12 de fevereiro de 2016

Capítulo 60

Maeve não estava queimando, nem Rowan ou os amigos dele, cujos escudos Celaena atravessou com meio pensamento. Contudo, o rio fumegava ao redor, e gritos surgiram do palácio, da cidade, conforme chamas que não queimavam nem doíam envolveram tudo. A ilha inteira estava coberta por fogo.
A rainha estava de pé agora e descia da plataforma. Celaena deixou que um pouco mais de calor escapasse pelas chamas, aquecendo a pele de Maeve conforme se aproximava da tia. De olhos arregalados, Rowan pendia dos braços dos amigos, o sangue fumegando sobre as pedras.
— Você queria uma demonstração — falou a assassina, em voz baixa. Suor escorreu pelas costas dela, mas a jovem se agarrou à magia com tudo o que tinha. — Com um pensamento meu, sua cidade vai queimar.
— É de pedra — disparou a soberana.
Celaena sorriu.
— Seu povo não.
As narinas de Maeve se dilataram devagar.
— Assassinaria inocentes, Aelin? Talvez. Fez isso durante anos, não foi?
O sorriso da assassina não hesitou.
— Tente. Apenas tente me pressionar, tia, e veja o que acontece. Era isso o que queria, não? Não que eu dominasse minha magia, mas que você descobrisse quanto sou poderosa. Não quanto do sangue de sua irmã flui em minhas veias; não, você sabia desde o início que tenho muito pouco do poder de Mab. Queria saber quanto recebi de Brannon.
As chamas aumentaram, e os gritos – de medo, não de dor – aumentaram também. O fogo não machucaria ninguém, a não ser que Celaena desejasse. Ela podia sentir a magia dos demais lutando contra a dela, abrindo buracos em seu poder, mas a conflagração que cercava a varanda queimava com força.
— Você jamais deu as chaves para Brannon. E não viajou com ele e Athril para recuperar as chaves dos valg — continuou a jovem, uma coroa de fogo envolvendo sua cabeça. — Foi para roubá-las para si mesma. Queria ficar com as chaves. Depois que Brannon e Athril perceberam isso, lutaram contra você. E Athril... — Celaena sacou Goldryn, o cabo agora brilhava vermelho como sangue. — Seu amado Athril, querido amigo de Brannon... ao lutarem, você o matou. Você, não os valg. E, no luto e na vergonha, ficou fraca o bastante para que Brannon tomasse as chaves. Não foi uma força inimiga que saqueou o templo da Deusa do Sol. Foi Brannon. Ele queimou até o último rastro de si mesmo, qualquer pista de aonde iria, para que você não o encontrasse. Deixou apenas a espada do amigo para honrá-lo, na caverna em que Athril arrancou o olho daquela pobre criatura do lago, e jamais contou a você. Depois que Brannon deixou esta terra, você não ousou segui-lo, não quando ele tinha as chaves, não quando a magia dele, minha magia, estava tão forte.
Fora Brannon quem escondera a chave de Wyrd na herança da própria casa, para dar a eles aquele peso a mais de poder. Não contra inimigos comuns, mas para o caso de Maeve os atacar. Talvez não tivesse devolvido as chaves ao portão porque queria ser capaz de usar o poder delas caso Maeve decidisse se declarar senhora de todas as terras.
— Foi por isso que você abandonou sua terra ao pé da colina, deixando-a apodrecer. Por isso construiu uma cidade de pedra cercada de água: para que os herdeiros de Brannon não pudessem voltar para queimar você viva. Era por isso que queria me ver, por essa razão que negociou com minha mãe. Queria saber que tipo de ameaça eu poderia representar. O que aconteceria quando o sangue de Brannon se misturasse com a linhagem de Mab. — Celaena abriu os braços, Goldryn queimando forte em uma das mãos. — Veja meu poder, Maeve. Veja o que combato nas profundezas obscuras, o que espreita sob minha pele.
A jovem exalou e apagou cada chama da cidade.
O poder não estava na força ou na habilidade. Estava no controle – o poder consistia em autocontrole. Ela sempre soubera o quanto seu fogo era extenso e mortal, e, alguns meses antes, teria matado e sacrificado e massacrado qualquer um ou qualquer coisa para cumprir o juramento. Mas isso não tinha sido força – tinha sido ódio e luto de uma pessoa partida, aos pedaços. Celaena entendia agora o que a mãe quisera dizer quando tocou seu coração naquela noite em que dera o amuleto à filha.
Conforme cada luz se apagou em Doranelle, mergulhando o mundo na escuridão, Celaena caminhou até Rowan. Um olhar e o lampejo dos dentes fez os gêmeos o soltarem. Com os chicotes ensanguentados ainda nas mãos, Gavriel e Lorcan não fizeram menção de se aproximar quando Rowan se jogou nela, murmurando seu nome.
Luzes se acenderam. Maeve permaneceu onde estava, o vestido manchado de fuligem, o rosto brilhando com suor.
— Rowan, venha cá.
Ele enrijeceu o corpo, resmungando de dor, mas cambaleou até a plataforma, o sangue escorria dos ferimentos horríveis nas costas. Bile ardeu na garganta de Celaena, mas ela manteve os olhos na rainha.
Maeve mal a fitou quando disse, fervilhando de ódio:
— Me dê essa espada e saia daqui. — Sua tia estendeu a mão para Goldryn.
A jovem fez que não com a cabeça.
— Acho que não. Brannon a deixou naquela caverna para que qualquer um menos você a encontrasse. Então, é minha, por sangue e fogo e escuridão. — Celaena embainhou Goldry n na lateral do corpo. — Não é muito agradável quando alguém não dá a você o que quer, não é?
Rowan estava apenas parado ali, o rosto era uma máscara de tranquilidade apesar dos ferimentos, mas os olhos... seria tristeza? Os amigos dele estavam em silêncio, observando, prontos para atacar caso a rainha desse o comando. Que tentassem.
Os lábios de Maeve se contraíram.
— Vai pagar por isso.
Mas Celaena caminhou até a tia de novo, pegou a mão dela e falou:
— Ah, acho que não.
Então abriu a mente para a rainha
Bem, parte da mente – a visão que Narrok lhe dera enquanto o queimava. Ele soubera. De alguma forma, vira o potencial, como se o tivesse descoberto enquanto os príncipes valg passavam por suas memórias. Não era um futuro gravado em pedra, mas não deixou que a tia visse aquilo. Celaena apresentou a memória como se fosse verdade, como se fosse um plano.



A multidão ensurdecedora ressoava pelos corredores de pedra do castelo real de Orynth. Estavam cantando o nome dela, quase chorando. Aelin. Um pulso de duas notas que ecoava a cada passo que dava ao subir a escada escurecida. Goldryn pesava às costas dela, o rubi incandescente à luz do sol que escorria da plataforma acima. Vestia uma túnica linda, mas simples, embora os punhos de ferro, armados com lâminas ocultas, fossem tão ornamentados quanto mortais.
Ela chegou à plataforma e a atravessou, passando pelos guerreiros altos e musculosos que espreitavam às sombras, logo além da abertura arqueada. Não apenas guerreiros – os guerreiros dela. A corte dela. Aedion estava lá, e alguns outros, cujos rostos estavam obscurecidos pelas sombras, mas os dentes brilharam levemente quando deram a ela sorrisos selvagens. Uma corte para mudar o mundo.
A cantoria aumentou, e o amuleto quicava entre seus seios a cada passo. Ela manteve os olhos adiante, um meio sorriso no rosto quando surgiu, por fim, na varanda, e os gritos ficaram histéricos, tão sobrepujantes quanto a multidão em frenesi do lado de fora do palácio, nas ruas, milhares reunidos e entoando seu nome. No pátio, jovens sacerdotisas de Mala dançavam a cada pulsar do nome, adorando-a, fanáticas.
Com aquele poder – com as chaves que tinha obtido – o que criara para eles, os exércitos que construíra para afastar os inimigos, as plantações que cultivara, as sombras que havia afugentado... aquelas coisas não passavam de um milagre. Ela era mais que humana, mais que rainha.
Aelin.
Amada. Imortal. Abençoada.
Aelin.
Aelin do Fogo Selvagem. Aelin Coração de Fogo. Aelin Portadora da Luz.
Aelin.
Ela ergueu os braços, inclinando a cabeça para o sol, e os gritos fizeram todo o palácio branco tremer. Na testa dela, uma marca – a marca sagrada da linhagem de Brannon – brilhava azul. Ela sorriu para a multidão, para o povo, para o mundo, pronto para ser colhido.



Celaena se afastou de Maeve, cujo rosto estava pálido.
A rainha engolira a mentira. Não entendeu que a visão tinha sido dada a Celaena não para provocá-la, mas como um aviso – do que poderia se tornar se, de fato, encontrasse as chaves e ficasse com elas. Um presente do homem que Narrok um dia fora.
— Sugiro — disse a jovem para a rainha feérica — que pense com muito, muito cuidado antes de me ameaçar, ou meu povo, ou de ferir Rowan de novo.
— Rowan pertence a mim — sibilou Maeve. — Posso fazer o que quiser com ele.
Celaena olhou para o príncipe, que estava de pé tão bravamente, os olhos inertes pela dor. Não dos ferimentos nas costas, mas pela despedida que estivera se aproximando a cada passo que tomavam em direção a Doranelle.
Devagar, com cuidado, Celaena tirou o anel do bolso.



Não era o anel de Chaol que Celaena estivera segurando durante os últimos dias. Era o anel simples de ouro que tinha sido deixado na bainha de Goldryn. Ela o guardara durante todas aquelas semanas, pedindo que Emrys contasse história após história sobre Maeve conforme, com cuidado, juntava as peças da verdade sobre a tia, exatamente para aquele momento, para aquela tarefa.
A rainha ficou imóvel como a morte enquanto Celaena erguia o anel entre os dois dedos.
— Acho que está procurando isto há muito tempo — falou a jovem.
— Isso não pertence a você.
— Não? Eu o encontrei, afinal de contas. Na bainha de Goldryn, onde Brannon o deixou depois de pegar do cadáver de Athril, o anel de família que ele teria dado a você um dia. E nos milhares de anos desde então, você jamais o encontrou, então... Acredito que seja meu pelo acaso. — Celaena fechou o punho ao redor do anel. — Mas quem diria que você é tão sentimental?
Os lábios de Maeve se contraíram.
— Me dê isso.
A assassina soltou uma gargalhada.
— Não preciso dar droga nenhuma a você.
O sorriso sumiu. Ao lado do trono de Maeve, o rosto de Rowan estava indecifrável ao se virar para a cachoeira.
Tudo aquilo... tudo aquilo por ele. Por Rowan, que soubera exatamente que espada estava pegando naquele dia na caverna da montanha, que jogara a espada para ela sobre o gelo como um objeto de barganha futura: a única proteção que podia oferecer contra Maeve se Celaena fosse esperta o bastante para entender.
Ela só percebeu o que Rowan tinha feito – que ele soubera o tempo todo – quando mencionou o anel para ele semanas antes e o guerreiro disse que esperava que Celaena encontrasse alguma utilidade para o objeto. Rowan ainda não entendia que ela não tinha interesse em barganhar poder ou segurança ou uma aliança.
Então a jovem disse:
— Mas podemos fazer um acordo. — As sobrancelhas de Maeve sefranziram. Celaena ergueu o queixo. — O anel de seu amado pela liberdade de Rowan do juramento de sangue.
O corpo de Rowan enrijeceu. Os amigos dele viraram o rosto para a assassina.
— Um juramento de sangue é eterno — retorquiu a rainha, contendo-se.
Celaena achava que os amigos do guerreiro não estavam respirando.
— Não importa. Liberte-o. — Celaena estendeu o anel de novo. — Sua escolha. Liberte Rowan, ou derreto este anel aqui mesmo.
Que aposta; tantas semanas tramando e planejando e torcendo secretamente. Mesmo agora, Rowan não se virou.
Os olhos de Maeve permaneceram no anel. E Celaena entendia por que – era por isso que ela ousara tentar aquilo. Depois de um longo silêncio, o vestido de Maeve farfalhou quando esticou as costas, o rosto pálido e contraído.
— Muito bem. Fiquei mesmo bastante entediada com a companhia dele durante as últimas décadas.
O guerreiro a encarou – devagar, como se não acreditasse muito bem no que ouvia. Foi o olhar de Celaena, não o de Maeve, que Rowan encontrou, os olhos dele brilhavam.
— Por meu sangue que flui em você — disse a rainha. — Sem desonra, sem qualquer ato de traição, eu o liberto, Rowan Whitethorn, de seu juramento de sangue a mim.
Ele apenas a encarou, sem parar, e Celaena mal ouviu o restante, as palavras que Maeve disse no velho idioma. Mas Rowan puxou uma adaga e derramou o próprio sangue nas pedras, o que quer que aquilo significasse. A assassina jamais tinha ouvido falar de um juramento de sangue ter sido quebrado antes, porém arriscara mesmo assim. Talvez, em toda a história do mundo, nenhum tivesse sido desfeito de forma honrosa. Os amigos de Rowan estavam silenciosos e com os olhos arregalados.
Maeve falou:
— Você está livre de mim, príncipe Rowan Whitethorn.
Foi tudo o que Celaena precisou ouvir antes de atirar o anel para a rainha, antes de Rowan correr até ela, as mãos em suas bochechas, a testa contra a dela.
— Aelin — murmurou ele, e não foi uma reprimenda, ou um agradecimento, mas... uma oração. — Aelin — sussurrou o feérico de novo, sorrindo, e beijou a testa dela antes de se ajoelhar diante de Celaena.
Contudo, quando levou a mão para o pulso dela, a jovem recuou.
— Você está livre. Está livre agora.
Atrás deles, Maeve observava, as sobrancelhas erguidas. No entanto, Celaena não podia aceitar aquilo, não podia concordar com aquilo. Submissão total e completa, era o que significava um juramento de sangue.
Rowan entregaria tudo a ela – a vida, qualquer propriedade, qualquer livrearbítrio.
Mas o rosto de Rowan estava calmo, tranquilo, seguro. Confie em mim.
Não quero que seja meu escravo. Não serei esse tipo de rainha.
Você não tem corte – está indefesa, sem terras e sem aliados. Ela pode deixar que saia daqui hoje, mas pode ir atrás de você amanhã. Ela sabe o quanto sou poderoso – o quanto somos poderosos juntos. Isso vai fazer com que hesite.
Por favor, não faça isso. Darei qualquer outra coisa que pedir, mas não isso.
Eu reivindico você, Aelin. Para qualquer fim.
Celaena poderia ter continuado a discussão silenciosa, porém aquele calor estranho e feminino que sentiu no acampamento naquela manhã a envolveu, como se para assegurá-la de que não tinha problema querer tanto aquilo a ponto de doer, para dizer que podia confiar no príncipe, e mais que isso – mais que qualquer coisa, podia confiar em si mesma. Então, quando Rowan pegou o pulso de Celaena de novo, ela não protestou.
— Juntos, Coração de Fogo — falou Rowan, afastando a manga da túnica dela. — Vamos encontrar um modo juntos. — O guerreiro ergueu o olhar do pulso exposto de Celaena. — Uma corte que vai mudar o mundo — prometeu ele.
E então ela assentia. Assentia e sorria também conforme Rowan puxou a adaga da bota e a ofereceu a Celaena.
— Diga, Aelin.
Sem ousar permitir que as mãos tremessem diante de Maeve ou dos amigos chocados de Rowan, ela pegou a adaga e a segurou sobre o pulso exposto.
— Promete servir em minha corte, Rowan Whitethorn, de agora até o dia em que morrer? — Celaena não sabia as palavras certas nem conhecia o velho idioma, mas um juramento de sangue não se tratava de frases bonitas.
— Prometo. Até meu último suspiro, e no mundo além. Para qualquer fim.
A jovem teria parado ali, perguntado novamente se ele realmente queria fazer aquilo, mas Maeve ainda estava lá, uma sombra espreitando atrás dos dois. Fora por isso que Rowan fizera aquilo naquele momento, ali... para que Celaena não protestasse, não tentasse dissuadi-lo.
Era tão típico de Rowan, tão teimoso, que ela só conseguiu sorrir ao passar a adaga sobre o pulso, deixando um rastro de sangue. A jovem ofereceu o braço a ele.
Com delicadeza surpreendente, o guerreiro pegou o pulso de Celaena e abaixou a boca até a pele dela.
Por um segundo, algo brilhante como um relâmpago percorreu o corpo de Celaena, então se acalmou – um fio que os unia, mais e mais forte a cada gole que Rowan tomava do sangue. Três goles – os caninos pressionando a pele – então o guerreiro ergueu a cabeça, os lábios brilhando com o sangue, os olhos reluzindo e vivos e cheios de aço.
Não havia palavras que fizessem jus ao que se passou entre os dois naquele momento.
Maeve os salvou de tentarem se lembrar como falar ao sibilar:
— Agora que me insultaram mais ainda, saiam. Todos vocês.
Os amigos de Rowan se foram em um segundo, caminhando para as sombras, levando aqueles chicotes horríveis com eles.
Celaena ajudou o guerreiro a se levantar, permitindo que ele curasse o ferimento no pulso dela quando as costas do príncipe cicatrizavam. Ombro a ombro, os dois olharam uma última vez para a rainha feérica.
Mas havia apenas uma coruja branca batendo as asas para a noite de luar.



Os dois saíram correndo de Doranelle, sem parar até que encontrassem uma pousada reservada em uma cidade pequena e esquecida, a quilômetros de distância. Rowan nem mesmo ousou passar pelos próprios aposentos para pegar os pertences, e alegou que não tinha nada de valor para levar mesmo. Os amigos do guerreiro não foram atrás deles, não tentaram dizer adeus quando Celaena e Rowan atravessaram a ponte em direção às terras cobertas pela noite. Depois de horas correndo, Celaena caiu na cama e dormiu como os mortos. Contudo, ao alvorecer, implorou que Rowan tirasse as agulhas e a tinta da sacola.
Ela tomou banho, esfregando o corpo com sal grosso no minúsculo banheiro da pousada até que a pele brilhasse, enquanto o guerreiro preparava o que precisava. Ele não disse nada quando Celaena voltou para o quarto, mal dando mais que um olhar de relance quando ela tirou o roupão, nua até a cintura, e deitou de barriga para baixo na mesa de trabalho que Rowan pedira que levassem para o quarto. As agulhas e a tinta já estavam na mesa, as mangas tinham sido enroladas até os cotovelos e os cabelos estavam presos, fazendo com que as linhas elegantes e brutais da tatuagem ficassem mais visíveis.
— Respire fundo — disse Rowan. Celaena obedeceu, apoiando as mãos sob o queixo enquanto brincava com a lareira, agitando as próprias chamas entre as brasas. — Bebeu água e comeu o suficiente?
Ela assentiu. Devorara um café da manhã inteiro antes de entrar na banheira.
— Avise quando precisar levantar — falou Rowan, dando a Celaena a honra de não duvidar da decisão dela nem de avisá-la da dor iminente.
Em vez disso, passou a mão firme pelas costas cheias de cicatrizes, um artista avaliando a tela. Rowan percorreu os dedos fortes e calejados por cada cicatriz, testando, e a jovem sentiu cócegas.
Então o guerreiro começou o processo de desenhar as marcas, o guia que seguiria nas horas seguintes. No café da manhã, Rowan já fizera o rascunho de alguns desenhos para sua aprovação. Eram tão perfeitos que foi como se tivesse entrado na alma da jovem para encontrá-los. Aquilo não a surpreendeu de forma alguma.
Rowan deixou que ela usasse o banheiro quando terminou o rascunho, e logo Celaena estava, de novo, com o rosto contra a mesa, as mãos sob o queixo.
— Não se mova de agora em diante. Vou começar.
Ela resmungou em aceitação e manteve o olhar no fogo, nas brasas, conforme o calor do corpo de Rowan pairava sobre o dela. Celaena o ouviu inspirar de leve, então...
A primeira agulhada doeu – pelos deuses, com o sal e o ferro, doeu.
Celaena trincou os dentes, dominou a dor, recebeu-a. Era para isso que servia o sal naquele tipo de tatuagem, dissera Rowan. Para lembrar o tatuado da perda.
Que bom – que bom, foi tudo em que ela conseguiu pensar quando a dor irradiou pelas costas. Que bom.
E quando o guerreiro fez a marca seguinte, a assassina abriu a boca e começou a rezar.
Eram orações que devia ter feito dez anos antes: uma corrente tranquila de palavras no velho idioma, contando aos deuses da morte dos pais, da morte do tio, da morte de Marion – quatro vidas ceifadas naqueles dois dias. A cada ferroada da agulha, Celaena suplicava aos imortais sem rosto que levassem as almas dos entes queridos para o paraíso destes e que os mantivessem em segurança. Contou aos deuses sobre o valor das pessoas; contou das boas ações e das palavras de amor e dos atos de bravura que tinham realizado. Sem parar para tomar mais que um fôlego, Celaena entoou as orações que devia a eles como filha e amiga e herdeira.
Durante as horas que Rowan trabalhou, os movimentos dele tomando o ritmo das palavras de Celaena, ela entoou e cantou. O guerreiro não falou, o martelo e as agulhas eram o tambor para o cântico, entremeando o trabalho dos dois. Ele não a desonrou oferecendo água quando a voz de Celaena ficou rouca, a garganta tão arranhada que precisou sussurrar. Em Terrasen, teria cantado do alvorecer ao pôr do sol, de joelhos no cascalho, sem comida, bebida ou descanso. Ali, cantaria até que as marcas estivessem prontas, a dor nas costas era a oferenda aos deuses.
Ao terminar, as costas estavam feridas e latejando, assim ela precisou de algumas tentativas para se levantar da mesa. Rowan a seguiu para o campo próximo, escuro como a noite, ajoelhando com ela na grama enquanto Celaena erguia o rosto para cima, para a lua, e cantava a canção final, a canção sagrada de sua casa, o lamento feérico que devia a eles havia dez anos.
Rowan não emitiu uma palavra enquanto Celaena cantava, a voz falhando e rouca. Ele ficou no campo com a jovem até o alvorecer, tão permanente quanto as marcas em suas costas. Três linhas de texto se estendiam por cima das três maiores cicatrizes, a história de amor e perda agora escrita no corpo: uma linha para os pais e o tio; uma linha para Lady Marion; e uma linha para sua corte e povo.
Nas cicatrizes menores, mais curtas, estavam as histórias de Nehemia e de Sam. Os amados mortos.
Eles não estariam mais trancafiados em seu coração. Celaena não teria mais vergonha.

6 comentários:

  1. Laura do Bom Senso 42 #Zueira27 de fevereiro de 2016 12:16

    PQ tem dois capítulos 60 iguais? Acho que não era pra ser assim né, sei que na primeira vez que li o livro eu li os dois achando que eram diferentes, KKK le eu troxa

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    1. Um, boa pergunta. Postei duas vezes sem querer... vou apagar um deles ehuaheuaheua

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  2. Chorei nesse capítulo, muito massa...

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  3. Nossa, q tudo, tô vomitando acor - íris

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  4. Esse livro é genial!!!!
    Não tenho outra palavra para descrever.

    ~Mari

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  5. Ela libertou Rowan da Maeve *u* MORRI <3

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