28 de fevereiro de 2016

Capítulo 5

A noite poderia muito bem acabar com seu sangue derramado, Aelin percebeu enquanto se lançava violentamente pelas ruas tortuosas das favelas, embainhando suas facas ensanguentadas para evitar deixar um rastro gotejante atrás dela.
Graças a meses de treinamento nas montanhas Cambrian com Rowan, sua respiração se manteve estável, a cabeça, clara. Ela supôs que depois de enfrentar skinwalkers, de escapar de criaturas antigas do tamanho de pequenas casas e de incinerar quatro príncipes demoníacos, vinte homens perseguindo-a não era tão horrível, afinal.
Mas ainda sentia uma dor gigante no traseiro. E aquele provavelmente não seria o final mais agradável para ela. Nenhum sinal de Chaol – não havia o sussurro de seu nome nos lábios dos homens que a tinham seguido desde os Cofres. Ela não reconheceu nenhum deles, mas sentiu o cheiro que marcava a maioria daqueles que estivera em contato com uma chave de Wyrd, ou foram corrompidos por ela. Eles não usavam colares ou anéis, mas algo dentro destes homens apodrecera, no entanto.
Pelo menos Arobynn não a tinha traído, embora fosse conveniente que ele tivesse deixado o Cofres apenas alguns minutos antes de os novos guardas do rei finalmente encontrassem a trilha sinuosa que ela deixara a partir das docas. Talvez fosse um teste para ver se suas habilidades permaneciam dentro dos padrões de Arobynn, e ela devia aceitar o seu pequeno negócio.
Enquanto cortara seu caminho através de corpo após corpo, ela se perguntou se ele mesmo percebeu que toda esta noite fora um teste para ele também, e que ela tinha levado os homens direto para o Cofres. Ela se perguntou quão furioso ele estaria quando descobrisse o que restava do salão de prazer onde ele gastara tanto dinheiro.
Ele também enchera os cofres daqueles que mataram Sam – e que desfrutaram cada momento. Que pena que o atual proprietário dos Cofres, um ex-subalterno de Rourke Farran e um negociante de carne e opiáceos, tivesse acidentalmente corrido entre suas facas. Repetidamente.
Ela deixou o Cofres em lascas sangrentas, onde supostamente foi misericordiosa. Se ela tivesse a sua magia, provavelmente teria queimado tudo e deixado às cinzas. Mas ela não tinha, e seu corpo mortal, apesar de meses de treinamento duro, estava começando a parecer cada vez mais pesado enquanto ela continuava sua corrida pelos becos. A rua larga na sua outra extremidade era muito iluminada, aberta demais.
Ela desviou em direção a uma pilha de engradados quebrados e lixo amontoado contra a parede de um prédio de tijolos, alto o suficiente para que se ela calculasse com certeza, poderia saltar para a janela a alguns metros acima.
Atrás dela, mais perto agora, apressando os passos, os gritos soaram. Eles tiveram que ser rápidos como o inferno para manter o ritmo dela.
Bem, malditos.
Ela saltou sobre as grades, a pilha tremendo e balançando enquanto ela escalava com cada movimento conciso, rápido e equilibrado. Um movimento errado e ela ficaria presa através da madeira podre, ou derrubaria a coisa toda para o chão. As caixas gemeram, mas ela continuou se movendo para cima e para cima e para cima, até que atingiu o topo e pulou para o parapeito da janela destacada.
Seus dedos gritavam de dor, cravando o tijolo com tanta força que as unhas quebraram dentro de suas luvas. Ela rangeu os dentes e se puxou, arrastando-se sobre a borda e, em seguida, através da janela aberta. Ela se permitiu dois batimentos cardíacos para se posicionar na cozinha apertada: escura e limpa, uma vela acesa no corredor estreito além. Segurando suas facas, os gritos se aproximando do beco abaixo, ela foi para o corredor.
Casa – era a casa de alguém, e ela estava levando homens através dela. Ela voou pelo corredor, os pisos de madeira estremecendo sob suas botas. Havia dois quartos, ambos ocupados. Merda. Merda.
Três adultos estavam deitados em colchões sujos no primeiro quarto. E mais dois dormiam no outro, um deles pulando de pé quando ela trovejou de passagem.
— Fique aí — ela sussurrou o único aviso que podia dar antes de alcançar a porta restante no corredor, a maçaneta travada por uma cadeira. Era cercado de tanta proteção quanto eles podiam encontrar nas favelas.
Ela arremessou a cadeira para o lado, enviando-a ruidosamente contra as paredes do corredor estreito, onde atrasaria seus perseguidores por alguns segundos, pelo menos. Ela escancarou a porta do apartamento, o trinco frágil rompendo-se com um estalo. Levou meio segundo para arremessar uma moeda de prata atrás dela para pagar pelos danos e por uma fechadura melhor.
Havia uma escada comum na frente, os degraus de madeira manchados e apodrecidos. Completamente escuro. Vozes masculinas ecoaram bastante perto, e passos soaram na parte inferior da escada.
Aelin tomou as escadas para cima. Subiu e subiu, sua respiração agora como vidro afiado em seus pulmões, até que ela passou do terceiro nível, até as escadas se estreitarem, e...
Aelin não se incomodou em fazer silêncio quando bateu a porta do telhado. Os homens já sabiam onde ela estava. O ar da noite amena sufocava, e ela engoliu-o enquanto examinava o telhado e as ruas abaixo. O beco dos fundos era muito largo; a ampla rua à sua esquerda não era uma opção, mas... ali.
Faça talvez uma visita à seção sudeste dos túneis esta noite. Você pode encontrar a pessoa que está procurando
Ela sabia o que ele queria dizer. Outro pequeno presente, uma peça em seu jogo.
Com a facilidade de um felino, ela deslizou para baixo do cano de escoamento preso ao lado do edifício. Muito acima, os gritos cresceram. Tinham chegado ao telhado. Ela caiu em uma poça que, sem dúvida, cheirava a urina, e estava correndo antes que o impacto tivesse estremecido plenamente através de seus ossos.
Ela correu na direção da grade, caindo de joelhos e deslizando os últimos metros até os dedos segurarem a tampa, e puxou-a aberta. Silenciosa, rápida, eficiente.
Os esgotos abaixo estavam misericordiosamente vazios. Ela reprimiu a ânsia contra o fedor já subindo.
No momento em que os guardas espiaram por cima da borda do telhado, ela já tinha ido.



Aelin detestava os esgotos. Não porque eles eram imundos, fétidos e cheios de vermes. Eles eram, na verdade, uma maneira conveniente de se locomover de maneira invisível em Forte da Fenda sem perturbações, se se conhecesse o caminho.
Ela o odiava desde que fora amarrada e deixada ali para morrer, cortesia de um guarda-costas que não tinha levado tão bem os planos dela de matar seu mestre. Os esgotos tinham inundado, e depois de libertar-se de suas amarras, ela nadara – literalmente – nadara através da água podre. Mas a saída estava selada, e Sam, por pura sorte, a salvara, mas não antes de ela quase se afogar, engolindo metade do esgoto ao longo do caminho.
Levou dias e incontáveis banhos para ela se sentir limpa. E infinitos vômitos.
Assim que entrou no esgoto e, em seguida, recolocou a grade acima de sua... pela primeira vez naquela noite, suas mãos tremiam. Mas ela se forçou a engolir o eco do medo e começou a caminhar através dos túneis ao luar.
Escutando.
Na direção sudeste, ela tomou um túnel grande, antigo, uma das principais artérias do sistema. Ele provavelmente estava ali desde que Gavin Havilliard decidira estabelecer sua capital ao longo do Avery. Ela parava de vez em quando para ouvir, mas não havia sinais de seus perseguidores atrás dela.
Uma intersecção de quatro túneis diferentes assomava à frente, e ela diminuiu seus passos, segurando suas facas de combate. Os dois primeiras eram iluminados; o terceiro – o que iria levá-la direto para o caminho do capitão se ele estivesse no castelo – mais escuro, mas largo. E o quarto... sudeste.
Ela não precisava dos sentidos feéricos para saber que a escuridão vindo do túnel sudeste não era do tipo habitual. O luar das grades acima não atingia lá. Nenhum ruído vinha de lá, nem mesmo o de ratos correndo.
Outro truque de Arobynn – ou um presente? Os sons fracos que ela ouvira tinham vindos nessa direção. Mas qualquer trilha morria aqui.
Ela caminhou de um lado para o outro diante do ponto onde a luz turva desaparecia na escuridão impenetrável. Silenciosamente, pegou uma pedra caída e atirou na escuridão à frente.
Não houve nenhum som de pedra atingindo o chão.
— Eu não faria isso se eu fosse você.
Aelin virou-se na direção da voz feminina letal, casualmente reclinando suas facas.
A guarda encapuzada do Cofres estava encostada contra a parede do túnel vinte passos atrás dela.
Bem, pelo menos um deles estava aqui. Quanto Chaol...
Aelin levantou uma faca quando caminhou para a guarda, engolindo cada detalhe.
— Aproximar-se furtivamente de estranhos nos esgotos também é algo que eu não aconselharia.
Quando Aelin deu mais alguns passos, a mulher ergueu as mãos delicadas, mas com cicatrizes. Sua pele era bronzeada, mesmo na luz pálida dos postes da avenida acima. Se ela conseguiu esgueirar-se até ali, teve de ser treinada em combate ou furto ou ambos. É claro que ela era hábil, se Chaol a levara como guarda-costas para o Cofres. Mas onde ele estava agora?
— Salões de diversão de má reputação e esgotos — disse Aelin, mantendo suas facas para fora. — Você certamente tem uma boa vida, não é?
A jovem se afastou da parede, a cortina de tinta de seu cabelo nas sombras de seu capuz.
— Nem todos nós somos abençoados o suficiente para estar na folha de pagamento do rei, campeã.
Ela a reconhecera, então. A verdadeira questão era saber se ela contara a Chaol – e onde ele estava agora.
— Atrevo-me a perguntar por que eu não deveria atirar pedras para baixo nesse túnel?
A guarda apontou para o túnel mais próximo atrás dela, brilhante ao ar livre.
— Venha comigo.
Aelin riu.
— Você terá que fazer melhor do que isso.
A mulher deu um passo mais perto, o luar iluminando seu rosto delgado sob o capuz. Bonita, séria, e talvez dois ou três anos mais velha.
A estranha disse sem rodeios:
— Você tem vinte guardas em seu encalço, e eles são astutos o suficiente para começar a procurar aqui embaixo muito em breve. Sugiro que você venha comigo.
Aelin estava meio tentada a sugerir que ela fosse para o inferno, mas sorriu ao invés disso.
— Como você me encontrou? — ela não se importava; só precisava senti-la um pouco mais.
— Sorte. Estava fazendo minha patrulha, ouvi a comoção na rua e descobri que você tinha feito novos amigos. Normalmente, nós temos uma política de atire primeiro, pergunte depois, sobre pessoas vagando nos esgotos.
— E quem seria esse “nós”? — Aelin perguntou docemente.
A mulher simplesmente começou a seguir o túnel brilhante, completamente despreocupada com as facas de Aelin ainda desembainhadas. Arrogante e estúpida, então.
— Você pode vir comigo, campeã, e aprender algumas coisas que provavelmente vai querer saber, ou pode ficar aqui e esperar para ver o que responde a essa pedra que você jogou.
Aelin pesava as palavras – e o que tinha visto e ouvido ao longo daquela noite. Apesar do arrepio na espinha, ela foi atrás da guarda-costas, embainhando suas facas em suas coxas.
A cada quarteirão que marchou através do esgoto, Aelin usou a calma para reunir suas forças.
A mulher caminhava rápida, mas suavemente para outro túnel, e depois outro. Aelin marcava cada passo, cada característica única, cada grade, formando um mapa mental enquanto se moviam.
— Como você me conhece? — Aelin perguntou por fim.
— Eu a vi em torno da cidade meses atrás. O cabelo vermelho, foi por isso que não a identifiquei  imediatamente no Cofres.
Aelin observou-a a partir do canto do olho. A estranha podia não saber quem Chaol realmente que era. Ele podia ter usado um nome diferente, apesar do que a mulher alegara saber sobre o que quer que fosse, ou estava procurando, pensou Aelin.
A mulher disse com aquela a voz letal, calma:
— Os guardas a perseguindo porque a reconheceram ou porque você conseguiu a luta que estava tão desesperada para ter no Cofres?
Ponto para a estranha.
— Por que você não me contou? Sobre os guardas que trabalhara para o capitão Westfall?
A mulher riu baixinho.
— Não, aqueles guardas não respondem a ele.
Aelin reprimiu seu suspiro de alívio, mesmo que mais mil perguntas chacoalhassem em seu crânio.
Suas botas esmagaram algo mole demais para ser confortável, e ela reprimiu um estremecimento quando a mulher parou diante da entrada de outro longo túnel, a primeira metade iluminada pelo luar através das grades dispersas. Escuridão não natural vinha da extremidade distante. A quietude predatória se apoderou de Aelin quando ela olhou para a escuridão. Silêncio. Silêncio absoluto.
— Aqui — disse a estranha, aproximando-se de uma passagem de pedra elevada construída ao lado do túnel. Tola. Tola por expor suas costas assim. Ela nem sequer viu Aelin libertar uma faca.
Elas tinham ido longe o suficiente.



A mulher pisou na pequena escada escorregadia que dava para a passarela, seus movimentos de pernas compridas e graciosas. Aelin calculava a distância até as saídas mais próximas, a profundidade do rio de sujeira que atravessa o centro do túnel. Profundido suficiente para despejar um corpo, se for necessário.
Aelin armou a faca e colocou-se atrás da mulher, tão perto quanto um amante, e pressionou a lâmina contra a garganta dela.

7 comentários:

  1. Laura do Bom Senso 42 #Zueira28 de fevereiro de 2016 18:44

    A mulher vai dar uma de ninja e desviar, certeza

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  2. Eu ñ gostei dessa tal mulher

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  3. Toh em dúvida mata ou não mata ela pode ser aliada e tbm pode ser inimiga.

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  4. De onde veio essa tal ai? E pq diabos ela ta andando com o nosso querido Cap?

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  5. Tomara q essa tia se for do bem fique com o Chaol pq a Aelin já tem o Rowan!!!!
    Mas não sei se gosto dessa tia... Ninguém pode ser melhor q a Celena!!!!

    ~Mari

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  6. N me importe se essa mulher quisesse casar com o Chaol, n gostei dela por ser toda arrogantezinha pra cima da Celaena, n mexe com meu bebê u-u Embora eu adore ver a Celaena chutar a bunda de todo mundo q sempre duvida dela.

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