12 de fevereiro de 2016

Capítulo 38

Manon deu 30 centímetros de Seda de Aranha para o capataz depois que ele cuidadosamente a enxertou nas asas de Abraxos. A bruxa tinha levado a mais – muito mais, para o caso de algum dia se desgastar – e agora a seda estava trancada no fundo falso de um baú. Ela não contou a ninguém aonde fora ou por que as asas de Abraxos agora refletiam sob certa iluminação. Asterin a teria assassinado pelo risco corrido, então a avó teria assassinado Asterin por não ter ido com Manon. E ela não tinha vontade nenhuma de substituir a imediata e encontrar um novo membro para as Treze.
Após Abraxos se curar, a bruxa o levou para a abertura do Canino do Norte para tentar a Travessia. Antes, as asas estavam fracas demais para tentar o mergulho, mas com o reforço de seda, Abraxos teria muito mais chances.
Contudo, o risco ainda existia, por isso Asterin e Sorrel esperavam atrás dela, já montadas. Se as coisas dessem errado, se o animal não conseguisse subir ou a seda falhasse, Manon deveria pular – pular para longe dele. Deixá-lo morrer enquanto uma das bruxas a pegaria nas garras de suas montarias.
Manon não era muito fã desse plano, mas era a única forma de Asterin e Sorrel concordarem em deixar que ela fizesse aquilo. Embora fosse a herdeira das Bico Negro, elas a teriam trancafiado em uma baia de serpente alada em vez de permitir que fizesse a Travessia sem as precauções adequadas. A líder poderia tê-las chamado de moles e dado as surras que mereciam, mas aquelas medidas eram inteligentes. As tensões estavam piores que nunca, e ela não desconsideraria a possibilidade de a herdeira das Pernas Amarelas assustar Abraxos durante a Travessia.
Manon assentiu para Asterin e Sorrel, avisando que estava pronta antes de se aproximar da besta. Não havia muitas reunidas, mas Iskra estava na plataforma de observação, com um leve sorriso. Manon verificou os estribos, a sela e as rédeas mais uma vez, Abraxos estava tenso e grunhindo.
— Vamos — disse ela à criatura, puxando as rédeas para levá-lo um pouco mais adiante de modo que pudesse montar.
Abraxos ainda tinha muito espaço para correr, e com as novas asas, a bruxa sabia que ele ficaria bem. Tinham feito saltos íngremes e subidas difíceis antes. No entanto, Abraxos não se movia.
— Agora — disparou Manon, puxando com força.
A serpente alada virou um dos olhos para a bruxa e grunhiu. Manon deu um tapa de leve na bochecha encouraçada dele.
— Agora.
Aquelas pernas traseiras se flexionaram, em seguida Abraxos fechou as asas com força.
— Abraxos.
A criatura olhava para a Travessia, então para Manon. De olhos arregalados. Petrificado, completamente petrificado. Besta inútil, burra e covarde.
— Pare — ordenou Manon, movendo-se para subir na sela. — Suas asas estão bem agora.
A bruxa estendeu a mão para as costas de Abraxos, mas ele deu um solavanco, o chão tremeu quando desabou no chão. Atrás, Asterin e Sorrel murmuravam para as próprias montarias, que haviam recuado um pouco e tentavam atacar Abraxos, assim como uma a outra.
Uma risada baixa ecoou da plataforma de observação, fazendo os dentes de Manon descerem.
— Abraxos. Agora. — Ela tentou montar na sela de novo.
A serpente alada se afastou, chocando-se contra a parede e recuando.
Um dos homens trouxe um chicote, mas Manon estendeu a mão.
— Não dê mais um passo — disparou ela, as unhas de ferro projetadas.
Chicotes só deixavam Abraxos mais incontrolável. Manon virou para a montaria.
— Seu covarde inútil — sussurrou a bruxa para a besta, apontando para a Travessia. — Volte para a formação. — Abraxos a encarou, recusando-se a voltar. — Entre em formação, Abraxos!
— Ele não pode entendê-la — comentou Asterin, baixinho.
— Sim, ele... — Manon se calou. Não havia contado essa teoria a elas, ainda não. Manon se voltou para o animal. — Se não me deixar montar essa sela e fazer aquele salto, vou confiná-lo ao menor e mais escuro poço nesta porcaria de montanha.
Abraxos exibiu os dentes. Manon exibiu os dela.
O concurso de quem encarava por mais tempo durou um minuto inteiro.
Um minuto humilhante e irritante.
— Tudo bem — disparou Manon, dando as costas à besta. Ele era uma perda de tempo. — Tranque-o onde se sentirá mais deprimido — falou a bruxa para o capataz. — Não vai sair até que esteja disposto a fazer a Travessia.
O homem a olhou boquiaberto enquanto Manon estalava os dedos para Asterin e Sorrel, sinalizando que as duas desmontassem. Ela ouviria até o fim da vida por aquilo – da avó, e das bruxas Pernas Amarelas, e de Iskra, que já descia para o piso do poço.
— Por que não fica, Manon? — gritou Iskra. — Eu poderia mostrar a sua serpente alada como se faz.
— Continue andando — murmurou Sorrel para a herdeira, mas ela não precisava de um lembrete.
— Dizem que as bestas não são o problema, mas as montadoras — continuou Iskra, alto o bastante para que todos ouvissem.
Manon não se virou. Não queria ver quando levassem Abraxos de volta para o portão, para qualquer que fosse o buraco onde o trancariam. Besta burra e inútil.
— Mas — disse Iskra, pensativa — talvez sua montaria precise de um pouco de disciplina.
— Vamos — insistiu Sorrel, bem próxima da lateral de Manon. Asterin caminhava um passo atrás, cuidando das costas da líder.
— Me dê isso — disparou Iskra para alguém. — Ele só precisa do encorajamento certo.
Um chicote estalou atrás dela, e houve um rugido – de dor e medo.
Manon parou imediatamente.
Abraxos encolhera-se contra a parede.
Iskra estava diante dele, o chicote ensanguentado da linha que havia cortado no rosto do animal, errando o olho por pouco. Com os dentes de ferro brilhando intensamente, Iskra sorriu para Manon ao erguer o chicote de novo e golpear.
Abraxos gritou.
Asterin e Sorrel não foram rápidas o bastante para impedir a herdeira que disparou além das duas e derrubou Iskra.
Com dentes e unhas para fora, elas rolaram pelo chão de terra, virando e dilacerando e mordendo. Manon achou que talvez estivesse rugindo, rugindo tão alto que o salão tremeu. Pés acertaram o estômago dela, fazendo-a perder o ar quando Iskra a chutou.
Manon caiu na terra, cuspiu um punhado de sangue azul e se levantou em um segundo. A herdeira das Pernas Amarelas atacou com a mão de pontas de ferro, um golpe que poderia ter cortado carne e ossos. Manon abaixou o corpo para se proteger e atirou a adversária contra a pedra dura.
Iskra gemeu por cima dos gritos das bruxas que se reuniam, então Manon desceu o punho no rosto da Pernas Amarelas. Os nós dos dedos rugiram de dor, mas ela só conseguia ver aquele chicote, a dor nos olhos de Abraxos, o medo. Lutando contra o peso da inimiga, Iskra acertou o rosto dela e a fez recuar, com o golpe cortando seu pescoço. Manon não chegou a sentir o arranhão e o sangue quente escorrendo. Apenas puxou o punho para trás, o joelho se enterrando com mais força no peito de Iskra, e golpeou. De novo. E de novo.
Manon ergueu o punho dolorido mais uma vez, mas havia mãos no pulso dela, sob os braços, puxando-a. A bruxa se debateu, ainda gritando, o som não tinha palavras e era infinito.
— Manon! — rugiu Sorrel no ouvido dela, cravando as unhas no ombro da herdeira, não com força o bastante para causar danos, mas para fazê-la parar, perceber que havia bruxas por toda parte, no poço e na plataforma de observação, olhando boquiabertas. Com a espada erguida, Asterin estava de pé entre Manon e...
E Iskra, no chão, o rosto ensanguentado e inchado, a espada de sua imediata empunhada e pronta para se cruzar com a de Asterin.
— Ele está bem — falou Sorrel, apertando a líder com mais força. — Abraxos está bem, Manon. Olhe para ele. Olhe para ele e veja que está bem.
Respirando pela boca, graças ao nariz cheio de sangue, Manon obedeceu, encontrando-o ajoelhado, os olhos arregalados e sobre ela. O ferimento de Abraxos já havia coagulado.
Iskra não se movera um centímetro de onde Manon a havia atirado no chão.
No entanto, Asterin e a outra imediata grunhiam, prontas para se atirarem em outra briga que poderia muito bem destruir a montanha.
Bastava.
Manon se desvencilhou das mãos firmes de Sorrel. Todos ficaram em silêncio mortal quando a bruxa limpou o nariz e a boca ensanguentados no dorso da mão. Iskra grunhiu para ela do chão, com o sangue do nariz quebrado vazando para o lábio cortado.
— Se tocar nele de novo — advertiu Manon —, vou beber a medula de seus ossos.
A herdeira das Pernas Amarelas recebeu uma segunda surra naquela noite, da mãe dela, no salão de refeições – mais duas chicotadas pelos golpes que dera em Abraxos. A Matriarca oferecera as chicotadas a Manon que as recusou, alegando indiferença.
Na verdade, seu braço estava enrijecido e doía demais para que usasse o chicote com alguma eficiência.



Manon tinha acabado de entrar na jaula de Abraxos no dia seguinte, com Asterin ao encalço, quando a herdeira das Sangue Azul surgiu à entrada das escadas, a imediata de cabelos vermelhos logo atrás. Manon, com o rosto ainda inchado e o olho incrivelmente roxo, deu um curto aceno de cabeça para a bruxa. Havia outras baias ali embaixo, embora raramente esbarrasse com outras bruxas, principalmente com as duas herdeiras.
Mas Petrah parou às barras, então Manon reparou na perna de cabra no braço da imediata dela.
— Ouvi falar que foi uma briga e tanto — falou Petrah, mantendo uma distância respeitável da Bico Negro e da porta aberta para a baia. Dando um leve sorriso, comentou: — Iskra está pior.
Manon ergueu as sobrancelhas, embora o movimento fizesse seu rosto latejar.
Petrah estendeu a mão para a imediata, que entregou a ela a perna de cabra.
— Também ouvi que suas Treze e suas montarias só comem carne que caçam. Minha Keelie pegou isto em nosso voo matinal. Ela queria compartilhar com Abraxos.
— Não aceito carne de clãs rivais.
— Somos rivais? — perguntou Petrah. — Achei que o rei de Adarlan nos tivesse convencido a lutar sob um só estandarte de novo.
Manon respirou fundo.
— O que você quer? Tenho treinamento em dez minutos.
A imediata de Petrah sibilou, irritada, mas a herdeira sorriu.
— Eu disse... minha Keelie queria dar isto a ele.
— Ah? Ela contou a você? — falou Manon, com deboche.
Petrah inclinou a cabeça.
— Sua serpente alada não fala com você?
Abraxos observava, tão atento quanto as outras bruxas.
— Elas não falam.
Petrah deu de ombros, levando a mão distraidamente sobre o coração.
— Ah, não?
A herdeira deixou a perna de cabra antes de caminhar para a escuridão ecoante das baias.
Manon jogou a carne fora.

3 comentários:

  1. Petrah Bonito Nome. Já sei o nome que eu vou dar para a minha Filha.

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  2. Surra muito bem dada se me permitem dizer!!!!!
    E depois do comentário daquela última bruxa para a Manon quero q ela ganhe o jogo e esfregue a vitória na cara de toas q não acreditaram nela!

    ~Mari

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