6 de fevereiro de 2016

Capítulo 2

Yrene não sabia como ou quando havia acontecido, mas a atmosfera na Porco Branco mudara.
Era como se todos os homens reunidos esperassem por algo. A garota nos fundos ainda estava na mesa, ainda pensativa. Mas os dedos enluvados tamborilavam na superfície de madeira arranhada e, de vez em quando, ela virava a cabeça encapuzada para olhar pelo salão.
A atendente não poderia ter saído, nem se quisesse. A última rodada só seria servida em quarenta minutos, e ela precisaria ficar uma hora depois disso para limpar e enxotar os clientes embriagados. Não ligava para onde iam depois que passavam pelo portal – não se importava se acabavam com o rosto para o chão em uma sarjeta encharcada – contanto que tivessem saído do bar. E ficassem fora dele.
Nolan havia sumido momentos antes para salvar a própria pele ou fazer algum negócio escuso no beco dos fundos, e Jessa ainda estava no colo daquele marinheiro, flertando, alheia à mudança no ambiente.
Yrene ainda olhava para a menina encapuzada. Assim como muitos dos clientes da taverna. Será que estavam esperando que ela se levantasse? Havia alguns ladrões que a atendente reconhecia – ladrões que estavam circulando como abutres durante os últimos dois dias, tentando entender se a garota esquisita conseguia usar as armas que carregava. Era conhecimento geral que ela partiria no dia seguinte, ao alvorecer. Se queriam dinheiro, joias, armas ou algo muito mais obscuro, aquela noite seria a última chance.
Yrene mordeu o lábio ao servir uma rodada de cervejas para a mesa de quatro mercenários jogando Reis. Deveria avisar a garota – diria que seria melhor entrar escondida no navio naquele momento, antes que acabasse com a garganta cortada.
Mas Nolan a jogaria na rua se soubesse que Yrene havia advertido a jovem. Principalmente quando muitos dos cortadores de garganta eram clientes adorados que costumavam compartilhar seus lucros ilícitos com ele. E a moça não tinha dúvida de que o patrão mandaria muitos daqueles homens atrás dela se o traísse. Como ficara tão acostumada com aquelas pessoas? Quando trabalhar e viver na Porco Branco se tornara um cargo e um lugar que Yrene queria tão desesperadamente manter?
A atendente engoliu em seco, servindo mais uma caneca de cerveja. A mãe dela não teria hesitado em avisar a garota.
Mas a mãe de Yrene tinha sido uma boa mulher – uma mulher que jamais titubeou, que jamais fechou a porta do chalé no sul de Charco Lavrado a uma pessoa doente ou ferida, não importava o quanto fosse pobre. Jamais.
Como curandeira prodigiosamente talentosa, abençoada com bastante magia, sua mãe sempre dissera que não era certo cobrar das pessoas pelo que tinha recebido gratuitamente de Silba, a deusa da Cura. E a única vez em que vira a mãe hesitar foi no dia em que os soldados de Adarlan cercaram a casa, armados até os dentes, empunhando tochas e madeira.
Não se incomodaram em ouvir quando a mãe explicou que seu poder, como o de Yrene, já havia desaparecido meses antes, junto ao restante da magia na terra. Abandonada pelos deuses, dissera sua mãe. Não, os soldados não ouviram mesmo. Assim como nenhum daqueles deuses desaparecidos para os quais a mãe e Yrene imploraram salvação.
Foi a primeira – e única vez – em que a mãe de Yrene tirou uma vida.
A moça ainda conseguia ver o lampejo da adaga escondida na mão da mãe, ainda sentia o sangue daquele soldado nos pés descalços, ouvia a mãe gritar para que corresse, sentia o cheiro da fumaça conforme queimavam sua talentosa mãe ainda viva enquanto a filha chorava na segurança próxima da floresta Carvalhal.
Foi dela que Yrene herdou o estômago de ferro, mas jamais imaginou que aqueles nervos de aço acabariam por mantê-la ali, clamando aquele lugar tosco de lar.
A atendente estava tão perdida nos pensamentos e nas lembranças que não percebeu o homem até que a mão grande se enroscasse em sua cintura.
— Precisamos de um rosto bonito nesta mesa — disse ele, exibindo um sorriso lupino.
A jovem recuou, mas o homem a segurou com força, tentando puxá-la para o colo.
— Tenho trabalho a fazer — respondeu ela, o mais inexpressiva possível.
Yrene havia se salvado de situações como aquela antes, inúmeras vezes agora. Aquilo parara de assustá-la havia muito tempo.
— Pode trabalhar em mim — falou outro dos mercenários, um homem alto com uma lâmina gasta presa às costas.
Calmamente, Yrene tirou os dedos do primeiro homem da própria cintura.
— Última rodada em quarenta minutos — avisou ela, agradavelmente, recuando o máximo possível sem irritar os homens que sorriam para ela como cães selvagens. — Querem mais alguma coisa?
— O que vai fazer depois? — perguntou outro homem.
— Vou para casa, para meu marido — mentiu Yrene, e eles olharam para o anel no dedo dela, o anel que agora fazia vezes de aliança de casamento. Tinha pertencido à mãe de Yrene e à mãe da mãe dela e a todas as grandes mulheres antes de Yrene, todas curandeiras tão talentosas, todas apagadas da memória dos vivos.
Os homens fizeram uma careta, que a atendente tomou como a deixa para sair, correndo de volta ao bar. Ela não avisou a garota, não fez a caminhada pelo enorme salão do bar, com todos aqueles homens esperando como lobos.
Quarenta minutos. Apenas mais quarenta minutos até que pudesse expulsar todos.
E então poderia fazer a limpeza e desabar na cama, mais um dia terminado naquele inferno que de alguma forma se tornara seu futuro.



Sinceramente, Celaena se sentiu um pouco insultada quando nenhum dos homens no salão tentou agarrá-la ou pegar seu dinheiro, o broche de rubi ou as armas conforme caminhou entre as mesas.
O sino da última rodada acabara de tocar, e, embora não estivesse nem um pouco cansada, tinha desistido de esperar por uma briga ou uma conversa ou qualquer coisa que ocupasse seu tempo.
Poderia voltar para o quarto e reler um dos livros que havia levado. Ao passar pelo bar, jogando uma moeda de prata para a atendente de cabelos castanhos, Celaena debateu os méritos de sair para as ruas em vez disso e ver que aventura a encontraria.
Inconsequente e burra, diria Sam. Mas ele não estava ali, e a assassina não sabia se o companheiro estava vivo ou morto, ou se tinha sido surrado por Arobynn até perder a consciência. Era seguro presumir que Sam fora punido pelo papel que desempenhou na libertação dos escravos em baía da Caveira.
Celaena não queria pensar nisso. Sam tinha se tornado seu amigo, acreditava ela. Jamais tivera o luxo de amigos e jamais quis nenhum. Mas o assassino fora um bom candidato, mesmo que não hesitasse em dizer exatamente o que pensava dela, ou de seus planos, ou suas habilidades.
O que Sam pensaria se Celaena simplesmente velejasse para o desconhecido e jamais chegasse ao deserto Vermelho, ou jamais voltasse para Forte da Fenda? Poderia comemorar; principalmente se Arobynn fizesse de Sam seu herdeiro. Ou a jovem poderia cooptá-lo, talvez. Ele sugerira que os dois tentassem fugir quando estavam em baía da Caveira, na verdade. Então, depois de se instalar em algum lugar, depois de estabelecer uma nova vida como a melhor assassina em qualquer que fosse a terra que viesse a ser seu lar, poderia pedir a Sam para se juntar a ela. E os dois jamais aturariam surras e humilhações de novo. Uma ideia tão fácil, tão convidativa... tão tentadora.
Celaena subiu as escadas estreitas arrastando os pés, buscando ouvir qualquer ladrão ou assassino que pudesse estar esperando. Para seu desapontamento, o corredor do andar de cima estava escuro e silencioso – e vazio.
Ao suspirar, entrou no quarto e trancou a porta. Depois de um momento, empurrou a cômoda antiga para a frente da porta também. Não pela própria segurança. Ah, não. Era para a segurança de qualquer tolo que tentasse invadir – então acabaria rasgado do umbigo ao nariz apenas para satisfazer o tédio de uma assassina errante.
Mas, depois de andar de um lado para outro por quinze minutos, Celaena empurrou o móvel e saiu. Em busca de uma briga. De aventura. De qualquer coisa que afastasse a mente dos hematomas no rosto e da punição que Arobynn tinha lhe imposto, e da tentação de jogar as obrigações para o alto e velejar para uma terra muito, muito distante.



Yrene carregou o último dos baldes de lixo para o beco coberto de névoa atrás da Porco Branco, as costas e os braços da atendente doíam. Aquele tinha sido um dia mais longo que a maioria.
Não houve briga, graças aos deuses, mas ainda não conseguia acalmar os nervos e aquela sensação de que algo estava errado. Mas ela estava feliz – muito feliz mesmo – que não houvera uma briga na Porco. A última coisa que queria fazer era passar o resto da noite limpando sangue e vômito do chão, e arrastando mobília quebrada para o beco. Depois de tocar o sino da última rodada, os homens terminaram as bebidas, resmungando e gargalhando, e se dispersaram com pouco ou nenhum incômodo.
Como era de se esperar, Jessa havia sumido com o marinheiro, e considerando que o beco estava vazio, Yrene só podia imaginar que a jovem fora a outro lugar com ele. Deixando-a, mais uma vez, sozinha na faxina.
A atendente parou ao jogar o lixo menos nojento em uma pilha organizada diante do muro mais distante. Não era muito: pão mofado e ensopado que sumiriam pela manhã, levados pelas crianças maltrapilhas, quase selvagens, que perambulavam pelas ruas.
O que a mãe de Yrene diria se soubesse o que a filha havia se tornado?
A moça tinha apenas 11 anos quando aqueles soldados queimaram sua mãe por ter magia. Durante os primeiros seis anos e meio depois dos horrores daquele dia, Yrene convivera com a prima da mãe em outra cidade em Charco Lavrado, fingindo ser uma parenta distante sem qualquer talento. Não fora difícil manter o disfarce: os poderes haviam realmente desaparecido.
Mas, naqueles dias, o medo estava à solta, e vizinhos se voltavam contra vizinhos, em geral delatando qualquer um infimamente abençoado com os poderes dos deuses a qualquer legião do exército que estivesse mais próxima. Ainda bem que ninguém questionara a presença insignificante de Yrene; e naqueles longos anos, ninguém a notou conforme ajudava a fazenda da família na luta para voltar ao normal no rastro das forças de Adarlan.
Mas Yrene queria ser curandeira – como a mãe e a avó. Começara a imitar a mãe assim que começou a falar, aprendendo devagar, como faziam todos os curandeiros tradicionais. E todos os anos naquela fazenda, ainda que tranquilos (se não puramente entediantes e chatos), não tinham sido o bastante para fazer com que Yrene esquecesse 11 anos de treinamento ou a ânsia de seguir os passos da mãe. A jovem não era próxima dos primos, apesar da caridade deles, e nenhuma das partes tinha tentando de verdade construir uma ponte sobre o abismo causado pela distância e pelo medo e pela guerra. Então, ninguém protestou quando Yrene pegou o dinheiro que guardara e saiu da fazenda alguns meses antes do aniversário de 18 anos.
Ela partiu para Antica, uma cidade de aprendizado no continente sul. Um reino intocado por Adarlan e pela guerra, no qual, de acordo com boatos, a magia ainda existia. Yrene viajou a pé de Charco Lavrado, atravessou as montanhas até Melisande, passou por Carvalhal, para finalmente chegar a Innish – na qual, também segundo boatos, era possível achar um barco para o continente sul, para Antica. E era precisamente ali que tinha ficado sem dinheiro.
Por isso aceitara o emprego na Porco. Primeiro, fora apenas temporário, queria ganhar o suficiente para pagar a passagem até Antica. Contudo, Yrene teve medo de não ter o necessário ao chegar e, depois, de não ter dinheiro algum para pagar pelo treinamento em Torre Cesme, a grandiosa academia de curandeiros e médicos. Assim, a moça ficou, e semanas se tornaram meses.
De alguma forma, o sonho de velejar para longe, de frequentar a Torre, fora deixado de lado. Principalmente quando Nolan aumentou o aluguel do quarto e o custo da comida, além de encontrar formas de reduzir o salário dela. Principalmente quando aquele estômago de curandeira permitia que Yrene suportasse as humilhações e a escuridão daquele lugar.
A jovem suspirou pelo nariz. Então, ali estava: uma atendente de bar em uma cidadezinha esquecida, com sequer duas moedas de cobre no bolso e nenhum futuro à vista.
Um ruído de botas sobre pedra surgiu, e Yrene olhou com raiva para o beco. Se Nolan pegasse as crianças de rua comendo a comida – por mais estragada e nojenta – a culparia. Diria que lá não era um lugar de caridade e tiraria o custo do salário dela. Fizera isso antes, e Yrene precisou ir atrás das crianças para passar um sermão nelas, de modo que entendessem que deveriam esperar até o meio da noite para pegar as sobras que ela colocava tão cuidadosamente do lado de fora.
— Eu disse para esperarem até depois... — começou a dizer, mas parou quando quatro figuras saíram da névoa.
Homens. Os mercenários de antes.
Yrene estava se movendo para a porta aberta em um segundo, mas eles eram rápidos – mais rápidos.
Um dos homens bloqueou a porta enquanto outro foi para trás dela, segurando-a com força e puxando-a contra seu imenso corpo.
— Grite e vou cortar sua garganta — sussurrou o homem no ouvido da atendente, o hálito era quente e fedia a cerveja. — Vi que ganhou umas gorjetas gordas esta noite, garota. Onde estão?
Yrene não sabia o que teria feito a seguir: lutado ou chorado ou implorado ou, de fato, tentado gritar. Mas não precisou decidir.
O homem mais distante foi puxado para dentro da névoa com um grito abafado.
O mercenário que a segurava se virou na direção do primeiro, arrastando a jovem consigo. Um farfalhar de roupas soou, então um estampido. Depois, silêncio.
— Ven? — chamou o homem que bloqueava a porta.
Nada.
O terceiro mercenário – de pé entre Yrene e a névoa – sacou a espada curta. A atendente não teve tempo de gritar de surpresa ou como aviso quando uma figura escura deslizou para fora da névoa e o pegou. Não pela frente, mas pela lateral, como se tivesse simplesmente surgido do nada.
O homem que a segurava atirou a atendente ao chão e sacou a espada das costas, uma lâmina larga, de aparência maligna. Mas o colega dele sequer gritou. Mais silêncio.
— Saia, seu covarde desgraçado — urrou o líder da gangue. — Venha nos enfrentar como um homem de verdade.
Uma risada grave e baixa.
O sangue de Yrene esfriou. Que Silba a proteja.
Conhecia aquela gargalhada. Conhecia a voz tranquila e culta que a acompanhava.
— Assim como vocês, homens de verdade, cercaram uma garota indefesa em um beco?
Com isso, a estranha saiu de dentro da névoa. Segurava uma adaga longa em cada mão. E as duas lâminas estavam escuras com o sangue que pingava.

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