28 de fevereiro de 2016

Capítulo 31

Manon invadiu a enorme tenda de guerra de Perrington, empurrando de lado a aba da lona pesada com tanta violência que as unhas de ferro cortaram através do material.
— Por que as minhas Treze tiveram acesso negado ao clã das Pernas Amarelas? Explique. Agora.
Quando a última palavra saiu de sua boca, Manon parou.
De pé no centro da tenda escura, o duque girou na direção dela, o rosto sombrio e, Manon teve que admitir, com uma expressão um pouco assustadora.
— Saia — ele ordenou, seus olhos queimando como brasas.
Mas a atenção de Manon estava fixada além do duque.
Manon deu um passo adiante, até mesmo quando o duque avançou para ela.
Usando um vestido preto e transparente, tecido como a noite, Kaltain estava ajoelhada, tremendo e enfrentando um jovem soldado, a mão pálida estendida para o rosto contorcido.
E tudo nela era uma aura profana de fogo escuro queimando.
— O que é aquilo? —Manon perguntou.
— Fora — o duque latiu, e realmente teve a coragem de correr para pegar o braço de Manon. Ela o acertou com as unhas de ferro, evitando o duque sem sequer olhar para ele. Toda a sua atenção, todos os poros dela, estavam presos na mulher de cabelos escuros.
O jovem soldado – um do próprio Perrington – soluçava em silêncio enquanto gavinhas de fogo negro flutuaram da ponta dos dedos de Kaltain e deslizaram sobre sua pele, sem deixar marcas. O ser humano virou os olhos cinzentos cheios de dor para Manon. Por favor, ele implorou sem som.
O duque seguiu para Manon novamente, e ela passou direto por ele.
— Explique.
— Você não dá ordens, Líder Alada — o duque retrucou. — Agora, saia.
— O que é aquilo? — Manon repetiu.
O duque elevou-se sobre ela, mas, em seguida, uma voz feminina como seda murmurou:
— Fogo de sombras.
Perrington congelou, como se surpreendido por ela ter falado.
— De onde é que esse fogo de sombra vem? — Manon exigiu.
A mulher era tão pequena, tão magra. O vestido era pouco mais do que teias de aranha e sombras. Fazia frio no campo de montanha, mesmo para Manon. Ela recusara um casaco, ou eles apenas não se importavam? Ou talvez, com aquele fogo... talvez ela não precisasse do casaco.
— De mim — respondeu Kaltain, com uma voz que era morta e vazia e ainda maléfica. — Ele sempre esteve lá – adormecido. E agora foi acordado. Tomando forma novamente.
— O que isso faz? — Manon indagou.
O duque tinha parado para observar a jovem mulher, como se tentasse descobrir algum tipo de quebra-cabeça, como se esperasse por algo mais.
Kaltain sorriu levemente para o soldado balançando no tapete vermelho ornamentado, seu cabelo castanho-dourado cintilando à luz do fogo escuro acima dele.
— Faz isso — ela sussurrou, e fechou os dedos delicados.
O fogo de sombras saiu de sua mão e enrolou-se em torno do soldado como uma segunda pele. Ele abriu a boca em um grito convulsionado e se debatendo em silêncio, inclinando a cabeça para trás, para o teto da barraca e chorando em silêncio e agonia.
Mas não havia queimaduras em sua pele. Era como se o fogo de sombras trouxesse apenas dor, como se ele enganasse o corpo fazendo-o pensar que estava sendo incinerado.
Manon não afastou os olhos do homem convulsionando no tapete, lágrimas de sangue agora vazando de seus olhos, nariz e orelhas. Calmamente, ela perguntou ao duque:
— Por que o está torturando? É um espião rebelde?
Agora, o duque se aproximou de Kaltain, olhando-a sem expressão, o rosto bonito. Seus olhos estavam fixos em toda a jovem, encantado. Ela falou de novo.
— Não. Apenas um homem simples — sem inflexão, nenhum sinal de empatia.
— Chega — disse o duque, e o fogo desapareceu da mão de Kaltain. O jovem caiu no tapete, ofegante e chorando. O duque apontou para as cortinas na parte de trás da tenda, que, sem dúvida, ocultavam uma área de dormir. — Deite-se.
Como uma boneca, um fantasma, Kaltain virou-se, girando o vestido de meia-noite com ela, e caminhou para as pesadas cortinas vermelhas, deslizando através delas como se ela não passasse de névoa.
O duque se aproximou do jovem e se ajoelhou diante dele no chão. O prisioneiro ergueu a cabeça, sangue e lágrimas se misturando em seu rosto. Mas os olhos do duque encontraram os de Manon enquanto ele colocava as mãos enormes nas bochechas do soldado.
E quebrava seu pescoço.
A crise da morte estremeceu através de Manon como o arranhar de uma harpa. Normalmente, ela teria rido.
Mas por um instante sentiu seu sangue azul esquentar, viscoso em suas mãos, sentiu o punho de sua faca impressa contra a palma da mão enquanto apertava-a forte e cortava a garganta da Crochan.
O soldado caiu para o tapete quando o duque levantou-se.
— O que quer, Bico Negro?
Como a morte da Crochan, esta tinha sido um aviso. Mantenha a boca fechada.
Mas ela planejava escrever a sua avó. Planejava para contar-lhe tudo o que tinha acontecido: isto, e que o clã Pernas Amarelas não tinha sido visto ou ouvido desde que entrou na câmara abaixo da Fortaleza. A Matriarca voaria até aqui e começaria a quebrar espinhas.
— Quero saber por que fomos impedidas de ver o clã das Pernas Amarelas. Elas estão sob a minha jurisdição, e, como tal, tenho o direito de vê-las.
— Foi bem sucedido, isso é tudo o que você precisa saber.
— Diga imediatamente a seus guardas que minha permissão para entrar foi concedida. — Dezenas de guardas haviam bloqueado sua passagem, determinados a matá-la por completo, Manon não tivera como entrar.
— Você escolhe ignorar minhas ordens. Por que eu deveria seguir as suas, Líder Alada?
— Você não terá um exército para montar essas malditas serpentes aladas se trancar todos para suas experiências de criação.
Elas eram guerreiras, eram bruxas Dentes de Ferro. Não estavam destinadas a serem criadas. Elas não estavam ali para servir de cobaias. Sua avó iria matá-la.
O duque apenas deu de ombros.
— Eu disse que queria Bico Negro. Você se recusou a me entregá-las.
— E esta é a punição? — as palavras saltaram para fora dela. As Pernas Amarelas ainda eram Dentes de Ferro, depois de tudo. Ainda sob seu comando.
— Oh, não. Não. Mas se desobedecer minhas ordens novamente, na próxima vez, pode ser que seja — ele inclinou a cabeça, e a luz atingiu seus olhos escuros. — Há príncipes, você sabe, entre os valg. Poderosos e ardilosos, capazes de estripar pessoas aos montes. Eles estão muito ansiosos para testar com a sua raça. Talvez eles façam uma visita aos seus quartéis. Veja quem sobrevive à noite. Seria uma boa maneira de eliminar as bruxas menores. Não tenho uso para soldados fracos em meus exércitos, mesmo que diminua os seus números.
Por um momento, houve um silêncio que rugiu em sua cabeça. Uma ameaça.
Uma ameaça de um ser humano, um homem que ivera apenas uma fração de sua existência, um mortal que era bestial...
Cuidado, uma voz disse em sua cabeça. Prossiga com astúcia.
Então Manon permitiu-se acenar ligeiramente em aquiescência, e perguntou:
— E quanto às suas outras... atividades? O que se passa sob as montanhas que circundam este vale?
O duque estudou-a, e ela encontrou seu olhar, encontrando cada centímetro de escuridão dentro dele. E descobriu algo sorrateiro ali que não tinha lugar neste mundo.
— Você não deseja aprender o que está sendo criado e forjado sob essas montanhas, Bico Negro — ele falou por fim. — Não se preocupe em enviar suas batedoras. Elas não verão a luz do dia novamente. Considere-se avisada.
O verme humano claramente não sabia exatamente o quão hábil as Sombras dela eram, mas não estava disposta a corrigi-lo, não quando poderia ser usado para sua vantagem um dia. No entanto, o que estivesse sendo feito no interior daquelas montanhas era a sua preocupação – não por causa das Pernas Amarelas, mas pelo resto da legião que liderava. Manon empurrou o queixo em direção ao soldado morto.
— E você pretende utilizar esse fogo de sombras para quê? Tortura?
Um lampejo de ira por outra pergunta.
— Eu ainda não decidi — o duque disse firmemente. — Por enquanto, ela vai experimentar assim. Talvez mais tarde, aprenda a incinerar os exércitos de nossos inimigos.
Uma chama que não deixava queimaduras liberada em cima de milhares. Seria glorioso, mesmo que grotesco.
— E há exércitos de inimigos se preparando? Vai usar este fogo de sombras sobre eles?
O duque de novo inclinou a cabeça, as cicatrizes em seu rosto fazendo um grande contraste à luz da lanterna fraca.
— Sua avó não lhe contou, então.
— O quê? — ela mordeu a isca.
O duque caminhou em direção às cortinas ao fundo.
— Sobre as armas que ela tem feito para mim, para você.
— Que armas? — Ela não se incomodou em perder tempo com o silêncio tático.
O duque apenas sorriu para ela quando desapareceu, as cortinas abrindo-se o suficiente para revelar Kaltain deitada em uma cama coberta por peles, seus braços magros e pálidos para os lados, os olhos abertos e cegos. Como o inferno. Uma arma.
Duas armas – Kaltain, e o que sua avó estivesse fazendo.
Foi por isso que a Matriarca ficara com as outras Grãs-Bruxas.
As três estavam combinando seu conhecimento, sabedoria e crueldade para desenvolver uma arma para usar contra os exércitos mortais.
Um calafrio deslizou pela espinha de Manon enquanto ela olhava mais uma vez para o ser humano morto no tapete.
O que quer que esta nova arma fosse, quaisquer que fosse a arma que as três Grãs-Bruxas estivessem fazendo...
Os seres humanos não teriam a menor chance.



— Quero que todos vocês espalhem o boato aos outros clãs. Quero sentinelas vigiando constantemente as entradas para o quartel. Trocas a cada três horas, não precisamos de ninguém descuidando-se e deixando o inimigo deslizar. Já enviei uma carta para a Matriarca.
Elide acordou com um solavanco dentro da torre, aquecida e em repouso e não se atrevendo a respirar. Ainda estava escuro, mas a luz da lua se fora, o amanhecer chegava ao longe. E na escuridão, ela podia distinguir fracamente o brilho dos cabelos brancos e o brilho de alguns conjuntos de dentes de ferro e unhas. Oh, deuses.
Ela planejara dormir por apenas uma hora. Devia ter dormido por, pelo menos, quatro. Abraxos não se moveu atrás dela, sua asa ainda protegendo-a.
Desde aquele encontro com Asterin e Manon, cada hora, acordada ou dormindo, tinha sido um pesadelo para Elide, e até mesmo dias depois ela se encontrou com falta de ar em momentos estranhos, quando a sombra do medo agarrava-a pelo pescoço. As bruxas não se importavam com ela, mesmo que ela tivesse reivindicado que seu sangue corria azul. Mas nem Vernon se importara.
Mas esta noite... ela mancara para o seu quarto, a escada bastante silenciosa, mesmo com a raspagem de suas correntes no chão. E de sua porta, um bolsão de silêncio absoluto, como se até mesmo os ácaros tivessem prendido a respiração. Alguém estava dentro de seu quarto. Esperando por ela.
Então ela continuou andando, percorrendo o caminho para a torre enluarada, onde seu tio não ousaria ir. As serpentes aladas das Treze estavam enroladas no chão como gatos ou empoleiradas em suas traves lá fora. À sua esquerda, Abraxos a vira do lugar onde estava deitado sobre a barriga, seus grandes olhos insondáveis, sem piscar. Quando ela chegou perto o suficiente para sentir o cheiro da carniça em seu hálito, pediu:
— Eu preciso de um lugar para dormir. Só por essa noite.
Sua cauda moveu-se ligeiramente, as pontas de ferro tilintando nas pedras. Abanando. Como um cão sonolento, mas com prazer em vê-la. Não havia rosnado para ser ouvido, brilho de dentes de ferro preparando para engoli-la em duas mordidas. Ela preferia ser devorada por Abraxos do que por aquele esperando em seu quarto.
Elide tinha deslizado contra a parede, colocando as mãos sob as axilas e curvando os joelhos contra o peito. Seus dentes começaram a bater, e ela abraçou-se mais. Era tão frio ali que a respiração condensou-se na sua frente.
Fez som de feno triturando, e Abraxos se aproximou.
Elide estava tensa – poderia ter saltado de pé e saído correndo. A serpente alada estendera uma asa para ela como em convite. Para sentar-se ao lado dele.
— Por favor, não me coma — ela sussurrou.
Ele bufou, como se dissesse, Você seria pequena demais.
Tremendo, Elide caminhou. Ele parecia maior a cada passo. Mas sua asa permaneceu estendida, como se ela fosse o animal em necessidade de acalmar.
Quando ela chegou a seu lado, mal conseguia respirar enquanto estendia a mão e acariciava a pele curva e escamosa. Ele era surpreendentemente macio, como couro desgastado. E quentinho, como se fosse uma fornalha. Com cuidado, consciente da cabeça que ele girava para assistir todos os seus movimentos, ela sentou-se contra ele, suas costas aquecendo instantaneamente.
A asa fora graciosamente baixada, dobrada até que se tornou uma parede quente de membrana entre ela e o vento frio. Ela inclinou-se mais em sua suavidade deliciosa, o calor penetrando em seus ossos.
Ela nem percebera que Elide estava ali... e agora ela estava ali. O fedor de Abraxos devia estar ocultando seu próprio cheiro humano, ou então a Líder Alada a teria encontrado. Abraxos se manteve parado o suficiente para que ela se perguntasse se ele sabia disso também.
As vozes pareciam vir do centro da torre e Elide aferiu a distância entre Abraxos e a porta. Talvez ela pudesse escapar antes que elas soubessem...
— Mantenha o silencio; mantenha em segredo. Se alguém revelar nossas defesas, morrerá em minha mão.
— Como quiser — disse Sorrel.
— Não alertaremos as Pernas Amarelas e as Sangue Azul? — Asterin indagou.
— Não — Manon disse, sua voz como a morte e derramamento de sangue. — Somente as Bico Negro.
— Mesmo se outro clã se voluntariar para a próxima vez? — Asterin insistiu.
Manon soltou um grunhido que fez os pelos da nuca de Elide se eriçarem.
— Nós não podemos puxar demais a coleira.
— A coleira pode arrebentar — Asterin desafiou.
— Então coloque-a em seu pescoço — disse Manon.
Agora – agora, enquanto elas estavam brigando. Abraxos permaneceu imóvel, como se não se atrevesse a chamar a atenção para si mesmo, enquanto Elide se preparou para fugir. Elide sentou-se cuidadosamente, lentamente erguendo um pé e segurando as correntes para não fazerem barulho.
Com a ajuda de uma mão e um pé, começou a arrastar-se através das pedras, indo rapidamente para a porta.
— Este fogo de sombras — Sorrel refletiu, como se estivesse tentando dissipar a tempestade se formando entre a Líder Alada e sua prima. — Será que ele vai usá-lo em nós?
— Ele parecia inclinado a pensar que poderia ser usado em exércitos inteiros. Não duvido que tenha passado por sua cabeça usá-lo em nós.
Cada vez mais perto, Elide pulou para a porta aberta.
Ela estava quase lá quando Manon cantarolou:
— Se você tivesse alguma cabeça, Elide, teria ficado ao lado Abraxos até nós sairmos.

6 comentários:

  1. Ainda não sei onde que essas bruxas se encaixam nessa estória.

    ResponderExcluir
  2. Também não sei mais acho que tem a ver com a aelin

    ResponderExcluir
  3. Encaixa perfeitamente, o rei ta criando várias criaturas perversas aí, com esses capítulos da Manon podemos ter um vislumbre do que o rei tá preparando pra quando a Aelin assumir o trono de Terrasen

    ResponderExcluir
  4. Se manon for esperta e corajosa o suficiente então quando começa a batalha ela vai fica do lado de aelin. Como eu sei que isso pode acontecer? Ja é a segunda vez que leio esse livro(a rainha das sombras)

    ResponderExcluir
  5. Se não houvesse as bruxas como o rei ergueria seu exército? Fora que eu acho q manon tornará aliada de aelin ainda, então é bom conhecermos a personagem. Alguém frio, mas que aos poucos tá despertando seu lado humano, como na vez que ela matou a crochan, salvou abraxos ou a herdeira das sangue azul. Eu gosto dela, fico feliz que tenha esses capítulos <3 o único chato ultimamente é o Chaol kkkkkk coitado, não tô suportando ele

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!