28 de fevereiro de 2016

Capítulo 16

O demônio o fez sentar-se sobre o estrado, em um trono ao lado de uma mulher coroada que não notara que a coisa que usava sua boca não era a pessoa que nascera de sua carne. Do outro lado descansava o homem que controlava o demônio dentro dele. E na sua frente, o salão estava cheio do riso silencioso da nobreza que não podia ver que ele ainda estava ali, gritando.
O demônio quebrara um pouco mais da barreira hoje, e agora olhava através de seus olhos com um antigo brilho de malícia. Ele estava faminto por este mundo. Talvez o mundo merecesse ser devorado pela coisa. Talvez tivesse sido esse pensamento traidor o único responsável pelo tal buraco que se abria na barreira entre eles. Talvez ele estivesse ganhando. Talvez ele já tivesse ganhado.
Assim, ele foi forçado a sentar-se no trono, e falar com palavras que não eram suas, e compartilhar os olhos com algo de outro reino, que via o seu mundo ensolarado com voraz, a fome eterna.



O traje coçava como o inferno. A pintura toda não ajudava.
A maioria dos convidados importantes chegou nos dias anteriores à festa, mas aqueles que moravam dentro da cidade ou na periferia agora formavam uma linha cintilante que se estendia através das enormes portas da frente. Guardas estavam postados lá, verificando convites, fazendo perguntas, perscrutando rostos não muito ansiosos para serem interrogados. Os artistas, vendedores e ajudantes, no entanto, eram obrigados a usar uma das entradas laterais.
Foi ali que Aelin encontrara madame Florine e sua trupe de dançarinas, vestidas com trajes de tule, seda e rendas pretos, como a noite líquida sob sol do meio da manhã. Ombros para trás, pernas firmes e braços soltos ao lado do corpo, Aelin entrou para o meio do rebanho. Com os cabelos tingidos de um tom castanho avermelhado e seu rosto coberto pelos cosméticos pesados que todos dançarinos usavam, ela se misturou bem o suficiente para que nenhum dos outros olhasse para ela.
Estava focada exclusivamente no seu papel de novata, ao olhar mais interessado em saber qual dos outros dançarinos percebia os seis guardas parados na pequena porta de madeira no lado da parede de pedra. O corredor do castelo era estreito – bom para punhais, ruim para espadas e mortal para estes dançarinos se ela tivesse problemas problemas.
Se Arobynn realmente a tivesse traído.
Cabeça para baixo, Aelin monitorava sutilmente o primeiro teste de confiança.
A cabeça de cabelos castanhos de Florine flutuava ao longo de sua linha de dançarinos como um almirante a bordo de um navio. Velha, mas bela, cada movimento de Florine era mergulhado com uma graça que a própria Aelin nunca fora capaz de replicar, não importava quantas lições ela tivesse enquanto crescia. A mulher fora a dançarina mais célebre no império e desde sua aposentadoria, permanecia como sua professora mais valorizada. Instrutora Sucessora, Aelin a chamara nos anos que ela treinou sob os comandos da mulher, aprendendo as danças mais elegantes e as maneiras de se mover e aprimorar seu corpo.
Os olhos castanhos de Florine estavam nos guardas à frente quando ela parou ao lado de Aelin, uma careta em seus lábios finos.
— Você ainda precisa trabalhar em sua postura — disse a mulher.
Aelin encontrou o olhar de soslaio de Florine.
— É uma honra servir como substituta, madame. Espero que Gillyan logo se recupere de sua doença.
Os guardas acenaram para o que parecia ser uma trupe de malabaristas, e avançou para frente.
— Você está em boas condições de espírito — Florine murmurou.
Aelin fez uma atuação de abaixar a cabeça, ciente de seus ombros, e disposta a fazer suas bochechas corarem – a substituta, tímida com os cumprimentos de sua patroa.
— Considerando onde eu estava há dez meses?
Florine enrugou o nariz, e seu olhar permaneceu nas finas cicatrizes em torno dos pulsos de Aelin que mesmo as espirais pintadas não conseguiam esconder. Eles tinham erguido os trajes decotados dos dançarinos, mas mesmo assim, e mesmo com a pintura corporal, as extremidades superiores das suas cicatrizes cobertas por tatuagens aparecia.
— Se acha que tenho alguma coisa a ver com os acontecimentos que levaram a isso...
As palavras de Aelin eram pouco mais altas do que o sussurrar de sapatos de seda no cascalho quando ela disse:
— Você já estaria morta se tivesse. — Não era um blefe. Quando ela escrevera seus planos naquele navio, o nome de Florine fora assinalados e, em seguida, riscado, depois de cuidadosa consideração. Aelin continuou: — Confio que tenha feito os ajustes adequados?
Não apenas a ligeira mudança nos trajes para acomodar as armas e suprimentos que Aelin necessitaria, tudo pago por Arobynn, é claro. Não, as grandes surpresas viriam mais tarde.
— Um pouco tarde para perguntar isso, não é? — madame Florine ronronou, as joias escuras em seu pescoço e orelhas brilhando. — Você tem que confiar muito em mim e deve ser algo grande para ter sequer aparecido.
— Acredito que esteja sendo para mais do que gosta do rei — Arobynn tinha dado uma soma enorme para pagar Florine. Ela manteve um olho nos guardas quando continuou: — E uma vez que o Teatro Real foi fechado por Sua Majestade Real, confio em que ambas concordemos que o que foi feito com aqueles músicos foi um crime tão imperdoável quanto os massacres dos escravos em Endovier e Calaculla.
Ela sabia que jogara corretamente quando viu a cintilação agonia nos olhos de Florine.
— Pytor era meu amigo — sussurrou Florine, e a vergonha corou o seu rosto bronzeado. — Não houve nenhum maestro mais fino, com melhor ouvido. Ele fez a minha carreira. Me ajudou a estabelecer tudo isso — ela acenou com a mão para abranger os dançarinos, o castelo, o prestígio que tinha adquirido. — Sinto falta dele.
Não havia nada calculado, nada frio, quando Aelin colocou uma mão sobre seu próprio coração.
— Sinto falta de ouvi-lo conduzir a Suíte Stygian todo outono. Passarei o resto da minha vida sabendo que nós nunca poderemos voltar a ouvir a música mais fina, nunca mais sentir um pingo de que senti sentada no teatro enquanto ele conduzia.
Madame Florine colocou os braços em volta de si. Apesar dos guardas à frente, apesar da tarefa que se aproximava a cada tique-taque do relógio, Aelin levou um momento para ser capaz de falar novamente.
Mas não tinha sido isso o que fez Aelin concordar com o plano de Arobynn – confiar Florine.
Dois anos atrás, finalmente livre da coleira de Arobynn, mas quase pobre por pagar suas dívidas, Aelin continuara a ter aulas com Florine não só para se manter atualizada com as danças populares para seu trabalho, mas também para manter-se flexível e apta. Florine havia se recusado a aceitar seu dinheiro.
Além disso, após cada aula, Florine permitira que Aelin se sentasse ao piano da janela e tocasse até que seus dedos ficassem doloridos, desde que ela tinha sido forçada a deixar seu amado instrumento que mantinha na Torre dos Assassinos. Florine nunca o mencionou, nunca a fez se sentir como se fosse à caridade. Mas fora uma bondade quando Aelin precisava desesperadamente de uma.
Aelin disse baixinho:
— Você memorizou os preparativos para você e suas meninas?
— Aquelas que desejarem fugir podem ir à bordo do navio que Arobynn contratou. Deixei espaço para todas, apenas para o caso. Se forem estúpidas o suficiente para permanecer em Forte da Fenda, então merecem seu destino.
Aelin não tinha arriscado ser vista junto com Florine até agora, e Florine não se atrevera sequer a embalar seus pertences por medo de ser descoberta. Ela levaria apenas o que podia carregar com ela – dinheiro e joias e fugiria para as docas no momento em que o caos entrasse em erupção. Havia uma boa chance de que ela não conseguisse sair do palácio – e nem suas garotas – apesar dos planos de fuga fornecidos por Chaol e Brullo e a cooperação dos guardas.
Aelin encontrou-se dizendo:
— Obrigada.
A boca de Florine arqueou-se.
— Agora aqui está algo que você nunca aprendeu com seu mestre.
As dançarinas na frente da fila atingiram os guardas, e Florine suspirou alto e desfilou em direção a eles, apoiando as mãos nos quadris estreitos, poder e graça revestindo cada passo enquanto se aproximava do guarda de uniforme negro estudando uma longa lista.
Uma por uma, ele olhou para as dançarinas, comparando-as com a lista que segurava. Verificando as pessoas – detalhadamente.
Mas, graças a Ress estar no quartel na noite anterior e ter adicionado um nome falso, juntamente com sua descrição, Aelin estaria na lista.
Elas se aproximaram, Aelin se manteve na parte de trás do grupo para ganhar tempo para observar detalhes.
Deuses, este castelo – o mesmo em todos os sentidos possíveis, mas diferente. Ou talvez fosse ela quem  estava diferente.
Uma por uma, as bailarinas foram autorizadas a passar entre os guardas de rostos inexpressivos e correram pelo corredor estreito do castelo, rindo e sussurrando umas com as outras.
Aelin levantou-se nas pontas dos pés para estudar os guardas nas portas, não mais do que uma novata esticando o rosto por curiosidade impaciente.
Então ela as viu.
Escrita nas pedras da soleira, em tinta escura, estavam marcas de Wyrd. Estavam lindamente pintadas, como se meramente decorativas, mas deviam estar em cada porta, cada entrada.
Com certeza, até mesmo as janelas do primeiro nível possuíam pequenos símbolos escuros sobre elas, sem dúvida marcas especiais para Aelin Galathynius, para alertar o rei da sua presença ou para prendê-la no lugar por tempo suficiente para ser capturada.
Uma dançarina deu uma cotovelada no estômago de Aelin para fazê-la parar de apoiar o peso em seu ombro e espreitar por cima de suas cabeças. Aelin ficou boquiaberta com a menina e, em seguida, soltou um gemido de dor.
A dançarina olhou por cima do ombro, murmurando para ela calar a boca.
Aelin explodiu em lágrimas.
Alto, um choro exagerado de lágrimas. As bailarinas congelaram, a que estava à frente dela se voltou para trás, olhando para os lados.
— I-isso dói — disse Aelin, segurando seu estômago.
— Eu não fiz nada — a menina assobiou.
Aelin não parava de chorar.
À frente, Florine ordenou que suas dançarinas esperassem ao lado, e, em seguida, seu rosto estava sobre Aelin.
— O que, em nome de todos os deuses no reino é esse absurdo?
Aelin apontou um dedo trêmulo para a dançarina.
— Ela me b-bateu.
Florine virou-se para a dançarina de olhos arregalados que já proclamava sua inocência. Depois se seguiu uma série de acusações, insultos e mais lágrimas, agora a partir da dançarina, chorando sobre sua carreira certamente arruinada.
— Água — soluçava Aelin para Florine. — Eu preciso de um copo de água — os guardas tinham começado a abrir caminho na direção delas. Aelin apertou o braço de Florine duro. — A-agora.
Os olhos de Florine despertaram, e ela enfrentou os guardas que se aproximavam, latindo suas exigências. Aelin prendeu a respiração, esperando a acusação, a briga... mas lá estava um dos amigos – um dos amigos de Chaol e Ress, usando uma flor vermelha presa ao peito, como ela pedira – correndo para conseguir água. Exatamente onde Chaol tinha dito que ele estaria, caso algo desse errado. Aelin agarrou-se a Florine até que a água apareceu – um balde e uma concha, o melhor que o homem pôde conseguir. Ele sabiamente não encontrou o seu olhar.
Com um pequeno soluço de agradecimento, Aelin agarrou os objetos de suas mãos. Elas tremiam ligeiramente.
Ela deu uma toque sutil com o pé em Florine, pedindo que seguisse em frente.
— Venha comigo — Florine ordenou, arrastando-a para frente da fila. — Eu já tive o suficiente desta idiotice, e você quase destruiu sua maquiagem.
Cuidando para não derramar a água, Aelin permitiu que Florine a puxasse para o guarda impassível às portas.
— Minha ridícula substituta inútil, Diana — explicou ela ao guarda com aço impecável em sua voz, sem se incomodar com o demônio de olhos negros olhando para ela.
O homem estudou a lista em suas mãos, procurando, explorando – e riscando um nome.
Aelin tomou um gole de água da concha, e, em seguida, mergulhou-o de volta para o balde.
O guarda olhou mais uma vez para Aelin – e ela fez o lábio inferior tremer, as lágrimas prestes a sair novamente enquanto o demônio ali dentro a devorava com os olhos. Como se todos essas encantadoras bailarinas fossem sobremesa.
— Entre — o homem grunhiu, empurrando o queixo para o corredor atrás dele.
Com uma oração silenciosa, Aelin deu um passo em direção às marcas de Wyrd escritas sobre as pedras da moldura da passagem.
E tropeçou, enviando o balde de água direto sobre as marcas, apagando-as.
Ela gemeu quando atingiu no chão, os joelhos gritando de dor genuína, e Florine baixou instantaneamente sobre ela, exigindo que ela deixasse de ser tão desajeitada e chorona, e, em seguida, empurrando-a para trás das marcas em ruínas.
E para o castelo de vidro.

16 comentários:

  1. nossa merecia um oscar kkkkkkkk

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  2. Uma atriz perfeita! E muito inteligente tbm!!!!

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  3. Tenho medo de um valg mais forte conseguir sentir o cheiro feérico dela...

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  4. Amei. ... ri muito tbm. .... que teatro hein! Kkkkkk

    Flavia

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  5. É o oscar vai para Aelin alguma coisa.

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  6. Gente tem q fazer um seriado desse livro!!!!!
    Ele é muito bom!!!!
    Aelin é genial!!!!!


    ~Mari

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  7. Para fazer um seriado do livro a atriz terina que ser maravilhosamente boa também, pq além de interpretar a propria Celaena teria que interpretar as personagens que a Celaena interpreta kkk

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  8. Imagina a assassina como bailarina... kkkkkkkkk

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  9. Eu comentei no capítulo passado sobre a mãe do Dorian. Agora me lembrei dela. É q a autora nem da notoriedade pra ela, até esqueci q ela existia.

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