12 de fevereiro de 2016

Capítulo 4

Manon fechou a capa vermelho-sangue sobre o corpo e se encolheu nas sombras do armário, ouvindo os três homens que tinham invadido seu chalé.
Durante o dia todo, ela sentira no vento o gosto crescente de medo e ódio, e passara a tarde se preparando. Estava sentada no telhado de sapê do chalé branco quando viu as três tochas oscilando por cima do mato alto do campo. Nenhum dos aldeões tinha tentado os impedir; embora ninguém tivesse se juntado a eles também.
Uma bruxa Crochan estava no pequeno vale verde ao norte de Charco Lavrado, disseram. Durante as semanas em que viveu ali, sobrevivendo miseravelmente, esteve à espera daquela noite. Era a mesma coisa em toda aldeia na qual vivia ou que visitava.
Manon prendeu o fôlego, mantendo-se tão imóvel quanto um cervo, quando um dos homens – um fazendeiro alto e barbudo com mãos do tamanho de pratos – entrou no quarto. Mesmo do armário, conseguia sentir o cheiro de cerveja no hálito dele; e a sede de sangue. Ah, os aldeões sabiam exatamente o que planejavam fazer com a bruxa que vendia poções e encantos nos fundos da casa e que podia prever o sexo de um bebê antes do nascimento. Ela ficou surpresa por ter levado tanto tempo para que aqueles homens reunissem a coragem de ir até ali, para atormentar e destruir aquilo que os aterrorizava.
O fazendeiro parou no meio do quarto.
— Sabemos que está aqui — grunhiu ele, mesmo ao se aproximar da cama, verificando cada centímetro do cômodo. — Só queremos conversar. Alguns dos aldeões estão assustados, entende, com mais medo de você que você deles, aposto.
Manon sabia que não deveria dar atenção, principalmente ao ver uma adaga reluzir às costas dele enquanto o homem olhava debaixo da cama. Sempre a mesma coisa, em cada cidadezinha esquecida e cada aldeia mortal conservadora.
Quando ele ficou de pé, Manon saiu de dentro do armário e foi para a escuridão atrás da porta do quarto.
Tilintares e estampidos abafados disseram a ela o bastante sobre o que os outros dois homens estavam fazendo: não apenas procuravam por ela, mas roubavam o que queriam. Não havia muito que levar; o chalé já estava mobiliado quando Manon chegou, e todos os seus pertences, devido à experiência e ao instinto, estavam em uma sacola no canto do armário que acabara de desocupar. Não levar nada consigo, não deixar nada para trás.
— Só queremos conversar, bruxa. — O homem virou de costas para a cama, finalmente reparando no armário. Sorriu, com triunfo e antecipação.
Com dedos cuidadosos, Manon fechou a porta do quarto devagar, tão silenciosamente que o homem, que se dirigia ao armário, nem percebeu. Ela havia passado óleo nas dobradiças de cada porta da casa.
A enorme mão segurou a maçaneta do armário, a adaga agora inclinada na lateral do corpo.
— Saia, pequena Crochan — cantarolou ele.
Silenciosa como a morte, Manon deslizou para trás do homem. O tolo sequer a notou até ela aproximar a boca da orelha dele e sussurrar:
— Tipo errado de bruxa.
O fazendeiro se virou, chocando-se contra a porta do armário. Ele ergueu a adaga entre os dois, o peito se estufando. Manon apenas sorriu, os cabelos prateados reluzindo ao luar.
O homem reparou na porta fechada naquele momento, inspirando fundo para gritar. Mas a bruxa sorriu ainda mais, e uma fileira de dentes de ferro afiados como adagas se projetou das gengivas retraídas, fechando-se como uma armadura. O fazendeiro se assustou, batendo de novo contra a porta atrás de si, os olhos tão arregalados que a parte branca reluziu ao redor. A adaga do invasor caiu com um tilintar nas tábuas do piso.
Então, só para fazê-lo se molhar de verdade, Manon girou os pulsos no ar entre os dois. As garras de ferro dispararam das unhas com um clarão lancinante e reluzente.
O homem começou a sussurrar, implorando para seus deuses bondosos enquanto a bruxa permitiu que ele recuasse até a janela solitária. Deixou que ele pensasse que tinha alguma chance conforme caminhava na direção dele, ainda sorrindo. O invasor nem mesmo gritou antes de Manon rasgar seu pescoço.
Depois que terminou, a bruxa passou de fininho pela porta do quarto. Os outros dois ainda estavam saqueando, ainda acreditando que tudo aquilo pertencia a ela. Era apenas uma casa abandonada; os donos anteriores estavam mortos ou tinham sido espertos o bastante para deixar aquele lugar pútrido.
O segundo homem também não teve a chance de gritar antes que Manon o estripasse com dois golpes das unhas de ferro. Contudo, o terceiro foi procurar os companheiros. E, quando viu a bruxa parada ali, com uma das mãos retorcida nas vísceras do amigo e a outra aproximando o corpo de si mesma enquanto usava os dentes de ferro para rasgar o pescoço, ele correu.
O gosto comum e aguado do homem, temperado com violência e medo, envolveu a língua de Manon, fazendo-a cuspir nas tábuas de madeira. Mas ela não se incomodou em limpar o sangue que escorria pelo queixo conforme dava ao fazendeiro restante uma vantagem no campo de grama alta de inverno, tão alta que ficava bem acima das cabeças deles.
Contou até dez, porque queria caçar, e era assim desde que Manon rasgou o útero da mãe e veio ao mundo rugindo e ensanguentada. Porque ela era Manon Bico Negro, herdeira do clã de bruxas Bico Negro, e estava ali havia semanas, fingindo ser uma Crochan na esperança de atrair as verdadeiras.
Elas ainda estavam lá fora, as insuportáveis e presunçosas Crochan, escondendo-se como curandeiras e sábias. A primeira e gloriosa morte de Manon tinha sido uma Crochan, com não mais de 16 anos – a mesma idade da Bico Negro na época. A garota de cabelos pretos estava usando o manto vermelho-sangue que todas as Crochan recebiam quando sangravam pela primeira vez; e o único bem que aquilo fizera foi a marcar como presa.
Depois de deixar o cadáver da Crochan naquela montanha coberta de neve, ela levou o manto como troféu; e ainda o vestia, mais de cem anos depois. Nenhuma outra bruxa do clã Dentes de Ferro teria conseguido – porque nenhuma outra bruxa Dentes de Ferro ousaria incitar a ira das três Matriarcas ao usar a cor das eternas inimigas. Mas desde o dia em que Manon entrou na Fortaleza Bico Negro, vestindo o manto e levando o coração daquela Crochan em uma caixa – um presente para a avó – passou a ser seu dever sagrado caçar todas elas, uma a uma, até que não restasse mais nenhuma.
Aquela era a mais recente viagem da bruxa – seis meses em Charco Lavrado enquanto o restante de sua aliança estava espalhado por Melisande e pelo norte de Eyllwe sob ordens semelhantes. Porém, nos meses em que passou de aldeia a aldeia, não descobriu uma única Crochan. Aqueles fazendeiros eram a primeira diversão que Manon tinha em semanas. E ela certamente aproveitaria.
A bruxa caminhou para o campo, sugando o sangue das unhas conforme seguia. Ela deslizou pelo gramado, não mais que sombra e névoa. Encontrou o homem perdido no meio do campo, choramingando baixinho com medo. E, quando ele se virou, aliviando a bexiga ao ver o sangue e os dentes de ferro e o sorriso supermaligno, Manon o deixou gritar o quanto quisesse.

5 comentários:

  1. Sinistro ....pensei q não existissem mais Crochans

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    1. Ela é do clã Dentes de Ferro!

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  2. Eu nem me lembro dos tipos de bruxas.

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  3. Pô, ia ser bacana se a autora fizesse um conto sobre essa bruxa em especial.

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  4. Personagem novo!!! Manon é pior do que Celaena.

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