28 de fevereiro de 2016

Capítulo 40

Elide passou dois dias de plantão na cozinha como voluntária, aprendendo onde e quando as lavadeiras comiam e quem trazia a sua comida. Nesse ponto, o cozinheiro chefe confiava nela o suficiente para que, quando ela se ofereceu para levar o pão até o salão de jantar, ele não pensou duas vezes.
Ninguém notou quando ela aspergiu o veneno em alguns pães. A Líder Alada jurara que não a mataria – bastava deixar a lavadeira doente por alguns dias. E talvez isso a tornasse egoísta por colocar sua própria sobrevivência em primeiro lugar, mas Elide não hesitou em jogar o pó pálido em alguns dos pães, misturando-o na farinha neles espanado.
Elide marcou um pão, em particular, para ter certeza de entregá-lo à lavadeira que notara dias antes, mas os outros seriam dados à sorte para as mulheres.
Inferno – ela provavelmente iria queimar no reino de Hellas para sempre por isso.
Mas podia pensar em sua condenação quando tivesse escapado e estivesse muito, muito distante, além do Continente Antártico.
Elide mancou no refeitório estridente, uma aleijada lenta, com mais um prato de comida. Ela fez seu caminho até a longa mesa, tentando manter o peso fora de sua perna enquanto se inclinava uma e outra vez para depositar os pães os pratos. A lavadeira nem sequer se preocupou em agradecer-lhe.



No dia seguinte, a fortaleza estava alvoroçada com a notícia de que um terço das lavadeiras estava doente. Devia ter sido o frango no jantar, eles disseram. Ou a carne de carneiro. Ou a sopa, uma vez que apenas alguns deles ficaram doentes.
O cozinheiro pedira desculpas – e Elide não tinha tentado se desculpar com ele quando viu o terror em seus olhos.
A lavadeira-chefe realmente parecia aliviada quando Elide apareceu e se ofereceu para ajudar. Ela disse-lhe para escolher qualquer estação e começar a trabalhar.
Perfeito.
Mas a culpa empurrou para baixo sobre seus ombros enquanto ela ia direto para a estação daquela mulher. Ela trabalhou durante todo o dia, e esperou as roupas ensanguentadas chegarem.



Quando finalmente chegaram, não havia tanto sangue quanto antes, mas mais de uma substância que parecia vômito.
Elide quase vomitou em si mesma enquanto lavava todas elas. E as deixou escorrer. E as secou. E passou. Demorou horas.
Caía à noite quando ela dobrou a última delas, tentando impedir os dedos de tremerem. Mas ela foi até a lavadeira-chefe e disse em voz baixa, não mais do que uma garota nervosa:
— De-devo levá-las de volta?
A mulher sorriu. Elide se perguntou se a outra lavadeira fora enviada para lá como um castigo.
— Há uma escada ao longo desse corredor que a levará aos níveis subterrâneos. Diga aos guardas que você é a substituta de Misty. Leve as roupas para a segunda porta à esquerda e deixe ali fora.
A mulher olhou para correntes de Elide.
— Tente correr na volta, se puder.



As entranhas de Elide tinham se transformado em água no momento em que ela chegou aos guardas.
Mas eles não se importaram enquanto ela recitava o que a lavadeira-chefe dissera.
Para baixo, para baixo e para baixo, ela desceu, pela escuridão da escada em espiral. A temperatura caiu quanto mais ela descia.
E então ela ouviu os gemidos.
Gemidos de dor, de terror, de desespero.
Ela segurou a cesta de roupas em seu peito. A tocha tremulou a sua frente.
Deuses, era tão frio ali.
Nas escadas alargadas em direção ao fundo, estava uma descida em linha reta revelando um amplo corredor, iluminado com tochas e forrado por inúmeras portas de ferro.
Os gemidos vinham detrás delas.
Segunda porta à esquerda. Era marcada com o que pareciam ser marcas de garras, feitas de fora para de dentro.
Havia guardas ali em baixo – guardas e homens estranhos, patrulhando de um lado a outro, abrindo e fechando portas. Os joelhos de Elide vacilaram. Ninguém parou.
Ela colocou o cesto de roupa na frente da segunda porta e bateu calmamente. O ferro era tão frio que queimou.
— Roupas limpas — disse ela contra o metal.
Era absurdo – num lugar com estas pessoas, eles ainda insistirem em roupas limpas.
Três dos guardas haviam feito uma pausa para assistir. Ela fingiu não perceber – fingiu recuar lentamente, como um coelho pouco assustado.
Fingiu cair e massagear sua perna ruim, sentindo dor.
Mas era verdadeira a dor que rugia através de sua perna quando ela desceu, suas correntes puxando-a para baixo. O chão era tão frio quanto a porta de ferro.
Nenhum dos guardas veio ajudá-la.
Ela sussurrou, agarrando seu tornozelo, comprando o máximo de tempo que podia, seu coração trovejando – um estrondoso trovão.
E então a porta se abriu.



Manon assistiu Elide vomitar. De novo.
Uma sentinela Bico Negro a encontrara enrolado em uma bola em um canto num corredor aleatório, agitada, com uma poça de xixi embaixo dela. Depois de ouvir que a serva era agora propriedade de Manon, a sentinela a arrastara até ali.
Asterin e Sorrel estavam feito pedra atrás de Manon enquanto a menina vomitava dentro do balde novamente – só bile e saliva desta vez e, finalmente, levantou a cabeça.
— Relatório — pediu Manon.
— Eu vi a câmara — Elide pausou. Todas elas ainda imóveis. — Algo abriu a porta para tirar a roupa, e eu vi a câmara além.
Com aqueles olhos penetrantes dela, provavelmente viu demais.
— Vamos logo com isso — ordenou Manon, encostada na cabeceira da cama. Asterin e Sorrel permaneciam junto à porta, monitorando para impedir bisbilhoteiros.
Elide ficou no chão, a perna torcida para o lado. Mas os olhos que atenderam Manon eram acesos com um temperamento explosivo que a menina raramente revelava.
— A coisa que abriu a porta era um homem, um belo homem de cabelos dourados e um colar no pescoço. Mas ele não era um homem. Não havia nada de humano em seus olhos — um dos príncipes, tinha que ser. — E-eu fingi cair para poder ganhar mais tempo e ver quem abriu a porta. Quando ele me viu no chão, sorriu para mim e aquela escuridão vazou dele... — ela deu uma guinada em direção ao balde e inclinou-se sobre ele, mas não vomitou. Depois de outro momento, continuou: — Consegui olhar atrás dele para o cômodo ali.
Ela olhou para Manon, em seguida, para Asterin e Sorrel.
— Você disse que eles estavam fazendo implantes.
— Sim — confirmou Manon.
— Você sabe quantas vezes?
— O quê?
Asterin prendeu a respiração.
— Você sabia — Elide falou, sua voz tremendo com raiva ou medo — quantas vezes elas seriam, cada uma, implantadas com filhos antes que eles as deixassem ir?
Tudo ficou em silêncio na cabeça de Manon.
— Continue.
O rosto de Elide era branco como a morte, fazendo com que suas sardas parecessem gotas de sangue seco espalhadas.
— Pelo o que vi, elas já tiveram pelo menos um bebê cada uma. E estão prestes a dar à luz novamente.
— Isso é impossível — Sorrel exclamou.
— E as bruxas donzelas? — Asterin perguntou.
Elide realmente vomitou novamente, desta vez.
Quando ela acabou, Manon havia se dominado o suficiente para dizer:
— Conte-me sobre as bruxas donzelas.
— Elas não são bruxas donzelas. Não são bebês — Elide cuspiu, cobrindo o rosto com as mãos como se para arrancar seus olhos. — São criaturas. São demônios. A pele deles é como diamante negro, e eles... Eles têm focinhos, com os dentes. Presas. Eles já têm presas. E não se parecem com vocês — ela baixou as mãos. — Eles têm dentes de pedra negra. Não há nada de vocês neles.
Se Sorrel e Asterin ficaram horrorizadas, não mostraram nada.
— E as Pernas Amarelas? — Manon exigiu.
— Eles as acorrentaram às mesas. Altares. E elas choravam. Imploravam para que os homens a deixassem ir. Mas elas estavam... tão perto de dar à luz. E então eu corri. Corri de lá o mais rápido que pude, e oh, deuses... Oh, deuses.
Elide começou a chorar.
Devagar, Manon se virou para a segunda e terceira em comando.
Sorrel estava pálida, os olhos em fúria.
Mas Asterin olhou para Manon, e esta encontrou uma fúria que nunca vira dirigida a ela.
— Você os deixou fazer isso.
As unhas de Manon pularam para fora.
— Estas são as minhas ordens. Esta é a nossa tarefa.
— É uma abominação! — Asterin gritou.
Elide parou de chorar. E recuou para a segurança da lareira.
Em seguida, havia lágrimas – lágrimas – nos olhos de Asterin.
Manon rosnou.
— Seu coração amoleceu? — a voz podia muito bem ter sido de sua avó. — Você não tem nenhum estômago para...
— Você os deixou fazer isso! — Asterin berrou.
Sorrel acertou o rosto de Asterin.
— Ajoelhe-se.
Asterin empurrou Sorrel para longe tão violentamente que a imediata de Manon colidiu com a cômoda.
Antes que Sorrel pudesse se recuperar, Asterin estava a centímetros de Manon.
— Você entregou aquelas bruxas a ele. Você as deu!
Manon atacou, envolvendo a mão em torno da garganta de Asterin. Mas Asterin agarrou seu braço, cravando suas unhas de ferro com tanta força que o sangue correu.
Por um instante, o sangue de Manon pingando no chão era o único som.
Asterin deveria ser executada por tirar sangue da herdeira.
Luz brilhou sobre a adaga de Sorrel quando ela se aproximou, pronta para arrancar a espinha de Asterin se Manon desse a ordem. Manon podia jurar que a mão de Sorrel vacilou ligeiramente.
Manon encontrou os olhos negros salpicados de ouro de Asterin.
— Você não questiona. Você não exige. Você não é mais a segunda imediata. Vesta irá substituí-la. Você...
Um riso áspero, quebrado.
— Você não fará nada sobre isso, não é? Não vai libertá-las. Não vai lutar por elas. Por nós. Porque o que a avó dirá? Por que ela não respondeu às suas cartas, Manon? Quantas você enviou agora?
As unhas de ferro do Asterin cravaram mais fundo, retalhando a carne. Manon abraçou a dor.
— Amanhã de manhã, no café, você receberá seu castigo — Manon assobiou, e atirou a segunda imediata longe, enviando Asterin em direção à porta. Manon deixou seu braço ensanguentado cair ao seu lado. Ela precisaria fazer um curativo em breve. O sangue em sua palma, em seus dedos, era tão familiar. — Se tentar libertá-las, se fizer algo estúpido, Asterin Bico Negro — Manon continuou — o próximo castigo que receberá será a sua própria execução.
Asterin soltou outra risada sem alegria.
— Você não teria desobedecido mesmo se fossem Bico Negro lá embaixo, não é? Lealdade, obediência, brutalidade, isto é o que você é.
— Saía enquanto ainda pode andar — Sorrel falou friamente.
Asterin girou para a imediata, e algo como mágoa brilhou em seu rosto.
Manon piscou. Esses sentimentos...
Asterin girou nos calcanhares e saiu, batendo a porta atrás dela.



Elide conseguira limpar a cabeça no momento em que se ofereceu para limpar e enfaixar o braço de Manon.
O que ela vira hoje, tanto nesta sala e na câmara abaixo...
Você os deixou fazer isso! Não culpava Asterin, mesmo que a tivesse chocado ver a bruxa perder o controle de forma tão completa. Ela nunca vira nenhuma delas reagir a qualquer coisa que não fosse diversão, indiferença ou furiosa sede de sangue.
Manon não dissera uma palavra desde que mandara Sorrel sair e seguir Asterin para impedi-la de fazer algo profundamente estúpido.
Como se salvar aquelas Pernas Amarelas pudesse ser tolice. Como se esse tipo de misericórdia fosse imprudente.
Manon encarava o nada quando Elide terminou de aplicar a pomada e estendeu a mão para as bandagens.
As feridas foram profundas, mas não ruins o suficiente para justificar pontos.
— O seu reino quebrado vale a pena? — Elide se atreveu a perguntar.
Aqueles olhos queimando dourados deslocaram em direção à janela escura.
— Eu não espero que um ser humano vá entender o que é ser um imortal sem pátria. Ser amaldiçoado com o exílio eterno — palavras distantes e frias.
— O meu reino foi conquistado pelo Rei de Adarlan, e todos que amei foram executados — Elide falou. — As terras de meu pai e meu título foram roubadas de mim pelo meu tio e minha melhor chance de segurança encontra-se agora na fuga para a outra extremidade do mundo. Entendo o que é desejar esperança.
— Não é esperança. É sobrevivência.
Elide enrolou suavemente a bandagem em torno do antebraço da bruxa.
— É a esperança por sua pátria que a guia, que a faz obedecer.
— E o seu futuro? Por todo seu discurso de esperança, você parece resignada à fuga. Por que não voltar ao seu reino para lutar?
Talvez o horror que ela testemunhara hoje tenha lhe dado a coragem de responder:
— Dez anos atrás, meus pais foram assassinados. Meu pai foi executado com crueldade na frente de milhares. Minha mãe morreu defendendo Aelin Galathynius, a herdeira do trono de Terrasen. Ela deu a Aelin tempo para fugir. Eles seguiram as trilhas de Aelin até o rio congelado, onde disseram que ela deve ter caído e se afogado. Mas veja, Aelin tinha magia de fogo. Ela poderia ter sobrevivido ao frio. E Aelin... Aelin nunca realmente gostou de mim ou brincou comigo porque eu era tão tímida, mas nunca acreditei quando disseram que ela estava morta. Todos os dias desde então, falei a mim mesma que ela fugiu, e que ela ainda está lá fora, aguardando seu momento. Crescendo, ficando forte, de modo a um dia poder salvar Terrasen. E você é minha inimiga, porque se ela retornar, vai lutar com você. Mas por dez anos, até que eu chegar aqui, suportei Vernon por causa dela. Por causa da esperança de que ela fugiu, e que o sacrifício da minha mãe não foi em vão. Pensei que um dia Aelin viria para me salvar, lembraria que eu existia e me resgataria daquela torre — lá estava ele, seu grande segredo, que ela nunca ousara contar a ninguém, até mesmo sua babá. — Embora ela nunca viesse, mesmo que eu esteja aqui agora, não posso deixar de esperar por isso. E penso que é por isso que você obedece. Porque esperou todos os dias da sua vida miserável pelo dia em que poderá voltar para casa.
Elide terminou de envolver a bandagem e recuou. Manon olhava para ela agora.
— Se esta Aelin Galathynius está de fato viva, você tentaria correr para ela? Lutar com ela?
— Eu lutaria com unhas e dentes para chegar até ela. Mas há linhas que eu não atravessaria. Porque penso que eu não poderia enfrentá-la se eu... se eu mesma não puder enfrentar o que fiz.
Manon não disse nada. Elide afastou-se, indo para banheiro lavar as mãos.
A Líder Alada disse por detrás ela:
— Você acredita que monstros nascem, ou são feitos?
Pelo o que vira hoje, diria que algumas criaturas nasciam muito más. Mas o que Manon perguntava...
— Eu não sou aquela que tem que responder a essa pergunta — Elide falou.

12 comentários:

  1. Tenha esperanças, Elide. Aelin está lá fora fazendo o possível pra ajudar o seu povo ❤ Que lindo esse discurso dela *-*

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  2. Na boa, amo essa guria... Ainda acho que ela vai de alguma forma convencer Manon a lutar ao lado da Aelin quando chegar a hora. A corte da Herdeira do Fogo está se formando... 😍😍😍

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  3. Pois já faz um tempo q eu acho q Manon vai se juntar à causa. Acredito q as 13 vão quebrar c a matriarca e se juntar à Aelin. Minha dúvida é se vão ser apenas as 13. E para mim é a Elide que fará a ponte entre elas.

    Ps.: Esqueci de dizer q acho tb q elas vão salvar as pernas amarelas.

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  4. ja to vendo q vai te uma reviravolta ai n e espoiler mas eu acho q de algum geito elaide n vai poder emcomtra celaena e manon vai la pra se unir a celaena em nome de elaide

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  5. Até que enfim o Roland apareceu e tomado por um príncipe valg. Estava me perguntando o que teria sido feito dele já que a Kaltain anda pela fortaleza sempre (ou quase sempre) muda, mas não havia nem um sinal dele. Acho que ele é o reprodutor dos valg

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  6. Eu tbm tava pensando nisso será que ele tah usando o método tradicional pra engravidar as bruxas.

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  7. Não sei por que, a galera não gosta do cap. das bruxas? Eu amo e revela muitas coisas essenciais. u.u

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    1. Também caro anônimo, são muito interessantes e da um gostinho das merda que Aelin vai ter que enfrentar pra conquistar seu trono

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  8. Nunca fui muito fan das bruxas mas S história delas está muito boa e bem desenvolvida!!!!!
    Esta me cativando!!!!

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  9. É como se a Asterin estivesse ficando humana... com sentimentos.

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