6 de fevereiro de 2016

Capítulo 5

Na cozinha escura, Yrene recostou o corpo contra a porta dos fundos, uma das mãos sobre o coração palpitante conforme ouvia a briga do lado de fora. Mais cedo, a jovem tivera o elemento surpresa, mas como conseguiria enfrentá-los de novo?
As mãos da atendente tremiam ao ouvir o som do choque de lâminas e os gritos que penetravam pela fenda sob a porta. Estampidos, grunhidos, urros. O que estava acontecendo?
Não suportava não saber o que se passava com a jovem.
Abrir a porta dos fundos para olhar ia contra todos os seus instintos.
Yrene prendeu o fôlego com o que viu: O mercenário que havia escapado mais cedo voltara com mais amigos – amigos mais habilidosos. Dois estavam com o rosto no chão de paralelepípedos, poças de sangue ao redor. Mas os três restantes enfrentavam a jovem que estava... estava...
Pelos deuses, ela se movia como um vento negro, uma graciosidade tão letal e... A mão de alguém tapou a boca de Yrene ao agarrá-la por trás, pressionando algo frio e afiado contra seu pescoço. Havia outro homem, que entrara pela estalagem.
— Ande — sussurrou o homem na orelha dela, a voz áspera e estrangeira.
A criada não conseguia vê-lo, não conseguia dizer nada a respeito dele além da rigidez do corpo, do fedor das roupas, do roçar de uma barba espessa contra sua bochecha. O homem escancarou a porta e, ainda com a adaga contra o pescoço de Yrene, caminhou para o beco.
A jovem parou de lutar. Outro mercenário tinha caído, e os dois restantes apontavam as lâminas para a estranha.
— Solte as armas — falou o homem.
Yrene teria sacudido a cabeça para avisar à jovem que não revidasse, mas a adaga estava tão próxima que qualquer movimento que fizesse teria cortado sua garganta.
A garota olhou para os agressores, então para o captor de Yrene, depois para a própria Yrene.
Calma... extremamente calma e fria ao exibir os dentes em um sorriso selvagem.
— Venha buscá-las.
O estômago da atendente pesou. O homem precisava apenas mover o punho e a faria sangrar até a morte. Não estava pronta para morrer, não agora, não em Innish.
O captor deu um risinho.
— Palavras corajosas e tolas, garota. — O homem apertou mais a lâmina, e Yrene encolheu o corpo. Ela sentiu a umidade do sangue antes de perceber a linha fina que fora cortada em seu pescoço. Que Silba a salvasse.
Mas os olhos da jovem estavam sobre Yrene e se semicerraram levemente. Em desafio, um comando. Revide, era o que parecia dizer. Lute por sua vida infeliz.
Os dois homens com as espadas se aproximaram, mas a estranha não soltou a lâmina.
— Solte as armas antes que eu a corte — grunhiu o captor. — Depois que terminarmos de fazer você pagar por nossos companheiros, por todo o dinheiro que nos custou com as mortes deles, talvez eu permita que ela viva. — O homem apertou Yrene com mais força, mas a jovem apenas observou. O mercenário ciciou: — Solte as armas.
Ela não soltou.
Pelos deuses, permitiria que ele a matasse, não permitiria?
Yrene não podia morrer daquele jeito – não aqui, não como uma atendente de bar qualquer naquele lugar horrível. Sua mãe caíra empunhando a espada, tinha lutado pela filha, matara aquele soldado para que Yrene pudesse ter uma chance de fugir, de fazer algo da vida. Fazer algum bem pelo mundo.
Não morreria daquele jeito.
O ódio a atingiu, tão desconcertante que Yrene mal conseguia enxergar através dele, mal podia ver qualquer coisa, exceto um ano em Innish, um futuro além do alcance e uma vida da qual não estava pronta para se despedir.
Ela não deu aviso antes de pisar com o máximo de força na curva do pé do homem. Ele se abaixou, urrando, e Yrene ergueu os braços, empurrando a adaga para longe da garganta com uma das mãos enquanto levava o cotovelo até o estômago dele. A atendente golpeou com cada pingo de ódio que tinha dentro de si. O homem gemeu ao curvar o corpo, então ela acertou o cotovelo na têmpora do agressor, exatamente como a jovem havia mostrado.
O homem caiu de joelhos, e Yrene disparou. Para fugir, para buscar ajuda, ela não sabia.
Mas a jovem já estava diante de Yrene, com um sorriso largo. Atrás, os dois homens estavam caídos e imóveis. E o homem de joelhos...
A atendente desviou para o lado quando a jovem pegou o homem arquejante e o arrastou para a escura névoa distante. Ouviu-se um grito abafado, então um estampido.
E apesar do sangue de curandeira, apesar do estômago que herdara, Yrene mal deu dois passos antes de vomitar.
Quando terminou, viu que a estranha a observava de novo, sorrindo levemente.
— Aprende rápido — disse ela. As roupas finas, mesmo o broche de rubi escuro e reluzente, estavam cobertas de sangue. Não o sangue dela, reparou Yrene, com algum alívio. — Tem certeza de que quer ser curandeira?
A moça limpou a boca no canto do avental. Não queria saber qual era a alternativa, o que aquela menina poderia ser. Não, só queria golpeá-la. Com força.
— Poderia tê-los matado sem mim! Mas deixou aquele homem segurar uma faca contra meu pescoço... você deixou! É louca?
Dando um risinho de um jeito que dizia que sim, que ela era certamente louca, falou em seguida:
— Esses homens eram uma piada. Queria que tivesse uma experiência de verdade em um ambiente controlado.
— Chama isso de controlado? — Yrene não conseguia deixar de gritar.
Levou a mão para o corte já coagulado no pescoço. Melhoraria rapidamente, mas poderia deixar uma cicatriz. Precisaria cuidar do ferimento imediatamente.
— Veja dessa forma, Yrene Towers: agora sabe que consegue. Aquele homem tinha duas vezes seu peso e quase 30 centímetros a mais de altura, e você o derrubou em alguns segundos.
— Acabou de dizer que eram uma piada.
Um sorriso malicioso.
— Para mim, eles são.
O sangue de Yrene esfriou.
— Eu... eu já tive o bastante por hoje. Acho que preciso ir para a cama.
A garota fez uma reverência.
— E eu deveria seguir meu caminho. Um conselho: limpe o sangue das roupas e não conte a ninguém o que viu esta noite. Aqueles homens podem ter mais amigos e, pelo que sei, foram infelizes vítimas de um roubo terrível. — A estranha ergueu uma bolsa de couro cheia de moedas, então passou por Yrene e entrou na estalagem.
A atendente olhou para os corpos, sentiu um peso no estômago e a seguiu para dentro. Ainda estava furiosa com a jovem, ainda tremia com os resquícios do terror e do desespero.
Então não se despediu da garota letal quando ela desapareceu.

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