21 de fevereiro de 2016

Capítulo 18

Estávamos na cozinha impecável de Tanya Houghton-Miller, e fiquei observando sua cafeteira reluzente com cento e oito botões, que provavelmente custara mais que o meu carro, enquanto repassava pela enésima vez os acontecimentos das semanas anteriores.
— Foi por volta de meia-noite e meia. Dei a ela vinte libras para o táxi e pedi que deixasse a chave. Presumi que ela voltaria para casa. — Eu estava me sentindo mal. Andava de um lado para outro ao lado da bancada com o café da manhã, a cabeça a mil. — Eu deveria ter confirmado. Mas ela aparecia e sumia quando bem entendia. E nós... bem, nós brigamos.
Sam estava parado ao lado da porta, coçando a testa.
— E nenhuma de vocês teve notícias dela desde então.
— Mandei umas quatro ou cinco mensagens de texto para ela — falei. — Mas achei que ainda estivesse brava comigo.
Tanya não tinha nos oferecido café. Ela foi até a escada, olhou para cima, depois conferiu o relógio, como se esperasse que fôssemos embora. Não parecia uma mãe que acabara de descobrir que a filha havia desaparecido. De vez em quando, eu ouvia o barulho monótono do aspirador.
— Sra. Houghton-Miller, alguém aqui teve notícia dela? Consegue ver pelo seu celular se ela pelo menos leu as mensagens?
— Eu avisei — insistiu ela com um tom de voz muito calmo. — Avisei que ela era assim. Mas você não quis ouvir.
— Acho que nós...
Ela ergueu a mão, interrompendo Sam.
— Essa não é a primeira vez. Ah, não. Ela já passou dias sumida, quando devia estar no internato. Culpo a escola, é claro. Tinham a obrigação de saber exatamente onde ela estava o tempo todo. Só nos ligaram quarenta e oito horas depois de terem notado a ausência dela e então tivemos que envolver a polícia. Pelo visto uma das garotas do dormitório acabou mentindo por ela. Mas por que a administração não é capaz de dizer quem está ou não no internato é algo que não entendo, ainda mais considerando a mensalidade absurda que pagamos. Francis era a favor de entrarmos com um processo. Ele foi chamado na reunião anual do conselho para tratar desse assunto. Foi um grande constrangimento.
Lá em cima, houve um estrondo e alguém começou a chorar. Tanya foi até a porta.
— Lena! Leve os meninos para o parque, pelo amor de Deus! — Ela voltou para a cozinha. — Você sabe que ela bebe demais. Usa drogas. Ela roubou meus brincos de brilhante da joalheria Mappin & Webb. Não vai admitir isso, mas roubou, sim. Valiam milhões. Não tenho ideia do que ela fez com isso. Também pegou uma câmera digital.
Pensei nas minhas joias que sumiram e senti um aperto desconfortável no peito.
— Então, sim. Tudo isso é muito previsível. E eu avisei. Agora, se me der licença, tenho que cuidar dos meninos. Estão tendo um dia difícil.
— Mas você vai chamar a polícia, não vai? Ela tem dezesseis anos e já faz quase dez dias que sumiu.
— Não vão se interessar. Não quando souberem de quem se trata. — Tanya ergueu um dedo fino. — Foi expulsa de duas escolas por matar aula. Advertida por posse de uma droga de classe A. Bêbada e indisciplinada. Furtos em lojas. Como é que se diz? Minha filha tem “antecedentes”. Para ser bem sincera, mesmo se a polícia a encontrar e a trouxer de volta, ela vai sumir de novo quando bem entender.
O aperto no peito começou a me sufocar. Para onde ela deve ter ido? Será que aquele garoto que aparecia na frente do meu prédio estava envolvido? Ou seriam os baladeiros que ficaram de porre aquela noite com Lily? Como fui tão relapsa?
— Vamos ligar para a polícia mesmo assim. Ela é muito nova.
— Não. Não quero a polícia envolvida. Francis está passando por um momento muito complicado no trabalho. Está brigando para manter seu lugar no conselho. Se ficarem sabendo que ele está envolvido em algum problema com a polícia, vai ser o fim.
Sam cerrou a mandíbula. Depois de um instante, falou:
— Sra. Houghton-Miller, sua filha é vulnerável. Acho que realmente chegou a hora de envolver mais alguém.
— Se ligar para a polícia, vou simplesmente explicar a eles o que acabei de lhe contar.
— Sra. Houghton-Miller...
— Quantas vezes esteve com ela, Sr. Fielding? — Tanya se apoiou no fogão. — Por acaso conhece-a melhor do que eu? Passou noites acordado esperando-a chegar em casa? Perdeu o sono? Teve que justificar o comportamento dela para professores e policiais? Pedir desculpas a vendedores de loja por coisas que ela roubou? Teve que pagar o cartão de crédito dela?
— Alguns dos jovens mais caóticos são os que correm os maiores riscos.
— Minha filha é uma tremenda manipuladora. Deve estar na casa de uma das amigas. Ela já fez isso. Garanto que, daqui a um ou dois dias, Lily vai aparecer aqui no meio da noite, bêbada e gritando, ou batendo à porta de Louisa, pedindo dinheiro, e você provavelmente terá motivo para desejar que ela nunca tivesse aparecido. Alguém vai recebê-la e ela estará arrependida, cheia de remorso e muito triste, mas, alguns dias depois, vai trazer um bando de amigos para a sua casa ou roubar alguma coisa. E o ciclo vai recomeçar.
Tanya afastou o cabelo louro do rosto. Ela e Sam se entreolharam.
— Tive que fazer terapia para lidar com o caos que minha filha trouxe para minha vida, Sr. Fielding. Já é muito difícil ter que lidar com os irmãos dela e suas... dificuldades comportamentais. Mas uma das coisas que aprendemos na terapia é que chega um ponto em que precisamos cuidar de nós mesmos. Lily já tem idade para tomar as próprias decisões...
— Ela é uma criança — retruquei.
— Ah, sim, está bem. Uma criança que você botou para fora de casa depois da meia-noite. — Tanya Houghton-Miller sustentou meu olhar com a complacência de alguém que acabara de provar que tinha razão. — Nem tudo é preto no branco. Por mais que a gente queira.
— Você nem está preocupada, está? — perguntei.
Ela me olhou com firmeza.
— Para falar a verdade, não. Já passei por isso muitas vezes. — Eu estava prestes a falar mais alguma coisa, mas ela se adiantou. — Você tem complexo de salvadora, não tem, Louisa? Bem, minha filha não precisa ser salva. E, se precisasse, seu histórico não me convenceria muito.
O braço de Sam me envolveu antes mesmo que eu conseguisse respirar. A resposta surgiu cheia de veneno na minha boca, mas a Sra. Houghton-Miller já tinha se virado.
— Vamos — disse ele, me empurrando para o corredor. — Vamos embora.

* * *

Passamos horas rodando a West End, diminuindo a velocidade para observar os grupos de garotas que assobiavam e cambaleavam, e, mais atentamente, as que dormiam na rua. Depois estacionamos e andamos lado a lado sob os arcos escuros das pontes. Demos uma olhada nas boates, perguntando se alguém tinha visto a garota nas fotos do meu celular.
Fomos à boate onde ela me levara para dançar, e a mais algumas que Sam disse que eram lugares conhecidos por venderem bebidas a menores de idade. Passamos por pontos de ônibus e lanchonetes, e quanto mais longe íamos, mais eu pensava em como era absurdo tentar encontrá-la no meio das inúmeras pessoas circulando pelas ruas movimentadas do centro de Londres. Lily poderia estar em qualquer lugar. Parecia estar em toda parte.
Mandei mais duas mensagens de texto para ela, dizendo que a estávamos procurando insistentemente, e, quando voltamos para o meu apartamento, Sam ligou para vários hospitais só para ter certeza de que ela não tinha sido internada.
Finalmente, nos sentamos no meu sofá e comemos torradas, ele preparou uma xícara de chá para mim e ficamos algum tempo em silêncio.
— Eu me sinto a pior mãe do mundo. Só que nem sou mãe.
Ele se inclinou para a frente, com os cotovelos apoiados nos joelhos.
— Você não pode se culpar.
— Posso, sim. Que tipo de pessoa expulsa uma garota de dezesseis anos de madrugada sem confirmar para onde ela vai? — Fechei os olhos. — Quer dizer, o fato de ela ter desaparecido antes não significa que agora esteja bem, não é? Ela vai se tornar um desses adolescentes que fogem e ninguém mais ouve falar deles até que algum cachorro passeando pela floresta desenterra seus ossos.
— Louisa.
— Eu devia ter sido mais forte. Devia ter compreendido Lily melhor. Eu devia ter me esforçado mais para lembrar como ela é jovem. Era. Ai, meu Deus, nunca vou me perdoar se tiver acontecido alguma coisa com ela. E lá fora algum passeador de cachorro inocente não tem ideia de que está prestes a ter sua vida arruinada...
— Louisa. — Sam pôs a mão na minha perna. — Pare. Você não vai chegar a lugar algum. Por mais irritante que Tanya Houghton-Miller seja, é bem possível que ela tenha razão e que Lilly apareça ou toque sua campainha daqui a três horas, e todos nós nos sentiremos idiotas e esqueceremos o que aconteceu até tudo começar de novo.
— Mas por que ela não atende o telefone? Deve saber que estou preocupada.
— Talvez seja por isso que ela está ignorando. — Ele me olhou com ironia. — Pode estar gostando de fazer você sofrer um pouco. Olhe, não há muito mais o que fazer esta noite. E tenho que ir embora. Amanhã pego cedo no trabalho.
Ele retirou os pratos, os colocou na pia e depois se apoiou nos armários da cozinha.
— Desculpe — falei. — Não foi exatamente o jeito mais divertido de começar um relacionamento.
Ele baixou o queixo.
— Agora isso é um relacionamento?
Senti que fiquei corada.
— Bem, não quis dizer...
— Estou brincando. — Ele esticou a mão e me puxou para perto. — Até que gosto das suas tentativas de me convencer de que, no fundo, só está me usando para sexo.
Ele estava cheiroso. Mesmo quando recendia um pouco a anestésico, tinha um cheiro bom. Beijou o alto da minha cabeça.
— Vamos encontrá-la — afirmou ao sair.

* * *

Depois que Sam foi embora, subi no telhado. Fiquei sentada no escuro, sentindo o perfume do jasmim que ela fez contornar a beirada da caixa d’água, e passei a mão de leve pelo topo roxo das aubrietas que cascateavam das jardineiras de terracota. Olhei por cima do parapeito, observei as ruas cintilantes da cidade e minhas pernas nem sequer tremeram. Mandei outra mensagem de texto para Lily, depois me preparei para dormir, sentindo o silêncio do apartamento me envolver.
Dei uma olhada no celular pela milionésima vez, então acessei meu e-mail, por via das dúvidas. Nada de Lily. Mas eu tinha recebido um e-mail de Nathan:

Parabéns! O velho Gopnik me disse hoje de manhã que vai lhe oferecer a vaga! Vejo você em NY, colega!

14 comentários:

  1. Espero que ela não desista desse ótimo trabalho pela Lily! Tá mais que na hora de pensar mais em você, colega

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    1. Tipo isso, concordo totalmente!
      Se ela nem desistiu de trabalhar com Will (ele sendo um idiota total) ela consegue ir e a Lily que se vire!

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  2. Gente a Lou é muito lerda, tenha amor próprio, ve se não deia o bofe escapar procurando essa mimadinha de merda!

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  3. A Lou ainda sente culpa por causa da Lily 😒
    O pior vai ser ela não aceitar o novo emprego e ainda perder o Sam por causa de alguma besteira.
    Esse livro tá sendo mais difícil pra ler, essa Lily tá pertubando demais a história.

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  4. GENTE PELO AMOR!!! É A FILHA DO WILL. O amor da vida da Lou, é ÓBVIO que ela está se preocupando, independente do que ela fez, a Lou sempre vai se sentir em dívida. Vocês não pensam no "e se fosse comigo"????

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  5. Karina vai postar a Ultima carta de amor?

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  6. Amando o Sam!!♡ mas o que será do relacionamento deles, se a Lou for pra Nova York?!
    Enfim, a Lily deveria sumir de vez da vida da Lou. a Garota só traz problemas!!

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  7. A mãe da Lily é uma vaca! Estou amando a forma como Sam ganha Lou cada vez mais.
    Vamos para New York ou será que ela vai ficar por causa da Lily?

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  8. Fala sério, ela tem
    q ir

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  9. Enéas partiu NY espero que Liu não deixa nada atrapalhar isso

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  10. Simplesmente apaixonada pelo Sam. Que homem é esse???
    Quanto a Lilly, de fato estou preocupada com ela.
    #boraparamaisumcapitulo

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