1 de fevereiro de 2016

Capítulo 50

A perna direita de Celaena mal conseguia suportar o peso do corpo, mas a jovem trincou os dentes e ficou de pé. Cain parou de repente, e Celaena endireitou os ombros.
A brisa acariciou o rosto da assassina e soprou os cabelos da jovem para trás dos ombros, como um véu oscilante de ouro. Não terei medo. Um símbolo brilhava na testa de Celaena com uma forte luz azul.
— O que é isso no seu rosto? — perguntou Cain.
O rei se levantou, franzindo as sobrancelhas, e, logo ao lado, Nehemia arquejou.
Com o braço latejante e quase inutilizado, Celaena secou o sangue do canto da boca. Cain rosnou e atacou, como se fosse decapitá-la.
Celaena avançou, rápida como uma flecha de Deanna.
Os olhos de Cain se arregalaram quando a assassina enterrou a ponta quebrada do bastão no lado direito de seu corpo, exatamente onde Chaol dissera que ele estaria desprotegido.
Sangue escorreu e manchou as mãos de Celaena quando ela arrancou a arma do corpo de Cain, e o adversário cambaleou para trás, levando as mãos às costelas.
Celaena esqueceu a dor, esqueceu o medo, esqueceu o tirano que observava atentamente com olhos sombrios a marca em sua testa. Ela saltou para trás e abriu o braço de Cain com a ponta quebrada do bastão, rasgando músculo e tendão. O adversário a golpeou com o outro braço, mas Celaena desviou e cortou esse braço também.
Cain se lançou na direção de Celaena, mas ela desviou. O homem caiu esparramado no chão. A jovem pisou nas costas do brutamontes, e quando ele ergueu a cabeça, notou a ponta afiada do bastão quebrado pressionada contra seu pescoço.
— Mexa-se e abro sua garganta — disse Celaena, com o maxilar doendo.
Cain ficou parado, e, por um breve momento, Celaena poderia ter jurado que os olhos dele brilhavam como carvão. Por uma fração de segundo, a jovem considerou matá-lo ali mesmo, para que nunca pudesse contar a ninguém o que sabia. Sobre ela, sobre seus pais, sobre as marcas de Wyrd e seu poder. Se o rei ficasse sabendo disso... a mão de Celaena tremeu com o esforço que fazia para não atravessar o pescoço de Cain com a ponta afiada, mas Celaena ergueu o rosto machucado e olhou para o rei.
Os integrantes do conselho começaram a bater palmas, nervosos. Nenhum deles vira o espetáculo, nenhum deles vira as sombras no meio da ventania. O rei observou Celaena, e ela se obrigou a ficar de queixo erguido e coluna reta enquanto o soberano a julgava. Celaena sentiu cada segundo de silêncio como socos no estômago. Será que o rei estava procurando uma forma de lhe negar a vitória? Depois do que pareceu uma eternidade, ele falou:
— A campeã de meu filho é a vencedora — grunhiu o soberano.
O mundo girou sob os pés de Celaena.
Vencera. Vencera. Estava livre – ou o mais próximo da liberdade que poderia estar. Ela se tornaria a campeã do rei e depois estaria livre...
A percepção arrebatou a jovem, e ela largou o que restava do bastão no chão, então tirou o pé das costas de Cain. Celaena mancou para longe, com a respiração pesada e irregular. Fora salva. Elena a salvara. E tinha... tinha ganhado.
Nehemia estava exatamente onde estivera antes, sorrindo ligeiramente, mas...
A princesa desmaiou, e seus guarda-costas correram para ajudá-la. Celaena tentou ir na direção da amiga, mas suas pernas cederam, e a assassina caiu no azulejo. Dorian, como se tivesse acordado de um feitiço, disparou na direção de Celaena e ajoelhou-se ao lado dela, murmurando o nome da jovem várias vezes.
Mas Celaena mal o escutava. Encolhida no chão, lágrimas quentes escorriam por seu rosto. Ela vencera. Apesar da dor, Celaena começou a rir.



Enquanto a assassina dava risadas consigo mesma, com a cabeça baixa, Dorian verificava o estado do corpo de Celaena. O corte na coxa não parava de sangrar, um dos braços dela pendia, inerte, seu rosto e braços pareciam retalhos de cortes, e hematomas se formavam rapidamente. Cain com as feições cheias de fúria, estava de pé logo atrás, sangue lhe escorria pelos dedos enquanto o competidor tentava cobrir a ferida nas costelas. Que sofresse.
— Ela precisa de um curandeiro — disse Dorian ao pai. O rei não respondeu. — Você, menino — disparou Dorian para um dos pajens. — Chame um curandeiro o mais rápido possível!
O príncipe mal conseguia respirar. Devia ter impedido Cain antes que ele acertasse o primeiro golpe. Devia ter feito algo além de ficar observando quando se tornou claro que Celaena fora drogada. Ela teria lhe ajudado sem hesitar. Até Chaol a ajudara, ajoelhara-se ao lado do ringue. E quem a havia drogado?
Colocando com cuidado os braços em volta de Celaena, Dorian olhou rapidamente para Kaltain e Perrington. Ao fazê-lo, acabou perdendo a troca de olhares entre Cain e o rei. O soldado tirou do bolso uma adaga.



Mas Chaol viu. Cain ergueu a adaga para apunhalar a jovem nas costas.
Sem pensar, sem entender, Chaol saltou na frente e enterrou a espada no coração de Cain.
Sangue espirrou para todos os lados, encharcando os braços, a cabeça, as roupas de Chaol. O sangue, de alguma forma, fedia a morte e podridão. Cain desabou no chão.
O mundo silenciou. Chaol viu o último suspiro escapar pelos lábios de Cain, assistiu o competidor morrer. Depois que tudo acabou e Chaol percebeu que os olhos de Cain já não enxergavam, a espada escapou das mãos do capitão e caiu no chão. Ele caiu de joelhos ao lado de Cain, mas não o tocou. Céus, o que fizera?
Chaol não conseguia parar de olhar para as mãos ensanguentadas. Ele o matara.
— Chaol — sussurrou Dorian.
Celaena estava paralisada nos braços do príncipe.
— O que foi que fiz? — perguntou Chaol. Celaena gemeu baixinho e começou a tremer.
Dois guardas levantaram o capitão, mas Chaol só olhava para as mãos manchadas de sangue ao ser levado embora.



Dorian assistiu o amigo desaparecer no interior do castelo e voltou a atenção para a assassina. O rei já estava aos berros por algum motivo.
Celaena tremia tanto que intensificava o sangramento das feridas.
— Ele não devia tê-lo matado... Agora, ele... ele... — A respiração da jovem ficou mais ofegante. — Ela me salvou — disse Celaena, apertando o rosto contra o peito de Dorian. — Dorian, ela tirou o veneno de dentro de mim. Ela... ela... ai, deuses, nem sei o que aconteceu — Dorian não fazia ideia do que Celaena estava dizendo, mas abraçou-a com mais força.
O príncipe percebeu os olhares do conselho sobre eles, pesando e considerando cada palavra que saía da boca de Celaena, cada movimento ou reação do príncipe. Amaldiçoando o conselho, Dorian beijou o cabelo de Celaena. A marca na testa da assassina tinha sumido. O que significara aquilo?
O que significara tudo aquilo? Cain tocara num ponto sensível para Celaena naquele dia, quando mencionou os pais da jovem, ela perdeu completamente o controle. Dorian jamais a tinha visto tão selvagem, tão descontrolada.
O príncipe odiava a si mesmo por não ter tomado uma atitude, por ter agido como um covarde. Ele compensaria Celaena por essa atitude, certificaria-se de que a jovem fosse libertada, e depois... depois...
Celaena não protestou quando Dorian a levou para os aposentos, instruindo o curandeiro para que os seguisse.
Estava farto de política e de intriga. Ele a amava, e não havia império, rei ou ameaça naquela terra que o separaria de Celaena. Não, se tentassem tomá-la dele, Dorian destruiria o mundo com as próprias mãos. E, de alguma forma, aquilo não o assustava.



Kaltain assistiu, desesperada e perplexa, Dorian carregar nos braços a assassina, que chorava. Como a garota havia vencido Cain se estava drogada? Por que não estava morta?
Sentado ao lado do rei furioso, Perrington parecia fumegar. Os conselheiros rabiscavam pedaços de papel. Kaltain retirou o frasco vazio do bolso. Será que a dose de sanguinária que o duque lhe dera não fora bastante para afetar seriamente a assassina? Por que Dorian não estava chorando sobre o cadáver de Celaena? Por que não era Kaltain quem abraçava e reconfortava Dorian? A enxaqueca ressurgiu, tão forte que a visão da moça escureceu, e ela não conseguiu mais pensar claramente.
Kaltain se aproximou do duque e sussurrou em seu ouvido:
— Achei que tivesse dito que isso funcionaria. — Ela lutou para manter a voz baixa. — Achei que tivesse dito que essa maldita droga funcionaria!
O rei e o duque a encararam, e os membros do conselho trocaram olhares enquanto Kaltain endireitou a coluna. O duque, então, levantou lentamente do assento.
— O que é isso na sua mão? — perguntou ele, um pouco alto demais.
— Você sabe muito bem o que é! — respondeu a moça, furiosa, ainda se esforçando para falar baixo mesmo depois que a dor na cabeça se tornou terrivelmente intensa. Kaltain mal conseguia pensar direito, só conseguia reagir à fúria que tomava conta de seu corpo. — O maldito veneno que dei a ela — murmurou a jovem, de modo que somente Perrington ouvisse.
— Veneno? — perguntou Perrington, tão alto que os olhos de Kaltain se arregalaram. — Você a envenenou? Por que faria isso? — O duque gesticulou para três guardas.
Por que o rei não falava nada? Por que não tentava ajudá-la? Perrington lhe dera o veneno sob ordens do rei, não? Os membros do conselho lançaram a Kaltain um olhar acusatório.
— Foi você quem me deu! — disse ela ao duque.
Perrington franziu as sobrancelhas cor de laranja.
— Do que está falando?
Kaltain deu um passo à frente.
— Seu filho de meretriz ardiloso!
— Prendam-na, por favor — comandou o duque, num tom casual e tranquilo, como se Kaltain não fosse nada mais que uma criada histérica. Como se não fosse ninguém.
— Eu disse a você — falou o duque ao ouvido do rei — que ela faria qualquer coisa para conseguir a coro...
As palavras se perderam conforme Kaltain era arrastada para longe. Não havia nada, nenhuma emoção, no rosto do duque. Ele a fizera de idiota.
Kaltain lutou em vão contra os guardas.
— Vossa Majestade, por favor! Sua Alteza me disse que você...
O duque desviou o olhar.
— Eu vou matar você! — gritou a moça para Perrington.
Kaltain se virou para o rei, pedindo clemência, mas o soberano também desviou o olhar, com o rosto contorcido de nojo. Ele não escutaria nada que Kaltain tivesse a dizer, mesmo que fosse verdade. Perrington planejara isso há muito tempo. E ela caíra em cheio na armadilha. O duque se fingira de tolo apaixonado para apunhalá-la pelas costas.
Kaltain chutava e se debatia, tentando se libertar dos guardas, mas a mesa do rei ficava cada vez mais longe. Quando a moça chegou às portas do castelo, o duque sorriu para ela, e Kaltain viu todos os seus sonhos se despedaçarem.

14 comentários:

  1. ah cara, primeira e provavelmente única vez que eu adorei o duque e o príncipe. TOMA VADIA! bem que mereceu, kkkkk
    graçadeus Cain morreu, mas sério quando falou da marca da testa dela e logo depois falou "Cain" eu fiquei pensando "ué, a marca de Caim?" sério, isso que dá ler um trilhão de séries com base mitológica

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    1. Laura do Bom Senso 42 #Zueira11 de fevereiro de 2016 19:12

      Não seria o rei e não o príncipe? Achei que você shippava o príncipe e a Celaena, ou era outra pessoa?

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    2. Porra hein, gostar do Duque pelo q ele fez? Mesmo ela sendo uma vaca n merecia exatamente isso. Meio machista. Ele merecia se foder também, n só ela.

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  2. Toma, quem manda sua cachorra! kkkkkkkkkkkkkk
    Ass: bina.

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  3. Adoro esse capítulo,a Kaltain mereceu,fiquei pensando se a princesa Nehemia não teria feito as marcas no quarto da Celaens para proteção dela,e q p rei e Perrington sabem os segredos da magia para manter a tirania

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  4. Me lembrei do simon com a marca de cain *-* que saudade de TMI!

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  5. Filha de Ares Lufana e tals12 de março de 2016 13:31

    Mesmo eu tendo odiado a Kaltain, fiquei com mais raiva desse duque filho de uma puta, que planejou tudo e depois se safou incriminando ela, to com vontade de matar ele, empala-lo com uma espada e ver o sangue dele escorrendo

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  6. Cara sério por um minuto quase senti pena da vadia
    Ainda bem que passou bem feito vaca vendida .
    Ai chaol espero que vc fique bem.

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  7. Estou achando que as drogas nessa série permitam as pessoas verem e sentirem coisas que não deveriam. A Kaltain sentia mais dor de cabeça quando o anel de Perrington brilhava e viu o Cain cercado de trevas. E ela é usuária de ópio.

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  8. Mais uma coisa. Estou achando que ou Dorian ou o Chaol ainda vão morrer nessa história.

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  9. Gente... se o Chaol tivesse dado a espada dele pra Cel, ela teria morrido agora!!!Até parece q a Nehemia adivinhou!!

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  10. Mds, finalmente uma coisa boa aconteceu😝😝😝 essa puta vai ser presa, espero q ela apodreça na masmorra

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  11. Espera, espera
    Celaena que estava quase morrendo, se recupera e vence em minutos.
    Cain tenta matar o rei
    Chaol mata o Cain
    Todo mundo fica tipo "oooh porque você fez isso?!?!"
    E aí tchau Chaol, ninguém mais menciona ele
    A Kaltain, aquela idiota foi enganada pelo duque que se finge de inocente e ela vai pra cadeia
    Não sei qual dos dois é pior

    Pra mim esse capítulo foi "ooooh!!" E ao mesmo tempo "wtf?!"

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  12. Ainda bem que o Cain morreu... Me deu raiva desse duque de araquia por mais que eu achasse ela uma vaca ninguém merece ser usado dessa forma...


    Dorian está apaixonado pela Lana e ela está apaixonada pelo Chaol e o Chaol por ela...
    Ass:Shay Santos

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