28 de fevereiro de 2016

Capítulo 34

Aelin sabia que tinha coisas para fazer – coisas vitais, coisas terríveis, mas ela poderia sacrificar um dia.
Mantendo-se nas sombras, sempre que possível, ela passou a tarde mostrando a cidade a Rowan, desde os elegantes bairros residenciais aos mercados abarrotados com comerciantes que vendiam produtos para o solstício de verão em duas semanas.
Não havia nenhum sinal ou cheiro de Lorcan, graças aos deuses. Mas os homens do rei estavam postados em alguns cruzamentos movimentados, dando a Aelin uma oportunidade para apontá-los para Rowan. Ele os estudou com uma eficiência treinada, seu olfato afiado lhe permitindo perceber quais ainda eram humanos e quais eram habitados por demônios valg menores. A partir do olhar em seu rosto, ela honestamente se sentiu um pouco mal por qualquer guarda que se deparasse com ele, demônio ou humano. Um pouco, mas não muito. Especialmente tendo em conta que a sua presença por si só arruinava um pouco seus planos para um dia tranquilo e pacífico.
Ela queria mostrar a Rowan as partes boas da cidade antes de arrastá-lo para sua parte suja. Então ela o levou a uma das padarias da família de Nesryn, onde comprou algumas daquelas tortas de pera. Nas docas, o próprio Rowan a convenceu a experimentar truta frita na panela. Certa vez ela jurara nunca mais comer peixe, e se encolhera quando o garfo se aproximava da boca, mas a maldita coisa era deliciosa. Ela comeu todo o seu peixe, em seguida, sorrateiramente mordeu o de Rowan, fazendo-o rosnar desalentado.
Aqui – Rowan estava aqui com ela, em Forte da Fenda. E havia muito mais que ela queria que ele visse, para aprender sobre como sua vida fora. Ela nunca quis compartilhar nada disso antes. Mesmo quando ouviu o estalo de um chicote depois do almoço, enquanto eles se refrescavam com água, ela queria que ele testemunhasse. Ele permaneceu em silêncio, a mão em seu ombro, enquanto eles observavam o grupo de escravos acorrentados transportando carga para um dos navios. Assistindo – e sem poder fazer nada.
Logo, ela prometeu a si mesma. Pôr fim aquela que era uma prioridade.
Eles serpenteavam de volta através das bancas do mercado, uma após a outra, até que o cheiro de rosas e lírios flutuou por eles, a brisa do rio varrendo pétalas de cada forma e cor passando por seus pés quando os floristas gritavam sobre os seus produtos.
Ela se virou para ele.
— Se você fosse um cavalheiro, me compraria...
O rosto de Rowan tinha ficado branco, seus olhos vazios, enquanto olhava para uma das vendedoras de flores no centro da praça, uma cesta de peônias de estufa em seu braço fino. Jovem, bonita, de cabelos escuros, e... Oh, deuses.
Ela não deveria tê-lo trazido ali. Lyria vendera flores no mercado; tinha sido uma menina pobre antes do príncipe Rowan a tê-la visto e reconhecido de imediato, ela era sua companheira. Um conto de fadas – até ela ter sido abatida por forças inimigas. Grávida de Rowan.
Aelin fechou e abriu os dedos, todas as palavras presas em sua garganta. Rowan ainda olhava para a menina, que sorriu para uma mulher que passava, brilhando com alguma luz interna.
— Eu não a merecia — Rowan falou calmamente.
Aelin engoliu em seco. Havia feridas em ambos que ainda precisavam curar, mas esta...
Verdade. Como sempre, ela poderia oferecer-lhe uma verdade em troca de outra.
— Eu não merecia Sam.
Ele olhou para ela por fim.
Ela faria qualquer coisa para se livrar da agonia em seus olhos. Qualquer coisa.
Seus dedos enluvados roçaram os dela, em seguida, caíram de volta para seu lado.
Ela apertou sua mão em um punho novamente.
— Venha. Quero lhe mostrar uma coisa.



Aelin furtou alguma sobremesa dos vendedores de rua enquanto Rowan esperava em um beco sombrio.
Agora, sentada em uma das vigas de madeira na cúpula dourada do Teatro Real escurecido, Aelin mastigava um biscoito de limão e balançava as pernas no ar livre abaixo. O espaço era o mesmo de que ela se lembrava, mas o silêncio, a escuridão...
— Este costumava ser o meu lugar favorito em todo o mundo — disse ela, suas palavras demasiadas altas no vazio. A luz do sol derramava-se pela porta do telhado que tinham arrombado, iluminando as vigas e a cúpula dourada, fazendo brilhar levemente o corrimão de latão polido e as cortinas vermelho-sangue do palco abaixo. — Arobynn possui um camarote privado, então eu vinha sempre que podia. Nas noites em que eu não estava vestida elegantemente ou que não queria ser vista, nas noites em que eu tinha um trabalho e apenas uma hora livre, eu vinha aqui através daquela porta e ouvia.
Rowan terminou seu biscoito e olhou para o espaço escuro abaixo. Ele estivera tão quieto durante os últimos trinta minutos – como se tivesse sido puxado para um lugar onde ela não poderia alcançá-lo.
Ela quase suspirou de alívio quando falou:
— Nunca vi uma orquestra – ou um teatro como este, construído para refletir o som e o luxo. Mesmo em Doranelle, os teatros e anfiteatros são antigos, com bancos ou apenas degraus.
— Não há um local como este em nenhum outro lugar. Mesmo em Terrasen.
— Então você terá que construir um.
— Com que dinheiro? Você acha que as pessoas ficarão felizes em morrer de fome enquanto eu construo um teatro para meu próprio prazer?
— Talvez não imediatamente, mas se você acreditar que pode beneficiar a cidade, o país, então faça isso. Artistas são essenciais.
Florine havia dito algo parecido. Aelin suspirou.
— Este lugar foi desativado faz meses, e ainda assim posso jurar que ainda ouço a música flutuando no ar.
Rowan inclinou a cabeça, estudando o escuro com esses sentidos imortais.
— Talvez a música ainda viva, de alguma forma.
O pensamento fez seus olhos arderem.
— Eu queria que você pudesse ouvir Pytor conduzir a Suíte Tenebrosa. Às vezes, sinto como se ainda estivesse sentada naquele camarote, aos treze anos e chorando na pura glória dele.
— Você chorou? — ela quase podia ver as lembranças de seu treinamento reluzindo em seus olhos: todas as vezes que a música a acalmara ou desencadeara sua magia. Era uma parte de sua alma – tanto quanto ele era.
— O movimento final – cada maldita nota. Eu gostaria de voltar à fortaleza, tenho a música em minha mente faz dias, até mesmo enquanto treinava, ou matava, ou dormia. Era uma espécie de loucura, amar essa música. Foi por isso que comecei a tocar o piano, para poder voltar para casa à noite e fazer a minha pobre tentativa de replicá-la.
Ela nunca contara isso a ninguém – nunca levara ninguém ali, na verdade.
— Há um piano aqui? — Rowan perguntou.



— Não treino faz meses. E esta é uma ideia horrível por cerca de uma dúzia de razões diferentes — disse ela, pela décima vez quando terminou de afastar as cortinas do palco.
Ela estivera ali antes, quando o patrocínio de Arobynn lhe rendera convites para uma festa realizada no palco, para a pura emoção de andar em um espaço sagrado. Mas agora, em meio à escuridão do teatro morto iluminado pela única vela que Rowan tinha encontrado, ela se sentia como num túmulo.
As cadeiras da orquestra ainda estavam dispostas como provavelmente ficaram na noite em que os músicos saíram para protestar contra os massacres em Endovier e Calaculla. Eles ainda estavam todos desaparecidos – e considerando-se a série de desgraças que o rei agora amontoava sobre o mundo, a morte teria sido a opção mais gentil.
Apertando a mandíbula, Aelin segurou a familiar e ondulante raiva.
Rowan estava de pé ao lado do piano perto da frente do palco, passando a mão sobre a superfície lisa como se fosse um cavalo premiado.
Ela hesitou diante do magnífico instrumento.
— Parece um sacrilégio tocar tal instrumento — ela comentou, as palavras ecoando alto no espaço.
— Desde quando você é do tipo religiosa, de qualquer maneira? — Rowan deu um sorriso torto. — Aonde eu deveria ir para ouvi-la melhor?
— Você pode ficar com castigo da primeira fileira.
— Autoconsciente hoje, também?
— E se Lorcan estiver bisbilhotando — ela murmurou — prefiro que ele não relate na volta para Maeve que sou péssima em tocar — ela apontou para um lugar no palco. — Não. Fique ali, e parar de falar, seu bastardo insuportável.
Ele riu, e se moveu para o local que ela havia indicado.
Ela engoliu em seco quando deslizou para o banco liso e ergueu a tampa, revelando as teclas brancas e pretas brilhando abaixo. Ela posicionou seus pés sobre os pedais, mas não fez nenhum movimento para tocar o as teclas.
— Eu não toquei desde antes Nehemia morreu — admitiu ela, as palavras pesadas.
— Podemos voltar outro dia, se você quiser — a oferta constante e suave. Seu cabelo prateado brilhava à luz das velas.
— Pode não haver outro dia. E... e eu consideraria minha vida muito triste se nunca tocasse novamente.
Ele balançou a cabeça e cruzou os braços. Uma condição de silêncio.
Ela enfrentou as teclas e lentamente colocou as mãos sobre o marfim. Era liso, frio e a esperava – uma grande besta cujo som e alegria estavam prestes a ser despertados.
— Eu preciso me aquecer — ela deixou escapar, e mergulhou sem outra palavra, tocando tão suavemente quanto podia.
Uma vez que começara a ver as notas em sua mente de novo, quando a memória muscular levou seus dedos para aqueles acordes familiares, ela começou.
Não era a adorável peça triste que ela tocara uma vez para Dorian, e não era as melodias dançantes que tocava por esporte; não foram as composições complexas e inteligentes que tocara para Nehemia e Chaol. Esta peça era uma celebração – a reafirmação da vida, da glória, da dor e da beleza em respirar.
Talvez fosse por isso que ela fora ouvir a apresentação todos os anos, depois de tanta morte e tortura e castigo: como um lembrete do que ela era, do que lutava para manter.
Aumentando cada vez mais, construindo cada passagem, o som rompendo do piano como o coração – a canção de um deus, até Rowan foi atraído até parar ao lado do instrumento, até que ela sussurrou-lhe “Agora”, e o crescendo quebrou no mundo, nota após nota após nota.
A música desceu em torno deles, rugindo através do vazio do teatro. O silêncio vazio que estivera dentro dela por tantos meses agora transbordava ao som.
Ela trouxe a peça para seu explosivo e triunfante acorde final.
Quando olhou para cima, um pouco ofegante, os olhos de Rowan estavam como com a prata, sua garganta rouca.
De alguma forma, depois de todo esse tempo, seu príncipe guerreiro ainda conseguiu surpreendê-la.
Ele parecia lutar com as palavras, mas ele finalmente sussurrou:
— Mostre-me... mostre-me como você fez isso.
Então ela o atendeu.



Eles passaram a maior parte de uma hora sentados juntos no banco, Aelin ensinando as noções básicas, explicando os sustenidos e bemóis, os pedais, as notas e acordes do piano. Quando Rowan ouviu alguém finalmente chegando para investigar a música, eles escaparam. Ela parou no Banco Real, advertindo Rowan a esperar nas sombras em frente, e sentou-se novamente no escritório do gerente quando um de seus subordinados apressou para dentro e para fora em seu negócio. Ela finalmente deixou o lugar com outro saco de ouro – vital, já que havia mais uma boca para alimentar e um corpo para vestir – e encontrou Rowan exatamente onde o deixara, irritado porque ela se recusara a deixá-lo acompanhá-la. Mas ele levantou muitas perguntas.
— Então está usando seu próprio dinheiro para nos sustentar? — Rowan perguntou quando eles escorregaram por uma rua lateral.
Algumas jovens mulheres vestidas lindamente passavam na avenida ensolarada além do beco e ficaram boquiabertos com o homem de capuz poderosamente construído que passava por elas e, em seguida, todas se voltaram para admirar a vista por trás. Aelin mostrou os dentes para elas.
— Por agora — ela respondeu.
— E o que fará quanto o dinheiro mais tarde?
Ela olhou de soslaio para ele.
— Isso será resolvido.
— Por quem?
— Por mim.
— Explique.
— Você descobrirá em breve — ela lhe deu um pequeno sorriso que sabia que o deixaria louco.
Rowan fez um movimento para agarrá-la pelo ombro, mas ela se esquivou de seu toque.
— Ah, ah. Melhor não se mover muito rapidamente, ou alguém pode notar — ele rosnou, o som definitivamente não humano, e ela riu. Irritação era melhor do que culpa e tristeza. — Basta ter paciência e não deixar suas penas eriçadas.

21 comentários:

  1. 🎉Agora somos seis🎉 ❣😋😝

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  2. 6 Kkkkkkkkk esses dois anda vão atar fogão nesse cidade. ♡♥ ( Relativamente) ♥♡

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  3. Eu ainda continuo sonhando aelin com Chaol, mesmo ele estando neste lance do seu rei Dorian. Infelizmente tenho que me mentalizar que ela vai ficar com Rowan no final, pois ela compartilha coisas com ele que nunca antes compartilhou com ninguém. Também nota se k ela está diferente, até mesmo o Chaol notou isso. Honestamente eu até prefiro que Sam volte dos mortos para ficar com Aelin se ela já não quer o Chaol ao invés de ficar com o Rowan, gente, ele tem mil anos e não combina nada com ela. é a minha opinião...
    Anna

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    1. Por mim chaol podia sumir que não sentiria falta dele. Foi-se o tempo que o personagem era cativante, hoje ele é um tédio total. Zzz

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  4. 12 *-* e echo que ela deveria ficar com o Rowan s2 o chaol ta muito idiota ultimamente

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  5. Eu ainda tenho esperanças dela com o Chaol, O Rowan tem mais cara de amizade colorida. Ou então o Chaol morre para salvar o Dorian e a Aelin fica com outro personagem que surgir nos proximos livros já q em cada livro ela ta afim de um.

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    1. acho que não, pois esse livro continua sendo ele, não apareceu "outro" desse livro!

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  6. Laura do Bom Senso 42 #Zueira19 de outubro de 2016 20:24

    Na vdd, se vc for contar agora que TODOS os comentários apareceram, eu seria a 16, mas isso pode mudar se alguém chegar antes né

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