28 de fevereiro de 2016

Capítulo 20

Vários dias depois encontrar a Líder Alada, o tornozelo de Elide Lochan estava dolorido, a parte inferior das costas em um nó apertado, e os ombros doloridos quando ela tomou a última escadaria para a torre abandonada. Pelo menos ela conseguira chegar sem encontrar quaisquer horrores nos corredores, embora a subida quase a tivesse matado.
Ela não crescera com os intermináveis corredores íngremes de Morath, e não se acostumara nos dois meses desde que fora arrastada para este lugar horrível por Vernon. Bastava completar suas tarefas diárias e suportar o pulsar do tornozelo arruinado com dor que ela não experimentara em anos, e hoje estava pior ainda. Ela teria que furtar algumas ervas da cozinha nesta noite para embeber seu pé; talvez até mesmo alguns óleos, se o cozinheiro Ornery estivesse se sentindo generoso o suficiente.
Em comparação com alguns dos outros habitantes de Morath, ele era bastante gentil. Tolerava sua presença na cozinha, e seus pedidos de ervas, especialmente quando ela tão docemente se oferecia para limpar alguns pratos ou preparar as refeições. E ele nunca piscava duas vezes quando ela perguntava sobre quando o próximo carregamento de alimentos e suprimentos viria, porque – Ohela amava sua torta de qualquer-fruta, e seria tão bom tê-la de novo. Fácil de lisonjear, fácil de enganar. Fazer as pessoas verem e ouvirem o que elas queriam: uma das muitas armas em seu arsenal.
Um presente de Anneith, a senhora das coisas sábias, Finnula afirmaria – o único presente que ela recebera, Elide pensava muitas vezes, além de sua velha babá de bom coração e inteligência.
Ela nunca contou a Finnula que muitas vezes orava à inteligente deusa para conferir-lhe outro presente para aqueles que tornaram seus anos em Perranth um inferno: a morte, e não do tipo suave. Não como Silba, que oferecia fins pacíficos, ou Hellas, que oferecia finais violentos e ardentes. Não, mortes pelas mãos de Anneith – consorte de Hellas – eram brutais, sangrentas e lentas.
O tipo de morte que Elide esperava receber a qualquer momento, e contar as bruxas que rondavam os salões ou do duque de olhos escuros, seus soldados letais, ou a Líder Alada de cabelos brancos que tinha provado seu sangue como vinho fino. Ela teve pesadelos desde então. Isto é, quando conseguia dormir.
Elide ainda precisara descansar por duas vezes em seu caminho para o alto, e sua claudicação era profunda quando chegou ao topo da torre, preparando-se para os animais e os monstros que elas montavam. Uma mensagem urgente viera para a Líder Alada enquanto Elide limpava o seu quarto – e quando Elide explicou que a Líder Alada não estava, o homem soltou um suspiro de alívio, empurrou a carta na mão de Elide e ordenou que ela a encontrasse.
E então o homem partira.
Ela deveria ter suspeitado. Tinha levado dois batimentos cardíacos para observar e catalogar os detalhes do homem, sua fala e carrapatos. Suado, com o rosto pálido, as pupilas dilatadas – ele perdeu a firmeza quando Elide abriu a porta. Desgraçado. A maioria dos homens, ela decidiu, era de bastardos de graus variados. A maioria deles era monstros. Mas ninguém pior do que Vernon.
Elide esquadrinhou o lugar. Vazio. Nem mesmo um treinador à vista.
O piso de feno era fresco, os comedouros cheios de carne e grãos. Mas a comida estava intocada pelas serpentes aladas cujos corpos de couro maciço apareciam para além das arcadas, empoleirados em vigas de madeira que se projetavam sobre a queda observando o exército abaixo como se fossem treze poderosos senhores da Fortaleza. Mancando tão perto quanto ousou de uma das enormes aberturas, Elide olhou para a vista.
Era exatamente como o mapa da Líder Alada que ela observara – nos momentos de folga, quando poderia roubar um olhar.
Eles eram cercados por montanhas cinzentas, e se não tivesse vindo em uma carruagem-cela na longa viagem até aqui, teria percebido a floresta, espiado à distância e visto o rio enorme por onde passaram dias antes de subirem ao largo, a estrada da montanha rochosa. No meio do nada – era aí que ficava Morath, e a vista diante dela o confirmou: sem cidades, sem povoados, mas um exército inteiro em torno dela. Ela empurrou de volta o desespero que penetrou em suas veias.
Nunca tinha visto um exército antes de chegar ali. Soldados, sim, mas ela tinha oito anos quando seu pai a colocou no cavalo de Vernon e beijou-a num adeus, prometendo vê-la em breve. Ela não estivera em Orynth para testemunhar o exército que tomou suas riquezas, seu povo. Ficara trancada em uma torre no Castelo de Perranth enquanto o exército invadia as terras de sua família e seu tio tornou-se um constante servo fiel do rei e roubava o título de seu pai.
Seu título. Senhora de Perranth – era como ela deveria ter sido chamada. Não que isso importasse agora. Não havia muito da corte de Terrasen restando. Nenhum deles viera buscá-la nos meses iniciais da chacina. E nos anos seguintes, ninguém lembrara que ela existia. Talvez assumissem que ela estava morta – como Aelin, a rainha selvagem que poderia estar por aí. Talvez eles estivessem todos mortos mesmo. E talvez, dado o exército escuro agora se espalhando diante dela, fosse uma misericórdia.
Elide olhou através das fogueiras piscando no campo de guerra, um calafrio na espinha. Um exército para esmagar qualquer resistência que houver, Finnula sussurrou uma vez durante as longas noites em que elas estiveram trancadas naquela torre em Perranth. Talvez a própria Líder Alada de cabelos brancos lideraria o exército, na serpente alada com asas cintilantes.
Um vento frio soprou feroz na torre, e Elide inclinou-se para ele, engolindo-o como se fosse água fresca. Houve muitas noites em Perranth quando apenas o vento gemendo fora sua companhia. Quando ela poderia ter jurado que ele cantava músicas antigas para embalar o seu no sono. Aqui... O vento era mais frio, mais sedoso – quase serpentino. Recepcionar tais coisas fantasiosas só vai distraí-la, Finnula teria repreendido. Ela desejou que a babá estivesse aqui.
Mas desejar não lhe fizera nenhum bem nos últimos dez anos, e Elide, a Senhora de Perranth, não tinha ninguém vindo buscá-la.
Logo, ela tranquilizou-se – em breve a próxima caravana de suprimentos rastejaria até a estrada da montanha, e quando ela voltasse a descer, Elide estaria escondida em um dos vagões, livre finalmente.
E então ela fugiria para algum lugar muito, muito distante, onde eles nunca tinham ouvido falar de Terrasen ou Adarlan, e deixaria essas pessoas em seu miserável continente. Nas poucas semanas seguintes, ela poderia ter uma chance de escapar.
Se sobrevivesse até lá. Se Vernon não decidisse que havia algum real propósito perverso para arrastá-la aqui. Se ela não acabasse como aquelas pobres pessoas, presa dentro das montanhas ao redor, gritando por salvação a cada noite. Ela ouvira os outros servos sussurrarem sobre a escuridão que caía quando coisas corriam sob aquelas montanhas: pessoas que estavam sendo abertas em altares de pedra negra e, em seguida, forjadas em algo novo, algo diferente. Com que propósito miserável, Elide ainda não soubera, e misericordiosamente, além da gritaria, nunca encontrou o que estava sendo quebrado e remendado debaixo da terra. As bruxas eram ruins o suficiente.
Elide estremeceu quando deu mais um passo para a grande câmara. A trituração de feno sob seus sapatos pequenos e o barulho de suas correntes eram os únicos sons.
— Líd-líder Ala...
Um rugido explodiu no ar, nas pedras, no chão, tão alto que sua cabeça girou e ela gritou. Deu um passo para trás, suas correntes emaranhadas enquanto deslizava sobre o feno.
Dedos rígidos com pontas de ferro cravaram em seus ombros e a mantiveram na posição vertical.
— Se você não é uma espiã — uma voz ímpia ronronou em seu ouvido: — Então por que está aqui, Elide Lochan?
Elide não estava fingindo quando sua mão trêmula estendeu a carta, não se atrevendo a se mover.
A Líder Alada andou em volta dela, circulando Elide como uma presa, a longa trança branca balançando contra sua roupa de voo de couro.
Os detalhes acertaram Elide como pedras: olhos como ouro queimado; um rosto tão incrivelmente belo que Elide ficou muda; um corpo magro, afiado; e uma graça constante, a fluidez de cada movimento, cada respiração, que sugeria que a Líder Alada poderia facilmente utilizar uma variedade de lâminas sobre ela. Humana apenas em forma – imortal e predatória em qualquer outro sentido.
Felizmente, a Líder Alada estava sozinha. Infelizmente, aqueles olhos de ouro realizavam nada além de morte.
— Is-isto veio para você — ela falou.
A gagueira era falsificada. As pessoas geralmente não podiam esperar para fugir quando ela gaguejava e hesitava. Embora duvidasse que as pessoas deste lugar se preocupassem com a gagueira, se decidissem ter algum divertimento com uma filha de Terrasen. Se Vernon a entregasse.
A Líder Alada sustentou o olhar de Elide quando tomou a carta.
— Estou surpresa que o lacre não esteja quebrado. Embora se você fosse uma boa espiã, saberia como fazê-lo sem quebrar a cera.
— Se eu fosse uma boa espiã — Elide devolveu — eu também saberia ler.
Um pouco de verdade para temperar a desconfiança da bruxa.
A bruxa piscou, e depois cheirou, como se estivesse tentando detectar uma mentira.
— Você fala bem para uma mortal, e seu tio é um senhor. No entanto, você não sabe ler?
Elide assentiu. Mais do que a perna, mais do que o trabalho penoso, era a miserável falha que a perseguiu. Sua babá, Finnula, não sabia ler – mas Finnula fora a única a ensiná-la a tomar nota das coisas, ouvir e pensar. Durante os longos dias em que elas não tinham nada para fazer além de tecer, a babá lhe ensinara a marcar os pequenos detalhes, cada ponto, sem perder também a imagem maior. Chegará um dia em que eu irei, Elide, e você precisa ter todas as armas em seu arsenal afiadas e prontas para atacar.
Nenhuma das duas pensara que Elide pode ser a que saiu primeiro. Mas ela não olharia para trás, nem mesmo para Finnula, uma vez que fugisse. E quando ela descobrisse uma vida nova, um novo lugar... Ela nunca olharia para o norte, para Terrasen, e a maravilha, tampouco.
Ela manteve os olhos no chão.
— E-eu sei letras básicas, mas as minhas aulas pararam quando eu tinha oito anos.
— A pedido de seu tio, presumo. — A bruxa fez uma pausa, girando o envelope e mostrando a confusão de letras para ela, apontando-as com as unhas de ferro. — Aqui diz “Manon Dentes de Ferro”. Se vir algo como isso, traga para mim.
Elide inclinou a cabeça. Mansa, submissa – apenas a única maneira que essas bruxas gostavam dos seus seres humanos.
— É-é claro.
— E por que você não para de fingir uma gagueira e se encolher miseravelmente enquanto isso?
Elide manteve a cabeça inclinada baixa o suficiente para que seu cabelo áspero escondesse qualquer lampejo de surpresa.
— Tentei ser agradável...
— Senti o cheiro de seus dedos humanos por todo o meu mapa. Foi trabalho cuidadoso e astuto para não colocar uma coisa fora de ordem, não tocar em nada, mas o mapa... Pensando em escapar, afinal?
— Claro que não, senhora. — Oh, deuses. Ela estava tão, tão morta.
— Olhe para mim.
Elide obedeceu. A bruxa assobiou, e Elide se encolheu quando ela empurrou o cabelo de Elide para longe de seus olhos. Alguns fios caíram no chão, cortados pelas unhas de ferro.
— Eu não sei que jogo você está jogando – se é uma espiã, se é uma ladra, se está preocupada apenas consigo mesma. Mas não finja que é uma menina mansa e patética quando posso ver que essa mente perversa funcionando por trás de seus olhos.
Elide não se atreveu a deixar cair a máscara.
— Era o seu pai ou sua mãe que tinha parentesco com Vernon?
Era a pergunta mais estranha – mas Elide sabia há muito tempo que faria qualquer coisa, diria qualquer coisa, para se manter viva e ilesa.
— Meu pai era irmão mais velho de Vernon — disse ela.
— E de onde sua mãe vem?
Ela não deu àquela velha tristeza um centímetro de espaço em seu coração.
— Ela tinha nascimento humilde. Uma lavadeira.
— E de onde ela vem?
Por que isso importava? Os olhos dourados estavam fixos nela, inflexíveis.
— Sua família era originalmente de Rosamel, no noroeste do Terrasen.
— Eu sei onde ica — Elide manteve seus ombros curvados, esperando. — Saia.
Escondendo seu alívio, Elide abriu a boca para fazer suas despedidas, quando outro rugido fez as pedras vibrarem. Ela não pôde esconder seu recuar.
— É apenas Abraxos — falou Manon, uma sugestão de um sorriso se formando em sua boca cruel, um pouco de luz brilhando nos olhos dourados. Sua montaria devia fazê-la feliz, se é que bruxas podiam ser felizes. — Ele está com fome.
A boca de Elide ficou seca.
Ao som de seu nome, uma cabeça triangular maciça, com cicatrizes feias em torno de um olho, surgiu na torre.
Os joelhos de Elide vacilaram, mas a bruxa foi direto até a besta e colocou as mãos com unhas de ferro em seu focinho.
— Seu porco — disse a bruxa. — Você precisa que toda a montanha saiba que está com fome?
A serpente alada bufou em suas mãos, os dentes – gigantes, deuses, alguns deles de ferro – tão perto dos braços de Manon. Uma mordida, e a Líder Alada estaria morta. Uma mordida e, no entanto...
Os olhos da serpente alada se levantaram e encontraram Elide. Não olhando, mas reconhecendo, como se...
Elide manteve-se perfeitamente parada, embora cada instinto rugisse para ela correr para as escadas. A serpente alada cutucou Manon, o chão tremendo debaixo dele, e farejou na direção de Elide. Então aqueles olhos gigantes sem profundidade moveram-se para baixo – para as pernas. Não, para as correntes.
Havia tantas cicatrizes por todo o corpo dele – tantas linhas brutais. Ela não achava que Manon as tivesse feito, não com a maneira como ela falou com ele. Abraxos era menor do que os outros, ela percebeu. Muito menor. E ainda assim, a Líder Alada o havia escolhido. Elide guardou as informações. Se Manon tinha uma fraqueza por coisas quebradas, talvez fosse poupá-la também.
Abraxos abaixou-se para o chão, esticando o pescoço até que sua cabeça descansasse no feno a três metros de Elide. Aqueles olhos negros a fitaram, quase caninos.
— Chega, Abraxos — Manon sussurrou, agarrando uma sela do pino na parede.
— Como é que eles... existem? — Elide sussurrou.
Ela tinha ouvido histórias de serpentes aladas e dragões, e lembrava-se de vislumbres do povo pequeno e os feéricos, mas... Manon arrastou a sela couro até sua montaria.
— O rei os fez. Eu não sei como, e isso não importa.
O rei de Adarlan os fez, como tudo o que estava sendo feito dentro daquelas montanhas. O homem que tinha destruído sua vida e assassinado seus pais, condenado-a para essa... Não fique brava, Finnula lhe diria para ser inteligente. E logo o rei e seu miserável império não seria a preocupação dela, de qualquer maneira.
— É que sua montaria não parece maléfica.
 A cauda de Abraxos bateu no chão, as pontas de ferro brilhando. Um cão gigante e letal. Com asas.
Manon bufou um riso frio, prendendo a sela no lugar.
— Não. No entanto, ele foi feito para isso, algo deu errado com essa parte.
Elide não achou que algo estivesse errado, mas manteve a boca fechada.
Abraxos ainda estava olhando para ela, e a Líder Alada disse:
— Vamos caçar, Abraxos.
A besta se animou, e Elide saltou um passo para trás, fazendo uma careta quando caiu com força em seu tornozelo. Os olhos da serpente alada caíram sobre ela, como se consciente da dor. Mas a Líder Alada já estava terminando com a sela, e não se preocupou em olhar em sua direção quando Elide saiu mancando.



— Você é um verme de coração mole — Manon assobiou para Abraxos uma vez que a astuciosa menina tinha ido embora. A menina podia estar escondendo segredos, mas sua descendência não era uma deles. Ela não tinha ideia de que sangue de bruxa fluía forte em suas veias mortais. — Uma perna aleijada e correntes, e você se apaixona?
Abraxos cutucou com o focinho, e Manon lhe deu um tapa firme, mas suave, antes de se inclinar contra sua pele quente e rasgar o lacre da carta escrita com a letra de sua avó.
Assim como a Grã-bruxa do Clã Bico Negro, sua carta era brutal, ao ponto, e implacável.

Não desobedeça às ordens do duque. Não faça perguntas. Se houver outra carta de Morath sobre sua desobediência, voarei até aí e a enforcarei com seus intestinos, com as suas Treze em um tronco de árvore com sua fera ao lado.
Três Pernas Amarelas e dois clãs Sangue Azul estão chegando amanhã. Assegure-se de que não haja brigas ou problemas. Eu não preciso das outras Matriarcas respirando em meu pescoço sobre os seus vermes.

Manon virou o papel, mas era isso. Triturando-o em um punho, ela suspirou. Abraxos cutucou-a de novo, e ela distraidamente acariciou sua cabeça. Feita, feita, feita.
Isso foi o que o Crochan havia dito antes de Manon cortar sua garganta. Elas a fizeram um monstro. Ela tentou esquecer – tentou dizer a si mesma que a Crochan fora uma fanática e uma faladora enfadonha, mas... ela correu um dedo pelo pano vermelho escuro de sua capa.
Os pensamentos se abriam como um precipício diante dela, tantos de uma só vez que ela deu um passo atrás.
Virou-se.
Feita, feita, feita.
Manon subiu na sela e ficou contente em perder-se no céu.



— Conte-me sobre os valgs — Manon pediu, fechando a porta da pequena câmara atrás dela.
Ghislaine não tirou os olhos do livro sobre o qual estava debruçada. Havia uma pilha deles na mesa à sua frente, e outra ao lado da cama estreita. Onde a mais velha e mais inteligente de suas Treze os conseguira ou quem ela provavelmente eviscerara para roubá-los, não importava para Manon.
— Olá, por que você não entra? — foi à resposta.
Manon encostou-se à porta e cruzou os braços. Apenas com livros, apenas leitura, mas Ghislaine era tão escorregadia. No campo de batalha, no ar, a bruxa de pele escura era tranquila, fácil de comandar. Uma soldada sólida, mais valiosa por sua inteligência afiada, que lhe valeu o lugar entre as Treze.
Ghislaine fechou o livro e virou em seu assento. Seu cabelo preto e encaracolado estava trançado, mas até mesmo a trança não o continha inteiramente. Ela estreitou os olhos verde-mar – para vergonha de sua mãe, não havia um traço de ouro neles.
— Por que você quer saber sobre os valgs?
— O que você sabe sobre eles?
Ghislaine girou em sua cadeira até que ela estava com o encosto para frente, as pernas abertas para os lados. Ela estava em sua roupa de couro de voo, como se não tivesse se incomodado em trocá-las antes de cair em um de seus livros.
— Claro que eu sei sobre os valgs — ela respondeu com um aceno de mão, um gesto de impaciência, um gesto de mortal.
Tinha sido uma exceção, uma exceção sem precedentes, quando a mãe de Ghislaine convencera a Grã Bruxa a enviar a filha para uma escola mortal em Terrasen cem anos atrás. Ela aprendera a magia, estudos com livros e tudo o mais o que mortais eram ensinados, e quando Ghislaine retornara, doze anos mais tarde, a bruxa tinha ficado... Diferente. Ainda uma Bico Negro, ainda sedenta de sangue, mas de alguma forma mais humana. Mesmo agora, um século mais tarde, mesmo depois de entrar e sair de campos da morte, essa sensação de impaciência, de vida se agarrava a ela. Manon nunca sabia o que fazer com ela.
— Conte-me tudo.
— Não há muito para dizer-lhe de uma só vez — respondeu Ghislaine. — Mas lhe direi o básico, e se quiser saber mais, você pode voltar.
Uma ordem, mas este era o espaço de Ghislaine, livros e conhecimento eram de seu domínio. Manon fez um sinal com a mão de unhas de ferro para sua sentinela prosseguir.
— Milênios atrás, quando os valg invadiram nosso mundo, as bruxas não existiam. Eram os valg, os feéricos e os seres humanos. Mas os valg eram... Demônios, suponho. Eles queriam nosso mundo para si, e pensaram que uma boa maneira de obtê-lo seria garantindo que seus filhos pudessem sobreviver aqui. Os seres humanos não eram compatíveis, demasiados frágeis. Mas os feéricos... Os valg sequestraram e raptaram todos os feéricos que podiam, e já que seus olhos estão ficando vidrados, estou saltando para o fim e dizendo que a prole se tornou nós. Bruxas. As Dentes de Ferro puxaram mais os nossos antepassados valg, enquanto as Crochans têm mais dos traços feéricos. O povo destas terras não nos queria aqui, não depois da guerra, mas os feéricos do rei Brannon não achavam que era certo caçar todas nós até a extinção. Então ele nos deu os desertos ocidentais, e lá ficamos, até as guerras bruxas nos exilarem novamente.
Manon examinou suas unhas.
— E os valgs são... perversos?
— Nós somos perversas — devolveu Ghislaine. — Os valg? Diz a lenda que eles são a origem do mal. Eles são escuridão e desespero encarnado.
— Parece que são o nosso tipo de gente — E talvez fosse bom de fato aliar-se, cruzar com eles.
O sorriso de Ghislaine ficou amarelo.
— Não — ela disse suavemente. — Não, eu não acho que eles seriam o nosso tipo de gente. Eles não têm leis, não há códigos. Eles veriam as Treze como fracas e nossas obrigações e regras como algo para quebrar por diversão.
Manon endureceu ligeiramente.
— E os valg nunca voltaram para cá?
— Brannon e a rainha férrica Maeve encontraram maneiras de derrotá-los a enviá-los de volta. Espero que alguém encontre uma maneira de fazê-lo novamente.
Mais em que pensar.
Ela se virou, mas Ghislaine continuou:
— Esse é o cheiro, não é? O cheiro daqui, em torno de alguns dos soldados, parece que é errado, de outro mundo. O rei encontrou alguma maneira de trazê-los para cá e enfiá-los em corpos humanos.
Ela não tinha pensado tão longe, mas...
— O duque descreveu-os como aliados.
— Essa palavra não existe para os valg. Eles acham a aliança útil, mas vai honrá-la apenas enquanto permanecerem dessa forma.
Manon debateu os méritos de terminar a conversa.
— O duque me pediu para escolher um clã de Bico Negro para seus experimentos. Para lhe permitir inserir algum tipo de pedra em suas barrigas que criará uma criança meio valg, meio Dente de Ferro.
Lentamente, Ghislaine endireitou, suas mãos sujas de tinta penduradas de ambos os lados da cadeira.
— E pretende obedecer, senhora?
Não era uma pergunta de uma estudante, ou uma aluna curiosa, mas de uma sentinela para sua herdeira.
— A Grã Bruxa deu-me ordens para obedecer a cada comando do duque. — Mas talvez... Talvez ela fosse escrever para sua avó outra carta.
— Quem você escolheria?
Manon abriu a porta.
— Eu não sei. A minha decisão virá em dois dias.
Ghislaine – que Manon vira fartar-se em sangue dos homens – empalideceu quando ela fechou a porta.



Manon não sabia como, não sabia se os guardas, o duque, Vernon ou algum bastardo espião humano falou algo, mas na manhã seguinte, todas as bruxas sabiam. Ela sabia que não devia suspeitar de Ghislaine. Nenhuma das Treze falhava. Nunca.
Mas todo mundo sabia sobre os valg, e sobre a escolha de Manon.
Ela entrou na sala de jantar, seus arcos pretos brilhando no raro sol da manhã. O som das forjas ecoava vale abaixo, tornado mais alto pelo silêncio que caiu enquanto ela caminhava por entre as mesas, seguindo para seu assento na frente da sala.
Multidão após multidão observava, e ela reconheceu seus olhares, dentes e unhas para fora, Sorrel uma força constante da natureza em suas costas. Não foi até Manon deslizar em seu lugar ao lado de Asterin – e percebeu que era agora o lugar errado, mas não se moveu – que o silêncio terminou.
Ela puxou um pedaço de pão para si, mas não tocou. Nenhuma delas comeu. Café da manhã e jantar eram sempre para mostrar presença.
As Treze não disseram uma palavra.
Manon examinou para todas e cada uma delas desviou o olhar. Mas quando encontrou os olhos Asterin, a bruxa os segurou.
— Tem algo que quer dizer — Manon perguntou — ou só está observando?
Os olhos de Asterin miraram por sobre o ombro de Manon.
— Temos convidados.
Manon encontrou a líder de um dos clãs de Pernas Amarelas recém-chegados ao pé da mesa, olhos baixos, postura inofensiva – completamente submissa.
— O que foi? — Manon exigiu.
A líder do clã manteve a cabeça baixa.
— Gostaríamos de pedir sua consideração para a incumbência do duque, Líder Alada.
Asterin endureceu, juntamente com muitas das Treze. As mesas próximas também tinham caído em silêncio.
— E por que — Manon perguntou: — que vocês quereriam isso?
— Você nos forçará a fazer o seu trabalho penoso para nos impedir de ter a glória nos campos de morte. Essa é à maneira dos nossos clãs. Mas podemos ganhar um tipo diferente de glória desta maneira.
Manon conteve seu suspiro, pesando, contemplando.
— Eu vou considerá-lo.
A líder curvou-se e recuou. Manon não conseguia decidir se ela era tola, astuta ou corajosa.
Nenhum das Treze falou pelo o resto do café da manhã.



— E o clã, Líder Alada, já selecionou para mim?
Manon encontrou o olhar do duque.
— Um bando de Pernas Amarelas liderados por uma bruxa chamada Ninya chegou no início desta semana. Use-os.
— Eu queria Bico Negro.
— Você tem Pernas Amarelas — Manon estalou. Do outro lado da mesa, Kaltain não reagiu. — Elas se ofereceram.
Melhor do que as Bico Negro, disse a si mesma. Melhor que as Pernas Amarelas tivessem se oferecido.
Mesmo que Manon pudesse tê-las recusado.
Duvidava que Ghislaine estivesse errada quanto à natureza dos valg, mas... Talvez isso pudesse funcionar a sua indecisão, dependendo de como as Pernas Amarelas se sairiam.
O duque mostrou seus dentes amarelados.
— Você toca em uma linha perigosa, Líder Alada.
— Todas as bruxas têm que fazê-lo, a fim de voar nas serpentes aladas.
Vernon se inclinou para frente.
— Essas coisas imortais e selvagens são tão divertidas, Sua Graça.
Manon lançou-lhe um longo olhar, que dizia que um dia Vernon, em um corredor sombrio, iria se encontrar com as garras dela, da coisa imortal e selvagem, em sua barriga.
Manon virou para ir embora. Sorrel – não Asterin – estava parada feio pedra ao lado da porta. Outra visão chocante.
Então Manon voltou-se para o duque, a questão formando-se mesmo quando ela própria não queria verbalizá-la.
— Para quê? Por que tudo isso, porque nos aliar com os valg, por que levantar este exército... Por quê? — Ela não conseguia entender. O continente já pertencia a eles. Não fazia sentido.
— Porque nós podemos — respondeu o duque simplesmente. — E porque este mundo há muito tempo habita na ignorância e tradição arcaica. É hora de ver o que pode ser melhorado.
Manon fingiu contemplar a resposta e, em seguida, balançou a cabeça enquanto saía.
Mas ela não tinha perdido a palavras – este mundo. Não esta terra, e não neste continente.
Esse mundo.
Ela se perguntava se sua avó considerara a ideia de que elas poderiam um dia ter que lutar para manter o deserto contra os mesmos homens que as ajudaram a voltar para casa.
E se perguntou o que aconteceria com essas alianças de bruxas e valg nesse mundo.

15 comentários:

  1. Laura do Bom Senso 42 #Zueira29 de fevereiro de 2016 01:11

    Até agora não vejo o sentido dela narrando, mas suponho que irá aparecer em algum momento

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    1. concordo plenamente.... sem contar que a maioria dos capítulos dela são enfadonhos -.-

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    2. Pois é... eu fico o tempo todo esperando que ela se encontre com Celaena

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    3. A garota que trabalha de faxineira (não lembro o nome)
      vai mostrar a "luz" para ela

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  2. Torço para que ela se alhie com a Ailin ai fica mtoo foda mesmo trem....kkkk Tauana aki

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  3. Acho que as bruxas uma hora vão pro lado de Aelin

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    1. Aham, espero que isso aconteça também ehauehaueh

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    2. as bruxas em geral n mas as trez provavelmente

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  4. E nao entendo esse abraxos as vezes parece ate que tem sentimentos humanos

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  5. As vezes penso o msm parece que ele sente o coração das pessoas.

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  6. É óbvio que a bruxa vai ter alguma relevância na historia. E eu acho os capítulos dela interessantes, principalmente agora que Elide apareceu

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  7. Eu acho legal os caps da Manon principalmente pelo Abraxos, a Elide e o desejo por sangue derramado.
    :3

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  8. Tô achando q as Bico negro e as Sanger azul vão se aliar a Aelin contra os demônios valg!!!
    Mas aS pernas amarelo nojentas vão deicharam serem possuídas e assim vão selar a destruição delas mesmas!

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  9. O Abraxos conhece a Elide mds quem es tus Abraxoss kkkkk tenho uma suspeita mais queria que fosse certa pessoinha mais nao e so pode ser 2 pessoas mais n posso falar spoiller

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  10. Eu adoro os capítulos das bruxas. Gosto tanto da Manon quanto gosto da Celaena. Deixem de ser irritantes. Elas n iriam aparecer se n tivessem um papel importante ¬¬

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