8 de fevereiro de 2016

Capítulo 44

Dorian olhava para a estranha escada em espiral. Celaena havia encontrado as lendárias catacumbas abaixo da biblioteca. É claro que havia. Se tinha alguém em Erilea que poderia encontrar uma coisa dessas, era ela.
O príncipe estava prestes a sair para almoçar quando a viu caminhando na direção da biblioteca, uma espada amarrada às costas. Talvez a tivesse deixado em paz se a jovem não estivesse com os cabelos trançados. Celaena nunca prendia o cabelo, a não ser que estivesse lutando. E quando estava prestes a se sujar.
Aquilo não era espionar. E não era espreitar. Dorian estava meramente curioso. Ele a seguiu pelos longos corredores e salas esquecidos, sempre se mantendo bem atrás, os passos silenciosos como Chaol e Brullo haviam ensinado anos antes. O príncipe seguiu até Celaena desaparecer por aquela escadaria, dando uma olhadela desconfiada por cima do ombro.
Sim, a assassina tramava alguma coisa. Então Dorian esperou. Um minuto. Cinco minutos. Dez minutos antes de a seguir. Para fazer parecer um acidente caso os caminhos dos dois se cruzassem.
E agora, o que ele via? Nada além de lixo. Pergaminhos e livros velhos espalhados. Mais além, havia uma segunda escadaria em espiral, acesa da mesma forma que a anterior.
Um calafrio percorreu o corpo dele. Dorian não gostava nada daquilo. O que Celaena estava fazendo ali?
Como se em resposta, a magia do príncipe gritou para que ele corresse no sentido oposto – para que buscasse ajuda. Mas a biblioteca principal estava muito distante, e até que conseguisse ir até lá e voltar, algo poderia acontecer. Algo poderia já ter acontecido...
Dorian desceu rapidamente a escadaria e encontrou um corredor de iluminação fraca com uma única porta deixada entreaberta, duas marcas escritas nela com giz. Ao ver o corredor em frente ladeado por celas, ele congelou. O ferro fedia, de alguma forma – e fazia com que o estômago dele revirasse.
— Celaena? — chamou Dorian pelo corredor. Nenhuma resposta. — Celaena?
Nada.
Precisava dizer a ela para sair de lá. O que quer que fosse aquele lugar, nenhum dos dois deveria estar ali. Mesmo que o poder no seu sangue não estivesse gritando, ele sabia. Precisava tirá-la dali.
Dorian desceu a escadaria.



Celaena meio que corria e saltava escadaria abaixo, fugindo do interior da torre do relógio o mais rápido possível. Embora fizesse meses desde que havia encontrado os mortos durante o duelo com Cain, a lembrança de ser atirada contra a parede escura da torre ainda estava próxima demais. Ela conseguia ver os mortos sorrindo, e recordou-se das palavras de Elena no Samhuinn sobre os oito guardiões na torre do relógio e sobre como deveria ficar longe deles.
A cabeça da jovem doía tanto que ela mal conseguia se concentrar nos degraus sob os pés.
O que estivera ali? Aquilo não tinha nada a ver com Gavin, ou com Brannon. Talvez a masmorra tivesse sido construída naquela época, mas aquilo – tudo aquilo – precisava estar ligado ao rei. Porque ele havia construído a torre do relógio, construído com...
Obsidiana pelos deuses proibida,
Pedra que eles tanto temiam.
Mas... mas as chaves deveriam ser pequenas. Não colossais, como a torre do relógio. Não...
Celaena chegou à base da escadaria do relógio e congelou ao olhar para a passagem que continha a cela destruída.
As tochas haviam se apagado. Ela olhou para trás, na direção da torre do relógio. A escuridão parecia se expandir, estendendo-lhe a mão. Celaena não estava sozinha.
Agarrada à própria tocha, mantendo a respiração equilibrada, ela seguiu sorrateiramente pela passagem em ruínas. Nada – nenhum som, nenhuma indicação de outra pessoa na passagem. Mas...
Na metade do caminho para baixo, Celaena parou de novo e apoiou a tocha. Ela havia marcado todas as curvas, contara os passos conforme se dirigia até lá. Conhecia o caminho pela escuridão, conseguiria encontrar o caminho de volta vendada. E se não estava sozinha ali embaixo, a tocha funcionaria como um farol. Celaena não estava nem um pouco inclinada a virar um alvo. A assassina apagou a chama com um pisão.
Escuridão total.
Celaena ergueu mais Damaris, ajustando a vista à escuridão. Mas não estava completamente escuro. Um brilho tênue era emitido do amuleto – um brilho que a permitia enxergar apenas formas confusas, como se a escuridão fosse forte demais para o Olho. Os pelos de sua nuca se arrepiaram. A única outra vez que vira o amuleto brilhar daquela forma...
Tateando pela parede com a outra mão, sem ousar virar de costas, voltou devagar na direção da biblioteca.
Houve um roçar de unha contra a pedra, então o ruído de respiração.
Não era a dela.



A coisa olhava pelas sombras da cela, agarrada à capa com mãos como garras. Comida. Pela primeira vez em meses. Ela era tão quente, tão fervilhante com vida. A coisa saiu ligeira pela cela e passou pela jovem que continuava a recuar às cegas.
Desde que a haviam trancado ali embaixo para apodrecer, desde que tinham se cansado de brincar com ela, a coisa havia se esquecido de muito. Esquecera-se do próprio nome, do que costumava ser. Mas agora sabia coisas mais úteis – melhores. Como caçar, como se alimentar, como usar aquelas marcas para abrir e fechar portas. Havia prestado atenção durante os longos anos; observara-os fazendo as marcas.
E depois que partiram, a coisa esperou até saber que não voltariam. Até que ele estivesse olhando para outro lado e tivesse levado todas as outras coisas com ele. Então, começou a abrir portas, uma após a outra. Algum fiapo da coisa permanecia mortal o suficiente para sempre trancar as portas, para voltar ali e constituir as marcas que trancavam a porta novamente, para se manter contida.
Mas a jovem chegara até ali. Aprendera as marcas, o que significava que tinha que saber – saber o que havia sido feito com a coisa. A jovem só podia ter participado daquilo, do rompimento e da fragmentação e, depois, da reconstrução violenta. E como ela tinha ido até lá...
A coisa se abaixou em outra sombra e esperou que a jovem caminhasse na direção de suas garras.



Celaena parou de recuar quando a respiração foi interrompida. Silêncio.
A luz azul ao redor dela ficou mais forte.
Celaena levou a mão ao peito.
O amuleto se incendiou.



A coisa andava perseguindo os homenzinhos que viviam acima havia semanas, contemplando qual seria o gosto deles. Mas havia sempre aquela luz amaldiçoada perto deles, luz que queimava seus olhos sensíveis. Havia sempre algo que a mandava, fugida, de volta para lá, para o conforto da pedra.
Ratos e seres rastejantes tinham sido sua única alimentação havia tempo demais, o sangue e os ossos deles eram ralos e insípidos. Mas aquela fêmea... a coisa a encontrara duas vezes antes. Primeiro, com aquela mesma luz azul fraca na garganta – então uma segunda vez, quando não a vira, mas sentira o cheiro do outro lado daquela porta de ferro.
No andar de cima, a luz azul tinha sido o suficiente para afastar a coisa – a luz azul tinha gosto de poder. Mas ali embaixo, na sombra da pedra negra que respirava, aquela luz foi reduzida. Ali embaixo, agora que a coisa havia apagado as tochas que a jovem acendeu, não existia nada para impedir o ataque, e ninguém para ouvir a vítima.
A coisa não tinha esquecido, nem nos caminhos distorcidos da memória, o que havia sido feito com ela naquela mesa de pedra.
Com a boca salivando, a coisa sorriu.



O Olho de Elena queimou forte como chama, e Celaena ouviu um chiado no ouvido.
Virou-se, golpeando antes que conseguisse ver direito a figura coberta pelo manto atrás de si. Viu apenas um lampejo de pele enrugada e dentes pontiagudos e quebrados antes de cortar o peito da figura com Damaris.
A coisa gritou – gritou como nada que a assassina tinha ouvido antes quando o manto esfarrapado se rasgou, revelando um peito ossudo e disforme salpicado de cicatrizes. As mãos com garras se lançaram contra o rosto de Celaena ao cair, os olhos reluzentes pela luz do amuleto. Os olhos de um animal, capazes de ver no escuro.
A pessoa – criatura – do corredor. Do outro lado da porta. Celaena nem mesmo viu onde feriu a criatura quando caiu no chão. Sangue escorreu do nariz e encheu sua boca. A assassina disparou em uma corrida cambaleante na direção da biblioteca.
Celaena saltou sobre vigas caídas e pedaços de pedra, deixando que o Olho iluminasse o caminho, mal se mantendo de pé conforme escorregava em ossos. A criatura saiu disparada atrás dela, destruindo os obstáculos como se não passassem de cortinas de fios de seda. A criatura ficava de pé como um homem, mas não era um homem – não, aquele rosto era algo saído de um pesadelo. E a força daquilo, para conseguir empurrar aquelas vigas caídas como se fossem espigas de trigo...
As portas de ferro estavam ali para manter aquilo do lado de dentro.
E Celaena destrancara todas elas.
Ela disparou para cima da pequena escada e atravessou o primeiro portal. Quando se virou para a esquerda, a coisa a segurou pela parte de trás da túnica. O tecido rasgou. Celaena se chocou contra a parede oposta, abaixando-se quando a coisa disparou na sua direção.
Damaris cantou e a criatura rugiu, caindo para trás. Sangue preto espirrou do ferimento no abdômen. Mas Celaena não havia cortado fundo o bastante.
Ao ficar de pé, sangue escorrendo pelas costas do lugar em que as garras a haviam perfurado, Celaena sacou uma adaga com a outra mão.
O capuz caíra da criatura, revelando o que parecia o rosto de um homem – parecia, porém não era mais. Os cabelos eram ralos, pendendo do crânio reluzente em mechas grudadas, e os lábios... havia tantas cicatrizes ao redor da boca, como se alguém a tivesse rasgado, então costurado, depois rasgado de novo.
A criatura apertou a mão retorcida contra o abdômen, ofegando entre aqueles dentes marrons e quebrados enquanto olhava para Celaena – olhava com tanto ódio que a jovem não conseguia se mover. Era uma expressão tão humana...
— O que você é? — Ela arquejou, girando Damaris ao recuar mais um passo.
Mas a criatura subitamente começou a se atacar com as próprias garras, rasgando as vestes escuras, puxando os cabelos, apertando o crânio, como se estivesse prestes a enfiar a mão dentro e puxar algo para fora. E os gritos que emitia, o ódio e o desespero...
A criatura estivera no corredor do castelo.
O que significava...
Aquela coisa, aquela pessoa – sabia como usar as marcas de Wyrd também. E com aquela força sobrenatural, nenhuma barreira mortal a conteria.
A criatura inclinou a cabeça para trás e os olhos animais se concentraram em Celaena de novo. Fixos. Um predador antecipando o gosto da presa.
A assassina se virou e correu, desesperada.



Dorian acabara de passar pela terceira porta quando ouviu o grito de algo não humano. Uma série de ruídos de coisas se quebrando encheu a passagem, e os urros eram interrompidos a cada pancada.
— Celaena? — gritou Dorian, na direção da comoção.
Outra pancada.
— Celaena!
Então...
Dorian, corra!
O grito esganiçado que se seguiu à ordem de Celaena tremeu as paredes. As tochas estalaram.
Dorian sacou o florete quando Celaena subiu disparada as escadas, sangue escorrendo no rosto, e bateu a porta de ferro atrás de si. Ela correu na direção do príncipe, uma espada em uma das mãos, uma adaga na outra.
O amuleto no pescoço brilhava azul, como a mais quente das chamas. Celaena estava ao lado de Dorian em um segundo. A porta de ferro se escancarou atrás deles e...
A coisa que saiu de dentro não era daquele mundo – não poderia ser. Parecia algo que costumava ser um homem, mas estava retorcido e seco e quebrado, com fome e loucura estampadas em cada osso protuberante do corpo. Deuses. Ai, deuses. O que ela havia despertado?
Os dois avançaram pelo corredor, e o príncipe xingou ao ver os degraus que levavam à porta seguinte. O tempo que levaria para subir as escadas...
Mas Celaena era rápida. E meses de treinamento a haviam fortalecido.
Para humilhação eterna de Dorian, quando chegaram à base das escadas, ela o agarrou pelo colarinho da túnica, meio que puxando-o para degraus acima. A assassina impulsionou Dorian para o corredor além do portal. Atrás deles, a coisa urrava. Ele se virou a tempo de ver os dentes quebrados da criatura brilhando ao subir as escadas. Ágil como um raio, Celaena bateu a porta de ferro na cara da criatura.
Apenas mais uma porta – Dorian conseguia visualizar a plataforma que dava para o primeiro corredor, então aquela escada em espiral, depois a segunda escada e...
E depois, quando chegassem à biblioteca principal? O que poderiam fazer contra aquela coisa?
Ao ver o terror puro no rosto de Celaena, Dorian soube que ela pensava o mesmo.



Celaena atirou o príncipe para o corredor, então impulsionou o corpo para trás, se chocando contra a última porta de ferro que separava o covil da criatura do restante da biblioteca. Ela colocou o peso sobre a porta e viu estrelas quando a coisa se atirou contra o outro lado. Pelos deuses, aquilo era forte – forte e selvagem e insistente...
Por um momento, a jovem cambaleou para longe e a coisa tentou abrir a porta. Mas Celaena impulsionou o corpo, atirando as costas contra a porta.
A mão da criatura ficou presa na porta, e ela urrou, rasgando o ombro de Celaena com as garras enquanto a assassina empurrava e empurrava.
Sangue escorria do nariz de Celaena, misturando-se ao sangue que escorria dos ombros. As garras se enterraram mais.
Dorian correu, apoiando as costas na porta. Ele ofegava, olhando Celaena, boquiaberto.
Precisavam selar a porta. Mesmo que aquela coisa fosse inteligente o bastante para conhecer as marcas de Wyrd, precisavam ganhar tempo. Ela precisava dar a Dorian tempo o suficiente para sair. Perderiam as forças em breve, e a coisa invadiria e os mataria e quem mais entrasse em seu caminho.
Devia haver uma tranca em algum lugar, algum modo de fechar a criatura do lado de dentro, segurá-la por apenas um momento...
Empurre — arquejou ela para Dorian.
A criatura ganhou 2 centímetros, mas Celaena empurrou forte, puxando a força das pernas. A coisa rugiu de novo, tão alto que a assassina achou que sangue jorraria de seus ouvidos. Dorian praguejou com vigor.
Celaena olhou para ele, sequer sentindo a dor das garras cravadas na pele. Suor escorreu pela testa do príncipe quando... quando...
O metal começou a esquentar pelas beiradas da porta, brilhando vermelho, então chiou...
Havia magia ali; magia estava em curso bem naquele momento, tentando selar a porta contra a criatura. Mas não vinha de Celaena.
Os olhos de Dorian estavam fechados de concentração, o rosto dele pálido como a morte.
Ela estava certa. Dorian tinha magia. Foi essa a informação que Pernas Amarelas quis vender pelo lance mais alto, vender para o próprio rei. Era um conhecimento que poderia mudar tudo. Poderia mudar o mundo.
Dorian tinha magia.
E se ele não parasse, iria se queimar na porta de ferro.



A porta sufocava o príncipe. Ele estava em um caixão, um caixão sem ar. A magia não conseguia respirar. Ele não conseguia respirar.
Celaena xingou quando a criatura ganhou mais espaço. Dorian nem mesmo sabia o que estava fazendo, só sabia que precisava selar aquela porta. Sua magia tinha escolhido o método. O príncipe empurrou com as pernas, empurrou com as costas, empurrou a magia ao máximo enquanto tentava soldar a porta. Girando, calor, estrangulando...
A magia escorregava para fora de Dorian.
A criatura empurrou com força, o que fez com que ele saísse cambaleando. Mas Celaena se atirou com mais força contra a porta enquanto o príncipe recuperava o equilíbrio.
A espada de Celaena estava a poucos metros, mas qual era a utilidade de uma espada?
Os dois não tinham esperanças de escapar com vida.
Os olhos de Celaena encontraram os de Dorian, a pergunta era muito visível no rosto ensanguentado dela: O que foi que eu fiz?



Ainda presa pelas garras da criatura, Celaena nem mesmo conseguia se mover quando Dorian deu um impulso repentino na direção de Damaris. A criatura tentou escapar mais uma vez, e o príncipe girou, fazendo contato direto com o pulso da coisa. O grito emitido penetrou os ossos de Celaena, mas a porta se fechou completamente. A assassina cambaleou, a mão decepada da besta despontando de seu ombro, mas ela empurrou o corpo de volta contra a porta quando a criatura, mais uma vez, se jogou nela.
— Que diabo é isso? — gritou Dorian, atirando o peso de volta contra o ferro.
— Não sei — sussurrou Celaena. Sem o luxo de um curandeiro, arrancou a mão imunda do ombro, reprimindo um grito. — Estava lá embaixo — falou a assassina, ofegante. Mais uma pancada atrás da porta. — Não dá para selar essa porta com magia. Precisamos... precisamos selar de outro modo.
E encontrar algo que venceria a inteligência de qualquer feitiço de destrancar que aquela criatura conhecesse, alguma forma de impedir que ela saísse. Celaena engasgou com o sangue que escorria do nariz para dentro da boca, então cuspiu no chão.
— Tem um livro, Os mortos andam. Lá haverá a resposta.
Os olhos deles se encontraram e se detiveram. Uma linha se estendeu, firmemente, entre eles – um momento de confiança e uma promessa de respostas dos dois.
— Onde está o livro? — perguntou Dorian.
— Na biblioteca. Ele encontrará você. Posso segurar a porta por alguns minutos.
Sem precisar que aquilo fizesse sentido, Dorian disparou escada acima. Percorreu estante após estante, os dedos lendo os títulos, mais e mais rápido, sabendo que cada segundo exauria as forças dela. O príncipe estava prestes a gritar de frustação quando passou por uma mesa e viu um grande título preto na superfície.
Os mortos andam.
Celaena estava certa. Por que estava sempre certa, do seu próprio jeito esquisito? Dorian pegou o livro e correu para a câmara secreta. A jovem estava de olhos fechados e com os dentes vermelhos do próprio sangue enquanto os mantinha trincados.
— Aqui — disse Dorian.
Sem precisar que ela pedisse, o príncipe se atirou contra a porta quando Celaena caiu no chão e pegou o livro. Ela estava com as mãos trêmulas ao virar uma página, então outra e outra. O sangue de Celaena espirrava no texto.
— “Para selar ou conter” — leu ela em voz alta.
Dorian olhou para as dezenas de símbolos na página.
— Isto vai funcionar? — perguntou ele.
— Espero que sim — grunhiu Celaena, já se movendo, segurando o livro aberto na outra mão. — Depois que o feitiço for lançado, simplesmente passando por este portal, vai segurar a criatura por tempo o bastante para que possamos matá-la. — Ela enfiou os dedos nos ferimentos no peito, e Dorian apenas olhou, perplexo, quando Celaena fez a primeira marca, então a segunda, transformando o corpo detonado em um tinteiro enquanto desenhava marca após marca ao redor da porta.
— Mas para que a coisa passe pelo portal — ofegou Dorian — nós precisaríamos...
— Abrir a porta — completou Celaena, assentindo.
O príncipe se virou para que ela estendesse o braço e desenhasse acima da cabeça dele, a respiração dos dois se misturava.
Celaena emitiu um longo suspiro ao desenhar a última marca e, subitamente, as marcas brilharam com um azul fraco. Dorian se apoiou contra a porta, mesmo ao sentir o ferro se enrijecer.
— Pode soltar — sussurrou Celaena, inclinando a espada. — Solte e venha para trás de mim.
Pelo menos não o insultou ordenando que fugisse.
Inspirando uma última vez, o príncipe saltou para longe.
A criatura se chocou contra a porta, escancarando-a. E, exatamente como a assassina dissera, a coisa congelou sob o portal, os olhos animalescos estavam selvagens quando a cabeça despontou no corredor. Houve uma pausa então, uma pausa na qual Dorian poderia ter jurado que Celaena e a criatura se olharam – e a bestialidade daquela coisa se acalmou, apenas por um momento. Apenas por um momento, e então a assassina se moveu.
A espada refletiu a luz da tocha e ouviu-se um ruído de carne sendo esmagada e osso se partindo. O pescoço era espesso demais para ser decepado com um golpe, então, antes que Dorian conseguisse inspirar mais uma vez, Celaena golpeou de novo.
A cabeça caiu no chão com um estampido, sangue preto esguichou do pescoço cortado – do corpo que ainda estava paralisado à porta.
— Merda — sussurrou Dorian. — Merda.
Celaena se moveu de novo, afundando a espada na cabeça, espetando-a, como se achasse que a criatura ainda pudesse morder.
O príncipe ainda emitia um fluxo constante de xingamentos quando Celaena estendeu a mão para as marcas ensanguentadas ao redor da porta e passou o dedo por uma delas.
O corpo sem cabeça da criatura caiu no chão, o feitiço fora quebrado.
Mal terminara de cair quando a assassina golpeou quatro vezes: três para dividir o torso macilento em dois, e um quarto golpe para acertar o lugar em que o coração estaria. Bile subiu quando a espada acertou a criatura uma quinta vez, abrindo a cavidade peitoral.
O que quer que Celaena tivesse visto fez o rosto dela ficar ainda mais pálido. Dorian não queria olhar.
Com eficiência sombria, ela chutou a cabeça, humana demais, pelo portal, fazendo com que se chocasse contra o cadáver definhado da criatura. Então fechou a porta de ferro e desenhou mais algumas marcas sobre o portal, o qual brilhou e então se apagou.
Celaena se virou para o príncipe, mas Dorian olhava outra vez para a porta, agora selada.
— Quanto tempo este... este feitiço dura? — Ele quase engasgou na palavra.
— Não sei — falou Celaena, sacudindo a cabeça. — Até eu remover as marcas, acho.
— Não creio que deveríamos contar a mais ninguém sobre isto — falou Dorian, com cautela.
Celaena deu uma gargalhada um pouco selvagem. Contar aos outros, até mesmo a Chaol, significaria responder perguntas difíceis – perguntas que poderiam garantir aos dois uma viagem até a ala do abatedouro.
— Então — falou Celaena, cuspindo sangue nas pedras — quer se explicar primeiro, ou devo eu?



Celaena começou, porque Dorian precisava desesperadamente trocar a túnica imunda, e conversar parecia uma boa ideia enquanto ele se despia no quarto. Ela se sentou na cama do príncipe, não parecendo muito melhor também – motivo pelo qual haviam usado as passagens dos criados até a torre.
— Sob a biblioteca há uma masmorra antiga, acho — falou Celaena, tentando manter a voz o mais baixa possível. Ela viu um lampejo de pele dourada pela porta entreaberta que dava no aposento de vestir de Dorian, então virou o rosto. — Acho... acho que alguém manteve a criatura lá dentro até que ela se libertou da cela. Aquela coisa tem vivido sob a biblioteca desde então.
Não havia necessidade de contar a Dorian que ela começava a acreditar que o rei tinha criado aquilo. A torre do relógio fora construída pelo próprio rei – então ele tinha que saber a que ela estava conectada. Celaena estava ciente de que a criatura tinha sido feita porque no peito dela havia um coração humano. A assassina estava disposta a apostar que o rei usara pelo menos uma chave de Wyrd para fazer tanto a torre quanto o monstro.
— O que não entendo — disse Dorian, de dentro do aposento — é por que essa coisa consegue abrir as portas de ferro agora se não conseguia antes.
— Porque fui uma idiota e quebrei os feitiços sobre as portas quando entrei.
Uma mentira – de certo modo. Mas Celaena não queria explicar, não podia explicar, por que a criatura tinha sido capaz de se libertar antes e jamais ferira ninguém até então. Por que estivera no corredor naquela noite e desaparecera, por que os bibliotecários estavam vivos e ilesos.
Mas talvez o homem que a criatura fora um dia... Talvez não tivesse se perdido completamente. Havia tantas perguntas agora, tantas coisas sem resposta.
— E aquele último feitiço que você fez, na porta. Vai durar para sempre? — Dorian surgiu vestindo uma túnica nova e calça, ainda descalço.
A visão dos pés dele parecia estranhamente íntima.
Celaena deu de ombros, lutando contra a vontade de limpar o rosto ensanguentado e imundo. O príncipe oferecera o banheiro particular, mas ela recusara. Aquilo também pareceu íntimo demais.
— O livro diz que é um feitiço de selagem permanente, então não acho que outra pessoa, exceto nós, conseguirá atravessar.
A não ser que o rei queira entrar e use uma das chaves de Wyrd.
Dorian passou a mão pelo cabelo, sentando-se ao lado de Celaena na cama.
— De onde veio a criatura?
— Não sei — mentiu Celaena.
O anel do rei lhe veio à mente. Mas aquela não poderia ser a chave de Wyrd; Pernas Amarelas tinha dito que eram lascas de pedra preta, não... não forjadas em algum formato. Mas ele poderia ter feito o anel usando a chave. Celaena agora entendia por que Archer e sua sociedade tanto cobiçavam quanto queriam destruir o objeto. Se o rei poderia usá-lo para fazer criaturas...
Se tivesse feito mais...
Havia tantas portas. Bem mais que duzentas, todas trancadas. E tanto Kaltain quanto Nehemia haviam mencionado asas – asas nos sonhos, asas batendo sobre o desfiladeiro Ferian. O que o rei estava criando ali?
— Diga — insistiu Dorian.
— Não sei — mentiu Celaena de novo, e se odiou por isso. Como poderia fazê-lo entender uma verdade que poderia destruir tudo o que o príncipe amava?
— Aquele livro — disse Dorian. — Como sabia que ajudaria?
— Eu o encontrei um dia na biblioteca. Parecia... me seguir. Apareceu em meus aposentos quando não o levei para lá, ressurgiu na biblioteca; estava cheio daquele tipo de feitiço.
— Mas não é magia — falou Dorian, empalidecendo.
— Não a magia que você tem. É diferente. Eu nem mesmo sabia se aquele feitiço funcionaria. E por falar nisso — disse Celaena, encarando o príncipe — você tem... magia.
Ele avaliou o rosto dela, e a assassina lutou contra a vontade de desviar os olhos.
— O que quer que eu diga?
— Diga como tem magia — sussurrou ela. — Diga como você tem e o resto do mundo não. Conte como a descobriu e que tipo de magia é. Conte tudo. — Dorian começou a balançar a cabeça, mas Celaena aproximou o corpo. — Você acabou de me ver quebrar pelo menos uma dezena das leis de seu pai. Acha que vou entregá-lo ao rei quando você poderia facilmente me destruir também?
Dorian suspirou. Depois de um instante, falou:
— Há algumas semanas, eu... explodi. Fiquei tão irritado em uma reunião do conselho que saí disparado e soquei uma parede. E, de alguma forma, a pedra quebrou, e então a janela próxima também se estilhaçou. Desde então, venho tentando descobrir de onde ela vem, que tipo de poder é exatamente. E como controlar. Mas apenas... acontece. Como...
— Como na ocasião em que me impediu de matar Chaol.
O pescoço do príncipe se mexeu quando ele engoliu em seco.
Celaena não conseguiu encará-lo ao falar:
— Obrigada por aquilo. Se não tivesse me impedido, eu... — Não importava o que houvesse acontecido entre ela e Chaol, não importava como se sentia em relação a ele agora, se o tivesse matado naquela noite, não haveria retorno, nenhuma recuperação. De alguma forma... de alguma forma, poderia tê-la transformado em outra versão daquela coisa na biblioteca. Ela sentia enjoo só de pensar nisso. — Não importa o que sua magia seja, ela salvou mais vidas que a dele naquela noite.
Dorian se virou.
— Ainda preciso aprender a controlar ou pode acontecer em qualquer lugar. Diante de qualquer um. Tive sorte até agora, mas acho que essa sorte não vai durar.
— Alguém mais sabe? Chaol? Roland?
— Não. Chaol não sabe, e Roland acaba de partir com o duque Perrington. Vão para Morath por alguns meses para... para supervisionar a situação em Eyllwe.
Aquilo tudo tinha que estar relacionado: o rei, a magia, o poder de Dorian, as marcas de Wyrd, até mesmo a criatura.
O príncipe foi até a cama e levantou o colchão, puxando de dentro um livro escondido. Não era o melhor lugar para esconder algo, mas o esforço era válido.
— Tenho pesquisado as árvores genealógicas das famílias nobres de Adarlan. Mal tivemos praticantes de magia nas últimas gerações.
Havia tantas coisas que Celaena poderia contar a ele, mas se o fizesse, traria muitas perguntas. Então apenas avaliou as páginas que Dorian mostrou, virando uma por uma.
— Espere — falou Celaena.
Os ferimentos de garras no ombro irradiaram um rompante de dor quando ela levou a mão ao livro. A assassina avaliou a página na qual Dorian havia parado, o coração acelerado ao encaixar outra pista sobre o rei e os planos. Permitiu que Dorian continuasse.
— Está vendo? — falou o príncipe, fechando o livro. — Não tenho muita certeza da origem.
Ele ainda a observava com cautela. Celaena encarou Dorian e falou, baixinho:
— Há dez anos, muitas pessoas que eu... pessoas que eu amava foram executadas por terem magia. — Dor e culpa passaram pelos olhos do príncipe, mas ela continuou: — Então, entende quando digo que não desejo ver mais ninguém morrer por causa disso, mesmo o filho do homem que ordenou aquelas mortes.
— Sinto muito — respondeu Dorian, baixinho. — Então, o que faremos agora?
— Comeremos uma refeição monstruosa, visitaremos um curandeiro, tomaremos um banho. Nessa ordem.
Dorian deu uma risada e a cutucou, de modo brincalhão, com o joelho.
Celaena inclinou o corpo para a frente, unindo as mãos entre as pernas.
— Esperaremos. Ficaremos de olho naquela porta para ter certeza de que ninguém tentará entrar e... apenas viveremos um dia após o outro.
Dorian pegou uma das mãos de Celaena, olhando em direção à janela.
— Um dia após o outro.

15 comentários:

  1. Saaaaaaaaaaaaaai doriaaaaan.. Chaaaol cadê vocêêê??????????????/

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    1. cale a boca, saaaaai demonio (pra vc) eles tem que ficar juntos

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  2. Ahhh fofo, amo o chaol , mas dorian e cel parece conectados por algo.lindosss

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  3. Viver um dia após o outro fala sério mentira que eles vão fazer isso.

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  4. Sempre achei que a magia do Dorian ia acabar aproximando os dois! Infelizmente acho que estava certa, prefiro o Chaol!
    Ass: Flavia

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    1. Siiim! O amor entre Celaena e Chaol é excepcional. Pena que ele não tem magia ou os dois poderiam estar juntos em literalmente tudo. Choremos.

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  5. Nessa altura do campeonato não prefiro mais ninguém nem sei mais de nada, eu primeiro quis Dorian mais de maneira fria e racional ela terminou e vi que não ia rolar, ai ela ficou com Chaol, e confesso foi lindo e me encantei tb ai friamente ela o afasta tb, certo teve seus motivos mais não acho que justifiquem afinal ela o amava e sabia que ele jamais faria algo para feri-la assim, mais beleza, agora ela já está com o príncipe novamente... No final qualquer um dos dois tá bom, mais que tô com pena do capitão, eu estou.

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    1. Ela n tá com o príncipe, eles só passaram por um momento muito louco juntos... N acho que ela ficaria com ele, acho que o que ela sente por ele é só um senso de proteção, tipo amizade mesmo.

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  6. Isso NAO É SPOILER
    fiquei com pulgas atras da orelha. Ela disse q o povo de Terrasen tem magia, e ficou claro q ninguem das ultimas geraçoes dos haviliard tem magia. Dorian tem os olhos azuis safiras, q ninguem mais da sua casa tem, olhos q celaena, de Terrasen tem tmb. Será q haveria alguma possibilidade de dorian e celaena serem parentes?

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    1. Se a gente parar pra pensar, eles são. Tipo bem bem distantes... Quer dizer, se o Chaol estiver certo, e eu acho que está e ela tem sangue nobre, quer dizer que ela é muito provavelmente descendente de Brannon, que é pai da Elena, esposa do Gavin Havilliard, ancestral do Dorian... Ou seja, possivelmente os dois são descendentes de Brannon. Aliás deve ser daí a origem da magia do Dorian, afinal a Elena era uma semifeéria.

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  7. Sei lá será q só eu pensei na rainha Elena e no rei Gavin quando a Celaena e o príncipe Dorian tava lá lutando juntos? Muito fofos junto mas eu ainda prefiro o Chaol mas pelo visto esse livro vai me trazer várias surpresas ainda

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  8. Minha reaçao com celaena entrando nessas portas de ferro era tipo assistir um filme tosco de terror em que voce grita pra personagem principal do filme nao descer ao porao sem luz numa sexta feira 13 chuvosa depois de escutar ruidos vindo do lugar hahahahah
    ''NAOOOO,sai dai sua burra!Nao corre pro o subsolo sabendo que tem algo macabro la!Mata ela logo pq é muita burrice pra uma pessoa.Mentira,mata nao! uahsuahauhuas estou tensa depois dessa
    -Rachel

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  9. Isso Doriaaaaaaaaaaaaaaan!!!! Arrasaaaaaaaaa!!!

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  10. Cara...eu pensei algo muito maldoso quando li a parte em que Dorian fala sobre seus poderes , e lembro que celaena é a protagonista ...eu pensei "Chaol , como VC é inútil " . tipo a cel e o Dorian falando sobre as treta e chaol lá ...pesquisando sobre a linhagem dela .nada de mais , mas que pode ser um tudo ao mesmo tempo .

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  11. Huumm... Essa coisa de shipp é mesmo engraçada e sofrida. A gente tem mesmo + simpatia por esse ou aquele personagem. Já li os 4 livros + o spin-off. Não odeio o Chaol tenho um carinho por ele mas amo o Dorian e depois de... O amo + ainda. Fato é que agora pra mim tanto faz se ela vai ficar c/fulano, sicrano... Ou sózinha. Pq não? Só quero que ela e eles tbm fiquem bem e felizes. sim eu tenho meus ships,(iguais, diferentes e confusos.) mas sei que eles podem afundar como o Titanic e isso que é legal pra mim porque previsibilidade não tem graça.

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