29 de fevereiro de 2016

Capítulo 54

Manon olhou para a carta que o mensageiro trêmulo acabara de entregar. Elide tentava o seu melhor para não parecer estar observando cada movimento dos olhos de Manon ao longo da página, mas era difícil não olhar quando a bruxa rosnava a cada palavra que lia.
Elide estava deitada no colchão de feno, o fogo já morrendo em brasas, e gemeu quando se sentou, seu corpo dolorido. Ela encontrara um cantil de água na despensa, e até mesmo perguntara ao cozinheiro se podia levá-lo para a Líder Alada. Ele não se atreveu a negar. Ou invejar-lhe os dois saquinhos de nozes que ela também pegara “para a Líder Alada”. Melhor que nada.
Ela guardara tudo sob eu colchão, e Manon não tinha notado. Logo o vagão chegaria com os suprimentos. Quando saísse, Elide estaria nele. E nunca teria que lidar com nada dessa escuridão novamente.
Elide se aproximou da pilha de lenha e acrescentou duas toras no fogo, fazendo faíscas voarem. Ela estava prestes a deitar-se novamente quando Manon falou da mesa:
— Em três dias, sairei com minhas Treze.
— Para onde? — Elide ousou perguntar.
Desde a violência com que o Líder Alada lera a carta, não poderia ser a qualquer lugar agradável.
— Para uma floresta no norte. Que... — Manon se levantou e caminhou, seus passos leves mas poderosos quando foi até a lareira e atirou a carta ali. — Ficarei fora por pelo menos dois dias. Se eu fosse você, usaria esse tempo para ficar quieta.
O estômago de Elide torceu com o pensamento do que, exatamente, poderia significar para a proteção a Líder Alada estar a milhares de quilômetros de distância.
Mas não havia nenhum ponto em falar com Manon. Ela não se importaria, mesmo que tivesse reivindicado Elide como uma de sua espécie.
Não significava nada, de qualquer maneira. Ela não era uma bruxa. Fugiria em breve. Duvidava que alguém aqui realmente pensaria duas vezes sobre seu desaparecimento.
— Eu vou ficar quieta — concordou Elide.
Talvez na parte traseira de uma carroça, quando fizesse o seu caminho para fora de Morath e à liberdade além.



Levou três dias inteiros para se preparar para a reunião.
A carta da Matricarca não continha nenhuma menção à criação e ao abate de bruxas. Na verdade, era como se a avó não tivesse recebido qualquer uma das mensagens de Manon. Assim que voltasse desta pequena missão, ela começaria a questionar os mensageiros do castelo. Devagar. Dolorosamente.
As Treze voariam para as coordenadas de Adarlan – bem no meio do reino, adentrando no emaranhado da Floresta Carvalhal – e chegariam um dia antes da reunião organizada para estabelecer um perímetro seguro.
Para o rei de Adarlan finalmente ver a arma que sua avó tinha construíra, e, aparentemente, inspecionar Manon também. Ele levaria seu filho, apesar de Manon duvidar que fosse para guardar suas costas da maneira que as herdeiras protegiam suas Matriarcas. Ela não se importava particularmente – sobre qualquer coisa dessas.
Uma reunião estúpida e inútil, ela quase queria dizer a sua avó. Um desperdício de seu tempo.
Pelo menos ver o rei lhe daria a oportunidade de conhecer o homem que enviava ordens de destruir bruxas e fazer monstruosidades às suas donzelas. Pelo menos ela seria capaz de falar à sua avó em pessoa sobre isso, talvez até mesmo testemunhar a Matriarca fazer picadinho do rei uma vez quando descobrisse a verdade sobre o que ele tinha feito.
Manon subiu na sela e Abraxos caminhou pela trave, ajustando-se à armadura que o ferreiro da fortaleza finalmente forjara – finalmente leves o suficiente para as serpentes aladas aguentarem – que agora seria testada nesta viagem. O vento era pouco para ela, mas Manon o ignorou. Assim como ignorou as Treze.
Asterin não falava com ela, e nenhuma delas discutira sobre o príncipe valg que o duque enviara para elas.
Tinha sido um teste para ver quem sobreviveria, e para lembrá-la o que estava em jogo.
Assim como desencadear o fogo de sombras naquele povoado fora um teste.
Ela ainda não podia escolher um clã. E não escolheria até que tivesse falado com sua avó. Mas duvidava que o duque fosse esperar muito mais tempo.
Manon olhou para a queda, o exército sempre crescente varrendo as montanhas e vales como um tapete de escuridão e fogo – muitos mais soldados escondidos abaixo dela. Suas sombras haviam relatado de manhã sobre as manchas magras, criaturas aladas com formas humanas retorcidas que subiam através do céu noturno – rápidas e ágeis para vigiar antes que desaparecessem nas nuvens escuras. A maioria dos horrores de Morath, Manon suspeitava, ainda não havia sido revelada. Ela se perguntou se os comandaria, também.
Ela sentiu os olhos de suas Treze sobre ela, esperando o sinal.
Manon cravou seus calcanhares nas laterais de Abraxos, e eles caíram – livres para o ar.



A cicatriz em seu braço doía.
Ela sempre doía – mais do que o colar, mais do que o frio, mais do que as mãos do duque sobre ela, mais do que tudo o que tinha sido feito. Apenas o fogo de sombras era um conforto.
Ela acreditara uma vez que tinha nascido para ser rainha. Aprendera então que tinha nascido para ser uma loba.
O próprio duque lhe colocara uma coleira como a uma cadela, e empurrara um príncipe demônio para dentro dela.
Ela o deixara ganhar por um tempo, enrolando-se com tanta força dentro de si mesma que o príncipe se esquecera de que ela estava lá.
E ela esperou.
Nesse casulo de escuridão, esperou sua hora, deixando-o pensar que ela se fora, deixando-os fazer o que queriam com a concha mortal ao seu redor. Foi nesse casulo que o fogo de sombras começou a piscar, alimentando-se, alimentando-a. Há muito tempo, quando ela era pequena e limpa, chamas douradas faiscavam de seus dedos, secretos e ocultos. Em seguida, elas desapareceram, como todas as coisas boas.
E agora elas voltaram – renasceram dentro dessa concha escura como um fogo fantasma.
O príncipe dentro dela não percebeu quando começou a mordiscá-lo.
Pouco a pouco, ela tomou partes da criatura sobrenatural que tomara seu corpo para se cobrir, que fez essas coisas desprezíveis com ela.
A criatura notou o dia em que ela abocanhou uma parte maior, grande o suficiente para que ele gritasse em agonia.
Antes que pudesse contar a alguém, ela pulou em cima dele, rasgando e rasgando com o fogo de sombras, até que apenas cinzas de malícia permaneceram, até que não fosse mais que um sussurro de pensamento. Fogo – ele não gostava de fogo de qualquer tipo.
Ela estava há semanas ali. Esperando novamente. Aprendendo sobre a chama em sua veias – como a coisa que sangrou em seu braço e ressurgiu como fogo de sombras. A coisa falou com ela, às vezes, em línguas que nunca tinha ouvido falar, que talvez nunca tivesse existido.
O colar permaneceu em torno de seu pescoço, e ela se deixou ordenar ao redor, os deixou lhe tocarem, e machucarem. Logo – logo ela encontraria o verdadeiro propósito, e então uivaria sua ira para a lua.
Tinha esquecido o nome que fora dado a ela, mas isso não fazia diferença. Ela tinha apenas um nome agora:
Morte, devoradora de mundos.

9 comentários:

  1. Laura do Bom Senso 42 #Zueira1 de março de 2016 20:33

    E eu pensava que ela era fraca e burra, a menina é poderosa, sofremos humiliations, velho, a Celaena era A Morte Portadora do Fogo

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  2. Eu não daria nada a Kaltain no primeiro livro. Pra mim, ela nem ia ter muita importância. Sarah J Maas nos dando outra rasteira!

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  3. So falta o Dorian lutar contra esse demônio q entrou no corpo dele ai salvem-se q puder

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  4. mds so fico pensando quando alein soutar a magia vai se um destroso!

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  5. Rapaz mais a menina não é fraca não e é ardilosa sabe planejar e dah o bote na hora certa.

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  6. Sabia que ela ia ter importância assim que eles levaram ela o primo do Dorian pensei provavelmente ela tem magia...

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  7. Caraca mais uma q vai se juntar ao bonde da Aelin!!!!

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  8. Morte, devoradora de mundos <3

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  9. Será q gelo funciona? Tipo, tem q ter alguma maneira de Dorian voltar!
    Será q é só o fogo msm?

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