28 de fevereiro de 2016

Capítulo 44

O punhal oculto que Aelin puxara caiu no chão de madeira no momento em que a fria pedra preta deslizou contra sua pele. Ela piscou para o anel, para a linha de sangue que aparecera em sua mão por baixo da unha afiada de Arobynn quando ele ergueu sua mão à boca e roçou sua língua ao longo da parte de trás de sua palma.
O sangue dela estava em seus lábios quando ele se endireitou.
Havia um silêncio em sua cabeça, mesmo agora. O rosto dela parou de funcionar; seu coração parou de funcionar.
— Pisque — ordenou a ela. Ela o fez. — Sorria — ela sorriu.
— Diga-me porque você voltou.
— Para matar o rei, e matar o príncipe.
Arobynn se inclinou para perto, seu nariz roçando seu pescoço.
— Me diga que você me ama.
— Eu te amo.
— Meu nome, diga meu nome quando diz que me ama.
— Eu te amo, Arobynn Hamel.
A respiração dele aqueceu sua pele enquanto ele bufava uma risada em seu pescoço e, em seguida, plantou um beijo onde encontrou seu ombro.
— Acho que vou gostar disso.
Ele se afastou, admirando seu rosto em branco, suas características, agora vazias e alheias.
— Pegue a minha carruagem. Vá para casa e durma. Não conte isso a ninguém, não mostre o anel aos seus amigos. E amanhã, relatório aqui depois do almoço. Temos planos, você e eu. Para o nosso reino, e Adarlan.
Ela apenas olhou, esperando.
— Você entende?
— Sim.
Ele levantou a mão novamente e beijou o anel de pedra de Wyrd.
— Boa noite, Aelin — ele murmurou, sua mão acariciando seu traseiro quando ele enxotou-a para fora.



Rowan tremia de raiva reprimida. Quando entraram na carruagem na saída da casa de Arobynn, nenhum deles falou.
Ele ouvira cada palavra pronunciada dentro daquele cômodo. Então havia Aedion. Ele vira o toque final que Arobynn dera, o gesto de propriedade de um homem convencido de que tinha um brinquedo novo e muito brilhante para brincar.
Mas Rowan não se atreveu a agarrar a mão de Aelin para ver o anel.
Ela não se mexeu; ela não falou. Apenas ficou lá encarando a parede da carruagem. Uma boneca quebrada, obediente e perfeita. Eu te amo, Arobynn Hamel.
Cada minuto era uma agonia, mas havia muitos olhos sobre eles – muitos, mesmo quando eles finalmente chegaram ao armazém e saíram. Eles esperaram até que a carruagem de Arobynn tivesse ido embora antes de Rowan e Aedion ladearem a rainha quando ela deslizou para dentro do armazém e subiu as escadas.
As cortinas já estavam fechadas no interior da casa, algumas velas acesas. As chamas refletiram o dragão dourado bordado na parte de trás do vestido notável, e Rowan não se atreveu a respirar enquanto ela parava no centro da sala. Uma escrava aguardando ordens.
— Aelin? — Aedion chamou, a voz rouca.
Aelin ergueu as mãos à sua frente e se virou.
Ela tirou o anel.
— Então era isso o que ele queria. Eu honestamente esperava algo mais grandioso.



Aelin depositou o anel na mesinha diante do sofá.
Rowan franziu a testa para ele.
— Ele não verificou a outra mão de Stevan?
— Não — ela respondeu, ainda tentando limpar o horror da traição de sua mente. Tentando ignorar a coisa pendurada em seu pescoço, o abismo de poder que acenava.
— Um de vocês precisa explicar agora — Aedion exigiu.
O rosto de seu primo estava drenado de cor, seus olhos arregalados enquanto olhava do anel para Aelin e de volta.
Ela se segurara durante o percurso de carruagem, mantendo a máscara da boneca que Arobynn acreditava que se tornaria. Atravessou a sala, mantendo os braços ao lado do corpo para evitar atirar o anel de Wyrd contra a parede.
— Sinto muito — disse ela. — Você não podia saber.
— Sim, eu podia. Você realmente acha que não posso manter minha boca fechada?
— Rowan nem sabia até ontem à noite — ela retrucou.
No fundo do abismo, um trovão retumbou. Oh, deuses. Oh, deuses...
— Isso deveria fazer eu me sentir melhor?
Rowan cruzou os braços.
— Sim, considerando a discussão que tivemos sobre isso.
Aedion balançou a cabeça.
— Apenas... expliquem.
Aelin pegou o anel. Concentrando-se. Ela poderia se concentrar nesta conversa depois que escondesse de forma segura o amuleto. Aedion não podia saber o que ela carregava, a arma que ela reivindicara esta noite.
— Em Wendlyn, houve um momento em que Narrok... voltou. Ele me advertiu. E me agradeceu por acabar com ele. Então peguei o comandante valg que parecia ter o mínimo de controle sobre o corpo do ser humano, na esperança de que o homem pudesse estar lá, desejando a redenção de alguma forma. Redenção pelo o que o demônio obrigara a fazer, esperando para morrer sabendo que tinha feito uma coisa boa.
— Por quê?
Falar normalmente era um esforço.
— Porque eu poderia oferecer a ele a misericórdia da morte e liberdade do valg, se ele só desse a Arobynn informações erradas. Ele enganou Arobynn fazendo-o pensar que um pouco de sangue poderia controlar esses anéis e que o anel que ele entregou foi o real — ela ergueu o anel. — Tive a ideia por sua causa, na verdade. Lysandra tem um joalheiro muito bom, e fez uma falsificação. A única coisa real foi ter que cortar o dedo do comandante valg. Se Arobynn tivesse tirado a outra luva, teria encontrado-o sem um dedo.
— Você levou semanas para planejar todo esse...
Aelin assentiu.
— Mas por quê? Por que se preocupar com tudo isso? Porque não simplesmente matá-lo?
Aelin baixou o anel.
— Eu tinha que saber.
— Saber o quê? Que Arobynn é um monstro?
— Isso não foi para redimi-lo. Eu sabia, mas este foi o seu teste final. Para mostrar a sua mão.
Aedion assobiou.
— Ele teria feito de você sua própria figura decorativa pessoal – ele tocou...
— Eu sei o que ele tocou, e o que queria fazer — ela ainda podia sentir aquele toque. Não era nada comparado com o peso medonho pressionando contra o seu peito. Ela esfregou o polegar sobre o corte em sua mão. — Portanto, agora sabemos.
Uma pequena parte patética sua desejava que ela não soubesse.



Ainda em suas melhores roupas, Aelin e Rowan olharam para o amuleto sobre a mesa baixa diante da lareira escurecida em seu quarto.
Ela tirou-o no momento em que entrou no quarto – Aedion fora para o telhado vigiar – e caiu no sofá de frente para a mesa. Rowan tomou ugar ao lado dela, um batimento cardíaco mais tarde. Por um minuto, eles não disseram nada. O amuleto brilhava à luz das duas velas que Rowan acendera.
— Eu estava prestes a pedir para me certificar de que não era uma farsa; que Arobynn não o mudara de alguma forma — Rowan falou finalmente, os olhos fixos na chave de Wyrd. — Mas posso sentir, um bruxulear           de tudo o que está dentro dessa coisa.
Ela apoiou os braços sobre os joelhos, o veludo preto de seu vestido acariciando suavemente.
— No passado, as pessoas devem ter assumido esse sentimento vinha da magia de quem o estava usando — ela falou. — Com minha mãe, com Brennon... isso nunca teria sido notado.
— E o seu pai e seu tio? Eles tinham pouca ou nenhuma mágica, você disse.
O veado de marfim parecia olhar para ela, a estrela imortal entre os chifres bruxuleando como ouro derretido.
— Mas eles tinham presença. Que melhor lugar para esconder essa coisa do que ao redor do pescoço da arrogante realeza?
Rowan ficou tenso quando ela se aproximou do amuleto e o virou de ponta cabeça o mais rápido que pôde. O metal estava quente, sua superfície imaculada apesar dos milênios que se passaram desde o seu forjamento.
Ali, exatamente como ela se lembrava, estavam esculpidas três marcas de Wyrd.
— Alguma ideia do que podem significar? — Rowan perguntou, deslocando próximo o suficiente para que sua coxa roçasse a dela. Ele se afastou um centímetro, embora isso não a impedisse de sentir o calor dele.
— Eu nunca vi...
— Aquela — Rowan disse, apontando para a primeira. — Eu vi aquela. Ela queimou em sua testa naquele dia.
— A marca de Brannon — ela murmurou. — A marca do nascido bastardo, o sem nome.
— Ninguém em Terrasen nunca olhou para esses símbolos?
— Se eles o fizeram, nunca foi revelado, ou escreveu em seus relatos pessoais, que eram armazenados na biblioteca de Orynth — ela mordeu o interior de seu lábio. — Foi um dos primeiros lugares que o rei de Adarlan destruiu.
— Talvez os bibliotecários tenham contrabandeado os relatos dos governantes primeiro – talvez eles tenham tido sorte.
Seu coração se afundou um pouco.
— Talvez. Não saberemos até voltarmos para Terrasen — ela bateu o pé no tapete. — Preciso esconder isso.
Havia uma tábua solta em seu closet sob a qual ela escondia dinheiro, armas e joias. Seria um lugar bom o suficiente para agora. E Aedion não a questionaria, já que ela não podia arriscar usar a maldita coisa em público de qualquer maneira, mesmo sob a roupa, não até que estivesse de volta em Terrasen. Ela olhou para o amuleto.
— Então faça isso — ele falou.
— Eu não quero tocá-lo.
— Se fosse assim tão fácil de acionar, seus antepassados teriam descoberto o que era.
— Você pega — disse ela, franzindo a testa.
Ele apenas lançou-lhe um olhar.
Ela abaixou-se, deixando a mente em branco enquanto erguia o amuleto para fora da mesa. Rowan ficou tenso, como se estivesse se preparando, apesar de sua confiança.
A chave era uma pedra em sua mão, mas aquela sensação inicial de incorreção, de um abismo de poder estava tranquilo. Adormecido.
Ela fez um rápido trabalho ao afastar o tapete de seu closet e puxar piso solto. Sentiu Rowan atrás dela, olhando por cima do ombro onde ela se ajoelhou e para o pequeno compartimento.
Ela pegou o amuleto para guardá-lo no pequeno espaço quando um fio puxou dentro dela – não, não um fio, mas... um vento, como alguma força de Rowan para ela, como se a sua ligação fosse uma coisa viva e ela pudesse sentir o que era ser ele...
Ela deixou cair o amuleto no compartimento. Ele bateu apenas uma vez, um peso morto.
— O quê? — perguntou Rowan.
Ela se virou para olhar para ele.
— Eu senti... senti você.
— Como?
Então contou a ele sobre sua essência, deslizando para dentro dela, de sentir como se usasse a pele dele, mesmo que apenas por um instante.
Ele não parecia inteiramente satisfeito.
— Esse tipo de habilidade pode ser uma ferramenta útil para mais tarde.
Ela fez uma careta.
— Típico pensamento de guerreiro bruto.
Ele deu de ombros. Deuses, como ele lidaria com isso, o peso do seu poder? Ele podia esmagar ossos em pó, mesmo sem a sua magia; podia trazer todo este edifício abaixo com alguns golpes bem colocados.
Ela sabia – é claro que sabia, mas senti-lo... o mais poderoso macho féerico puro-sangue da existência. Para um ser humano comum, ele era tão estranho quanto um valg.
— Mas acho que você está certo: ele não pode apenas agir sobre a minha vontade — ela falou, finalmente. — Ou então meus antepassados teriam arrasado Orynth ao chão antes que qualquer reino pudesse fazê-lo. Eu... eu penso que essas coisas podem ser neutras por natureza, é o portador que orienta como elas são usadas. Nas mãos de alguém puro de coração, isso só poderia ser benéfico. Foi assim que Terrasen prosperou.
Rowan bufou quando ela recolocou a prancha de madeira, batendo nela com a palma da sua mão.
— Confie em mim, seus antepassados não eram totalmente santos — ele ofereceu-lhe a mão, e ela tentou não olhar para ele quando a segurou. Dura, calejada, inquebrável, quase impossível de matar. Mas havia uma gentileza em seu aperto, um cuidado reservado apenas para aqueles que ele amava e protegia.
— Não acho que nenhum deles fosse um assassino — ela respondeu quando soltou sua mão. — As chaves podem corromper um coração ou amplificar um puro. Nunca ouvi nada sobre corações que estão em algum lugar no meio.
— O fato de você se preocupar diz o suficiente sobre suas intenções.
Ela andou por toda a área para garantir que não havia placas rangendo no esconderijo.
Um trovão retumbou acima da cidade.
— Vou fingir que não é um presságio — ela murmurou.
— Boa sorte com isso — ele a cutucou com o cotovelo quando eles reentraram no quarto. — Vamos ficar de olho nas coisas, e se você parecer estar indo em direção ao Senhor Escuro, prometo trazê-la de volta para a luz.
— Engraçadinho.
O pequeno relógio em sua mesa de cabeceira soou as horas, e o trovão ressoou novamente através de Forte da Fenda. Uma tempestade de movimento rápido. Bom, talvez ele devesse limpar a cabeça também.
Ela foi até a caixa que Lysandra trouxera e tirou o outro item.
— O joalheiro de Lysandra — Rowan falou — é uma pessoa muito talentosa.
Aelin ergueu uma réplica do amuleto. Tinha tamanho, coloração e peso quase perfeitos.
Ela colocou-a sobre o criado mudo como uma joia descartada.
— Apenas para o caso de alguém se perguntar onde está.



A chuva diminuíra para uma garoa constante no momento em que o relógio bateu uma hora da manhã, e Aelin ainda descera do telhado. Ela tinha ido até lá para assumir o posto de Aedion, aparentemente, e Rowan a esperara, passando o tempo, quando o relógio se aproximava da meia-noite e, em seguida, passou. Chaol viera dar a Aedion um relatório sobre os movimentos dos homens de Arobynn, mas escorregou de volta para fora em torno da meia-noite.
Rowan ficou esperando.
Ela estava em pé na chuva, de frente para o oeste, não para o castelo brilhante à sua direita, não na direção do mar em suas costas, mas para a cidade.
Ele não se importava que ela tivesse aquele vislumbre dele. Queria dizer a ela que não se importava com o que ela sabia sobre ele, desde que não a assustasse, e teria dito antes se não tivesse sido tão estupidamente distraído pela forma como ela o olhou naquela noite.
A luz da lâmpada refletia os pentes no cabelo dela e o dragão dourado ao longo do vestido.
— Você vai estragar o vestido de pé aqui fora na chuva — ele comentou.
Ela meio que se virou para ele. A chuva deixara listras de kohl pelo seu rosto e sua pele era tão pálida quanto uma barriga de peixe. O olhar em seus olhos – culpa, raiva, agonia – o atingiu como um soco no estômago.
Ela virou-se novamente para a cidade.
— Eu nunca usaria este vestido novo, de qualquer maneira.
— Você sabe que posso cuidar disso esta noite — ele falou, dando um passo ao lado dela — se não quiser ser aquela a fazê-lo.
E depois do que aquele bastardo tentara fazer com ela, o que ele planejava fazer com ela... ele e Aedion levariam um longo, longo tempo para acabar com a vida de Arobynn.
Ela olhou para o outro lado da cidade, em direção à Fortaleza dos Assassinos.
— Eu disse a Lysandra que poderia fazê-lo.
— Por quê?
Ela colocou os braços em volta de si, abraçando apertado.
— Porque mais do que eu, mais do que você ou Aedion, Lysandra merece ser a pessoa que vai acabar com a vida dele.
Era verdade.
— Será que ela precisará da nossa ajuda?
Ela balançou a cabeça, mandando gotículas de chuva para fora dos pentes e mechas úmidas de cabelo que se soltavam.
— Chaol foi se assegurar de que tudo vai bem.
Rowan se permitiu um momento para olhar para ela, os ombros relaxados e o queixo erguido, o punho fechado em torno de seus cotovelos, a curva de seu nariz contra a iluminação da rua, a fina linha de sua boca.
— Parece errado — ela falou — ainda desejo que houvesse alguma outra forma — ela tomou uma respiração irregular, o ar condensando-se na frente dela. — Ele era um homem mau — ela sussurrou. — Ia me escravizar à sua vontade, me usar para assumir Terrasen, fazer-se rei ou talvez pai do meu... — ela estremeceu com tanta violência que a luz brilhou com o movimento do dourado em seu vestido. — Mas ele também... também devo minha vida a ele. Pensei que seria um alívio, uma alegria acabar com ele. Mas tudo o que sinto é um vazio. E cansaço.
Ela era como gelo quando ele deslizou um braço ao redor dela, dobrando-a para seu lado. Só desta vez, só desta vez, ele se deixaria abraçá-la. Se ele tivesse se comprometido a matar Maeve e um de sua equipe tivesse feito isso, em vez dele – se Lorcan a matasse, por exemplo – ele teria sentido o mesmo.
Ela se virou ligeiramente para olhar para ele, e embora tentasse esconder, ele podia ver o medo em seu olhar, e a culpa.
— Preciso que você procure Lorcan amanhã. Veja se ele realizou a pequena tarefa que lhe designei.
Se ele matou os cães de caça de Wyrd. Ou foi morto por eles. Assim poderiam, finalmente, libertar a magia.
Deuses. Lorcan era seu inimigo agora. Ele fechou o pensamento.
— E se for necessário eliminá-lo?
Ele a observou engolir em seco.
— Será por necessidade sua, Rowan. Assim, faça como achar melhor.
Ele desejou que ela lhe direcionasse a um caminho ou outro, mas dar-lhe a escolha, respeitar a sua história o bastante para lhe permitir tomar essa decisão...
— Obrigado.
Ela descansou a cabeça contra o peito dele, as pontas dos pentes de morcego espetando-o de modo que ele os tirou um de cada vez de seu cabelo. Os enfeites dourados estavam escorregadios e frios em suas mãos, e enquanto admirava os objetos trabalhados, murmurou:
— Quero que você os venda. E queime esse vestido.
— Como quiser — respondeu ele, embolsando os pentes. — Uma pena, no entanto. Seus inimigos teriam caído de joelhos, se algum dia a vissem nele.
Ele quase caíra de joelhos quando a viu pela primeira vez mais cedo naquela noite.
Ela bufou uma risada que poderia ter sido um soluço e colocou os braços ao redor da cintura dele como se estivesse tentando roubar seu calor. Seu cabelo encharcado soltou-se, o aroma de jasmim e limão-verbena e brasas crepitantes elevando-se acima do cheiro de amêndoas para acariciar seu nariz, seus sentidos.
Rowan permaneceu com a rainha na chuva, respirando o cheiro dela, deixando que ela roubasse seu calor durante o tempo precisasse.



A chuva diminuiu para um chuvisco suave, e Aelin estava agitada de onde Rowan a segurava. Onde estava de pé, absorvendo a sua força, pensando.
Ela se moveu um pouco para examinar as linhas fortes de seu rosto, suas maçãs douradas pela chuva, pela luz da rua. Do outro lado da cidade, numa sala que conhecia muito bem, esperava que Arobynn estivesse sangrando. Esperava que estivesse morto.
Um pensamento oco – mas também o clique de uma fechadura finalmente aberta.
Rowan virou a cabeça para olhar para ela, a chuva pingando por seu cabelo de prata. Suas feições suavizaram-se um pouco, as linhas duras tornando-se mais convidativas – vulneráveis, até.
— Diga-me o que está pensando — ele murmurou.
— Estou pensando que na próxima vez que eu quiser perturbá-lo, tudo o que preciso fazer é dizer-lhe quão raramente uso roupas íntimas.
Suas pupilas dilataram.
— Existe uma razão para isso, princesa?
— Existe uma razão para não usar?
Ele achatou a mão contra sua cintura, os dedos contraindo uma vez como se relutassem deixá-la ir.
— Tenho pena dos embaixadores estrangeiros que terão que lidar com você.
Ela sorriu, sem fôlego e mais do que um pouco imprudente. Ao ver a masmorra do quarto esta noite, ela percebeu que estava cansada. Cansada da morte, da espera, de dizer adeus.
Ela ergueu a mão para o rosto de Rowan.
Tão suave era a pele sobre os ossos fortes e elegantes.
Ela esperou que ele se afastasse, mas o feérico apenas a olhou, a enxergou como sempre fazia. Amigos, mas muito mais que isso. Tão mais, que ela não sabia o quanto estava disposta a admitir. Cuidadosamente, ela o acariciou com seu polegar, o rosto dele liso com a chuva.
Isso a atingiu como uma pedra. Ela era uma tola por ter se esquivado, negado, mesmo quando uma parte dela gritara todas as manhãs que ela estendia a mão para o meio vazio da cama.
Ela ergueu a outra mão para o seu rosto e os olhos dele estavam fixos nos dela, sua respiração, irregular, enquanto ela traçava as linhas da tatuagem ao longo de sua têmpora.
As mãos dele apertaram um pouco sua cintura, os polegares roçando a parte de baixo sua caixa torácica. Foi um esforço não arquear sob seu toque.
— Rowan — ela sussurrou, seu nome um apelo e uma oração. Ela deslizou os dedos por sua bochecha tatuada, e...
Mais rápido do que ela podia ver, ele pegou um pulso e depois o outro, afastando-os de seu rosto e rosnando baixinho. O mundo escancarou-se em torno dela, frio e imóvel.
Ele soltou as mãos como se estivessem em chamas, afastando-se, aqueles olhos verdes planos e maçantes de uma maneira que não via há algum tempo. Sua garganta se fechou antes mesmo de ele falar.
— Não faça isso. Não... me toque dessa maneira.
Havia um rugido em seus ouvidos, uma queimação em seu rosto, e ela engoliu em seco.
— Sinto muito.
Oh, deuses.
Ele tinha mais de 300 anos de idade. Imortal. E ela – ela...
— Eu não quis dizer... — ela se afastou um passo, em direção à porta, do outro lado do telhado. — Sinto muito — ela repetiu. — Não foi nada.
— Bom — disse ele, indo ele mesmo para a porta do telhado. — Está bem.
Rowan não disse mais nada enquanto descia. Sozinha, ela esfregou o rosto molhado para a tirar a sensação oleosa da maquiagem.
Não me toque dessa maneira.
Uma linha clara na areia. Um limite – porque ele tinha trezentos anos de idade, era imortal e perdera sua alma gêmea sem defeitos... enquanto ela era jovem e inexperiente, sua carranam e rainha, e ele não queria nada mais do que isso. Se ela não tivesse sido tão tola, tão estupidamente ignorante, talvez tivesse percebido, compreendido que apesar de ter visto os olhos dele brilharem com fome – fome por ela – isso não significava que ele queria agir sobre isso. Não significa que não podia se odiar por isso.
Oh, deuses.
O que ela fizera?



A chuva que escorria pelas janelas formavam sombras deslizantes no chão de madeira, nas paredes do quarto de Arobynn.
Lysandra as observava há algum tempo, ouvindo o ritmo constante da tempestade e a respiração do homem dormindo ao seu lado. Totalmente inconsciente.
Se ela fosse fazer isso, teria que ser agora, quando o sono estava mais profundo, quando a chuva encobria a maior parte dos sons. A bênção de Temis, deusa das coisas selvagens, que já a agraciara como uma metamorfa e que nunca esquecia os animais enjaulados do mundo.
Quatro palavras – era tudo o que havia no bilhete que Aelin lhe passara mais cedo naquela noite; um bilhete ainda enfiado no bolso escondido de sua roupa de baixo descartada.
Ele é todo seu.
Um presente, ela sabia – um presente da rainha que não tinha mais nada a oferecer a uma prostituta sem nome com uma história triste.
Lysandra se virou de lado, olhando agora para os centímetros nus do homem adormecido, o sedoso cabelo vermelho derramado sobre seu rosto.
Ele não suspeitou uma vez que foi ela quem deu a Aelin os detalhes sobre Cormac. Mas este sempre fora seu ardil com Arobynn – a pele que ela usara desde a infância. Ele nunca pensou de outra forma sobre seu comportamento insípido e vão, nunca se preocupou. Se pensasse, não guardaria uma adaga debaixo do travesseiro e não a deixaria dormir na mesma cama que ele.
Ele não tinha sido gentil esta noite, e ela sabia que teria um hematoma no antebraço de onde ele a segurou com força demais. Vitorioso, soberbo, um rei certo de sua coroa, até onde sabia.
No jantar, ela tinha vira a expressão passando em seu rosto quando ele pegou Aelin e Rowan sorrindo um para o outro. Todos os golpes e histórias de Arobynn não alcançaram seu objetivo esta noite porque Aelin estava perdida demais em Rowan ouvir.
Ela se perguntou se a rainha sabia. Rowan sim. Aedion, sim. E Arobynn também. Ele entendera que, com Rowan, ela não mais o temia; com Rowan, Arobynn era agora totalmente desnecessário. Irrelevante.
Ele é todo seu.
Depois que Aelin o deixara, assim que ele firmara a casa, convencido de seu domínio absoluto sobre a rainha, Arobynn chamara seus homens.
Lysandra não ouviu os planos, mas sabia que o príncipe feérico seria seu primeiro alvo. Rowan morreria – Rowan tinha que morrer. Tinha visto nos olhos de Arobynn enquanto observava a rainha e seu príncipe de mãos dadas, sorrindo um para o outro, apesar dos horrores em torno deles.
Lysandra deslizou sua mão sob o travesseiro quando aproximou-se de Arobynn, aninhada contra ele. Ele não se mexeu; sua respiração profunda e manteve-se estável.
Ele nunca teve problemas para dormir. Na noite em que matou Wesley, dormiu como um morto, desconhecendo os momentos em que até mesmo a sua vontade de ferro não puderam impedir as lágrimas silenciosas de caírem.
Ela teria que encontrar o amor novamente um dia. E seria profundo, implacável e inesperado, o princípio, o fim e a eternidade, o tipo que poderia mudar a história, mudar o mundo.
O punho da adaga era frio em sua mão, e quando Lysandra rolou de volta, não mais do que um sono inquieto, puxou a arma com ela.
A lâmina brilhou como relâmpago, um lampejo de mercúrio. Por Wesley. Por Sam. Por Aelin.
E por si mesma. Pela a criança que tinha sido, aos dezessete anos, em sua noite do Leilão, pela mulher que se tornou, com o coração em frangalhos, a ferida invisível ainda sangrando.
Seria muito fácil se sentar e abrir a garganta de Arobynn com a adaga.

17 comentários:

  1. Não preciso nem dizer o quanto tive vontade de dar uns bons tapas no Rowan nesse capítulo... Decepcionada

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  2. AFF Rowan :c mas eu tenho fé que tudo dará certo, em algum momento....

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  3. Acho que vai da merda

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  4. vc acha?! eu tenho serteza! vem chumbo groso por ai vai ve essa ia n vai conseguir matar arobynn e vai dar merda pra rouwan

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  5. Laura do Bom Senso 42 #Zueira20 de março de 2016 22:25

    carranam, eu não consigo ler carranam, eu leio canarram é que nem estar escrito parabatai e vc ler pabaratai, nao faz sentido mas acontece SEMPRE

    P.S. Eu não troco Parabatai falou? Foi um exemplo

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    1. kkkkkkkk carranam é de boas... tem tanta coisa pior pra se confundir ehuaehuahe

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    2. Kkk
      Já aconteceu comigo no começo do livro, em vez de eu falar Celaena, eu falava Cealena. Por mais que eu tentasse eu não conseguia falar Celaena. Com o tempo fui praticando e consegui

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  6. Oqueeee o Rowan deu um fora nela carai gente e agora como vai ficar os shipps quem será o próximo.

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  7. Vibrei com esse capítulo como se fosse um gol ... a esperança ainda vive #teamchaol kkkkk

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  8. Genteeeeeeeeeee, esse fora eu senti aqui no meu útero!!! Velhoooo, que foi isso?
    Vai dar merda com essa Lysandra. Tô vendo u.u Um cara desses não se torna o Rei dos Assassinos se pode morrer quando está dormindo. ¬¬

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    1. kkkkkkkkkk
      Aham, to muito ansiosa pela Lysandra. Não é possível, alguma coisa vai dar errada...

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  9. Gnt Aelin quase me mata de susto, achando que ela foi controlada.
    E quero dar uns tapas na fuça Feérica do Rowan!

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  10. Aelin bateu o anel na pequena mesa a traz do sofá.
    Rowan franziu a testa para ele
    _Ele não se verificar outro lado de Stevan?
    Acho que tem algo errado

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  11. E eu achando que eles estavam apaixonados!!!
    Para de ser freco Rowan.

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  12. PELO ANJO!
    MEU PAAAAAAAAAAAAAAI DO CÉEEEEEU
    MORRENDO AQUI

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  13. AÍ QUE ÓDIO!! A AELIN TEM QUE PARAR DE DEIXAR DE CONTAR AS COISAS PRO AEDION!!! MANO! TÔ COM RAIVA DESSA AELIN!!!

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