28 de fevereiro de 2016

Capítulo 17

Uma vez que Florine e o resto das bailarinas foram admitidas, elas foram levadas por um corredor estreito dos funcionários. Em questão de minutos, a porta no outro extremo se abriria para a lateral do salão de baile e elas dançariam para fora como borboletas. Borboletas negras e brilhantes, ali para encenar “Servas da Morte”, a dança de uma das sinfonias mais populares.
Elas não foram paradas ou questionadas por qualquer um, embora os guardas em cada sala as examinassem como falcões. E não eram do tipo de príncipe feérrico que mudava de forma.
Poucos homens de Chaol estavam presentes. Nenhum sinal de Ress ou Brullo. Mas todos estavam aonde Chaol prometera que estariam, com base nas informações de Ress e Brullo.
Uma bandeja de presunto mal passado com gordura crepitando foi trazida no ombro de um servo, e Aelin tentou não apreciá-lo, saborear os aromas da comida de seu inimigo. Mesmo que fosse uma comida muito boa.
Prato depois prato passou, carregado por servos de rosto vermelho, sem fôlego por subirem as escadas das cozinhas. Truta com avelãs, aspargos selvagens, tigelas de creme de leite fresco batido, tortas de pera, carnes...
Aelin inclinou a cabeça, observando a linha de serventes. Um meio sorriso cresceu em seu rosto. Ela esperou os servos voltarem com as mãos vazias em sua viagem de volta para a cozinha. Finalmente a porta se abriu novamente e uma serva magra em um avental branco esquivou-se para o corredor escuro, os fios do cabelo tingido soltando da trança enquanto corria para buscar a próxima bandeja de tortas de pera da cozinha.
Aelin manteve seu rosto sem expressão, desinteressado, quando Nesryn Faliq olhou em sua direção.
Aqueles olhos escuros, estreitaram-se ligeiramente – se de surpresa ou nervosismo, Aelin não poderia dizer. Mas antes que ela pudesse decidir como lidar com isso, um dos guardas sinalizou para Florine que era hora.
Aelin manteve a cabeça baixa mesmo quando sentiu o demônio dentro do homem mover sua atenção sobre ela e as outras. Nesryn se fora – desapareceu escada abaixo – quando Aelin se virou.
Florine caminhou ao longo da fila de dançarinas aguardando na porta, as mãos cruzadas atrás dela.
— Costas retas, ombros para trás, pescoço erguido. Você é a luz, você é o ar, você é graça. Não me decepcione.
Florine pegou a cesta de flores de vidro negro que ela fizera sua dançarina mais segura carregar, cada requintada flor cintilando como um diamante de ébano à luz do corredor escuro.
— Se vocês a quebrarem antes da hora certa chegar, estarão acabadas. Elas custam mais do que vocês valem, e não há extras.
Uma por uma, ela entregou as flores para as meninas na fila, cada uma delas segurando firme o suficiente para não deixá-las cair nos próximos minutos.
Florine chegou em Aelin, a cesta vazia.
— Observe-as, e aprenda — ela recomendou alto o suficiente para que o guarda demônio escutasse, e colocou a mão no ombro de Aelin, imitando a professora consoladora. As outras dançarinas, agora movendo-se de um pé para outro, girando a cabeça e os ombros, não olharam em sua direção.
Aelin acenou timidamente, como se estivesse tentando esconder as lágrimas amargas de decepção, e desviou para fora da fila para ficar ao lado de Florine.
Trombetas sopraram através das fissuras em torno da porta, e a multidão aplaudiu alto o suficiente para fazer o chãotremer.
— Dei uma olhada no grande salão — Florine falou tão baixo que Aelin mal podia ouvi-la. — Para ver como o general está se saindo. Ele estava magro e pálido, mas alerta. Pronto para você.
Aelin ficou imóvel.
— Eu sempre me perguntei onde Arobynn a encontrou — Florine murmurou, olhando para a porta como se pudesse ver através dela. — Por que ele provocou tanto para curvá-la à sua vontade, mais do que todos os outros. — A mulher fechou os olhos por um momento, e quando ela abriu, aço brilhava ali. — Quando você quebrar as correntes deste mundo e forjar o próximo, lembre-se de que a arte é tão vital quanto a comida para um reino. Sem ela, um reino nada é, e será esquecido pelo tempo. Tenho acumulado dinheiro suficiente na minha vida miserável para não precisar de mais, assim que você me entenderá claramente quando digo que onde quer que você estabeleça o seu trono, não importa quanto tempo leve, eu irei até você, e tornarei a trazer a música e a dança.
Aelin engoliu em seco. Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, Florine deixou-a de pé no final da fila e caminhou até a porta. Ela fez uma pausa antes de olhar cada dançarina. Ela falou apenas quando seus olhos encontraram os de Aelin.
— Deem ao nosso rei o desempenho que ele merece.
Florine abriu a porta, inundando o corredor com luz e música e o aroma de carne assada.
As bailarimas respiraram coletivamente e saltaram para frente, uma por uma, balançando aquelas flores de vidro escuro em cima.
Enquanto ela as observava ir, Aelin pensou no sangue em suas veias como fogo negro. Aedion – o foco estava em Aedion, e não no tirano sentado à frente da sala, o homem que havia assassinado sua família, assassinado Marion, assassinado seu povo. Se estes eram seus últimos momentos, então, pelo menos, ela cairia lutando, ao som de música requintada.
Já era tempo.
Uma respiração após a outra.
Ela era a herdeira de fogo.
Ela era fogo e luz, e cinzas e brasas. Ela era Aelin Coração de Fogo, e não se curvaria a nada e a ninguém, salvaria a coroa que era dela por sangue e sobrevivência e triunfo.
Aelin deu de ombros e enfiou-se no meio da multidão bajuladora.



Aedion vinha observando os guardas nas horas em que estivera acorrentado ao banco, e descobria quem era melhor atacar primeiro, quem favorecia um determinado lado ou uma perna, quem poderia hesitar quando confrontado com o Lobo do Norte e, mais importante, quem era impulsivo e estúpido o suficiente para finalmente matá-lo apesar da ordem do rei.
A performance começara chamando a atenção da multidão que estivera descaradamente boquiaberta para ele, com as dúzias de mulheres flutuando, saltando e girando para o vasto espaço entre os tronos e sua plataforma de execução, e por um momento, Aedion sentiu-se... mal por interromper. Estas mulheres não tinham culpa nenhuma para serem apanhadas no derramamento de sangue que estava prestes a desencadear.
Pareceu apropriado, porém, que os seus trajes cintilantes fossem do preto mais escuro, acentuado com detalhes em prata – Servas da Morte, ele percebeu. Era isso o que elas retratavam.
Era tanto um sinal quanto qualquer outra coisa. Talvez a Silba de olhos negros fosse lhe oferecer uma morte alternativa que não pelas cruéis mãos encharcadas de sangue de Hellas. De qualquer forma, ele percebeu-se sorrindo.
Morte era a morte.
As bailarinas jogavam punhados de pó preto, revestindo o chão com ele, representando as cinzas dos mortos, provavelmente. Uma por uma, deram alguns giros e curvaram-se perante o rei e seu filho. Hora de se mover. O rei estava distraído por um guarda uniformizado sussurrando em seu ouvido; o príncipe observava os dançarinos com desinteresse entediado, e a rainha estava conversava com o que devia ser o cortesão favorito naquele dia.
A multidão aplaudiu e murmurou sobre o desempenho da performance. Todos eles tinham vindo em sua riqueza descuidada e elegância. O sangue de um império pagara por aquelas joias e sedas. O sangue de seu povo.
Uma dançarina extra se movia através da multidão: alguma substituta, sem dúvida, tentando obter uma melhor visão do desempenho das colegas. E ele poderia não ter pensado duas vezes sobre ela se não fosse mais alta do que as outras, tivesse mais curvas, ombros mais largos. Ela movia-se com mais força, como se de alguma forma enraizada e feita para a terra. A luz a atingiu, um brilho correndo através das rendas das mangas do traje para revelar redemoinhos e espirais de marcas em sua pele. Idêntica à pintura nos braços e peitos dos dançarinos, exceto por suas costas, onde a pintura era um pouco mais escura, um pouco diferente.
Dançarinas como aquelas não tinham tatuagens.
Antes que ele pudesse ver mais, entre uma respiração e outra, um conjunto de senhoras em enormes vestidos de baile impediram sua visão, e ela desapareceu atrás de uma porta com cortinas – indo para trás dos guardas com um sorriso tímido, como se estivesse perdida.
Quando ela saiu novamente, menos de um minuto depois, ele só sabia que era ela por sua altura, seu porte físico. A fantasia tinha ido embora, e sua saia de tule fluído desaparecera.
Não, não desaparecera, ele percebeu quando ela escorregou de volta pela porta sem que os guardas olhassem para ela. A saia fora revertida em uma capa de seda, seu capuz cobrindo o cabelo castanho avermelhado, e ela se moveu... Moveu-se como um homem arrogante, desfilando para as moças em torno dele.
Aproximando-se dele. Da plataforma.
As bailarinas ainda lançavam seu pó preto em todos os lugares, circulando ao redor, espalhando-o pelo chão de mármore.
Nenhum dos guardas notou a dançarina disfarçada de nobre rondando a sala na direção dele. Um dos o cortesãos o notou – mas não gritou um alarme. Em vez disso, ele gritou o nome de um homem. E a dançarina disfarçada girou, ergueu a mão em saudação em direção ao homem que tinha chamado e deu um sorriso arrogante.
Ela não estava apenas disfarçada. Ela se tornara alguém completamente diferente.
Cada vez mais perto, a melodia da orquestra aumentando cada vez mais para um clímax vibrante, cada nota subindo mais do que a última quando as dançarinas levantaram as rosas de vidro acima de suas cabeças como um símbolo: um tributo ao rei, à morte.
A dançarina disfarçada parou fora do anel de guardas flanqueando a frente de Aedion, abaixando-se como se verificasse um lenço que tinha desaparecido, murmurando uma série de maldições.
Uma pausa ordinária – não um motivo para alarme. Os guardas voltaram a assistir as dançarinas.
Mas a dançarina olhou para Aedion com a cabeça abaixada. Mesmo disfarçada como um homem aristocrata, o olhar perverso e o triunfo vingativo estava em seus olhos turquesa e dourado.
Atrás deles, do outro lado do corredor, as dançarinas quebraram suas rosas no chão, e Aedion sorriu para sua rainha quando todo o mundo foi para o inferno.

18 comentários:

  1. Laura do Bom Senso 42 #Zueira29 de fevereiro de 2016 00:02

    Nova frase da minha vida "e Aedion sorriu para sua rainha quando o mundo foi para o inferno" imagino os dois com sorriso malandrão, cara, eu lendo esse livro lokão e escutando Baile de Favela, não é possível uma coisa dessas. Kkk

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Néee, essa troca de olhares, essa cena, foi demais <3
      Consegui nunca escutar Baile de favela ehuaheuaheu

      Excluir
    2. Hahaha foi a melhor coisa que tu fez, Karina

      Excluir
    3. Terrasen é Baile de Favela

      Excluir
    4. Tbm nunca escutei baile de favela :-)

      Excluir
    5. Baile de favela? "Ela veio quente e eu estou fervendo". Piedade... não tem nada clássico?

      Excluir
  2. Amei esse capítulo <3 <3 <3

    ResponderExcluir
  3. GenteGente que nervoso

    ResponderExcluir
  4. MEEEEU DEUSSS QUE CENA MARAVILHOSAAAA

    ResponderExcluir
  5. Nooossa, me deu arrepios só de imaginar a cena, se um dia adaptarem a saga essa parte tem que ficar maravilhosa!

    ResponderExcluir
  6. Verdade. ... essa é uma cena que vc espera ver o que leu! Parece que vai ter série né ..... tô torcendo pq eu quero ver!

    Flavia

    ResponderExcluir
  7. Esse final arrepiou até minha alma, eu tô com o coração aqui disparado scrr <3

    ResponderExcluir
  8. Cara meu coraçao ta saltando do peito muita emoção

    ResponderExcluir
  9. Já tava tendo um ataque, mas agora to tendo um colapso.
    Mdsss que cena foi essa??
    Aelin e Aedion agr aquele reizinho vai perceber q nunca deveria ter nascido

    ResponderExcluir
  10. Já até da pra imaginar Aedion,
    Aelin e Rowan o trio parada dura kk

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!