8 de fevereiro de 2016

Capítulo 17

Chaol sabia que Celaena estava de mau humor sem nem precisar falar com ela. Na verdade, não ousara falar com a assassina desde antes de o baile começar, apenas a posicionou do lado de fora, no pátio, escondida nas sombras de uma pilastra. Algumas horas na noite de inverno a acalmariam.
Do lugar em que estava do lado de dentro, escondido em um nicho perto de uma entrada de criados, ele conseguia ficar de olho no baile reluzente diante de si, bem como na assassina montando guarda do lado de fora das portas enormes da varanda. Não que não confiasse nela – mas quando Celaena estava com um humor daqueles, ele sempre ficava inquieto também.
No momento, ela estava encostada na pilastra com os braços cruzados – e não escondida nas sombras como Chaol ordenara. Ele conseguia ver os espirais da respiração de Celaena se condensando no ar noturno, e o luar refletindo no cabo de uma das adagas que ela carregava na lateral do corpo.
O salão de baile tinha sido decorado em tons de branco e azul glacial, com retalhos de seda suspensos no teto e ornamentos de vidro pendentes entre eles. Era algo saído de um sonho de inverno, e era em homenagem a Hollin, entre tantas pessoas. Algumas horas de entretenimento e uma pequena fortuna gasta por um garoto que no momento estava emburrado no pequeno trono de vidro, enfiando doces garganta abaixo enquanto a mãe sorria para ele.
Chaol jamais contaria a Dorian, mas temia o dia em que Hollin se tornasse um homem. Uma criança mimada era bem fácil de lidar, mas um líder mimado e cruel seria outra questão totalmente diferente. O capitão esperava que, junto com o príncipe herdeiro, conseguisse impedir qualquer corrupção que já apodrecia no coração de Hollin – depois que Dorian subisse ao trono.
O herdeiro estava na pista de dança, cumprindo sua obrigação com a corte e a coroa ao dançar com qualquer dama que exigisse sua atenção. Isso, como não era de surpreender, incluía quase todas elas. Dorian interpretava bem esse papel e sorria entre as valsas, um parceiro gracioso e competente, sem jamais reclamar ou recusar qualquer dama. A dança acabou, Dorian fez uma reverência para a parceira e, antes que pudesse dar um passo, outra dama da corte fazia reverência diante dele. Se Chaol estivesse no lugar do príncipe, teria se encolhido, mas Dorian apenas sorriu, aceitou a mão da dama e a deslizou pelo chão.
Chaol olhou para fora de novo e se empertigou. Celaena não estava perto da pilastra.
Ele conteve um grunhido. No dia seguinte, teriam uma bela e longa conversa sobre regras e as consequências de abandonar os postos durante os deveres de vigilância.
Uma regra que ele também estava quebrando, percebeu o capitão, ao sair do reservado e passar pela porta que tinha sido deixada entreaberta possibilitando a entrada de ar fresco no salão de baile abafado.
Para que diabo de lugar ela fora? Talvez Celaena tivesse, de fato, visto algum sinal de problema – não que algum dia já tivesse ocorrido um ataque ao palácio, e nem que alguém fosse idiota o suficiente para tentar durante um baile real.
Mas, mesmo assim, ele colocou a mão no cabo da espada quando se aproximou das colunas no alto das escadas que conduziam ao jardim congelado. Celaena estivera de pé bem ali e...
Chaol a avistou.
Bem, ela certamente havia abandonado o posto. Mas não para encarar alguma potencial ameaça.
Chaol cruzou os braços. Celaena havia abandonado o posto para dançar.



A música estava alta o suficiente para alcançá-los do lado de fora, e na base dos degraus, Celaena valsava consigo mesma. Ela até mesmo segurava a ponta do manto preto com uma das mãos como se fosse a saia de um vestido de baile, a outra mão apoiava no braço de um parceiro invisível.
Chaol não sabia se ria, gritava ou apenas voltava para dentro e fingia não ter visto.
Celaena se virou, um movimento giratório elegante que a levou a encarar o capitão e parar de súbito.
Bem, a última opção não era mais uma possibilidade. Rir ou gritar, então. Embora nenhuma das duas parecesse apropriada naquela momento.
Mesmo sob o luar, ele conseguia ver a expressão fechada de Celaena.
— Estou entediada até a alma e quase morta de frio — disse ela, soltando o manto.
Chaol permaneceu no alto da escada, observando-a.
— E a culpa é sua — continuou a assassina, enfiando as mãos nos bolsos. — Você me obrigou a vir aqui, e alguém deixou a porta da varanda aberta, então eu pude ouvir toda esta música linda. — A valsa ainda tocava, preenchendo com som o ar congelado ao redor dos dois. — Eu deveria mesmo reconsiderar de quem é a culpa. Foi como colocar um homem faminto diante de um banquete e dizer a ele para não comer. O que, aliás, você de fato fez quando me obrigou a ir àquele jantar de Estado.
Ela estava tagarelando, e o rosto de Celaena parecia sombrio o suficiente para que Chaol soubesse que a jovem estava mais do que morta de vergonha por ter sido surpreendida. O capitão mordeu os lábios para evitar um sorriso e desceu os quatro degraus até o caminho de cascalho do jardim.
— Você é a melhor assassina de Erilea, mas mesmo assim não aguenta ficar algumas horas de guarda?
— O que tem para vigiar? — grunhiu ela. — Casais saindo de fininho para se agarrar entre as sebes? Ou Sua Alteza Real, dançando com toda dama solteira?
— Está com ciúme?
Celaena soltou uma risada.
— Não! Pelos deuses, não. Mas não posso dizer que seja particularmente divertido observá-lo. Ou observar qualquer um deles se divertindo. Acho que tenho mais ciúmes daquele bufê gigante que ninguém nem toca.
Chaol deu uma risada e ergueu o rosto para as escadas, para o pátio e as portas do salão de baile além dele. Já deveria ter entrado. Mas ali estava o capitão, ultrapassando aquele limite do qual não conseguia manter distância.
Chaol conseguira não ultrapassar o limite na noite anterior, embora ver Celaena chorar durante a música de Rena Goldsmith o tivesse comovido tão profundamente que era como se houvesse encontrado uma parte sua que nem sabia que faltava. Chaol fizera os dois correrem mais 1,5 quilômetro naquela manhã, não para puni-la, mas porque não conseguia parar de pensar no modo como ela olhara para ele.
Celaena suspirou alto e avaliou a lua. Estava tão intensa que ofuscava as estrelas.
— Ouvi a música e só queria dançar por alguns minutos. Apenas para... esquecer tudo por uma valsa e fingir ser uma garota normal. Então — ela olhou para Chaol, dessa vez com raiva —, vá em frente e rosne e brigue comigo por causa disto. Qual será minha punição? Mais 4,5 quilômetros amanhã? Uma hora de treino? Tortura na roda?
Havia um tipo de amargura desesperada nas palavras dela que não foi bem recebida por Chaol. E, sim, teriam uma conversa sobre abandonar os postos, mas agora... naquele momento...
Chaol ultrapassou o limite.
— Dance comigo — disse ele, e estendeu a mão para ela.



Celaena encarou a mão estendida de Chaol.
— O quê?
O luar refletiu nos olhos dourados dele, o que os fazia brilhar.
— O que você não entendeu?
Nada. Tudo. Porque quando ele dissera aquilo, não tinha sido da forma como Dorian a chamara para dançar no baile do Yule; este tinha sido apenas um convite. Mas o de Chaol... a mão dele continuava estendida na direção dela.
— Até onde me lembro — falou Celaena, erguendo o queixo —, no Yule, eu chamei você para dançar, e você recusou imediatamente. Disse que era perigoso demais que fôssemos vistos dançando juntos.
— As coisas estão diferentes agora. — De novo, mais uma afirmação com sentido implícito que Celaena não poderia começar a decifrar no momento.
A garganta dela se apertou, e a assassina olhou para a mão estendida de Chaol, marcada por calos e cicatrizes.
— Dance comigo, Celaena — disse ele novamente, a voz rouca.
Quando os olhos dela encontraram os de Chaol, Celaena se esqueceu do frio e da lua, e do palácio de vidro que se erguia sobre eles. A biblioteca secreta e os planos do rei e Mort e Elena se dissiparam. Celaena aceitou a mão de Chaol, e havia apenas a música e o capitão.
Os dedos dele estavam quentes, mesmo através das luvas. Chaol deslizou a outra mão ao redor da cintura de Celaena, que apoiou uma das mãos sobre o braço dele. Ela ergueu o rosto para o capitão quando começaram a se mover – um passo lento, então outro, e outro, entrando devagar no ritmo constante da valsa.
Chaol a encarou de volta, nenhum dos dois sorria – de alguma forma, estavam além de sorrisos naquele momento. A valsa se desenvolveu, mais alta, mais rápida, e Chaol guiou Celaena pela música, sem hesitar. A respiração dela ficou irregular, mas Celaena não conseguia tirar os olhos do capitão, não conseguia parar de dançar. O luar e o jardim e o brilho dourado do salão de baile se tornaram um só borrão, agora a quilômetros de distância.
— Jamais seremos um garoto e uma garota normais, não é? — Celaena conseguiu dizer.
— Não — sussurrou Chaol, os olhos incandescentes. — Não seremos.
E então a música explodiu ao redor dos dois, e Chaol a levou com o ritmo, girando-a de modo que o manto se abrisse ao redor do corpo dela. Cada passo era impecável, letal, como aquela primeira vez em que os dois lutaram no treino tantos meses antes. Ela conhecia todos os movimentos dele, e Chaol conhecia os de Celaena, como se os dois tivessem dançado aquela valsa juntos a vida inteira. Mais rápido, sem titubear, sem desviar os olhos.
O resto do mundo se calou até virar nada. Naquele momento, depois de dez longos anos, Celaena olhou para o capitão e percebeu que estava em casa.



Dorian Havilliard estava na janela do salão de baile, observando Celaena e Chaol dançarem no jardim à frente, os mantos escuros flutuando ao redor deles como se não fossem mais do que dois espectros girando no vento.
Depois de horas dançando, Dorian finalmente conseguira se livrar das damas que exigiam sua atenção, e fora até a janela obter o tão necessário ar fresco.
O príncipe pretendia ir para fora, mas então os viu. Aquilo fora suficiente para impedir seus passos – mas não o bastante para fazê-lo dar as costas. Ele sabia que deveria. Deveria dar as costas e fingir que não tinha visto, porque embora fosse apenas uma dança...
Alguém parou ao lado de Dorian, e ele olhou a tempo de ver Nehemia na janela. Depois de meses sumida da corte por causa do massacre dos rebeldes em Eyllwe, ela apareceu naquela noite. Estava esplendorosa em um vestido cobalto com detalhes em fios de ouro, o cabelo preso e trançado como uma pequena coroa no alto da cabeça. Os delicados brincos dourados da princesa reluziam à luz do candelabro, atraindo a atenção de Dorian para o pescoço elegante. Era facilmente a mulher mais deslumbrante do salão de baile, e o príncipe não deixara de notar quantos homens – e mulheres – a observavam a noite toda.
— Não cause problemas a eles — falou Nehemia, baixinho, o sotaque ainda carregado, mas muito melhor desde que chegara a Forte da Fenda. Dorian ergueu uma sobrancelha. Nehemia traçou um desenho invisível no painel de vidro. — Você e eu... Sempre nos destacaremos. Sempre teremos... — Ela buscou a palavra. — Responsabilidades. Sempre teremos fardos que ninguém mais poderá entender. Que eles — a princesa inclinou a cabeça na direção de Chaol e Celaena — jamais entenderão. E se entendessem, não os iriam querer.
Eles não nos iriam querer, é isso que quer dizer.
Chaol girou Celaena, que deslizou suavemente pelo ar antes de cair de volta nos braços do capitão.
— Já decidi seguir em frente — falou Dorian, igualmente baixo.
Era a verdade. O príncipe acordara naquela manhã sentindo-se mais leve do que se sentia em semanas.
Nehemia assentiu, o ouro e as joias nos cabelos tilintaram.
— Então agradeço por isso. — Ela desenhou outro símbolo na janela. — Seu primo, Roland, me disse que seu pai aprovou os planos do conselheiro Mullison para encher as celas de Calaculla, para expandir o campo de trabalhos forçados para acomodar mais... pessoas.
Dorian manteve o rosto inexpressivo. Havia olhos demais sobre os dois.
— Roland lhe contou isto?
Nehemia desceu a mão da janela.
— Ele quer que eu conte ao meu pai que apoio esses planos, para eu conseguir que ele torne a expansão o mais fácil possível. Recusei-me. Roland diz que haverá uma reunião do conselho amanhã na qual votarão os planos de Mullison. Não tenho permissão de participar.
Dorian se concentrou na própria respiração.
— Roland não tinha direito de fazer isso. Nada disso.
— Você os impedirá, então? — Os olhos escuros de Nehemia estavam fixos no rosto do príncipe. — Fale com seu pai na reunião do conselho; convença os outros a dizer não.
Ninguém, a não ser Celaena, ousava falar com ele daquela forma. Mas a ousadia de Nehemia não teve nada a ver com a resposta de Dorian, que foi:
— Não posso.
O rosto ficou quente quando as palavras saíram, mas era verdade.
Dorian não podia combater Calaculla, não sem causar muitos problemas tanto para si mesmo quanto para Nehemia. Ele já havia convencido o pai a deixar Nehemia em paz. Exigir que o rei fechasse Calaculla poderia obrigá-lo a escolher um lado – e fazer uma escolha que destruiria tudo o que tinha.
— Não pode ou não o fará? — Dorian suspirou, mas Nehemia o interrompeu. — Se Celaena fosse enviada para Calaculla, você a libertaria? Acabaria com o campo? Quando a tirou de Endovier, pensou duas vezes a respeito dos milhares que deixou para trás? — Dorian tinha pensado, mas... mas não por tanto tempo quanto deveria. — Inocentes trabalham e morrem em Calaculla e em Endovier. Aos milhares. Pergunte a Celaena sobre os túmulos que cavam lá, príncipe. Olhe para as cicatrizes nas costas dela, e perceba que o que ela enfrentou é uma bênção comparado ao que a maioria enfrenta. — Talvez Dorian tivesse apenas se acostumado com o sotaque, mas poderia jurar que Nehemia falava com mais clareza. A princesa apontou para o jardim, para Celaena e Chaol, que haviam parado de dançar e estavam conversando agora. — Se ela fosse enviada de volta, você a libertaria?
— É claro que sim — respondeu Dorian, cuidadosamente. — Mas é complicado.
— Não há nada complicado. É a diferença entre certo e errado. Os escravos naqueles campos têm pessoas que os amam exatamente como você amava minha amiga.
Dorian olhou ao redor. Damas observavam ansiosamente por trás dos leques, e até a mãe dele reparara na conversa longa entre os dois. Do lado de fora, Celaena retomara o posto ao lado da pilastra. No outro canto do salão, Chaol passou por uma das portas do pátio e ocupou seu lugar no nicho, o rosto inexpressivo, como se a dança jamais tivesse acontecido.
— Este não é o lugar para esta conversa.
Nehemia o encarou por um bom tempo antes de assentir.
— Você tem poder, príncipe. Mais poder do que percebe. — Ela tocou o peito de Dorian, desenhando um símbolo ali também, e algumas das damas da corte arquejaram. Mas os olhos de Nehemia estavam fixos em Dorian. — Está dormente — sussurrou ela, dando um tapinha no coração dele. — Aqui. Quando a hora chegar, quando ele despertar, não tenha medo. — Nehemia retirou a mão e deu um sorriso triste para o príncipe. — Quando chegar a hora, vou ajudá-lo.
Com isso, ela foi embora, os membros da corte abriram caminho, depois fecharam a trilha deixada por Nehemia. Dorian encarava as costas da princesa, questionando o que as últimas palavras dela tinham significado.
E por que, quando Nehemia as pronunciou, algo antigo e dormente bem no fundo dele abriu um olho.

8 comentários:

  1. SOCOOOOOOOOOOORROOOOOOO O DORIAN TAMBÉM!!!!!
    MORRI X.X

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  2. Os ancestrais dele tinham magia também....Acho que ele herdou isso...To pressentindo que os dois vão ficar juntos no final...

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  3. Nãoooooo, gosto tanto dele, morro de pena ao ver ela e o capitão se aproximarem e fico cada vez mais com a impressão que o destino do príncipe pode ser trágico.

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  4. Péra. Entendi errado ou ele falou que um "olho" se abriu? Tipo, e aquela história de só o olho pode ver não sei o que? Aí tem coisa

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  5. Eu acho que a Nehemia vai morrer, e, o Dorian tem poderes. Cara, isso é tão emocionante ❤❤

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