28 de fevereiro de 2016

Capítulo 2

Aelin Ashryver Galathynius, herdeira do fogo, adorada de Mala Portadora da Luz, e a rainha por direito de Terrasen, se encostou ao bar de carvalho desgastado e ouviu atentamente os sons do salão de prazer, uma mistura de aplausos, gemidos e cantigas obscenas. Embora ela tivesse visto e desprezado vários proprietários ao longo dos últimos anos, o labirinto subterrâneo do pecado conhecido como Cofres permanecia o mesmo: desconfortavelmente quente, fedendo a cerveja velha e corpos sujos, e guardando os piores tipos de assassinos e criminosos do meio.
Alguns jovens senhores e filhos de comerciantes pavoneavam escadas abaixo do Cofres e nunca viam a luz do dia novamente. Às vezes era porque passavam seu ouro e prata para a pessoa errada; às vezes porque eram descuidados ou por beber o suficiente para pensar que podia saltar nas arenas de luta e saírem vivos. Às vezes, eles maltratavam uma das mulheres de aluguel nas alcovas do espaço cavernoso e assim aprendiam da maneira mais difícil sobre o tipo de pessoa que os proprietários do Cofres realmente valorizavam.
Aelin tomou um gole da caneca de cerveja que o barman suado servira momentos antes. Aguada e barata, mas pelo menos estava fria. Acima do fedor de corpos sujos, o cheiro de carne assando e alho flutuou até ela. Seu estômago roncou, mas ela não era estúpida o suficiente para pedir comida. Um, a carne era geralmente cortesia dos ratos de beco na rua acima. Dois, clientes ricos geralmente eram amarrados com aquilo que os despertou no beco mencionado, com a bolsa vazia. Se eles acordassem, já eram sortudos.
Suas roupas estavam sujas, mas boas o suficiente para marcá-la como alvo de um ladrão. Então ela examinou cuidadosamente seu arsenal e, em seguida, relaxou antes de certificar-se que estava segura. Ela ainda teria que encontrar comida em breve, mas não até que descobrisse o que precisava no Cofres: o que diabos acontecera em Forte da Fenda nos meses em que ela esteve fora.
E o que Arobynn Hamel queria ao arriscar uma reunião aqui – especialmente quando os brutais guardas de uniforme negro vagavam pela cidade como alcateias de lobos.
Ela conseguiu escapar da tal patrulha durante o caos do embarque, mas não antes de notar a serpente alada de ônix bordada em seus uniformes. Preto sobre preto – talvez o rei de Adarlan tivesse se cansado de fingir que era tudo, menos uma ameaça, e emitira um decreto real para abandonar o carmesim e dourado tradicionais de seu império. Preto para a morte – preto para suas duas chaves de Wyrd; preto para os demônios valg que ele usava agora para construir um exército imparável.
Um arrepio se arrastou ao longo de sua espinha, e ela bebeu o resto de sua cerveja. Quando colocou a caneca no balcão, seu cabelo ruivo deslocou e refletiu a luz dos candelabros de ferro forjado.
Ela se apressou para partir do cais para a margem do rio, para o mercado negro – onde qualquer um conseguia encontrar o que queria, contrabando raro ou banal – e então comprou uma barra de tintura. Pagara ao comerciante prata extra para usar o quartinho nos fundos da loja e tingir o cabelo, ainda curto, alcançando logo abaixo de suas clavículas. Se esses guardas monitorando as docas tivessem visto de alguma forma, estariam procurando uma jovem mulher de cabelos dourados. Todo mundo estaria atrás de uma jovem  de cabelos dourados, uma vez que chegou o boato há algumas semanas de que a campeã do rei falhara em sua tarefa de assassinar a família real de Wendlyn e roubar seus planos de defesa naval.
Ela tinha enviado um aviso para o rei e rainha de Eyllwe meses atrás, e sabia que eles levariam seus avisos em consideração. Mas isso ainda deixava uma pessoa em risco antes que ela pudesse dar os primeiros passos de seu plano – a mesma pessoa que podia ser capaz de explicar os novos guardas nas docas. E por que a cidade estava visivelmente mais tensa. Abafada.
Se havia um lugar para ela ouvir qualquer coisa a respeito do capitão da Guarda e se ele estava seguro, seria aqui. Era apenas uma questão de ouvir a conversa certa ou estar com a companhia correta. Era uma feliz coincidência, então, que ela tivesse visto Tern – um dos assassinos favoritos de Arobynn – comprar a mais recente leva de seu veneno preferido no mercado negro.
Ela o seguira até ali a tempo de espionar vários outros assassinos de Arobynn de plantão no salão de prazer. Eles nunca fizeram isso, não ao menos que seu mestre estivesse presente. Normalmente, apenas quando Arobynn estava em reunião com alguém muito, muito importante. Ou perigoso.
Depois que Tern e os outros escorregaram para dentro do Cofres, ela esperou na rua alguns minutos, demorando-se nas sombras para ver se Arobynn chegava, mas não teve essa sorte. Ele já devia estar lá dentro.
Então ela entrou nos calcanhares de um grupo de filhos de comerciantes bêbados e sujos, onde viu o grupo de Arobynn, e fez o seu melhor para passar despercebida e pouco digna enquanto se escondia no bar – e observava.
Com seu capuz e roupas escuras, ela se misturou bem o suficiente para não chamar muita atenção. Ela supôs que se alguém fosse tolo o suficiente para tentar roubá-la, seria um jogo justo ser roubado de volta. Ela estava com pouco dinheiro.
Ela suspirou pelo nariz. Se o seu povo pudesse vê-la: Aelin do Fogo Selvagem, assassina e batedora de carteiras. Seus pais e o tio provavelmente se reviravam em seus túmulos.
Ainda. Algumas coisas valiam a pena. Aelin fez um sinal com o dedo enluvado para o barman careca, sinalizando para outra cerveja.
— Estou de olho com o quanto você bebe, menina — zombou uma voz ao seu lado.
Ela olhou de soslaio para o homem de porte médio que tinha escorregado ao lado dela no bar. Ela o teria conhecido por sua espada antiga se não tivesse reconhecido o rosto surpreendentemente comum.
A pele corada, os olhos pequenos e sobrancelhas grossas, tudo sem graça, uma máscara para esconder o assassino faminto sob ela. Aelin apoiou os braços no balcão, cruzando um tornozelo sobre o outro.
— Olá, Tern. — depois de Arobynn, era o segundo em comando, ou tinha sido há dois anos. Vicioso, calculista, sempre estava mais do que ansioso para fazer o trabalho sujo de Arobynn. — Achei que fosse só uma questão de tempo antes que um dos cães de Arobynn sentisse o meu cheiro.
Tern se recostou no bar, mostrando-lhe um sorriso muito brilhante.
— Se a memória serve, você era sempre a cadela favorita dele.
Ela riu, encarando-o. Eles eram praticamente iguais em altura, e com a sua compilação magra, Tern tinha sido irritantemente bom em se meter nos lugares mais bem guardados. O barman sujo se manteve longe.
Tern inclinou a cabeça sobre um ombro, apontando para a parte sombria dos fundos do espaço cavernoso.
— Última banqueta contra a parede. Ele está terminando com um cliente.
Ela lançou seu olhar na direção que Tern indicou. Ambos os lados do Cofres eram alinhados com alcovas cheias de prostitutas, mal acortinadas contra as multidões. Ela passou seu olhar pelas contorções de corpos, as mulheres de rostos magros e olhos fundos à espera do ganho de seu sustento neste buraco de merda purulenta, pelas pessoas que monitoravam a partir de mesas próximas – guardas, espreitadores e curiosos. Mas ali, enfiadas na parede ao lado das alcovas, estavam várias cabines de madeira.
Exatamente as que ela tinha discretamente monitorado desde a sua chegada.
E na mais distante das luzes, um refletir de botas de couro polido estendia-se abaixo da mesa. Um segundo par de botas, desgastadas e enlameadas, estava apoiado no chão em frente à primeira, como se o cliente estivesse pronto para fugir. Ou, se fosse realmente estúpido, para lutar.
Ele certamente fora estúpido o suficiente para deixar sua guarda pessoal visível, um farol de alerta para quem quisesse perceber que algo muito importante estava acontecendo naquela última cabine.
A guarda do cliente – uma jovem esbelta, encapuzada e armada até os dentes – estava encostada a um pilar de madeira nas proximidades, o cabelo escuro de seda na altura dos ombros brilhando na luz, e monitorava cuidadosamente o corredor de prazer. Rígida demais para ser um cliente casual. Sem uniforme, não havia cores da casa ou siglas.
Não era surpreendente, dada a necessidade do cliente pelo segredo.
O cliente provavelmente pensou que era mais seguro encontrar-se aqui, quando geralmente esses tipos de reuniões eram realizados em uma das pousadas sombrias cujo dono era o próprio Arobynn. Ele não tinha ideia de que Arobynn também era um dos principais investidores do Cofres, e que seria necessário apenas um aceno do antigo mestre de Aelin para as portas de metal bloquearem a passagem – e o cliente e sua guarda nunca mais sairiam dali novamente.
Ela deixou a questão de por que Arobynn havia concordado em reunir-se aqui de lado.
E Aelin voltou sua atenção para o lado contrário do corredor, em direção ao homem que tinha quebrado a sua vida de tantas maneiras.
Seu estômago ficou apertado, mas ela sorriu para Tern.
— Eu sabia que a coleira não esticaria muito.
Aelin se afastou do balcão, deslizando entre a multidão antes que o assassino pudesse dizer qualquer outra coisa. Ela podia sentir o olhar de Tern fixo entre as suas omoplatas, e sabia que ele estava se segurando para não mergulhar a espada ali.
Sem se preocupar em olhar para trás, ela fez um gesto obsceno por cima do ombro. A sequência de maldições praguejadas era muito melhor do que a música obscena que estava sendo jogado em toda a sala. Ela observou cada rosto pela qual passou, cada mesa de foliões e criminosos e trabalhadores. A guarda pessoal do cliente agora a observava, uma mão enluvada caindo para a espada ordinária ao seu lado.
Não sou sua preocupação, mas boa tentativa.
Aelin estava meio tentada a sorrir para a mulher. Poderia ter feito, na verdade, se não estivesse concentrada no rei dos Assassinos. E no que a esperava. Mas ela estava pronta, ou tão pronta quanto poderia estar. Ela passara bastante tempo planejando.
Aelin entregara um dia no mar para descansar e perder Rowan. Com o juramento de sangue ligando-a agora eternamente ao príncipe feérico – para ela, sua ausência era como um membro fantasma. Ela ainda o sentia.
Dessa forma, mesmo quando tinha tanta coisa para fazer, embora sentisse falta do carranam, estava inútil e ela não tinha a menor dúvida de que ele chutaria a sua bunda por isso.
No segundo dia em que eles tinham se afastado, ela tinha oferecera ao capitão do navio uma moeda de prata por uma pena e uma pilha de papel. E depois de se trancar em seu camarote apertado, começara a escrever. Havia dois homens nesta cidade responsáveis pela destruição de sua vida e das pessoas que ela amava. Ela não deixaria Forte da Fenda até que tivesse enterrado os dois.
Então, escrevera página após página de notas e planos, até que tinha uma lista de nomes, lugares e metas. Ela memorizara cada passo e cálculo, então queimou as páginas com o poder ardendo em suas veias, certificando-se que cada pedaço nada mais era do que cinzas flutuando para fora da janela do vigia para a vasta noite escura do oceano.
Embora ela tivesse se preparado, ainda foi um choque semanas mais tarde, quando o navio passara por algum marco invisível ao longo da costa e sua magia desapareceu. Aquilo pelo o que passara tantos meses para cuidadosamente dominar desapareceu como se nunca tivesse existido, nem mesmo uma brasa piscando em suas veias. Uma nova espécie de vazio – diferente do buraco da ausência de Rowan – caiu sobre ela.
Presa em sua pele humana, ela enrolou-se em sua cama e se lembrou de como respirar e pensar, como mover seu corpo maldito sem a graça imortal de que ela se tornara tão dependente. Ela era uma tola inútil por deixar que os dons se tornassem uma muleta, para ser pega no fundo do poço quando eles fossem novamente arrancados dela. Rowan definitivamente teria chutado sua bunda – então ela se recuperou.
Foi o suficiente para deixá-la feliz que ela tivesse lhe pedido para ficar para trás.
Então ela respirou o ar salgado e cheiro de madeira, e lembrou que tinha sido treinada para matar com suas mãos muito antes de ter aprendido a derreter ossos com seu fogo. Ela não precisava da força extra, da velocidade e agilidade de seu corpo feérico, fora formada para derrubar seus inimigos.
O homem responsável por essa formação inicial e brutal, o homem que tinha sido salvador e algoz, mas nunca se declarara pai, irmão ou amante – agora estava a alguns passos, ainda falando com o seu oh-tão-importante cliente.
Aelin empurrou a tensão ameaçando travar seus membros e manteve seus movimentos felinos enquanto caminhava os últimos seis metros entre eles.
O cliente de Arobynn se levantou, tirando algo do rei dos Assassinos, e a guarda foi em sua direção.
Mesmo com a capa, ela reconheceu a maneira como ele se moveu. Ela conhecia a forma do queixo despontando a partir das sombras do capuz, a maneira como a mão esquerda tendia a roçar sua bainha. Mas a espada com punho em forma de águia não estava pendurada ao seu lado.
E não havia uniforme preto, somente roupas marrons indescritíveis, manchadas com sujeira e sangue.
Ela pegou uma cadeira vazia e puxou – para uma mesa de jogadores de cartas antes que o cliente tivesse dado dois passos. Ela deslizou para o assento, focada na respiração, nos sons, assim como as três pessoas na mesa, que franziam a testa.
Ela não se importava.
Do canto do olho, viu o guarda empurrar o queixo em direção a ela.
— Me dê as cartas — Aelin murmurou para o homem ao seu lado. — Agora.
— Estamos no meio de um jogo.
— Próxima rodada, então — ela disse, relaxando sua postura, enquanto Chaol Westfall lançou um olhar em sua direção.

19 comentários:

  1. Laura do Bom Senso 42 #Zueira28 de fevereiro de 2016 18:16

    AI MEUS DEUSES

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  2. Oh meus deuses!!!! tava desconfiando. Mas só do bola fora q achei q nao era. Qm eh a vaca com ele?

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  3. Viviane Francisco2 de março de 2016 08:19

    Ai..to apaixonada por esse livro!!!!

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  4. Ela não ia voltar como Celaena? Por que agora é só Aelin? Eu amava ela como Celaena

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    1. Sim, Celaena... mas isso só para quem a conhecia antes, né? Quem é do círculo mais íntimo sabe que ela é Aelin

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    2. E nós já somos bem íntimos né Karina.? Kkkkk

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  5. todos os livros começaram chatos mas esse ja chegou abalando a sanidade q me restou...kkkkkkkk

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  6. Aline, Divergente, filha de Atena, tributo, vampira, nephilim, feérica...15 de maio de 2016 00:16

    Pelo Anjo!! quando eu li que era uma espada de águia meu radar já detectou Chaol na área <3

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  7. Mds!!!
    Esse livro já começou fazendo eu prender a respiração!!!

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  8. nossa que coisa relaxar desse jeito so se for como ela assassina fria QUEEN OF SHENDOWS

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  9. Af vai ser difícil eu me acostumar à ler Aelin, se conheço ela por Celaena desde o primeiro livro D: até mesmo quando ela se assumiu Aelin, o narrador a chamava de Celaena :/

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  10. Acabei de voltar de A Lâmina da Assassina e nada nesse livro pode me afetar depois do modo como a autora matou o Sam, sinceramente.

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  11. EU PRECISO DORMIIRRR! E SECAR O CABELO E AMANHÃ TENHO PROVA MAS O LIVRO É BOM DEMAIS!

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