi lutar. Eu treinei. Curei meu corpo. Fiquei orte, mais forte do que fui antes. E parei de pensar sobre isso. Um mês mais tarde, fui à caça de Crochans, e caminhei de volta para a fortaleza com três de seus corações em uma caixa. Se a sua avó estava surpresa que eu não tivesse morrido, ela não mostrou. Você estava lá naquela noite quando voltei. Brindou em minha honra, e disse que estava orgulhosa de ter uma excelente imediata.
Ainda de joelhos, a terra molhada umedecendo suas calças, Manon olhou para aquela marca horrorosa.
— Eu nunca mais voltei para o caçador. Não sabia como explicar a marca. Como explicar a sua avó, ou pedir desculpas. Eu temia que ele me tratasse como fez a sua avó. Então nunca mais voltei — sua boca tremeu. — Eu voava por aquela aérea a cada poucos anos, apenas... apenas para ver — ela limpou o rosto. — Ele nunca se casou. E mesmo quando era um homem velho, eu às vezes o via sentado na varanda da frente. Como se estivesse esperando por alguém.
Alguma coisa... alguma coisa rachou no peito de Manon, machucando-a.
Asterin sentou-se entre as flores e começou a vestir suas roupas. Ela chorava em silêncio, mas Manon não sabia se deveria ir até ela. Ela não sabia como consolar, como acalmar.
— Eu parei de me preocupar — disse Asterin finalmente. — Sobre tudo e qualquer coisa. Depois disso, tudo era uma piada, uma emoção, nada me assustava.
Aquela selvageria, a ferocidade indomável... não vinha de um coração livre, mas de um que tinha conhecido o desespero tão completamente que viver com a violência era a única maneira de superá-lo.
— Mas eu disse a mim mesma... — Asterin terminou de abotoar a jaqueta — que eu gostaria de dedicar a minha vida inteiramente em ser sua imediata. Para servi-la. Não à sua avó. Porque eu sabia que sua avó tinha me escondido de você por uma razão. Acho que ela sabia que você teria lutado por mim. E o que quer que sua avó viu em você a deixou temerosa. Valeu a pena esperar. Valeu a pena servir. Então estou aqui.
No dia em que Abraxos fez a Travessia, quando suas Treze pareciam dispostas a lutar para abrir seu caminho porque sua avó dera a ordem para matá-la...
Asterin encontrou seu olhar.
— Sorrel, Vesta e eu já sabíamos há muito tempo do que sua avó é capaz de fazer. Nós nunca dissemos nada porque temíamos que, se você soubesse, poderia te comprometer. No dia que você salvou Petrah em vez de deixá-la cair... você não foi a única que entendeu por que sua avó a fez matar aquela Crochan — Asterin balançou a cabeça. — Estou lhe implorando, Manon. Não deixe que sua avó e estes homens levem nossas bruxas e as usem como iscas. Não os deixem que transformem nossas bruxas donzelas em monstros. O que eles já fizeram... estou implorando a você para me ajudar a desfazê-lo.
Manon engoliu em seco, sua garganta dolorosamente apertada.
— Se nós os desafiarmos, eles virão atrás de nós, vão nos matar.
— Eu sei. Nós todas sabemos. Isso é o que queríamos lhe dizer na outra noite.
Manon olhou para a camisa de sua prima, como se pudesse ver a marca abaixo.
— É por isso que você está se comportando dessa maneira.
— Não sou tola o suficiente para fingir que não tenho um ponto fraco quando bruxas donzelas estão em jogo.
Era por isso que sua avó insistira por décadas para que Asterin fosse rebaixada.
— Eu não acho que seja um ponto fraco — admitiu Manon, e olhou por cima do ombro para onde Abraxos cheirava as flores silvestres. — Você volta a ser reintegrada como minha imediata.
Asterin inclinou a cabeça.
— Eu sinto muito, Manon.
— Você não tem nada do que se desculpar — ela ousou acrescentar: — Há outras a quem minha avó trata dessa maneira?
— Não em meio às Treze. Mas em outros clãs. A maioria se deixa morrer quando sua avó as expulsa.
E Manon nunca tinha sido informada. Ela tinha sido enganada.
Manon olhou para o oeste através das montanhas. Esperança, Elide dissera – esperança por um futuro melhor. Por um lar.
Não obediência, brutalidade ou disciplina. Mas esperança.
— Precisamos proceder com cuidado.
Asterin piscou, as manchas douradas em seus olhos pretos brilhando.
— O que você está planejando?
— Algo muito estúpido, eu acho.

20 comentários:

  1. Laura do Bom Senso 42 #Zueira2 de março de 2016 14:40

    Ai que bom, finalmente elas vão fazer alguma coisa

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  2. Laura do Bom Senso 42 #Zueira2 de março de 2016 14:48

    Asterin está In Love com a Manon, certeza, eu shippo

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  3. Finalmente!!! Fiquei muito triste pela Asterin, mas isso era o que a Manon tava precisando pra enfrentar a bruxa velha.

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  4. Aeee! Finalmente vão fazer algo.E Que história triste a da Asterin. Fiquei realmente tocada :(

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  5. T_T T_T Asterin amou o caçador e a filha e sofreu .....

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  6. T-T coitada de asterin
    fiinaaalmmeeenntee!monon vai se juntar a aelin

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  7. Esses personagens sempre surpreendendo. E essa vó da Manon... O bruxa maledita!

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    1. Mas que bruxa essa bruxa kkkkk

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  8. eeu sabia !!! Manon não vai me desapontar !!

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  9. E eu achando que ela tinha dado a luz e a filha dela era mãe da elide tsc tsc tsc

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  10. E eu achando que ela tinha dado a luz e a filha dela era mãe da elide tsc tsc tsc

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  11. Tbm pensei isso!

    Flavia

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  12. Isso!!!!!!!!!!!!!
    Ela vai se juntar com a Aelin!!!!!!!!!!
    E a Manon vai salvar o Dorian e se casar com ele!!!!!!!!! (Ok me senti uma criança com esse comentario)

    Rowan com vc tá? ????

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  13. Nossa, essa história me emocionou!
    Agora ela e a Aelin se aliam!!

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  14. Só eu vejo algo a mais entre manon e asterin??
    -R

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