28 de fevereiro de 2016

Capítulo 49

No meio da tarde, Aelin assinou todos os documentos que o mestre banqueiro levara, deixou o a fortaleza com seus novos proprietários horríveis, e Aedion ainda não tinha pensado e refletido sobre tudo o que ela tinha feito.
Sua carruagem os deixou no limite das favelas, e eles se mantiveram nas sombras enquanto faziam o caminho para casa, silenciosos e invisíveis. No entanto, quando chegaram ao armazém, Aelin continuou seguindo em direção ao rio por vários quarteirões sem sequer dar uma palavra. Rowan deu um passo para segui-la, mas Aedion o cortou.
Ele devia ter tido um desejo de morte, porque Aedion até mesmo ergueu um pouco as sobrancelhas para o príncipe feérico antes de ir atrás dela. Ele ouvira a pequena discussão no telhado na noite anterior graças à sua janela do quarto aberta. Mesmo agora, ele honestamente não podia decidir se estava se divertindo ou enfurecido com as palavras de Rowan – Não me toque dessa maneira – quando era óbvio que o príncipe guerreiro sentia o contrário. Mas Aelin – deuses – Aelin ainda descobriria isso.
Ela pisava pela rua com temperamento encantador quando disse:
— Se você veio para me repreender, oh — ela suspirou. — Não acho que eu possa convencê-lo dar a volta.
— Nenhuma chance no inferno, querida.
Ela revirou os olhos e continuou. Eles caminharam silenciosamente quarteirão após quarteirão até chegar ao rio marrom brilhante. Uma calçada decrépita e imunda de paralelepípedos corria ao longo da beira da água. Abaixo, os postos abandonados e em ruínas eram tudo o que restava de um cais antigo.
Ela olhou para a água barrenta, cruzando os braços. A luz da tarde estava quase cegante, refletindo na superfície calma.
— Fale de uma vez — disse ela.
— Hoje... quem você foi hoje... aquilo não era inteiramente uma máscara.
— Isso o incomoda? Você me viu reduzir os homens do rei.
— Incomoda-me que as pessoas que encontramos hoje não tenham achado estranho. Incomoda-me que você tenha sido essa pessoa por um tempo.
— O que você quer que eu diga? Quer que eu peça desculpas por isso?
— Não, deuses, não. Eu só... — as palavras estavam saindo todas erradas. — Você sabe que quando fui para os campos de batalha, quando me tornei general, deixei as fileiras obscurecido, também. Mas eu ainda estava no norte, em casa, entre o nosso povo. Você veio para cá em vez disso, teve que crescer com aqueles homens desprezíveis, e eu queria ter estado aqui. Queria que Arobynn de alguma forma tivesse me encontrado também, e levantado nós dois juntos.
— Você era mais velho. Nunca teria deixado Arobynn nos levar. No momento em que ele desviasse o olhar, você teria me agarrado e corrido.
Verdade – realmente verdade, mas...
— A pessoa que você foi hoje, e alguns anos atrás, essa pessoa não tinha nenhuma alegria ou amor.
— Deuses, eu tive algumas, Aedion. Eu não era um monstro completo.
— Ainda assim, eu só queria que você soubesse.
— Que você se sente culpado que eu tenha me tornado uma assassina enquanto você suportou a guerra e campos de batalha?
— Que eu não estava lá. Que você teve que enfrentar essas pessoas em sozinha — ele acrescentou. — Você veio com esse plano sozinha e não confiou em qualquer um de nós. Assumiu o ônus de conseguir esse dinheiro. Eu poderia ter encontrado uma maneira, deuses, eu teria me casado com uma princesa ou imperatriz se você me pedisse, se eles prometessem homens e dinheiro.
— Eu nunca vou vendê-lo como moeda de troca — ela retrucou. — E nós temos o suficiente agora para pagar um exército, não é?
— Sim — e então mais um pouco. — Mas isso não vem ao caso, Aelin — ele respirou. — O ponto é, eu deveria ter estado lá na época, mas estou aqui agora. Estou curado. Deixe-me partilhar este fardo.
Ela inclinou a cabeça para trás, saboreando a brisa do rio.
— E o que eu pediria a vocês que não pudesse fazer eu mesma?
— Esse é o problema. Sim, você pode fazer a maioria das coisas por conta própria. Mas não significa que tenha que fazê-las.
 —Por que eu deveria arriscar a sua vida? — as palavras eram cortantes.
Ah. Ah.
— Porque eu sou ainda mais dispensável do que você.
— Não para mim — as palavras eram pouco mais que um sussurro.
Aedion colocou a mão nas costas dela, sua própria resposta presa em sua garganta. Mesmo com o mundo indo para o inferno em torno deles, apenas ouvi-la dizer isto, aqui de pé ao lado dela, era um sonho.
Ela ficou calada, e ele se controlou o suficiente para dizer:
— O que, exatamente, vamos fazer agora?
Ela olhou para ele.
— Libertarei a magia, derrubarei o rei e matarei Dorian. A ordem dos dois últimos itens dessa lista poderia ser invertida, dependendo de como tudo acontecer.
Seu coração parou.
— O quê?
— Algo não ficou claro?
Tudo. Cada parte maldita dela. Ele não tinha nenhuma dúvida de que ela faria isso, mesmo a parte sobre matar o amigo. Se Aedion se opusesse, ela só mentiria e trapacearia e o enganaria.
— O que, quando e como? — ele perguntou.
— Rowan vai trabalhar na primeira parte.
— Isso soa muito como, “Tenho mais segredos para jogar pra cima de você sempre que eu sentir vontade de parar seu coração em seu peito”.
Mas seu sorriso de resposta disse-lhe que ele não chegaria a lugar nenhum com ela. Ele não sabia ao certo se o sorriso era encantado ou decepcionado.



Rowan estava semidesperto na cama no momento em que Aelin voltou horas mais tarde, murmurando boa noite para Aedion antes de escorregar em seu quarto. Ela não fez mais do que olhar em sua direção quando começou a desafivelar suas armas e empilhá-las sobre a mesa diante da lareira apagada.
Eficiente, rápida, silenciosa. Nem um som vindo dela.
— Fui caçar Lorcan — disse ele. — Segui seu rastro ao redor da cidade, mas não o vi.
— Ele está morto, então?
Outro punhal ruidosamente sobre a mesa.
— O cheiro era fresco. A não ser que ele tenha morrido uma hora atrás, ainda está muito vivo.
— Bom — disse ela simplesmente quando entrou no closet aberto. Ou apenas para evitar olhá-lo um pouco mais.
Ela saiu momentos depois em uma daquelas camisolas pequenas, e todos os pensamentos se foram de sua cabeça maldita. Bem, aparentemente, ela ficara mortificada pelo seu encontro anterior, mas não o suficiente para vestir algo menos revelador na cama.
A seda rosa se agarrava à cintura dela e deslizou sobre seus quadris quando ela se aproximou da cama, revelando a extensão gloriosa de suas pernas nuas, ainda magras e bronzeadas de todo o tempo que passara ao ar livre na primavera deste ano. Uma faixa de renda amarela pálida enfeitava o decote, e ele tentou – deuses o condenassem, ele honestamente tentou – não olhar a curva suave de seus seios enquanto ela inclinava-se para subir na cama.
Ele supôs que qualquer pingo de autoconsciência fora esfolado dela sob os chicotes de Endovier.
Mesmo que tivesse tatuado sobre a maior parte das cicatrizes em suas costas, seus altos-relevos permaneciam. Os pesadelos também – ela ainda acordava assustada e acendia uma vela para afastar a escuridão que a empurrava para as memórias dos poços sem luz que eles usavam como punição. Seu Coração de Fogo, trancado no escuro.
Ele devia uma visita aos superintendentes de Endovier.
Aelin podia ter uma inclinação para punir qualquer um que fosse machucá-lo, mas ela não parecia perceber que ele – e Aedion, também – podiam também ter contas a acertar em nome dela. E, como um imortal, ele tinha paciência infinita, onde os monstros estavam preocupados.
O cheiro dela o acertou quando Aelin soltou seu cabelo e se aninhou na pilha de travesseiros. Aquele cheiro sempre o atingia, sempre foi um convite e um desafio. Ele o havia abalado tão profundamente com séculos encerrados no gelo que a odiara de início. E agora... agora o cheiro o tirava de si.
Ambos tinham realmente sorte por ela atualmente não poder mudar para sua forma feérica e farejar o que havia através de seu sangue. Era difícil o suficiente esconder dela agora. Os olhares de Aedion lhe disseram o suficiente sobre o que o primo dela havia detectado.
Ele a tinha visto nua antes – algumas vezes. E deuses, sim, houve momentos em que tinha considerado, mas dominou a si mesmo. Ele aprendera a manter esses pensamentos inúteis na rédea curta. Como daquela vez em que ela gemeu com a brisa que ele enviou em seu caminho em Beltane – o arco de seu pescoço, sua boca se abrindo, o som que saiu dela...
Ela agora estava deitada de lado, de costas para ele.
— Sobre a noite passada... — ele começou através de seus dentes.
 — Está tudo bem. Foi um erro.
Olhe para mim. Vire-se e olhe para mim.
Mas ela se manteve de costas, o luar acariciando a seda agrupada sobre o mergulho de sua cintura, a inclinação de seu quadril.
Seu sangue se aqueceu.
— Eu não quis... repreendê-la — ele tentou.
— Eu sei que não — ela puxou o cobertor como se pudesse sentir o peso de seu olhar persistente examinando o lugar macio entre o pescoço e o ombro, um dos poucos lugares de seu corpo que não estava marcado por cicatrizes ou tinta. — Eu nem sei o que aconteceu, mas tem sido dias estranhos, então vamos apenas esquecer isso, certo? Eu preciso dormir.
Ele debateu responder-lhe que não estava bem, mas concordou.
— Tudo bem.
Momentos depois, ela estava de fato dormindo.
Ele rolou de costas e olhou para o teto, enfiando a mão sob a cabeça.
Precisava resolver isso – precisava fazê-la olhar para ele novamente, para que pudesse tentar explicar que não estava preparado. Vê-la tocando a tatuagem que contava a história do que ele tinha feito e como perdera Lyria... ele não estava pronto para sentir naquele momento. O desejo não tinha sido o que balançou a todos. Era apenas que Aelin o levara à loucura nas últimas semanas, e ele ainda não considerara como seria ter o seu olhar dirigido a ele com interesse.
Não foi da maneira que tinha sido com as amantes que ele tomou no passado: mesmo quando gostava delas, não tinha realmente se importado. Estar com elas jamais o fez pensar no mercado de flores. Nunca o fez lembrar que ele estava vivo e tocando outra mulher enquanto Lyria – Lyria estava morta.
Assassinada.
E Aelin – se ela passasse por esse caminho, e se algo acontecesse com ela... Seu peito recuou com o pensamento.
Então ele precisava resolver o problema – para se colocar em ordem, também, não importava o que ele queria dela.
Mesmo que fosse uma agonia.



— Esta peruca é horrível — Lysandra sussurrou, passando a mão pela cabeça enquanto ela e Aelin andavam de braços dados no caminho para a padaria embalado ao lado de um trecho mais agradável das docas. — Ela não para de coçar.
— Quieta — Aelin sussurrou de volta. — Você só tem que usá-la por mais alguns minutos, não toda a sua vida maldita.
Lysandra abriu a boca para reclamar um pouco mais, mas dois cavalheiros se aproximaram, caixas de assados nas mãos, e deram-lhes um aceno apreciativo. Ambas estavam em seus melhores vestidos, cheios de babados, só mais de duas mulheres ricas em um passeio à tarde pela cidade, monitoradas por dois guarda-costas cada uma.
Rowan, Aedion, Nesryn e Chaol estavam encostados nos bancos de madeira do lado de fora, discretamente observando através da grande janela de vidro da loja. Estavam vestidos e encapuzados de preto, uniformizados com dois brasões falsos, adquiridos dos guarda-roupas dos clientes secretos que Lysandra visitava.
— Aquele — Aelin falou sob sua respiração quando foram levadas pela multidão na hora do almoço, fixando a atenção sobre a mulher com olhar atormentado atrás do balcão. A melhor hora para vir ali, Nesryn havia dito, era quando os trabalhadores estavam ocupados demais para realmente notar a sua clientela e os querendo fora do caminho o mais rápido possível. Alguns senhores se separaram para deixá-las passar, e Lysandra murmurou seus agradecimentos.
Aelin chamou a atenção da mulher atrás do balcão.
— Em que posso ajudá-la, senhorita? — educada, mas já avaliando os clientes se agrupando atrás de Lysandra.
— Quero falar com Nelly — disse Aelin. — Ela ficou de me fazer uma torta de amoras silvestres.
A mulher estreitou os olhos. Aelin esboçou um sorriso vencedor.
A mulher suspirou e atravessou da porta de madeira, permitindo um vislumbre do caos da padaria por trás dela. Um momento depois, voltou para fora, dizendo a Aelin: Ela virá em um minuto e voltando o olhar para outro cliente.
Bom.
Aelin apoiou-se numa das paredes e cruzou os braços. Em seguida, os abaixou. A senhora não demoraria.
— Então, Clarisse não tem ideia? — Aelin perguntou baixinho, olhando para a porta da padaria.
— Nenhum. E quaisquer lágrimas que derramou foi por suas próprias perdas. Você deveria ter visto sua fúria quando entramos na carruagem com aquelas poucas moedas. Não teme ganhar um alvo nas costas?
— Eu tenho um alvo nas minhas costas desde o dia em que nasci — disse Aelin. — Mas vou embora logo, e nunca serei Celaena novamente, de qualquer maneira.
Lysandra soltou um pequeno hum.
— Você sabe que eu poderia ter feito isso sozinha.
— Sim, mas duas moças que fazem perguntas são menos suspeitas do que uma — Lysandra deu-lhe um olhar compreensivo. Aelin suspirou. — É difícil — ela admitiu. — Deixar de estar no controle.
— Eu não sei.
— Bem, você está perto de pagar as suas dívidas, não é? Estará livre em breve.
Um encolher de ombros casual.
— Pouco provável. Clarisse aumentou todas as nossas dívidas uma vez que se viu fora do testamento de Arobynn. Parece que fez algumas compras antecipadas e agora tem que pagar por elas.
Deuses, ela não considerara isso. Ainda não tinha pensado no que significaria para Lysandra e as outras meninas.
— Sinto muito por qualquer encargo adicional causado.
— Depois de ver o olhar no rosto de Clarisse quando o testamento foi lido, posso aguentar com prazer mais alguns anos disto.
Uma mentira, e ambas sabiam disso.
— Sinto muito — Aelin repetiu. E porque era tudo o que podia oferecer, ela acrescentou: — Evangeline parece bem e feliz agora. Eu poderia ver se há uma maneira de levá-la quando nós formos...
— E arrastar uma menina de onze anos através de reinos e em uma guerra em potencial? Acho que não. Evangeline continuará comigo. Você não precisa me fazer promessas.
— Como você está se sentindo? — perguntou Aelin. — Depois da outra noite.
Lysandra assistia três jovens mulheres rirem umas com as outras quando passaram por um homem jovem e bonito.
— Tudo bem. Não consigo acreditar que segui em frente com aquilo, mas... nós conseguimos, suponho.
— Você se arrepende de fazê-lo?
— Não. Eu me arrependo... me arrependo de não ter falado o que eu realmente pensava dele. Lamento não ter dito o que combinei com você – ver a traição e choque nos olhos dele. Foi tão rápido, e tive que ir para a garganta, e depois disso eu só rolei e ouvi, até que estava feito, mas... — seus olhos verdes estavam sombrios. — Queria ter feito aquilo?
— Não.
E foi isso.
Ela olhou para o vestido açafrão e esmeralda da amiga.
— Esse vestido combina com você — ela apontou com o queixo para o peito de Lysandra. — E faz maravilhas para eles, também. Os pobres homens aqui podem não parar de olhar.
— Confie em mim, maiores não é uma bênção. Minhas costas doem o tempo todo — Lysandra franziu o cenho para seus peitos cheios. — Assim que eu conseguir meus poderes de volta, essas coisas vão ser as primeiras a irem.
Aelin riu. Lysandra receberia seus poderes de volta quando a torre do relógio fosse derrubada. Ela tentou não deixar seu pensamento mergulhar nisso.
— Sério?
— Se não fosse por Evangeline, penso que acabaria me transformando em algo com garras e presas e viveria no deserto para sempre.
— Nada mais de luxo para você?
Lysandra puxou alguns fiapos de manga de Aelin.
— Claro que gosto de luxo, acha que não amo estes vestidos e joias? Mas no final... eles são substituíveis. Passei a valorizar mais as pessoas em minha vida.
— Evangeline tem sorte de ter você.
— Eu não estava falando apenas sobre ela — disse Lysandra, e ela mordeu o lábio cheio. — Você, estou grata por você.
Aelin poderia ter respondido algo que transmitisse adequadamente o cintilar de calor em seu coração, mas uma mulher magra de cabelos castanhos surgiu da porta da cozinha. Nelly.
Aelin se afastou da parede e marchou até o balcão, Lysandra a reboque.
— Vieram me ver por causa de uma torta? — Nelly perguntou.
Lysandra sorriu lindamente, inclinando-se.
— Nosso fornecedor de tortas, ao que parece, desapareceu com o mercado negro — ela falou em voz tão baixa que mesmo Aelin mal podia escutar. — Há rumores de que você sabe onde ele está.
Os olhos azuis de Nelly estreitaram-se.
— Não sei nada sobre isso.
Aelin delicadamente colocou a bolsa sobre o balcão, inclinando-se para que os outros clientes e trabalhadores não pudessem ver quando ela a deslizou para Nelly, certificando-se que as moedas tilintassem. Moedas pesadas.
— Nós estamos muito, muito interessadas em... torta — disse Aelin, deixando algum desespero aparecer. — Basta nos informar para onde ele foi.
— Ninguém escapou vivo do mercado negro.
Bom. Assim como Nesryn assegurara, Nelly não falaria facilmente. Seria muito suspeito Nesryn perguntar a Nelly sobre o negociante de ópio, mas duas insípidas e mimadas mulheres ricas? Ninguém pensaria duas vezes.
Lysandra deixou outra bolsa de moedas sobre o balcão. Uma das outras vendedoras olhou na direção delas, e a cortesã falou:
— Nós gostaríamos de um lugar determinado — ela focou em sua cliente novamente, imperturbável. O sorriso de Lysandra se tornou felino. — Então diga-nos onde o encontramos, Nelly.
Alguém vociferou o nome de Nelly lá nos fundos, e Nelly olhou entre elas, suspirando. Ela se inclinou para frente e sussurrou:
— Eles saíram através dos esgotos.
— Nós ouvimos que os guardas estavam lá, também — Aelin apontou.
— Não fundo o suficiente. Alguns foram para as catacumbas abaixo. Ainda se escondem lá. Levem seus guardas, mas não deixem que usem seus brasões. Não é um lugar para gente rica.
Catacumbas. Aelin nunca tinha ouvido falar de catacumbas sob os esgotos. Interessante.
Nelly se retirou, caminhando de volta para a padaria. Aelin olhou para o balcão.
Ambos os sacos de moedas tinham sumido.
Eles saíram despercebidas da padaria e acertaram o passo com seus quatro guarda-costas.
— Bem? — Nesryn murmurou. — Eu estava certa?
— Seu pai deve ser avisado sobre Nelly — disse Aelin. — Viciados em ópio são funcionários ruins.
— Ela faz um bom pão — respondeu Nesryn, e depois voltou para onde Chaol andava atrás deles.
— O que você descobriu? — Aedion exigiu. — E se importa de explicar por que precisava saber sobre o mercado negro?
— Paciência — devolveu Aelin. Ela se virou para Lysandra. — Você sabe, aposto que os homens por aqui parariam de rosnar caso fosse se transformasse em um fantasma leopardo e rugisse para eles.
As sobrancelhas de Lysandra se ergueram.
— Fantasma de leopardo?
Aedion praguejou.
— Faça-me um favor e nunca se transforme num desses.
— O que eles são? — Lysandra perguntou.
Rowan riu baixinho e deu um passo para mais perto de Aelin. Ela tentou ignorá-lo. Eles quase não tinham se falado durante toda a manhã.
Aedion balançou a cabeça.
— Demônios envolto em peles. Vivem nas Montanhas Galhada do Cervo, e durante o inverno, rastejam para baixo para caçar gado. Tão grande quanto ursos, alguns deles. Cruéis. E quando o gado se esgota, eles vão atrás da gente.
Aelin bateu no ombro de Lysandra.
— Soa como o seu tipo de criatura.
Aedion continuou:
— Eles são branco e cinza, assim você mal pode notá-los contra a neve e a rocha. Não pode realmente dizer que eles estão ali até que esteja olhando diretamente em seus olhos verdes pálidos... — seu sorriso vacilou quando Lysandra fixou os olhos verdes nele e inclinou a cabeça.
Apesar de tudo, Aelin riu.



— Conte-nos por que estamos aqui — falou Chaol quando Aelin escalou uma viga de madeira caída no mercado negro abandonado. Ao lado dela, Rowan segurava uma tocha no alto, iluminando as ruínas e os corpos carbonizados.
Lysandra voltara para o bordel, escoltada por Nesryn – Aelin trocara rapidamente seu traje em um beco e escondeu seu vestido atrás de um caixote descartado, rezando para que ninguém o pegasse antes que ela pudesse retornar.
— Basta ficar quieto por um momento — respondeu Aelin, seguindo os túneis pela memória.
Rowan lançou-lhe um olhar, e ela levantou uma sobrancelha. O quê?
— Você veio aqui antes — disse Rowan. — Veio examinar as ruínas.
É por isso que você cheirava a cinzas também.
— Realmente, Aelin? Você não dorme nunca? — Aedion opinou.
Chaol olhava para ela agora, também, embora talvez para evitar encarar os corpos espalhados pelos corredores.
— O que você fazia aqui na noite em que interrompeu meu encontro com Brullo e Ress?
Aelin estudou as cinzas das barracas mais antigas, as manchas de fuligem, os cheiros. Ela fez uma pausa diante de uma loja cujas mercadorias eram agora nada além de cinzas e pedaços retorcidos de metal.
— Aqui estamos — vibrou ela, e entrou na tenda escavada na rocha, as pedras queimadas pretas.
— Ainda tem cheiro de ópio — Rowan disse, franzindo a testa.
Aelin esfregou seu pé no chão cinzento, chutando cinzas e detritos. Tinha que ser em algum lugar... ah. Ela varreu mais e mais com o pé, o pó manchando suas botas e o traje pretos. Finalmente uma grande pedra disforme apareceu sob seus pés, um buraco desgastado perto de sua borda.
Ela falou casualmente:
— Vocês sabiam que além de lidar com ópio, corriam rumores e este homem vendia fogo infernal?
Rowan moveu o olhar para ela.
Fogo infernal – quase impossível de se atingir ou fazer, principalmente por ser tão letal. Apenas um tonel poderia derrubar metade da muralha defensiva de um castelo.
— Ele nunca quis falar comigo sobre isso, é claro — Aelin continuou — não importa quantas vezes eu viesse para cá. Alegou que não possuía, mas ele tinha algum suprimento.... bastante raros por aqui. Então... — ela abriu o alçapão de pedra para revelar uma escada que descia para a escuridão. Nenhum dos homens falou quando o fedor dos esgotos desdobrou-se.
Ela abaixou, deslizando para o primeiro degrau, e Aedion ficou tenso, mas sabiamente não disse nada sobre ela ir na frente.
Escuridão que cheirava a fumaça a envolveu enquanto ela descia cada vez mais, até que seus pés tocaram rocha lisa. O ar era seco, apesar de sua proximidade com o rio. Rowan veio em seguida, deixando baixando sua tocha sobre as pedras antigas para revelar um túnel cavernoso – e corpos.
Vários corpos, alguns deles nada mais que montes escuros à distância, reduzidos pelos valg. Havia menos para a direita, em direção ao Avery. Eles provavelmente anteciparam uma emboscada na foz do rio e foram para o outro lado, para sua condenação.
Sem esperar que Aedion ou Chaol descessem, Aelin começou a seguir o túnel, Rowan silencioso como uma sombra ao seu lado, observando, escutando. Depois que o alçapão de pedra gemeu e fechou acima, ela falou para a escuridão:
— Quando os homens do rei deixaram estre lugar queimando, se o fogo tivesse alcançado o suprimento... Forte da Fenda não estaria mais aqui. Não as favelas, ao menos – provavelmente mais.
— Deuses — murmurou Chaol alguns passos atrás dela.
Aelin fez uma pausa no que parecia ser uma grade comum no chão do esgoto. Mas sem água correndo por baixo, somente ar empoeirado flutuou ao seu encontro.
— É com isso que você está planejando explodir a torre do relógio, com o fogo infernal — disse Rowan, agachando-se ao lado dela. Ele fez um movimento para segurar seu cotovelo quando ela se aproximou da grade, mas ela se esgueirou para fora do aperto. — Aelin, eu já o vi sendo usado, o vi destruir cidades. Pode literalmente derreter pessoas.
— Bom. Nós sabemos que funciona, então.
Aedion bufou, olhando para baixo para a escuridão além da grelha.
— E daí? Você acha que ele manteve seu estoque lá embaixo? — se ele tinha uma opinião profissional sobre o fogo infernal, guardou-a para si.
— Esses esgotos eram bastante públicos, mas ele tinha que mantê-lo perto do mercado — respondeu Aelin, puxando a grade. Demorou um pouco, e o cheiro de Rowan a acariciou quando ele se inclinou para ajudar a transportá-lo para fora da abertura.
— Tem cheiro de ossos e pó lá embaixo — disse Rowan. Sua boca se curvou para o lado. — Mas você já suspeitava.
Chaol disse de alguns pés para trás:
— Isso era o que você queria saber de Nelly, onde ele estava escondido. Assim, poderia vendê-lo para você.
Aelin acendeu um pedaço de madeira com a tocha de Rowan. Cuidadosamente baixou-o pela borda do buraco na frente dela, a chama iluminando uma queda de cerca de rês metros, com paralelepípedos abaixo.
Um vento veio por trás, em direção ao buraco. Para dentro dele.
Ela apagou a chama e sentou-se na borda do buraco, as pernas balançando na escuridão abaixo.
— O que Nelly ainda não sabe é que o traficante de ópio foi na verdade capturado há dois dias. Morto à vista pelos homens do rei. Sabe, penso que Arobynn às vezes não tinha ideia se realmente queria me ajudar ou não — fora a menção ocasional dele no jantar que a fez pensar, planejar.
— Então o estoque dele nas catacumbas agora não tem dono — Rowan murmurou.
Ela olhou para a escuridão abaixo.
— Achado não é roubado — ela murmurou, e pulou.

6 comentários:

  1. Ela olhou para a escuridão abaixo.
    — Achado não é roubado — ela murmurou, e pulou.
    Kkkjk essa Aelin não tem jeito

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  2. Cara,ela é MUITO inteligente,nao da
    -rachel

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  3. Melhor personagem ever essa mulher scrr kkkkkkkk

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  4. Chaol não está tão chato.Bem não fala sobre ele kkkkk

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  5. — Nenhuma chance no inferno, QUERIDA. só eu q e lembrei da seleção?

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