28 de fevereiro de 2016

Capítulo 50

— Como esses homens mantêm este lugar em segredo? — Aelin murmurou quando se virou para Chaol.
Os quatro estavam no topo de uma pequena escada, o espaço cavernoso além deles iluminado em dourado cintilante pelas tochas de Aedion e Rowan.
Chaol balançava a cabeça, examinando o espaço. Não era um sinal de catadores, graças aos deuses.
— Diz a lenda que o mercado negro foi construído sobre os ossos do deus da verdade.
— Bem, eles estavam certos sobre os ossos.
Em cada parede, crânios e ossos estavam artisticamente dispostos em todas as paredes, até mesmo no teto – as estruturas foram erguidas a partir deles. Até mesmo o chão ao pé da escada era formado por ossos de diferentes formas e tamanhos.
— Estas não são catacumbas comuns — disse Rowan, erguendo sua tocha. — Era um templo.
E realmente, havia altares, bancos e até mesmo uma piscina escura no enorme espaço. Um lugar ainda maior abria-se nas sombras.
— Há escritas nos ossos — Aedion percebeu, descendo os degraus e pisando no chão ósseo.
Aelin fez uma careta.
— Cuidado — recomendou Rowan quando Aedion foi para a parede mais próxima.
Seu primo levantou uma mão em dispensa preguiçosa.
— Estão em todas as línguas, em diferentes caligrafias — Aedion maravilhou-se, segurando a tocha no alto enquanto se movia ao longo da parede. — Ouçam isto: “Eu sou um mentiroso. Eu sou um ladrão. Matei o marido da minha irmã e ri enquanto fazia isso” — uma pausa. Ela leu outro em silêncio. — Nada disso foi escrito... não acho que essas eram boas pessoas.
Aelin explorou o templo ósseo.
— Devemos ser rápidos — disse ela. — Realmente muito rápidos, Aedion, você toma essa parede; Chaol, a do meio; Rowan, a da direita... Vou para a dos fundos, e cuidado onde balançam essa tocha.
Deuses os ajudassem se eles inadvertidamente colocassem uma tocha perto do fogo infernal.
Ela desceu um degrau, depois outro. Em seguida, o último, e pisou no chão de ossos.
Um tremor a atravessou, e ela olhou para Rowan por instinto. Seu rosto apertado lhe disse tudo o que ela precisava saber. Mas ele falou mesmo assim:
— Este é um lugar ruim.
Chaol passou por eles, espada erguida.
— Então vamos encontrar o abastecimento de fogo infernal e sair.
Certo.
Em volta deles, os olhos vazios dos crânios nas paredes, nas estruturas e nos pilares do centro da sala pareciam assistir.
— Parece que esse deus da verdade — Aedion falou de sua parede — foi mais de um comedor de pecados do que qualquer coisa. Vocês deviam ler algumas das coisas que as pessoas escreveram, as coisas horríveis que fizeram. Acho que este foi um lugar para eles serem enterrados, e confessarem sobre os ossos de outros pecadores.
— Não admira que ninguém queira vir aqui — Aelin murmurou enquanto caminhava para a escuridão.



O templo continuava e continuava, e eles encontraram pertences – mas nenhum sussurro de mendigos ou outros residentes. Drogas, dinheiro, joias, tudo escondido dentro de crânios e em algumas das criptas de ossos no chão. Mas nenhum fogo infernal.
Seus passos cautelosos no chão ósseo eram os únicos sons.
Aelin se movia cada vez mais fundo na escuridão. Rowan logo examinou a lateral do templo e se juntou a ela na parte de trás, explorando os nichos e pequenos corredores que se ramificavam para a escuridão adormecida.
— A linguagem — Aelin disse-lhe. — Fica cada vez mais velha à medida que nos aprofundamos. A maneira como eles soletram as palavras, quero dizer.
Rowan foi na direção dela, saindo de onde tinha acabado de abrir cuidadosamente um sarcófago. Ela duvidava que um homem comum fosse capaz de deslocar a tampa de pedra.
— Alguns deles até datam suas confissões. Vi apenas um de sete séculos atrás.
— Faz você parecer jovem, não é?
Ele lhe deu um sorriso irônico. Ela rapidamente desviou o olhar.
O piso ósseo estalou quando ele deu um passo na direção dela.
— Aelin.
Ela engoliu em seco, olhando para um osso esculpido perto de sua cabeça. Eu matei um homem por esporte quando tinha vinte anos e nunca contei a ninguém onde o sepultei. Mantive o osso de seu dedo em uma gaveta.
Datada de novecentos anos atrás.
Novecentos...
Aelin estudou a escuridão além. Se o mercado negro datava antes de Gavin, então este lugar tinha que ter sido construído antes disso – ou ao mesmo tempo.
O deus da verdade...
Ela puxou Damaris de suas costas, e Rowan ficou tenso.
— O que é isso?
Ela examinou a lâmina impecável.
— A Espada da Verdade. Assim chamaram Damaris. As lendas diziam que seu portador, Gavin, podia ver a verdade quando a portava.
— E?
— Mala abençoou Brannon, e abençoou Goldryn — ela olhou para a escuridão. — E se houvesse um deus da verdade – um Comedor de Pecados? E se ele abençoou Gavin, e esta espada?
Rowan agora olhou em direção a antiga escuridão.
— Você acha que Gavin usou este templo.
Aelin pesou a poderosa espada em suas mãos.
— Quais pecados você tinha para confessar, Gavin? — ela sussurrou para a escuridão.



Estavam nas profundezas dos túneis, e quando o grito triunfante de Aedion de “Encontrei!” chegou até Aelin e Rowan, ela mal pôde ouvi-lo. E mal se importou.
Não quando estava diante da parede dos fundos – da parede atrás do altar do que tinha sido, sem dúvida, o templo original. Aqui os ossos estavam quase em ruínas pela idade, a escrita quase impossível de ler.
A parede atrás do altar era de puro branco – mármore esculpido em marcas de Wyrd.
E no centro havia uma representação gigante do Olho de Elena.
Frio. Estava tão frio ali que a respiração se condensava na frente deles, misturando-se.
— Quem quer que esse deus da verdade foi — murmurou Rowan, como se tentasse não ser ouvido pelos mortos — não era uma espécie de divindade benevolente.
Com um templo construído a partir dos ossos de assassinos e ladrões e coisa pior, ela duvidava que esse deus tivesse sido um favorito em particular. Não era de admirar que tivesse sido esquecido.
Aelin andou até a pedra.
Damaris ficou gelada em sua mão – tão glacial que seus dedos se abriram e ela deixou a espada cair no chão do altar e se afastou. Seu tinido contra os ossos foi como um trovão.
Rowan estava instantaneamente ao seu lado, as espadas para fora.
A parede de pedra diante deles gemeu.
Ela começou a mudar, os símbolos girando, alterando-se. À partir da centelha em sua memória, ela ouviu as palavras: É apenas com o olho que se pode ver corretamente.
— Francamente — Aelin falou quando a parede finalmente parou, reorganizando-se com a proximidade da espada. Uma nova matriz intrincada de marcas de Wyrd tinha se formado. — Não sei por que essas coincidências ainda me surpreendem.
— Você consegue ler? — perguntou Rowan.
Aedion chamou os seus nomes, e Rowan gritou de volta, dizendo-lhes para vir.
Aelin olhou para os símbolos esculpidos.
— Isso pode levar algum tempo.
— Faça-o. Não penso que foi por acaso que encontramos este lugar.
Aelin tremeu com um arrepio. Não – nada nunca era ao acaso. Não quando se tratava de Elena e as chaves de Wyrd. Então ela soltou um suspiro e começou.
— Isso... é sobre Elena e Gavin. O primeiro painel aqui — ela apontou para um trecho de símbolos — os descreve como os primeiros rei e rainha de Adarlan, como foi sua união. Então volta atrás. Para a guerra.
Passos soaram e luz brilhou quando Aedion e Chaol os alcançaram. Chaol assobiou.
— Tenho um mau pressentimento sobre isso — disse Aedion. Ele franziu a testa ao examinar o olho gigante, e depois o pescoço de Aelin.
— Fique à vontade — disse ela.
Aelin leu mais algumas linhas, decifrando e decodificando. Era tão difícil – as marcas de Wyrd eram tão difíceis de ler.
— Ele descreve as guerras demoníacas com os valg que haviam sido deixados aqui após a Primeira Guerra. E... — ela leu a linha novamente. — E os valg desta vez foram liderados... — seu sangue congelou. — Por um dos três reis – o rei que permaneceu preso aqui após o portão ser fechado. Aqui diz que ele parecia mais um rei... parecia mais um rei valg que olhava fixamente com... — ela balançou a cabeça. — Loucura? Desespero? Não conheço este símbolo. Ele poderia ter qualquer forma, mas apareceu para eles como um homem bonito com olhos dourados. Os olhos dos reis valg.
Ela examinou o painel seguinte.
— Eles não sabiam seu verdadeiro nome, de modo que o chamavam de Erawan, o Rei das Trevas.
— Então Elena e Gavin lutaram contra ele, seu colar mágico salvou os seus traseiros, e Elena o chamou pelo seu verdadeiro nome, distraindo-o o suficiente para Gavin matá-lo — Aedion completou.
— Sim, sim — concordou Aelin, acenando com a mão. — Mas não.
— Não? — indagou Chaol.
Aelin leu mais, e seu coração pulou uma batida.
— O que foi? — Rowan exigiu, como se seus ouvidos feéricos tivessem notado o hesitar de seu coração.
Ela engoliu em seco, correndo um dedo trêmulo sobre uma linha de símbolos.
— Esta... esta é a confissão de Gavin. De seu leito de morte.
Nenhum deles falou.
Sua voz tremeu quando ela continuou:
— Eles não o mataram. Não com uma espada, ou fogo, ou água, ou talvez Erawan não pudesse ser morto ou seu corpo ser destruído. O olho... — Aelin ergueu a mão para o colar; o metal estava quente. — O olho o conteve. Só por um tempo curto. Não, não o conteve. Talvez o tenha colocado para dormir?
— Tenho um sentimento muito, muito ruim sobre isso — Aedion repetiu.
— Então eles construíram um sarcófago de ferro e algum tipo de pedra indestrutível. E o colocaram em um túmulo selado sob uma montanha, uma cripta tão escura que não havia ar nem luz. Após o labirinto de portas — ela leu — eles puseram símbolos, inquebráveis por qualquer ladrão ou chave ou força.
— Você está dizendo que eles não mataram Erawan — disse Chaol.
Gavin tinha sido o herói de infância de Dorian, ela lembrou. E a história fora uma mentira. Elena tinha mentido para ela...
— Onde eles o enterraram? — Rowan perguntou baixinho.
— Eles o sepultaram... — suas mãos tremiam tanto que ela baixou-as para os lados. — Eles enterraram, nas Montanhas Negras, e construíram uma fortaleza no topo do túmulo, para que a família nobre que morava acima pudesse guardá-la para sempre.
— Não há Montanhas Negras em Adarlan — apontou Chaol.
A boca de Aelin ficou seca.
— Rowan — disse ela calmamente. — Como se diz “Montanhas Negras” na língua antiga?
Uma pausa, e, em seguida, um arfar.
— Morath — respondeu Rowan.
Ela se virou para eles, os olhos arregalados. Por um momento, todos só encararam uns aos outros.
— Quais são as chances — ela falou — de que o rei esteja enviando suas forças até Morath por mera coincidência?
— Quais são as chances — Aedion rebateu — que o nosso ilustre rei tenha adquirido uma chave que pode abrir qualquer porta, até mesmo uma porta entre os mundos, e seu segundo em comando seja dono do mesmo lugar onde Erawan está enterrado?
— O rei é insano — disse Chaol. — Se ele planeja libertar Erawan...
— Quem disse que já não o libertou? — perguntou Aedion.
Aelin olhou para Rowan. Seu rosto era sombrio. Se há um rei valg neste mundo, precisamos agir rapidamente. Conseguir essas chaves de Wyrd e bani-los de volta para seu mundo buraco infernal.
Ela assentiu com a cabeça.
— Por que agora, se é assim? Por que libertar o valg agora?
— Faz sentido — falou Chaol — se ele está fazendo isso na expectativa de libertar Erawan. Ter um exército pronto para ele para liderar.
A respiração de Aelin era superficial.
— O solstício de verão será em dez dias. Se trouxermos a magia de volta no solstício, quando o sol é mais forte, há uma boa chance de o meu poder ser maior, em seguida, também — ela se virou para Aedion. — Diga-me que encontrou um monte de fogo infernal.
Seu assentimento não foi tão reconfortante quanto ela esperava.

16 comentários:

  1. K, esse texto ainda será revisado, não é?

    Juh

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    1. Obrigada!!! Vc é demais!!

      Juh

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  2. A parada se elevou a um outro nível agora... PQP!

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  3. Quando pensam q a situação ta ruim, q n tem como piorar, a situação fica pior

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  4. Agora fudeu tudo quando vc pensa que eles tão conseguindo ae acontece alguma coisa pra ferrar com eles.

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  5. Surpresas atrás de surpresas
    Carol

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  6. EU REALMENTE NÃO SEI SE ESSE REI É UM GÊNIO OU O MAIOR DOS TOLOS. OMG!

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  7. Pois é Lua esse rei n tem escrúpulos meu deus.

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  8. se me lembro bem a Manon bico negro tem olhos dourados assim como os reis valg e no livro a herdeira das chamas ela diz que isso é herança do clã e eque as bruxas são descendestes dos valg e dos feéricos. será que...? afinal não há muitos motivos para falar da aparência dele agora.
    Aelin genial!
    o blog esta D+ Karina!

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  9. Foi confirmado nos capítulos anteriores que a Manon(assim como a maioria das outras bruxas) tem olhos dourados por causa da herança dos Valg(Elas são o resultado do crusamento de Valgs e Feéricos).

    Meu palpite pra esse Rei é que ele tá com alguma coisa como um General Valg no cérebro, eu não consigo achar outro motivo que o levaria a ser um imenso babaca(pra não dizer pior), sabemos que ele está envolvido com os Valgs de alguma maneira, então desde que existe uma maneira de tomar soldados botando Valgs neles porque não poderia ter acontecido o mesmo com o Rei há algum tempo atrás?

    PS:É incrível como se passaram 4 livros e eles não deram dica do primeiro nome do Rei né?

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    1. Verdade!! eu tammbém pensei isso quando disseram sobre o Rei valg!
      faz sentido. Nunca apareceu nada sobre o nome dele! então.. kkk e se não me engano o Rei de Adarlan tem olhos escuros certo? não lembro..
      Mas eu acredito que o Rei de Adarlan deu seu corpo para o Rei Valg! ou ele acabou mexendo tanto em que não devia que acabou chegando dele, e quando libertou(sem saber o que aconteceria) o Rei Valg entrou no corpo dele... Porque o Rei de Adarlan é desde criança muito inteligente!! ele descobriu as charadas mais rápido que Aelin!

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  10. AHHHHHH PQP PQP AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH MDS QUE COISA LOUCA!!! SCR MLR CAPÍTULO!

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  11. Eu necessito ver a Manon e a Aelin juntas numa guerra com esse Erawan!
    O rei de Adarlan só pode tá possuído... Eu necessito estudar p 2 provas ms cheguei num lugar tão fodaaa

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