12 de fevereiro de 2016

Capítulo 20

O olho roxo ainda estava horrível, mas melhorou durante a semana seguinte conforme Celaena trabalhava na cozinha, tentava e fracassava mudar de forma com Rowan e, em geral, evitava todos. As chuvas de primavera tinham vindo para ficar, e a cozinha estava lotada toda noite, então a assassina passou a jantar nos degraus escuros, chegando logo antes de o Contador de Histórias começar.
Contador de Histórias – era o que Emrys era, um título de honra tanto entre feéricos quanto humanos em Wendlyn. Isso significava que, quando começava a contar uma história, as pessoas se sentavam e se calavam. Também significava que ele era uma biblioteca ambulante das lendas e dos mitos do reino.
Àquela altura, Celaena conhecia a maioria dos residentes da fortaleza, pelo menos ao ponto de dar nome aos rostos. Ela os observava por instinto, para entender os arredores, os potenciais inimigos e as ameaças. Sabia que a observavam também, quando achavam que não estava prestando atenção. E qualquer pingo de arrependimento que sentia por não se aproximar deles era dissipado pelo fato de que ninguém se incomodava em se aproximar dela também.
A única pessoa que fazia um esforço era Luca, que ainda a enchia de perguntas enquanto trabalhavam, ainda tagarelava interminavelmente sobre o treinamento dele, as fofocas da fortaleza, o tempo. O rapaz só falou com ela uma vez sobre outra coisa – em uma manhã que Celaena fizera um esforço monumental para sair da cama, e apenas a cicatriz na palma da mão a fizera colocar os pés no piso gelado. A jovem lavava a louça do café da manhã, olhando pela janela sem ver nada, com os ossos pesados demais, quando Luca colocou uma panela na pia, dizendo baixinho:
— Por muito tempo, eu não conseguia falar sobre o que aconteceu comigo antes de vir para cá. Em alguns dias, não falava nada. Não conseguia sair da cama também. Mas se... Quando precisar falar...
Celaena o calou com um olhar demorado. E Luca não dissera nada do tipo desde então.
Ainda bem que Emrys dava espaço a ela. Muito espaço, principalmente quando Malakai chegava durante o café da manhã para se certificar de que Celaena não causara nenhum problema. Costumava evitar olhar para os outros casais da fortaleza, mas ali, onde não podia dar as costas... A assassina odiava a proximidade dos dois, o modo como os olhos de Malakai brilhavam sempre que via o parceiro. Odiava tanto que a fazia engasgar.
Celaena jamais perguntou a Rowan por que ele também ia ouvir as histórias de Emrys. Até onde os dois se importavam, o outro não existia fora do horário de treinamento.
Treinamento era um modo generoso de descrever o que faziam, pois Celaena não tinha realizado nada. Não mudou de forma uma vez. Rowan grunhia e debochava e chiava, mas ela não conseguia. Todo dia, sempre quando o guerreiro desaparecia por alguns minutos, Celaena tentava, mas... nada. Rowan ameaçou arrastá-la de volta aos túmulos, pois aquela parecia ser a única coisa que desencadeara alguma resposta, mas desistiu – para a surpresa de Celaena – quando ela disse que cortaria a própria garganta antes de entrar naquele lugar de novo. Então os dois se xingavam, se sentavam em silêncio emburrado nas ruínas do templo e, de vez em quando, tinham aquelas brigas não faladas. Se a assassina estava com um humor particularmente ruim, Rowan a obrigava a cortar madeira; lenha após lenha, até que mal conseguisse erguer o machado e estivesse com as mãos cheias de bolhas. Se era para ficar revoltada com a droga do mundo todo, dissera Rowan, se era para desperdiçar o tempo dele ao não se transformar, então podia muito bem ser útil de alguma forma.
Toda aquela espera – por ela. Pela mudança de forma que a fazia estremecer somente ao pensar.
Foi no oitavo dia depois de sua chegada, depois de esfregar panelas e frigideiras até que as costas latejassem, que Celaena parou no meio da caminhada de subida ao cume agora familiar.
— Tenho um pedido. — Jamais falava com Rowan a não ser que precisasse, e na maioria das vezes para xingá-lo. E agora, Celaena dizia: — Quero ver você mudar de forma.
Um piscar, aqueles olhos verdes inexpressivos.
— Não tem o privilégio de dar ordens.
— Mostre como faz.
As lembranças de Celaena dos feéricos em Terrasen eram confusas, como se alguém tivesse passado óleo sobre elas. Não conseguia se lembrar de ver um deles mudar de forma, para onde iam as roupas, o quão rápido tinha sido...
Rowan a encarou, parecendo dizer: Apenas desta vez, então...
Um clarão tênue, um lampejo de cor e um falcão estava batendo as asas no ar, seguindo para o galho mais próximo. Empoleirou-se, emitindo um estalo com o bico. Celaena verificou a terra coberta de musgo. Não havia sinal das roupas, das armas. Levara pouco mais que alguns segundos.
Rowan deu um grito de guerra, então se lançou em um rasante, as garras na direção dos olhos da jovem. Ela se escondeu atrás das árvores no momento em que outro clarão e um estremecimento de cor surgiram, então ele estava vestido e armado e rosnando para ela:
— Sua vez.
A assassina não daria a ele a satisfação de vê-la tremendo. Era... incrível. Incrível ver a mudança.
— Para onde vão suas roupas?
— Entre mundos, algum lugar. Não me importo.
Aqueles olhos mortos e sem alegria. Celaena tinha a sensação de que estava com aquela mesma aparência ultimamente. Sabia que tivera aquela aparência na noite em que Chaol a surpreendeu estripando Archer no túnel. O que deixara Rowan tão desalmado?
Ele exibiu os dentes, mas a assassina não abaixou o rosto. Estivera observando os guerreiros semifeéricos do sexo masculino na fortaleza, como grunhiam e mostravam os dentes por qualquer coisa. Não eram o povo etéreo e tranquilo que as lendas pintavam, dos quais Celaena se lembrava vagamente de Terrasen. Não andavam de mãos dadas dançando ao redor do mastro do solstício, com flores nos cabelos. Eram predadores, todos eles. Algumas das fêmeas dominantes eram tão agressivas quanto, inclinadas a grunhir quando desafiadas ou irritadas ou até mesmo famintas. Ela imaginou que poderia se encaixar bem caso se incomodasse em tentar.
Ainda encarando Rowan, Celaena acalmou a respiração. Visualizou dedos fantasmas se estendendo para dentro, puxando para fora a forma feérica. Imaginou uma descarga de cor e de luz. A assassina se impulsionou contra a carne mortal. Mas... nada.
— Às vezes me pergunto se isso não é uma punição para você — disse ela, com os dentes trincados. — Mas o que poderia ter feito para irritar Sua Majestade Imortal?
— Não use esse tom de voz ao falar dela.
— Ah, posso usar o tom que quiser. E você pode me provocar e grunhir e me fazer cortar lenha o dia todo, mas se não arrancar minha língua, não pode...
Mais rápido que um relâmpago, a mão do guerreiro disparou, e Celaena arquejou, caindo para a frente quando ele lhe agarrou a língua entre os dedos. A assassina mordeu, com força, mas Rowan não soltou.
— Diga isso de novo — murmurou ele.
Celaena engasgou enquanto Rowan continuava beliscando sua língua, então ela levou a mão para as adagas do príncipe ao mesmo tempo que impulsionou o joelho entre suas pernas, mas ele atirou o próprio corpo contra o de Celaena, uma parede de músculos fortes e várias centenas de anos de treinamento letal prendendo-a contra uma árvore. A assassina era uma piada em comparação com aquilo – uma piada – e a língua dela...
Rowan soltou a língua, e ela tentou tomar fôlego. Celaena o xingou, uma palavra imunda e horrorosa, cuspindo aos pés do príncipe. Então Rowan a mordeu.
Celaena gritou ao sentir aqueles caninos perfurarem o local entre o pescoço e o ombro, um ato primitivo de agressão – a mordida foi tão forte e territorial que ficou espantada demais para se mover. Rowan a mantinha presa contra a árvore e mordia com mais força, os caninos se enterrando fundo, o sangue dela escorrendo pela camisa. Presa, como uma fraca. Mas era aquilo que havia se tornado, não era? Inútil, patética.
A jovem grunhiu, parecendo um ser mais animal que racional. E empurrou.
Rowan cambaleou um passo para trás, rasgando a pele de Celaena com os dentes ao ser golpeado no peito. Ela não sentiu a dor, não se importava com o sangue ou com o clarão de luz.
Não, queria arrancar a garganta dele – arrancá-la com os caninos longos que exibiu depois que terminou de se transformar e rugiu.

12 comentários:

  1. Q INCRÌVELLLLLLL!!!!!!!! UAUUUUUUUUUU!!!!!!! AMO essas cenas de ação!!!
    -Yasmin

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  2. Aaaaaaaaaaaaaaaaah!!!! Agora pode dar uma surra nele finalmente!!
    Ai socorro, não sei mais quem eu shipo ><

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  3. kkkkkkk eu sinti um clima sla ESTRANHO mas eu sinti um clima

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    1. Tbm tipo ele meio que a mordeu em uma região sla meio estranha...

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  4. Uuuuuuuiiiiiiiaaaaa A Cel soltou o bicho que avia nela kkk

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  5. Eu ri da parte que ele morde pq só me lembrou um vampiro pqp UHASHUAH mas a parte que ela se transforma manooo, ela tem que dar uma surra nele p ele começar à respeitar ela como a "deusa" que é <3

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  6. Não dá para comenta mais q isso!
    Muito bom!!!!!!
    Mas tenho a impressão q o outro capítulo vai ser POV de outro personagem...

    ~Mari

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  7. To perdida agr, ñ quem shippar, ñ sei de quem gosto ou desgosto...
    Só sei que nada sei.

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  8. Nãã, eu acho que a Celaena tá sendo muito grossa com o Emrys e o Luca, o Malakai e todo o resto.👀😠

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  9. Só eu que shippo a Celaena|Aelin com o Rowan <3?

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