12 de fevereiro de 2016

Capítulo 46

Protegendo os olhos da luz, Celaena verificou os penhascos e a faixa de praia bem abaixo. O calor estava intenso, mal havia uma brisa, mas Rowan continuava com o casaco cinza-claro pesado e o cinto largo, os braçais presos nos antebraços. Ele concordou em dar a ela algumas das armas naquela manhã – por precaução.
Os dois voltaram para o local mais recente ao alvorecer para refazer seus passos; e foi ali que Celaena reparou em um rastro. Bem, ela viu uma gota de sangue escuro em uma rocha próxima, então Rowan seguiu o cheiro de volta aos penhascos. A assassina olhou para a praia abaixo, para os arcos de corte natural das muitas cavernas ao longo da extensão curva. Mas não havia nada ali, e o rastro, graças ao mar e ao vento e aos elementos, tinha sumido. Eles estavam no local durante a última meia hora, procurando por quaisquer outros sinais, mas não havia nada. Nada, exceto...
Ali. Uma depressão curva no limite do penhasco, como se muitos pares de pés tivessem desgastado a borda conforme deslizavam com cuidado pela beirada. Rowan segurou o braço de Celaena quando ela se inclinou para olhar a escondida escada em ruínas. A jovem olhou para ele com raiva, mas o guerreiro não a soltou.
— Estou tentando não me sentir insultada — disse ela. — Olhe.
Mal havia degraus agora, apenas saliências rochosas com areia salpicada por arbustos. A água além da praia estava tão clara e calma que uma leve interrupção podia ser vista na barreira de corais que protegia aquele litoral. Era um dos poucos modos de atracar com segurança sem destruir o barco, apenas grande o bastante para uma pequena embarcação passar. Nenhum navio de guerra ou embarcação de mercadores caberia, sem dúvida um dos motivos pelos quais aquela área jamais tinha se desenvolvido. Era o lugar perfeito, no entanto, se alguém quisesse entrar no país sem ser visto... e permanecer oculto.
Celaena começou a desenhar na terra arenosa, uma linha longa e forte, então desenhou pontilhado após pontilhado.
— Os corpos foram jogados em córregos e rios — disse ela.
— O mar jamais estava longe — comentou Rowan, ajoelhado ao lado. — Eles poderiam ter jogado os corpos aqui. Mas...
— Mas então esses corpos provavelmente boiariam de volta para o litoral, o que levaria as pessoas a procurar na praia. Olhe aqui — mostrou Celaena, apontando para a extensão da costa que havia desenhado, onde os dois estavam agora sentados, bem no meio.
— Há inúmeras cavernas ao longo desta parte do litoral.
Celaena indicou onde as ondas quebravam no coral, assim como o pequeno e tranquilo espaço entre elas.
— É um ponto de acesso fácil de... — A assassina xingou. Não conseguia dizer. Não havia navios por ali, mas isso não significava que um ou dois ou mais não poderiam ter vindo de Adarlan, entrado de fininho à noite e despejado a carga maligna e violenta usando barcos menores.
Rowan ficou de pé.
— Vamos embora. Agora.
— Não acha que já teriam atacado se tivessem nos visto?
Rowan indicou o sol. Se estivesse prestes a dizer a ela que não era seguro uma rainha se colocar em perigo, então poderia...
— Se vamos explorar, é melhor o fazermos sob a cobertura da escuridão. Então, vamos voltar ao rio e encontrar alguma coisa para comer. Depois, princesa — disse o guerreiro, com um sorriso selvagem —, vamos nos divertir.



Algum deus devia ter decidido sentir pena deles, porque a chuva começou logo depois do pôr do sol; nuvens de trovões soprando com tal vingança que escondia qualquer som que fizessem conforme voltavam à praia para começar uma busca minuciosa pelas cavernas.
Contudo, em seguida a bondade dos deuses terminou, pois o que encontraram, enquanto estavam deitados de barriga no chão em um penhasco estreito que se elevava sobre uma praia deserta, foi pior que qualquer coisa que tivessem antecipado. Não eram apenas os monstros que o rei fazia.
Era um exército de soldados.
Alguns homens saíram da enorme abertura da caverna, camuflada entre as rochas e a areia. Talvez não os tivessem visto, não fosse pelo olfato aguçado de Rowan, que disse não ter palavras para descrever como era o cheiro. Mas ela sabia.
A boca de Celaena secou, o estômago deu um nó ao ver as figuras sombrias entrarem e saírem da caverna com movimentos disciplinados e contidos, que sugeriam um treinamento eficaz. Não eram monstros revoltados e quase selvagens como aquele na biblioteca, ou criaturas frias e perfeitas como o que Celaena vira nos túmulos, mas soldados mortais. Todos racionais, disciplinados e implacáveis.
— O pescador de caranguejo — murmurou ela. — Na aldeia. Ele disse... disse que encontrou armas nas redes. Deviam estar pegando navios e então se aproximando o suficiente para nadar pelo coral sem atrair atenção. Precisamos olhar de mais perto. — Ela ergueu a sobrancelha para Rowan, que deu um sorriso de caçador. — Eu sabia que você seria útil algum dia.
O guerreiro apenas riu com deboche e mudou de forma, um lampejo de luz que Celaena esperava ter sido ofuscado pela tempestade. Ele voou até a beira do penhasco e desceu pela água, nada mais que um predador procurando uma refeição, então circulou de volta até repousar em uma rocha logo além de onde as ondas quebravam. A jovem o observou caçar, movendo-se na direção da caverna, um animal atrás de um abrigo da chuva. Em seguida, mantendo-se próximo ao teto alto da caverna, Rowan entrou.
A assassina não respirou durante todo o tempo em que ele esteve fora de vista, contando o tempo entre o trovão e o raio, os dedos coçando para pegar o cabo da espada.
Mas, por fim, Rowan saiu voando da caverna em um planar tranquilo. Subiu até Celaena, então seguiu em frente, passando por ela e indo para o bosque. Uma mensagem para que o seguisse. Com cuidado, a jovem se arrastou pela terra, pela lama e pelas rochas, até estar longe o bastante para se esgueirar para as árvores. Ela o seguiu por um tempo; a floresta se tornava mais densa, e a chuva escondia todo tipo de som.
Celaena o viu de pé com os braços cruzados contra um pinheiro retorcido.
— Há cerca de duzentos soldados mortais e três daquelas criaturas nas cavernas. Há uma rede oculta delas por todo o litoral.
A garganta da assassina se fechou. Ela se obrigou a esperar para que Rowan continuasse.
— Estão sob o comando de alguém chamado general Narrok. Os soldados parecem ser todos altamente treinados, mas ficam bem longe das três criaturas. — Ele limpou o nariz, e, com o clarão de um relâmpago, Celaena viu o sangue. — Você estava certa. As três criaturas parecem homens, mas não o são. O que quer que habite a pele delas é... asqueroso não é a palavra certa. Foi como se minha magia, meu sangue, minha própria essência fosse repelida por elas. — Rowan examinou o sangue nos dedos. — Todas elas parecem estar esperando.
Três daquelas coisas. Apenas uma quase matara Celaena.
— Esperando pelo quê?
Os olhos animais de Rowan brilharam quando se fixaram nela.
— Por que não me diz?
— O rei jamais falou nada sobre isto. Ele... ele... — Será que alguma coisa dera errado em Adarlan? Será que Chaol, de alguma forma, contara ao rei quem e o que ela era, então o rei mandara aqueles homens ali para... Não, teria levado semanas, meses, para aquelas criaturas chegarem clandestinamente até lá. — Avise as forças de Wendlyn, avise-os agora mesmo.
— Mesmo que eu chegasse a Varese amanhã, levaria mais de uma semana para chegar aqui a pé. A maioria das unidades está alocada no norte durante a primavera.
— Ainda precisamos avisá-los que estão em risco.
— Use sua cabeça. Há inúmeras cavernas e lugares para se esconder ao longo da costa oeste. Mas eles escolheram aqui, este ponto de acesso.
Celaena visualizou o mapa da área.
— A estrada da montanha os leva além da fortaleza. — O sangue dela gelou, e mesmo a magia, faiscando em uma tentativa de acalmá-la, não conseguiu aquecê-la quando falou: — Não... não além. Para a fortaleza. Eles vão atrás dos semifeéricos.
Um aceno lento e sério.
— Acho que os corpos que encontramos eram experimentos. Para aprender as fraquezas e as forças dos semifeéricos, para aprender quais eram... compatíveis com o que quer que façam para deturpar os seres. Com esses números, eu sugeriria que a unidade foi enviada até aqui para capturar os semifeéricos, ou para eliminar uma potencial ameaça.
Porque se não pudessem ser convertidos e escravizados em Adarlan, então os semifeéricos poderiam ser convencidos a potencialmente lutar por Wendlyn em uma guerra. Poderiam ser os guerreiros mais fortes do exército de Wendlyn e causar mais do que poucos problemas para Adarlan como resultado.
Ela levantou o queixo e disse:
— Então agora... agora, vamos descer até a praia e soltar nossa magia em todos eles. Enquanto dormem.
Celaena se transformou conforme seu espírito começou a se agitar e debater só de pensar naquilo.
Rowan a segurou pelo cotovelo.
— Se eu achasse que havia um modo de fazer isso, teria sufocado todos. Mas não podemos, não sem colocar nossas vidas em perigo no processo.
— Acredite, eu posso e vou. — Eram soldados de Adarlan, tinham matado e saqueado e feito mais mal do que Celaena suportava. Ela poderia. Ela faria aquilo.
— Não. Fisicamente não pode feri-los, Aelin. Não agora. Sabem o suficiente sobre aquelas marcas de Wyrd para terem protegido todo o acampamento infernal de nosso tipo de magia. Feitiços de defesa, como as pedras ao redor da fortaleza, mas diferentes. Eles vestem ferro em todo lugar que podem, nas armas, nas armaduras. Conhecem muito bem o inimigo. Podemos ser bons, mas não podemos derrotá-los sozinhos e sair vivos daquelas cavernas.
A assassina caminhou de um lado para o outro, passando as mãos pelos cabelos molhados de chuva, então percebeu que Rowan não tinha terminado.
— Diga — ordenou ela.
— Narrok está no fundo das cavernas em uma câmara particular. É como eles, uma criatura vestindo a pele de um homem. Ele manda os três monstros pegarem os semifeéricos e os levarem de volta à caverna para que Narrok faça experimentos.
Celaena percebeu, então, por que Rowan a levou para dentro da floresta, bem longe da praia. Não por segurança, mas porque... porque havia um semifeérico lá dentro naquele momento.
— Eu tentei cortar o ar, para facilitar para ela — explicou ele. — Mas a envolveram em ferro demais, e... não vai sobreviver à noite, mesmo que entremos agora. Ela já é uma casca, mal consegue respirar. Não há retorno do que fizeram. Alimentaram-se da vida dela, eles a aprisionaram na própria mente, fazendo com que revivesse cada horror e tristeza com que já se deparou.
Mesmo o fogo no sangue de Celaena congelou.
— Ele realmente se alimentou de mim naquele dia nos túmulos — sussurrou ela. — Se eu não tivesse conseguido escapar, teria me consumido dessa forma.
Um grunhido baixo de confirmação foi emitido por Rowan.
Enjoada, a assassina passou a mão no rosto, voltou a cabeça para trás, para a chuva que descia do dossel acima, então finalmente respirou fundo e encarou o guerreiro.
— Não podemos matá-los com nossa magia enquanto estão acampados. As forças de Wendlyn estão longe demais, e Narrok está indo atrás dos semifeéricos com aqueles monstros e mais duzentos soldados. — Celaena pensava em voz alta, mas Rowan assentiu mesmo assim. — Quantas das sentinelas de Defesa Nebulosa já viram uma batalha de verdade?
— Trinta ou menos. E algumas, como Malakai, estão velhas demais, mas lutarão mesmo assim... e morrerão.
Rowan entrou mais no bosque. Celaena o seguiu, apenas porque sabia que, se desse um passo para perto da praia, iria atrás daquela fêmea. Pela tensão nos ombros do guerreiro, ela sabia que ele sentia o mesmo.
A chuva parou, e a jovem puxou o capuz para trás a fim de deixar que o ar nebuloso cobrisse o rosto, quente demais. Aquela área estava cheia de pastores, fazendeiros e pescadores. Além dos semifeéricos, não havia mais ninguém para combater as criaturas. Eles não tinham vantagem alguma, a não ser conhecerem o território melhor que o inimigo. Mandariam notícia para Wendlyn, é claro, e talvez, talvez a ajuda chegasse na próxima semana.
Rowan ergueu o punho, e Celaena parou enquanto ele avaliava as árvores à frente e atrás. Com silêncio treinado, o guerreiro desembainhou uma das lâminas dos braçais. O cheiro a atingiu um segundo depois, o fedor do que quer que fossem aquelas criaturas sob a carne mortal.
— Apenas uma. — Ele falou tão baixo que a assassina mal conseguiu ouvir, mesmo com os ouvidos feéricos.
— Isso não é reconfortante — respondeu ela, em igual tom, puxando a própria adaga.
Rowan apontou.
— Está vindo direto para nós. Você segue 20 metros para a direita, eu vou para a esquerda. Quando ele estiver entre nós, espere por meu sinal, então ataque. Nada de magia, pode atrair atenção demais se outros estiverem por perto. Seja ágil, silenciosa e rápida.
— Rowan, essa coisa...
— Ágil, silenciosa e rápida.
Os olhos verdes brilharam, mas Celaena continuou encarando-o. A criatura se alimentou de mim e teria me transformado em uma casca, falou ela, silenciosamente. Esse poderia facilmente ser nosso destino agora.
Você não estava preparada, foi o que Rowan pareceu dizer. E eu não estava lá.
Isso é loucura. Também enfrentei uma das defeituosas, e aquilo quase me matou.
Com medo, princesa?
Sim, e sabiamente.
Contudo, Rowan estava certo. Aqueles eram os bosques deles, e eram guerreiros. Dessa vez, seria diferente. Então Celaena assentiu, como um soldado aceitando ordens, e não se incomodou com despedidas antes de deslizar para as árvores. Ela tornou as passadas leves, contando a distância, ouvindo a floresta ao redor, mantendo a respiração equilibrada.
Abaixou-se atrás de uma árvore coberta de musgo e sacou a outra lâmina. O cheiro se intensificou em um fedor constante, que fez a cabeça de Celaena latejar. Conforme as nuvens acima se dissipavam, a luz das estrelas iluminava fracamente a névoa baixa na terra argilosa. Nada.
A assassina começava a se perguntar se Rowan tinha se confundido quando a criatura surgiu entre as árvores adiante – mais perto do que ela havia previsto.
Muito, muito mais perto.
Ela o sentiu primeiro: o borrão de escuridão, o silêncio que o envolvia como um manto a mais. Até a névoa parecia se afastar do monstro. Sob o capuz dele, Celaena só conseguia ver pele pálida e lábios sensuais. Ele não se incomodou em pegar armas. Mas foram as unhas da criatura que a fizeram perder o fôlego. Longas e afiadas, unhas das quais se lembrava muito bem; da sensação quando a rasgaram na biblioteca.
Ao contrário daquelas unhas, essas não estavam quebradas, as curvas pretas e polidas reluziam. A pele nos dedos era branca como osso e impecável, lisa demais para ser natural. De fato, Celaena poderia ter jurado que vira veias escuras e reluzentes, uma zombaria do sangue que um dia fluíra ali.
Ela não ousou piscar quando a coisa virou a cabeça encapuzada em sua direção. Rowan ainda não dera o sinal. Será que percebia o quanto aquilo estava próximo?
Um filete úmido e quente escorreu de uma das narinas até os lábios de Celaena. Ela ficou tensa, preparando-se, e imaginou com que rapidez a criatura se moveria e o quão profundamente precisaria cortar com as longas facas. A espada seria um último recurso, pois era mais pesada. Mesmo que usar facas significasse se aproximar.
O homem avaliou as árvores, e Celaena pressionou o corpo contra aquela em que estava. A criatura sob a biblioteca tinha rasgado portas de metal como se fossem cortinas. E sabia usar as marcas de Wyrd...
A assassina olhou a tempo de ver o monstro dar um passo na direção de sua árvore, o movimento era mortal e elegante, prometendo um fim demorado e dolorido. Ele não tivera a mente destruída; ainda mantinha a habilidade de pensar, de calcular. Aquelas coisas eram tão boas no que faziam que parecia ao rei serem necessárias apenas três ali. Quantas outras permaneciam escondidas no continente dela?
A floresta tinha ficado tão silenciosa que Celaena conseguia ouvir um farejar. A criatura estava sentindo o cheiro dela. A magia se acendeu, e a jovem a conteve. Não queria que o poder tocasse aquela coisa, com ou sem o comando de Rowan. A coisa farejou de novo – e deu outro passo na direção da assassina.
Exatamente como naquele dia nos túmulos, o ar começou a ficar oco, pulsando contra as orelhas. A outra narina de Celaena começou a sangrar. Merda.
A ideia a atingiu então, fazendo o mundo girar. E se o monstro tivesse chegado a Rowan primeiro? Celaena ousou olhar mais uma vez do outro lado da árvore.
A criatura tinha sumido.

9 comentários:

  1. Isso é típico em uma cena de terror.... E sempre me assusta.....
    Kkk

    ResponderExcluir
  2. Essa são as partes que eu mais adoro.

    ResponderExcluir
  3. Gente a "conversa silenciosa" deles é tão complexa que eu acho que eles realmente se comunicam por telepatia...

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Penso o mesmo. Eles têm uma ligação e ainda nem se deram conta disso.

      Excluir
    2. Laura do Bom Senso 42 #Zueira19 de outubro de 2016 13:15

      VC REALMENTE CANTOU ESSA MÚSICA, E POR ISSO, EU APROVO SUA EXISTÊNCIA

      Excluir
  4. nao é o amor,é conarran
    -rachel com medo

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!