28 de fevereiro de 2016

Capítulo 32

Manon vira Elide dormindo contra Abraxos no momento em que elas entraram na torre, e se tornara consciente de sua presença – mesmo antes de rastrear o perfume ao subir as escadas. Se Asterin e Sorrel a notaram, não fizeram nenhum comentário.
A menina serva estava apoiada em seu traseiro, quase na porta, com um pé para cima para impedir que suas correntes arrastassem. Inteligente, mesmo que tivesse sido estúpida demais para perceber o quão bem elas viam no escuro.
— Havia alguém no meu quarto — Elide falou, baixando o seu pé.
Asterin endureceu.
— Quem?
— Eu não sei — Elide respondeu, mantendo-se perto da porta, mesmo que isso não fosse lhe adiantar de nada. — Não pareceu sensato entrar lá.
Abraxos estava tenso, movendo sua cauda sobre as pedras. A besta inútil estava preocupada pela menina.
Manon estreitou os olhos para ele.
— Não supõe-se que sua raça devore jovens mulheres?
Ele olhou para ela.
Elide manteve-se firme quando Manon rondou mais perto. E Manon, apesar tudo, ficou impressionada. Ela olhou para a garota – realmente olhou para ela.
Uma menina que não tinha medo de dormir contra uma serpente alada, que tinha bom senso suficiente para saber quando o perigo estava se aproximando... Talvez o sangue dela realmente corresse azul.
— Há uma câmara sob este castelo — Manon falou, e Asterin e Sorrel entraram em posição atrás dela. — No interior dela um grupo de bruxas Pernas Amarelas, todas levadas pelo duque para criar uma prole de demônios. Quero que você entre nessa câmara. E que me diga o que está acontecendo lá dentro.
A humana empalideceu como a morte.
— Eu não posso.
— Você pode e vai — disse Manon. — Você é minha agora — ela sentiu a atenção de Asterin nela, a desaprovação e surpresa. Manon continuou: — Você encontrará um caminho para essa câmara, me dará os detalhes, manterá silêncio sobre o que aprendeu, e assim viverá. Se me trair, se contar para alguém... então teremos que providenciar sua festa de casamento com um marido valg bonito, suponho.
As mãos da menina tremiam. Manon deu um tapa nelas, fazendo-as cair para os lados.
— Nós não toleramos covardes nas fileiras das Bico Negro — ela sibilou. — Ou você acha que sua proteção seria de graça? — Manon apontou para a porta. — Fique em meus aposentos, se o seu próprio está comprometido. Vá até o final das escadas.
Elide olhou para trás de Manon, para suas imediatas, como se estivesse considerando pedir ajuda. Mas Manon sabia que seus rostos eram de pedra e inflexíveis. O terror de Elide era um cheiro penetrante no nariz de Manon, enquanto ela mancava para longe. Levou muito tempo para começar a descer as escadas, a perna ruim retardando-a a um ritmo de uma velha. Uma vez que ela estava lá embaixo, Manon virou-se para Sorrel e Asterin.
— Ela poderia ir até o duque — disse Sorrel. Como sua imediata, ela tinha o direito de fazer essa observação, a pensar através de todas as ameaças à herdeira.
— Ela não é tão implacável.
Asterin estalou a língua.
— Foi por isso que você falou, sabendo que ela estava aqui.
Manon não se incomodou em acenar com a cabeça.
— E se ela for capturada? — perguntou Asterin.
Sorrel olhou atentamente para ela. Manon não sentiu como se devesse repreender. Agora era Sorrel quem devia resolver a dominância entre elas.
— Se ela for capturada, então encontraremos outra maneira.
— E você não têm escrúpulos sobre eles matarem? Ou usarem esse fogo de sombras sobre ela?
— Saia, Asterin — Sorrel disse entredentes.
Asterin não fez nada disso.
— Você devia estar fazendo estas perguntas, imediata.
Os dentes de ferro do Sorrel estalaram para fora.
— É por causa do seu interrogatório que você é agora é a segunda imediata.
— Chega — interrompeu Manon. — Elide é a única que pode entrar naquela câmara e conseguir um relatório. O duque tem seus guardas sob ordens de não deixar uma única bruxa se aproximar. Até mesmo as Sombras não podem chegar perto o suficiente. Mais uma criada limpa toda a bagunça.
— Você era quem esperava no quarto dela — refletiu Asterin.
— Uma dose de medo faz bem aos humanos.
— Ela é humana, embora? — perguntou Sorrel. — Ou nós a contamos entre nós?
— Não faz diferença se ela é humana ou uma espécie de bruxa. Eu mandaria quem fosse a mais qualificada para essas câmaras, e, neste momento, apenas Elide pode ter acesso a elas.
Com astúcia – era assim que ela se manteria à par do duque, com seus esquemas e armas. Ela podia trabalhar para o seu rei, mas não toleraria ser deixada na ignorância.
— Preciso saber o que está acontecendo nessas câmaras — disse Manon. — Se perdermos uma vida por isso, então que assim seja.
— E depois? — Asterin perguntou, apesar do aviso do Sorrel. — Depois que você souber, o que vai fazer?
Manon não tinha decidido ainda. Mais uma vez, o fantasma do sangue cobriu suas mãos.
Siga as ordens – ou então ela e as Treze seriam executadas. Quer por sua avó ou pelo duque. Depois de sua avó ler sua carta, talvez fosse diferente. Mas até então...
— Então nós continuamos como fomos ordenadas — respondeu Manon. — Mas não farei isso com uma venda nos olhos.



Espiã.
Uma espiã para a Líder Alada.
Elide supôs que não era diferente do que ser uma espiã para si mesma – para sua própria liberdade.
Mas descobrir sobre a chegada dos vagões de suprimentos e tentar entrar nessa câmara ao mesmo tempo, estava além do esperado... Talvez ela tivesse sorte. Talvez pudesse fazer as duas coisas.
Manon levara um colchão de feno até o quarto dela, colocando-o perto do fogo para aquecer os ossos mortais de Elide, segundo ela. Elide quase não dormiu naquela primeira noite na torre da bruxa. Quando se levantou para usar o reservado, convencida de que a bruxa estava dormindo, ela deu dois passos antes de Manon dizer:
— Indo a algum lugar?
Deuses, sua voz. Como uma cobra escondida em uma árvore.
Ela balbuciou uma explicação sobre a necessidade do banheiro. Quando Manon não respondeu, Elide tropeçara para fora. Ela voltou a encontrar a bruxa dormindo, ou pelo menos seus olhos estavam fechados.
Manon dormia nua. Mesmo no frio. Seu cabelo branco em cascata caía pelas costas, e não havia uma parte da bruxa que não parecesse magra e musculosa ou salpicadas com cicatrizes finas. Nenhuma parte que não era um lembrete do que Manon faria com ela se ela falhasse.
Três dias depois, Elide fez sua jogada. Ignorou a exaustão que se instalara incansavelmente em seu corpo e seguiu enquanto segurava a braçada de roupa que tirara da lavanderia e espiou pelo corredor.
Quatro guardas parados à porta para a escada.
Levara três dias ajudando na lavanderia, três dias de conversas com as lavadeiras para aprender que lençóis sempre eram necessários na câmara na parte inferior daquelas escadas. Ninguém queria falar com ela nos primeiros dois dias. Eles só olhavam para ela e lhe diziam para onde transportar coisas, quando tirar as mãos ou o que devia esfregar até suas costas doerem. Mas no dia anterior – apenas um dia antes, ela vira as roupas encharcadas de sangue e rasgadas.
Sangue azul, não vermelho. Sangue de bruxa.
Elide manteve a cabeça baixa, trabalhando nas camisas dos soldados que lhe foram entregues uma vez que ela provou sua habilidade com uma agulha. Mas notou que as lavadeiras interceptaram as roupas. Então ela continuou trabalhando nas horas que levaram para lavá-las, secá-las e dobrá-las, ficando mais tempo do que a maioria dos outros. Esperando.
Ela não era ninguém e não pertencia a ninguém, mas se deixasse Manon e as Bico Negro pensarem que ela aceitava sua reivindicação sobre ela, talvez pudesse sair facilmente uma vez que os vagões chegassem. As Bico Negro não se importavam com ela – não realmente. Sua herança era conveniente para elas. Duvidava que fossem notar quando ela desaparecesse. Ela tinha sido um fantasma por anos agora, de qualquer maneira, com o coração cheio de mortos esquecidos.
Então, ela trabalhou, e esperou.
Mesmo quando suas costas estavam doendo, mesmo quando suas mãos estavam tão doloridas que tremiam, ela notou a lavadeira que levou as roupas passadas para fora da câmara e desapareceu.
Elide memorizou cada detalhe de seu rosto, de sua forma física e altura. Ninguém notou quando ela foi atrás dela, carregando uma braçada de roupas da Líder Alada. Ninguém a parou enquanto ela seguiu a lavadeira para baixo, corredor após corredor até que ela chegou àquele local.
Elide espiou pelo corredor novamente quando a lavadeira subiu do poço da escada, braços vazios, rosto inquieto e livre de sangue.
Os guardas não a barraram. Bom.
A lavadeira dobrou em outro corredor, e Elide soltou a respiração que estava segurando.
Voltando para a torre de Manon, ela pensou silenciosamente através de seu plano.
Se ela fosse pega...
Talvez devesse se atirar de uma das varandas em vez de enfrentar uma das dezenas de mortes terríveis que esperavam por ela.
Não – não, ela aguentaria. Tinha sobrevivido quando quase todo mundo que ela amara não. Quando seu reino não sobreviveu. Então permaneceria viva por eles, e quando saísse, construiria uma nova vida longe em sua honra.
Elide mancou até uma escadaria sinuosa. Deuses, ela odiava escadas.
Ela estava no meio do caminho quando a voz fria de um de cima a deteve.
— O duque disse que você falou. Por que não diz uma palavra para mim?
Vernon.
Silêncio cumprimentou-o.
Voltou a subir as escadas, ela sabia que deveria se concentrar nos degraus.
— Tão bonita — seu tio murmurou para quem quer que fosse. — Como uma noite sem lua.
A boca de Elide ficou seca com o tom da voz dele.
— Talvez seja o destino nós nos esbarrarmos aqui. Ele a vigia tão de perto — Vernon fez uma pausa. — Juntos — ele falou calmamente, reverentemente. — Juntos, criaremos maravilhas que farão o mundo tremer.
Tais palavras sombrias e íntimas, cheias de... Direito. Ela não queria saber o que ele quis dizer.
Elide deu um passo tão silencioso quanto podia ao subir as escadas. Ela tinha que ir embora.
— Kaltain — seu tio retumbou, uma demanda, uma ameaça e uma promessa.
A silenciosa jovem mulher – a que nunca falava, que nunca olhava para nada, que tinha tais marcas sobre ela. Elide a vira apenas algumas vezes. Vira quão pouco ela respondeu. Ou revidava.
E então Elide estava subindo as escadas.
Para cima e para cima, suas correntes decrépitas soando o mais alto possível. Seu tio ficou em silêncio.
Ela deu a volta seguinte, e lá estavam eles.
Kaltain estava prensada contra a parede, a gola daquele vestido demasiado frágil puxado para o lado, os seios quase de fora. Havia tanto vazio em seu rosto, como se ela não estivesse mesmo lá.
Vernon estava a poucos passos de distância. Elide agarrou seus lençóis com tanta força que pensou que pudesse rasgá-los.
Desejou que ela tivesse aqueles dentes de ferro, por uma vez.
— Lady Kaltain — ela falou para a jovem, apenas uns poucos anos mais velho que ela. Ela não esperava pela própria raiva. Não esperou continuar: — Fui enviada para encontrá-la, senhorita. Por aqui, por favor.
— Quem te enviou atrás dela? — Vernon exigiu.
Elide encontrou seu olhar. E não curvou a cabeça. Nem um centímetro.
— A Líder Alada.
— A Líder Alada não está autorizada a reunir-se com ela.
— E você está? — Elide entrou no meio deles, embora não fizesse nenhuma diferença se seu tio decidisse usar a força.
Vernon sorriu.
— Eu estava me perguntando quando você mostraria suas presas, Elide. Ou devo dizer seus dentes de ferro?
Ele sabia, então.
Elide olhou-o de cima e pousou uma mão no braço claro de Kaltain. Ela era tão fria quanto gelo. Nem sequer olhou para Elide.
— Se fizer a gentileza, senhorita — Elide pediu, puxando seu braço, segurando os lençóis com a outra mão.
Kaltain começou em uma caminhada silenciosa.
Vernon riu.
— Vocês duas poderiam ser irmãs — ele falou casualmente.
— Fascinante — disse Elide, orientando a moça a subir os degraus, e até mesmo o esforço para mantê-la equilibrada fez sua perna pulsar em agonia.
— Até a próxima vez — despediu-se o tio atrás delas, e ela não queria saber a quem ele se dirigia.
Em silêncio, com o coração batendo tão violentamente que ela pensou que poderia vomitar, Elide levou Kaltain para o patamar seguinte, e soltou-a por tempo suficiente para abrir a porta e guiá-la para o corredor.
A senhorita fez uma pausa, olhando para a pedra, para o nada.
— Aonde você precisa ir? — Elide perguntou-lhe em voz baixa.
A moça apenas a olhou. À luz das tochas, a cicatriz em seu braço era horrível. Quem fizera aquilo?
Elide colocou a mão no cotovelo da mulher novamente.
— Aonde posso levá-la que seja seguro?
Em nenhuma parte – não havia nenhum lugar ali que era seguro.
Mas lentamente, como se levasse uma vida inteira para lembrar como fazê-lo, a moça deslizou os olhos para Elide. Trevas da morte e chama negra; desespero, raiva e vazio. E, no entanto, um grão de entendimento.
Kaltain simplesmente se afastou, o vestido assobiando nas pedras. Havia hematomas que pareciam impressões digitais em torno de seu outro braço. Como se alguém a tivesse agarrado a ela com muita força.
Esse lugar. Essas pessoas...
Elide lutou contra as náuseas, observando até que a mulher desapareceu dobrando uma esquina.



Manon estava sentada em sua mesa, olhando para o que parecia ser uma carta, quando Elide entrou na torre.
— Você arranjou um modo de entrar na câmara? — a bruxa perguntou, sem se preocupar em erguer a cabeça.
Elide engoliu em seco.
— Preciso que me consiga um veneno.

6 comentários:

  1. Laura do Bom Senso 42 #Zueira29 de fevereiro de 2016 13:22

    As tretas chegam as bruxas também uahuahauhau

    ResponderExcluir
  2. Véééi... Tá tudo ficando muito louco

    ResponderExcluir
  3. Eu as bruxas vai ficar contra orei e o duque massa guerra

    ResponderExcluir
  4. Nossa, que horrível
    Pobre Kaltain, espero que ela beba até a última gota desse veneno, ninguém merece viver assim :c

    ResponderExcluir
  5. Vcs poderiam ser irmas ??? Seraaaaaa
    Elid e kaltay (n ta certo eu sei)

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!