28 de fevereiro de 2016

Capítulo 19

— Indo a algum lugar? — Dorian perguntou, com as mãos nos bolsos de sua calça preta.
O homem que falou essas palavras não era seu amigo, ela soube antes mesmo de ele abrir a boca. A gola de sua túnica de ébano estava desabotoada, revelando o colar de pedra de Wyrd brilhando na base de sua garganta.
— Infelizmente, Sua Alteza, temos outro lugar para estar.
Ela reconheceu o bordo vermelho delgado à direita, os caminhos, o palácio de vidro imponente atrás deles. Eles entraram o suficiente no jardim para serem alvejados, mas cada segundo desperdiçado era como assinar sua própria sentença de morte. E a de Aedion.
— É uma pena — disse o príncipe valg dentro de Dorian. — Estava apenas começando a ficar emocionante.
E ele atacou.
Uma onda negra passou por ela, e Aedion gritou em advertência. Azul queimou diante dela, desviando o ataque de Aedion, mas ela foi empurrada um passo para trás, como se por um vento escuro rodopiante.
Quando o preto dissipou, o príncipe olhou. Então deu um sorriso preguiçoso e cruel.
— Você desviou. Inteligente e adorável coisa humana.
Ela passara a manhã inteira pintando cada centímetro de seu corpo com marcas de Wyrd de seu próprio sangue, misturado com tinta para esconder a cor.
— Aedion, corra para o muro — ela disparou, sem ousar tirar os olhos do príncipe.
Aedion não fez nada disso.
— Ele não é o príncipe, não mais.
— Eu sei. E é por isso que você precisa...
— Que ato heroico — disse a coisa alojada em seu amigo. — Essa esperança tola, pensar que você pode continuar.
Como uma víbora, ele atacou novamente com uma parede de poder negro – como ar contaminado. Isso a atirou contra Aedioin, que grunhiu de dor, mas a manteve na posição vertical. Sua pele começou a fazer cócegas sob seu traje, como se o sangue descamasse a cada ataque. Útil, mas de curta duração. Precisamente por isso que ela não a desperdiçou para entrar no castelo.
Eles tinham que sair dali – agora.
Ela empurrou as correntes nas mãos de Aedion, pegou a Espada de Orynth dele, dando um passo em direção ao príncipe.
Lentamente, ela desembainhou a lâmina. Seu peso era impecável, e o aço brilhou tanto quanto brilhara da última vez que tinha visto. Nas mãos de seu pai.
O príncipe valg estalou outro chicote de energia para ela, e ela tropeçou, mas continuou andando, mesmo quando o sangue sob seu traje desmoronou.
— Um sinal, Dorian — disse ela. — Apenas me dê um sinal de que você está aí.
O príncipe valg riu baixo e áspero, o belo rosto torcido com uma antiga brutalidade. Seus olhos de safira estavam vazios, quando ele falou:
— Eu vou destruir tudo o que você ama.
Ela levantou a espada de seu pai com as duas mãos, ainda avançando.
— Você nunca faria isso — disse a coisa.
— Dorian — ela repetiu, com a voz embargada. — Diga que está aí, Dorian.
Segundos – ela tinha segundos para dar a ele. Seu sangue pingou sobre o cascalho, e ela deixou que a poça se formasse com os olhos fixos no príncipe quando começou a traçar um símbolo com o pé.
O demônio riu novamente.
— Não mais.
Ela olhou para aqueles olhos, a boca que uma vez que tinha beijado, ao amigo que uma vez amara tão profundamente, e implorou:
— Apenas um sinal, Dorian.
Mas não havia nada de seu amigo naquele rosto, nenhuma hesitação ou músculo rejeitando o ataque quando o príncipe atacou.
Parando, em seguida, quando ele congelou sobre a marca de Wyrd que ela desenhara no chão com o pé – uma marca rápida e suja para prendê-lo. Não duraria mais do que alguns momentos, mas isso era tudo o que ela precisava para forçá-lo a ficar de joelhos, debatendo-se e empurrando contra o poder. Aedion praguejou calmamente.
Aelin levantou a espada de Orynth sobre a cabeça de Dorian. Um instante. Apenas um instante para separar carne e osso, um instante para poupá-lo.
A coisa estava rugindo com uma voz que não pertencia a Dorian, em uma linguagem que não pertencia a este mundo. A marca no chão queimava, mas o segurou.
Dorian olhou para ela, tanto ódio em seu rosto bonito, tanta malícia e raiva.
Por Terrasen, por seu futuro, ela podia fazer isso. Podia acabar com aquela ameaça ali e naquele momento. Acabaria com ele, em seu aniversário, nem um dia a mais que vinte anos. Ela sofreria por isso mais tarde, lamentaria mais tarde.
Não seria mais um nome que ela gravaria em sua carne, ela prometeu a si mesma. Mas, por seu reino, ela ergueu a lâmina... baixando-a quando decidiu, e...
Algo desviou a espada do pai dela, tirando o equilíbrio quando Aedion gritou. A flecha ricocheteou para o jardim, sibilando contra o cascalho onde pousou.
Nesryn já estava se aproximando, outra flecha pronta apontando para Aedion.
— Machuque o príncipe, e vou atirar no General.
Dorian soltou uma risada de amante.
— Você é uma espiã de merda — Aelin virou-se para ela. — Você nem sequer tentou permanecer escondida enquanto me vigiava lá dentro.
— Arobynn Hamel disse ao capitão que você tentaria matar o príncipe hoje — disse Nesryn. — Abaixe sua espada.
Aelin ignorou o comando. O pai de Nesryn faz as melhores tortas de pera da capital. Ela supôs que Arobynn tentara avisá-la e ela estava distraída demais com tudo mais para contemplar a mensagem velada. Estúpida. Tão profundamente estúpida ela era.
Somente segundos antes de as defesas falharem.
— Você mentiu para nós — disse Nesryn. A flecha permaneceu apontada para Aedion, que avaliava Nesryn, suas mãos se movendo como se ele estivesse imaginando os dedos envolvendo sua garganta.
— Você e Chaol são tolos — falou Aelin, mesmo que uma parte dela respirasse em alívio, mesmo que ela quisesse admitir o que ela estava prestes a fazer a tornasse uma tola também.
Aelin baixou a espada ao seu lado.
A coisa dentro Dorian sussurrou para ela:
— Você vai se arrepender deste momento, garota.
— Eu sei — Aelin murmurou de volta.
Aelin não dava a mínima para o que aconteceria com Nesryn. Ela embainhou a espada, pegou Aedion, e correu.



A respiração de Aedion era como cacos de vidro em seus pulmões, mas a mulher – Aelin o puxava, amaldiçoando-o por ser tão lento e por estar coberto de sangue. O jardim era enorme, e gritos erguiam-se sobre as sebes atrás deles, fechadas.
Em seguida, eles estavam em uma parede de pedra já com marcas de Wyrd escritas com sangue, e havia fortes mãos que baixaram para ajudá-lo a subir o muro. Ele tentou dizer-lhe para ir primeiro, mas ela estava empurrando suas costas e, em seguida, as pernas, empurrando-o para cima enquanto os dois homens no topo da parede grunhiam com o seu peso. A ferida em suas costelas esticava e queimava em agonia. O mundo ficou brilhante e girou enquanto os homens encapuzados o guiaram até a tranquila rua da cidade, do outro lado. Ele teve que apoiar uma mão contra a parede para não escorregar no sangue acumulado dos guardas reais mortos abaixo. Ele não reconheceu os seus rostos, alguns ainda presos em gritos silenciosos.
Houve o silvo de um corpo contra pedra e, em seguida, sua prima seguia ao lado dele, envolvendo uma capa cinza em torno de seu traje sangrento, erguendo o capuz sobre o rosto salpicado de sangue. Ela tinha outro manto nas mãos, cortesia da patrulha no muro. Ele mal podia se aguentar em pé quando ela o envolveu em torno dele e empurrou o capuz sobre sua cabeça.
— Corra — disse ela.
Os dois homens em cima do muro permaneceram lá, curvados e gemendo enquanto eles corriam.
Nenhum sinal da jovem arqueira do jardim.
Aedion tropeçou, e Aelin xingou, correndo de volta para passar um braço em torno dele. E amaldiçoando sua força por não tê-la agora, ele colocou o braço em volta de seus ombros, inclinando-se sobre ela enquanto se apressavam pela rua residencial bastante silenciosa.
Gritos surgiam agora lá trás, acentuada pelos zumbidos e pelos baques de flechas acertando o sólido e o balido de homens morrendo.
— Quatro quarteirões — ela ofegava. — Apenas quatro quarteirões.
Isso não parecia longe o suficiente para estarem seguros, mas ele não tinha fôlego para dizer a ela. Ficar de pé era tarefa o bastante. Os pontos em sua lateral tinham aberto – abençoados eram os deuses, haviam-no limpado no palácio. Um milagre, um milagre, um mi...
— Mais rápido com essa bunda gorda! — ela rosnou.
Aedion se forçou a concentrar-se e desejou força para as pernas, para sua espinha.
Eles chegaram a uma esquina da rua enfeitada com serpentinas e flores, e Aelin olhou numa direção antes de correr através do cruzamento. O choque de aço sobre aço e os gritos dos feridos abalavam a cidade, fazendo as multidões de foliões com faces alegres murmurar em torno deles.
Mas Aelin continuou a descer a rua, e depois seguiu por outra. Na terceira, ela diminuiu seus passos e se balançou contra ele, começando a cantar uma música obscena de uma forma muito livre – com a voz embriagada. E assim eles se tornaram dois cidadãos comuns celebrando o aniversário do príncipe, cambaleando para a taberna mais próxima. Ninguém lhes deu qualquer atenção, não quando todos os olhos estavam fixos no castelo de vidro imponente atrás deles.
O balanço fez sua cabeça girar. Se ele desmaiasse...
— Mais um quarteirão — ela prometeu.
Isso tudo era alguma alucinação. Tinha que ser. Ninguém era realmente estúpido o suficiente para tentar resgatá-lo e especialmente não a sua própria rainha. Mesmo que ele a tivesse visto cortar meia dúzia de homens como se fossem talos de trigo.
— Vamos lá, vamos lá — ela ofegava, observando a rua decorada, e ele sabia que ela não estava falando com ele.
As pessoas se aproximavam umas das outras, parando para perguntar sobre o que a comoção palácio tratava. Aelin levou-os através da multidão, meros bêbados camuflados e tropeçando, até a carruagem preta de aluguel parada no meio-fio como se tivesse estado à espera. A porta se abriu.
Sua prima o empurrou para dentro, pulou para o chão, e fechou a porta atrás dela.



— Eles já estão parando cada transporte nos principais cruzamentos — disse Lysandra quando Aelin abriu o compartimento de bagagem escondido sob um dos bancos. Era grande o suficiente para caber uma pessoa, mas Aedion era absolutamente enorme, e...
— Para dentro. Entre agora — ela ordenou, e não esperou que Aedion se movesse antes de puxá-lo para dentro do compartimento.
Ele gemeu. O sangue começou a escorrer ao seu lado, mas ele estava vivo.
Quer dizer, se qualquer um deles sobrevivesse nos próximos minutos. Aelin fechou o painel sob a almofada, estremecendo com o baque de madeira em carne, e pegou o pano molhado que Lysandra puxara a partir de uma caixa de chapéu velho.
— Você está machucada? — Lysandra perguntou quando a carruagem começou a se mover em um ritmo calmo pelas ruas entupidas de foliões.
O coração de Aelin batia tão violentamente que ela pensou que fosse vomitar, mas balançou a cabeça enquanto enxugava o rosto. Tanto sangue, então os restos de sua maquiagem, em seguida, mais sangue.
Lysandra entregou-lhe um segundo pano para limpar o peito, pescoço e mãos e, em seguida, estendeu o vestido verde largo de mangas compridas que tinha trazido.
— Agora, agora, agora — Lysandra a apressou.
Aelin rasgou seu manto ensanguentado e o jogou para Lysandra, que se levantou para empurrá-lo para dentro do compartimento debaixo de seu próprio assento enquanto Aelin deslizava para dentro do vestido. Os dedos de Lysandra foram surpreendentemente firmes enquanto ela abotoava até em cima, em seguida, fez um rápido trabalho de cabelo de Aelin, entregou-lhe um par de luvas e pendurou um colar de joias em torno de sua garganta. Um leque foi pressionado em suas mãos no momento em que vestiu as luvas, ocultando qualquer vestígio de sangue.
A carruagem parou ao som de vozes masculinas duras. Lysandra apenas enrolou as cortinas quando passos pesados se aproximaram, seguidos por quatro guardas do rei olhando para o interior da carruagem com afiados olhos impiedosos.
Lysandra abriu a janela.
— Por que estamos sendo parados?
O guarda abriu a porta e enfiou a cabeça para dentro. Aelin notou uma mancha de sangue no chão um momento antes de ele entrar e retrocede, cobrindo-a com suas saias.
— Senhor! — Lysandra chamou. — Uma explicação é necessária aqui!
Aelin acenou com o leque com o horror de uma senhora, rezando para que seu primo ficasse quieto em seu pequeno compartimento. Na rua além, alguns foliões tinham parado para observar, curiosos, e não todos completamente inclinados a ajudar as duas mulheres dentro da carruagem com os olhos arregalados.
O guarda as observou com um sorriso de escárnio, a expressão aprofundando quando seus olhos pousaram no pulso tatuado de Lysandra.
— Eu não lhe devo nada, puta — ele cuspiu outra palavra suja para as duas, e depois gritou: — Procure no compartimento na parte de trás.
— Nós estamos a caminho para um compromisso... — Lysandra começou, mas ele bateu a porta na cara dela.
A carruagem foi empurrada quando os homens saltaram atrás e abriram o compartimento traseiro. Depois de um momento, alguém bateu na lateral do carro e gritou:
— Siga em frente!
Elas não se atreveram a parar de parecer ofendidas, não se atreveram a parar de se abanar pelos próximos dois quarteirões, ou nos outros dois depois desse, até que o condutor bateu na parte superior do carro duas vezes. Tudo limpo.
Aelin saltou do banco e abriu o compartimento. Aedion tinha vomitado, mas estava acordado e parecendo como se estivesse prestes a colocar mais para fora quando ela acenou que ele podia sair.
— Só mais uma parada, e então nós estaremos lá.
— Rápido — disse Lysandra, olhando casualmente para fora da janela. — Os outros estão quase aqui.
O beco era largo o suficiente para caber várias carruagens passando em sentidos contrários, não mais que dois veículos grandes andando devagar para evitar uma colisão enquanto passavam. Lysandra abriu a porta assim que estavam alinhados com outra carruagem, e o rosto tenso de Chaol apareceu em frente enquanto ele fazia o mesmo.
— Vai, vai, vai — ela disse para Aedion, empurrando-o sobre a pequena lacuna entre elas. Ele tropeçou, grunhindo quando caiu contra o capitão.
— Estarei lá em breve. Boa sorte — Lysandra falou atrás dela.
Aelin saltou para o outro veículo, fechando a porta atrás de si, e eles continuaram descendo a rua.
Ela estava respirando com tanta força que pensou que nunca conseguiria ar suficiente. Aedion caiu no chão, mantendo-se abaixado.
— Está tudo bem? — Chaol perguntou.
Ela conseguiu apenas acenar com a cabeça, grata por ele não pedir quaisquer outras respostas. Mas não estava tudo bem.
De modo algum.
A carruagem, conduzida por um dos homens de Chaol, seguiu por mais alguns quarteirões, indo direto para a fronteira das favelas, onde eles saíram em uma rua deserta decrépita. Ela confiava nos homens de Chaol só até certo ponto. Levar Aedion direito para seu apartamento parecia pedir para ter problemas.
Com Aedion flácido entre eles, ela e Chaol correram os próximos vários quarteirões, tomando o caminho mais longo de volta para o armazém, se esquivando de qualquer coisa atrás deles, ouvindo com tanta atenção que mal respiravam. Mas então, eles estavam no armazém, e Aedion conseguiu ficar de pé por tempo suficiente para Chaol deslizar para a porta aberta antes de correr para dentro, para a escuridão e segurança afinal.
Chaol tomou o lugar de Aelin ao lado de Aedion enquanto ela permanecia junto à porta. Grunhindo com o peso, ele conseguiu ajudar seu primo subir as escadas.
— Ele tem uma lesão ao longo de suas costelas — ela falou se forçou a esperar – para monitorar a porta do armazém e detectar quaisquer sinais de perseguidores. — Ele está sangrando.
Chaol deu-lhe um aceno de cabeça confirmando por cima do ombro.
Quando seu primo e o capitão estavam quase no topo das escadas, quando se tornou claro que ninguém estava prestes a estourar, ela os seguiu. Mas a pausa lhe custou; a pausa tirou o seu foco afiado, e cada pensamento que ela manteve à distância finalmente a tomou. Cada passo que ela dava era mais pesado do que o último.
Um passo depois do outro, então o próximo.
No momento em que ela chegou ao segundo andar, Chaol tinha colocado Aedion no quarto de hóspedes. O som da água corrente borbulhando veio cumprimentá-la.
Aelin deixou a porta da frente destrancada para Lysandra, e por um momento, apenas ficou em seu apartamento, apoiando uma mão na parte de trás do sofá, olhando para o nada.
Quando estava certa de que podia se mover novamente, andou a passos largos para o seu quarto. Estava nua antes de chegar ao banheiro, onde entrou na banheira fria antes mesmo de abrir as torneiras.



Depois que ela saiu limpa e vestindo uma das velhas camisetas brancas de Sam e um par de cuecas dele, Chaol estava esperando por ela no sofá. Ela não se atreveu a olhar para o seu rosto – ainda não.
Lysandra enfiou a cabeça do quarto de hóspedes.
— Estou terminando de limpá-lo. Ele deve ficar bem, se não estourar os pontos novamente. Nenhuma infecção, graças aos deuses.
Aelin levantou a mão mole em agradecimento, também sem se atrever a olhar para o quarto atrás de Lysandra para ver a enorme figura deitada na cama, uma toalha em torno de sua cintura. Se Chaol e a cortesã tinham sido apresentados, ela não se importava.
Não havia um bom lugar para ter essa conversa com Chaol, então ela apenas estava no centro da sala e viu quando o capitão se levantar de seu assento, os ombros rígidos.
— O que aconteceu? — ele exigiu.
Ela engoliu uma vez.
— Eu matei um monte de gente hoje. Não estou no clima para analisá-lo.
— Isso nunca a incomodou antes.
Ela não pôde desenterrar energia até mesmo para sentir a ardência das palavras.
— Da próxima vez que decidir que não confia em mim, tente não provar isso em um momento que minha vida ou a de Aedion esteja em risco.
Um lampejo de seus olhos cor de bronze lhe disse que de alguma forma ele já tinha visto Nesryn. A voz de Chaol era dura e fria como gelo quando ele falou:
— Você tentou matá-lo. Disse que tentaria levá-lo para fora, ajudá-lo, e tentou matá-lo.
O quarto onde Lysandra trabalhava tinha ficado em silêncio.
Aelin soltou um rosnado baixo.
— Você quer saber o que eu fiz? Eu dei a ele um minuto. Eu desisti de um minuto da minha fuga por ele. Você entende o que pode acontecer em um minuto? Porque eu dei um a Dorian quando atacou Aedion e a mim hoje, para nos capturar. Eu dei a ele um minuto, em que o destino de todo o meu reino poderia ter mudado para sempre. Eu escolhi o filho de meu inimigo.
Ele agarrou o encosto do sofá como se se restringindo fisicamente.
— Você é uma mentirosa. Sempre foi uma mentirosa. E hoje não foi exceção. Você estava com uma espada sobre a cabeça dele.
— Sim, eu estava — ela cuspiu. — E antes de Faliq chegar para destruir tudo, eu continuaria. Eu deveria ter feito isso, como qualquer pessoa com bom senso, porque Dorian se foi.
E ali estava seu coração partido, quebrado pelo monstro que vira vivendo nos olhos de Dorian, o demônio que iria caçá-la, a ela e a Aedion até o inferno, que a perseguiria em seus sonhos.
— Eu não lhe devo um pedido de desculpas — ela disse para Chaol.
— Não fale como se você fosse minha rainha — ele retrucou.
— Não, eu não sou sua rainha. Mas você logo terá que decidir a quem serve, porque o Dorian que você conheceu se foi para sempre. O futuro de Adarlan não depende mais dele.
A agonia nos olhos de Chaol a atingiu como um golpe físico. E ela desejou que pudesse explicar melhor, mas... Ele precisava entender o risco que ela tinha tomado, e o perigo em que ele se deixou colocar quando Arobynn o manipulou. Ele tinha que saber que havia uma linha rígida que ela devia traçar, e que ela iria traçar, para proteger o seu próprio povo.
— Vá para o telhado e pegue a primeira vigia — ela falou então.
Chaol piscou.
— Não sou sua rainha, mas verei o meu primo no momento. E desde que eu espero que Nesryn esteja dormindo, alguém precisa vigiar. A menos que você gostaria que todos nós sejamos pegos de surpresa pelos homens do rei.
Chaol não se incomodou em responder quando se virou e saiu. Ela o ouviu subir as escadas até o telhado tempestuosamente, e foi só então que soltou um suspiro e esfregou o rosto.
Quando ela abaixou as mãos, Lysandra estava de pé na porta do quarto de hóspedes, os olhos arregalados.
— O que quer dizer com rainha?
Aelin estremeceu, xingando baixinho.
— Essa é exatamente a palavra que eu usaria — disse Lysandra, o rosto pálido.
— Meu nome...
— Oh, eu conheço o seu nome verdadeiro, Aelin.
Merda.
— Você entende por que tive que manter isso em segredo.
— Claro que sim — respondeu Lysandra, apertando os lábios. — Você não me conhece, e mais vidas do que as suas estão em jogo.
— Não, eu te conheço. — Deuses, por quais razões as palavras eram tão difíceis de sair? Quanto mais tempo a mágoa cintilava nos olhos de Lysandra, maior ela sentia a distância do outro lado da sala. Aelin sentiu o estômago revirar. — Até que eu tivesse Aedion salvo, eu não correria nenhum risco. Eu sabia que teria que dizer no momento em que nos visse juntos no mesmo cômodo.
— E Arobynn sabe — aqueles olhos verdes eram duros como lascas de gelo.
— Ele sempre soube. Isso... Isso muda nada entre nós, você sabe. Nada.
Lysandra olhou para trás, para o quarto onde Aedion agora estava inconsciente, e soltou um longo suspiro.
— A semelhança é estranha. Deuses, o fato de que você não foi descoberta por tantos anos confunde a mente — ela estudou Aedion novamente. — Mesmo que ele seja um desgraçado bonito, seria como beijar você. — Seus olhos ainda eram duros, mas um lampejo de diversão brilhava ali.
Aelin fez uma careta.
— Eu poderia ter vivido sem saber disso — ela balançou a cabeça. — Não sei por que eu já estava nervosa que você começaria a se dobrar e arranhar.
Luz de entendimento dançou nos olhos de Lysandra.
— E qual seria a graça nisso?

14 comentários:

  1. Dizia tanto que amava o Dorian e na primeira oportunidade tenta mata-lo.Acho que ela pode conseguir seus objetivos sem passar por cima das pessoas que a ajudaram.Sei que ele está possuído mas se ela não queria poupa-lo por achar que o verdadeiro Dorian se foi,poderia ter feito isso pelo Chaol que tanto pediu (outra pessoa que ela disse amar e agora trata dessa forma).

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    1. Isso é o que mais me doe nessa história.

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    2. Gente foca a história... ela está certa... se um demônio tomou conta do corpo dele e ele não está mais la, pata o Dorian é tão doloroso quanto para as pessoas a volta e a morte seria misericordioso... lembram do outro valg q ela matou a se sentiu melhor ao ser libertado? Em está certa.. parem de se envolverem com os personagens e entendam a história

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    3. Mas nós sabemos que Dorian ainda está la, ainda está lutando...

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  2. Bom eu entendo o lado dela poupar uma pessoa que quer me matar agora e que vai me perseguir depois não é uma boa estratégia se eu fosse ela eu faria o msm mais o chaol tah só enfiando os pés pelas mãos.

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  3. Não quero o Dorian morto mas entendo o lado da Cel, ela só quer o bem dele

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  4. Tem um monte de gente dizendo que a Aelin ta certa em querer matar o Dorian pq ele não está mais lá e pá. Que maconha vcs estão usando? Se ele não estivesse lá ninguém se preocuparia em escrever os próprios capítulos sobre ele mostrando a luta dele pra conseguir se salvar. O povo se preocupa tanto em dizer que o Chaol ta errado e não presta atenção na história. ¬¬

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    1. Concordo plenamente com vc. Mas a Aelin não sabe q ele está lutando e ela deu tempo para ver se ele reajia mas não foi suficiente...
      estou feliz por terem impedido ela de matar o príncipe pq se tivesse acontecido seria um grande mal entendido!!!!
      E é exatamente isso q tá acontecendo com a Celena e o Chaol em relação ao Dorian.
      Chaol está certo de não querer matar o príncipe., mas a Celena também em matar caso o demônio tome conta do Dorian...
      Aí isso é tão complicado. Ninguém sabe de na a é fica tomando decisões precipitadas!!!!
      Por isso q esse livro é genial!!!!

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    2. Não querida, a Aelin ACHA q ele n tá mais lá, por isso ela tá certa. A gente sabe q ele tá lá, pq a gente tá lendo os capítulos dele. A Aelin n tem como saber, ela pediu repetidamente pra ele dar um sinal de q tava lá, mas ele n deu (pq o demônio impediu, é claro) então ela achou q ele n tinha mais salvação e seria misericordioso matar ele. Aposto q até o Dorian concordaria com ela, já q ele q tá sofrendo lá com o bicho dentro dele. É claro que ninguém aqui quer q o Dorian morra (preferia q o bicho tivesse dentro do Chaol, esse escroto), a gente só tá dizendo q ENTENDE o lado da Aelin. É bastante simples.

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  5. Eta
    Seria o começo de um novo shipper? Lysandra e Aedion <3 já amei

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  6. Laura do Bom Senso 42 #Zueira19 de outubro de 2016 18:29

    "como qualquer pessoa com bom senso"

    VC ME CHAMOU?

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