21 de fevereiro de 2016

Capítulo 11

Naquela semana, quando cheguei ao Grupo Seguindo em Frente, Jake não estava lá. Enquanto Daphne discutia sua incapacidade de abrir potes de vidro sem ter um homem na cozinha e Sunil comentava a dificuldade de dividir entre os irmãos os poucos pertences do irmão que faleceu, fiquei esperando as pesadas portas vermelhas se abrirem no fundo do salão da igreja. Disse a mim mesma que eu estava preocupada com o bem-estar dele, que Jake precisava ser capaz de expressar seu desconforto com o comportamento do pai num lugar seguro. Falei com firmeza a mim mesma que não era Sam quem eu queria ver, encostado na moto.
— Quais são as pequenas coisas que a deixam para baixo, Louisa?
Talvez Jake tivesse parado de frequentar a terapia, pensei. Quem sabe ele houvesse decidido que não precisava mais. As pessoas abandonavam o tratamento, sim. E pronto. Eu nunca mais veria nenhum dos dois.
— Louisa? As coisas do dia a dia? Deve ter alguma.
Eu não parava de pensar naquele campo, naquele vagão de trem arrumado, em como Sam andara por lá com uma galinha embaixo do braço, como se carregasse um embrulho precioso. As penas no peito da ave eram suaves como seda.
Daphne me cutucou.
— Estávamos discutindo as pequenas coisas do dia a dia que nos obrigam a pensar na perda — disse Marc.
— Sinto falta de sexo — confessou Natasha.
— Isso não é uma coisa pequena — retrucou William.
— Você não conheceu meu marido — falou Natasha, rindo. — Não conheceu mesmo. Essa é uma piada horrível. Desculpem. Não sei o que deu em mim.
— É bom fazer piada — disse Marc, de um jeito encorajador.
— Olaf era muito bem-dotado. Muito bem-dotado mesmo. — Natasha observou a roda. Como ninguém falou nada, ela ergueu as mãos a uma distância de um palmo e meio uma da outra e assentiu enfaticamente. — Éramos muito felizes.
Houve um breve silêncio.
— Ótimo — disse Marc. — É bom ouvir isso.
— Não quero que ninguém pense... Quer dizer, não quero que as pessoas se lembrem disso ao pensar no meu marido. Que ele tinha um... pequeno...
— Tenho certeza de que ninguém pensa isso do seu marido.
— Eu vou pensar, se você continuar repetindo — disse William.
— Não quero que você pense no pênis do meu marido — exigiu Natasha. — Na verdade, proíbo você de pensar no pênis dele.
— Então pare de falar sobre isso! — exclamou William.
— Será que podemos não falar sobre pênis? — perguntou Daphne. — Fico um pouco sem jeito. As freiras nos batiam com régua se falássemos apenas “virilha”.
A voz de Marc ganhou um tom de desespero.
— Será que podemos levar a conversa para outro... De volta para os símbolos de perda? Louisa, você estava prestes a nos dizer quais são as pequenas coisas que a fazem se lembrar da sua perda.
Fiquei ali tentando ignorar Natasha, que ergueu as mãos mais uma vez, medindo em silêncio alguma improvável extensão invisível.
— Acho que sinto falta de ter alguém com quem discutir vários assuntos — falei com cautela.
Houve um murmúrio de concordância.
— Quer dizer, não sou uma dessas pessoas que têm um grande círculo de amigos. Fiquei séculos com meu último namorado e... a gente não saía muito. E depois surgiu... Bill. A gente conversava o tempo todo. Sobre música, pessoas, o que a gente já tinha feito e o que queria fazer, e nunca me preocupava em dizer a coisa errada ou ofender alguém porque ele simplesmente me “sacava”, entendem? Mas me mudei para Londres e não tenho ninguém, com exceção da minha família, sendo que conversar com eles é sempre... complicado.
— Continue — incentivou Sunil.
— E está acontecendo uma coisa sobre a qual eu gostaria muito de falar com ele. Fico imaginando nossa conversa, mas não é a mesma coisa. Sinto falta daquela... capacidade de simplesmente perguntar “Ei, o que você acha disso?”. E saber que o que ele dissesse provavelmente seria a coisa certa.
O grupo ficou em silêncio por um instante.
— Você pode conversar com a gente, Louisa — disse Marc.
— É... complicado.
— É sempre complicado — acrescentou Leanne.
Observei os semblantes deles, bondosos e cheios de expectativa, mas não havia a menor possibilidade de que entendessem qualquer coisa que eu dissesse. Entendessem de verdade.
Daphne ajeitou seu lenço de seda.
— O que Louisa precisa é de outro rapaz com quem conversar. É claro que precisa. Você é jovem e bonita. Vai encontrar outra pessoa — disse. — E, Natasha, volte à ativa. É tarde demais para mim, mas vocês duas não deviam estar sentadas neste velho salão xexelento. Desculpe, Marc, mas elas não deviam. Tinham que estar em algum lugar dançando, rindo.
Natasha e eu nos entreolhamos. Estava óbvio que ela queria sair para dançar tanto quanto eu.
De repente me lembrei de Sam da ambulância, mas afastei o pensamento.
— E se algum dia você quiser outro pênis — disse William — com certeza eu poderia desenhar em um...
— Tudo bem, gente. Vamos passar para os testamentos — interrompeu Marc. — Alguém surpreso com o que se deparou?

* * *

Cheguei em casa exausta às nove e quinze e encontrei Lily de pijama, deitada no sofá diante da televisão. Larguei minha bolsa.
— Há quanto tempo você está aqui?
— Desde o café da manhã.
— Está tudo bem?
— Hum.
Sua palidez indicava doença ou exaustão.
— Não está se sentindo bem?
Ela comia pipoca de uma tigela e preguiçosamente passava a mão no fundo para pegar as migalhas.
— Só não estou a fim de fazer nada hoje.
Seu telefone tocou. Ela ficou olhando com indiferença para a mensagem que chegou e depois enfiou o aparelho embaixo da almofada do sofá.
— Está tudo bem mesmo? — perguntei após algum tempo.
— Tudo ótimo.
Ela não parecia ótima.
— Posso ajudar em alguma coisa?
— Já falei que estou ótima.
Ela não olhou para mim ao dizer isso.

* * *

Lily passou aquela noite lá em casa. No dia seguinte, logo antes de eu sair para trabalhar, o Sr. Traynor ligou e pediu para falar com ela. Lily estava jogada no sofá e olhou impassível para mim quando lhe disse quem estava na linha, em seguida, com relutância, esticou a mão para pegar o telefone.
Fiquei ali parada enquanto ela escutava o que ele dizia. Eu não conseguia ouvir suas palavras, mas dava para distinguir seu tom de voz: bondoso, delicado e tranquilizador. Quando ele terminou, ela esperou um pouco, depois disse:
— Tudo bem. Ótimo.
— Vai se encontrar com ele de novo? — perguntei, quando ela me devolveu o telefone.
— Ele quer vir a Londres me ver.
— Hum, isso é bom.
— Mas não está podendo ficar muito longe dela, pois pode entrar em trabalho de parto.
— Quer que eu leve você até lá para falar com ele?
— Não.
Ela acomodou os joelhos embaixo do queixo, pegou o controle remoto e ficou trocando de canal.
— Quer conversar sobre isso? — perguntei, depois de um instante.
Ela não respondeu, e após algum tempo percebi que a conversa estava encerrada.

* * *

Na quinta-feira, entrei no meu quarto, fechei a porta e liguei para minha irmã. Nós nos falávamos várias vezes durante a semana. Ficou mais fácil depois que minha desavença com nossos pais passou e já não pairava entre nós feito um campo minado.
— Você acha que é normal?
— Certa vez papai me disse que, quando eu tinha dezesseis anos, fiquei duas semanas inteiras sem falar com ele. Eu só grunhia. E na verdade eu estava bem feliz.
— Ela nem está grunhindo. Só parece muito infeliz.
— Todos os adolescentes parecem. É a configuração padrão deles. É com os alegres que devemos nos preocupar. Esses provavelmente estão escondendo um sério transtorno alimentar ou roubando batons na farmácia.
— Ela passou os últimos três dias deitada no sofá.
— E a que conclusão você chegou?
— Acho que tem alguma coisa errada.
— A menina tem dezesseis anos. O pai nunca soube da sua existência e bateu as botas antes que ela pudesse conhecê-lo. A mãe se casou com um cara que ela chama de Pentelho. Tem dois irmãos pequenos que mais parecem aprendizes daqueles bandidos famosos, Reggie e Ronnie Kray, e a família trocou as fechaduras da casa. Se eu fosse ela, provavelmente passaria um ano inteiro deitada no sofá. — Treena deu um gole ruidoso no seu chá. — E ela ainda está morando com uma pessoa que vai trabalhar no bar com uma saia verde de Spandex brilhante e chama isso de profissão.
— Lurex. É de Lurex.
— Que seja. Quando é que você vai arranjar um emprego decente?
— Em breve. Só preciso resolver essa situação primeiro.
— Essa situação.
— Lily está muito deprimida. Eu me sinto mal por ela.
— Sabe o que me deprime? O fato de você ficar prometendo levar um tipo de vida e depois se sacrificar por qualquer criatura desamparada que apareça na sua frente.
— Will não era uma criatura desamparada.
— Mas Lily é. Você nem conhece essa menina, Lou. Devia focar em seguir em frente. Devia estar mandando seu currículo, falando com as pessoas, descobrindo seus pontos fortes, sem procurar mais uma desculpa para adiar sua vida.
Olhei para o céu lá fora. Eu conseguia ouvir o som da televisão vindo do cômodo ao lado, depois escutei Lily se levantando, indo até a geladeira e desabando novamente no sofá. Abaixei o tom de voz:
— O que você faria, Treen? A filha do homem que você amava aparece na sua porta e todas as outras pessoas parecem ter passado adiante a responsabilidade de cuidar dela. Você também a deixaria na mão? — Minha irmã ficou quieta. Isso era raro, então me senti obrigada a continuar: — Imagine se daqui a oito anos Thom brigar com você, por qualquer motivo, e digamos que ele estivesse bastante sozinho e saindo dos trilhos. Você acharia bom se a única pessoa a quem ele tivesse pedido ajuda considerasse isso um saco? Que ele devia simplesmente dar o fora e fazer o que quisesse? — Encostei a cabeça na parede. — Estou tentando fazer a coisa certa. Então me poupe, está bem? — Nenhuma resposta. — Eu me sinto melhor fazendo isso, ok? Eu me sinto melhor sabendo que estou ajudando.
Fazia tanto tempo que minha irmã estava calada que me perguntei se ela havia desligado.
— Treen?
— Tudo bem. Bom, eu me lembro, sim, de ter lido alguma coisa em psicologia social sobre como os adolescentes consideram exaustivo o excesso de contato com alguém.
— Você quer que eu fale com ela através de uma porta?
Um dia eu ainda teria uma conversa por telefone com minha irmã que não envolveria o suspiro cansado de quem precisa explicar alguma coisa a uma pessoa idiota.
— Não, sua bocó. Para convencê-la a falar, é necessário que estejam fazendo alguma coisa juntas, lado a lado.

* * *

Ao voltar do trabalho na sexta à noite, parei numa enorme loja de bricolagem. Subi os quatro andares de escada do meu prédio carregando as sacolas e depois entrei em casa. Lily estava exatamente onde eu esperava encontrá-la: estirada na frente da televisão.
— O que é isso? — perguntou ela.
— Tinta. Esse apartamento está um pouco sem graça. Você vive me dizendo que preciso dar uma alegrada nele. Pensei em nos livrarmos desse tom creme velho e entediante.
Ela não conseguiu se conter. Fingi me ocupar preparando uma bebida para mim, observando de rabo de olho ela se espreguiçar e em seguida conferir as latas de tinta.
— Essa cor não é menos sem graça. É cinza-claro.
— Disseram que cinza era a cor da moda. Mas posso devolver se você acha que não vai funcionar.
Ela deu mais uma olhada.
— Não. Essa está boa.
— Pensei que o quarto de hóspedes podia ter duas paredes creme e uma cinza. Acha que combina?
Desembrulhei os pincéis e os rolos enquanto falava. Troquei de roupa e vesti uma camisa velha e um short, então perguntei se ela poderia colocar uma música.
— Qual estilo?
— Você escolhe. — Puxei uma cadeira para o lado e cobri uma área ao longo da parede para proteger da sujeira. — Seu pai disse que eu era uma ignorante no que diz respeito a música.
Ela não falou nada, mas eu tinha atraído sua atenção. Abri uma lata de tinta e comecei a misturar.
— Ele me fez ir ao meu primeiro concerto. De música clássica, não pop. Só concordei porque isso significava que ele sairia de casa. Nos primeiros dias, Will não gostava muito de sair. Mas vestiu uma camisa e um bom paletó e foi a primeira vez que o vi com uma aparência... — Lembrei-me do choque ao ver, emergindo do colarinho azul engomado, o homem que ele tinha sido antes do acidente. Engoli em seco. — Enfim, fui preparada para ficar entediada, mas chorei durante toda a segunda parte feito uma maluca. Foi a coisa mais incrível que ouvi na vida.
Um breve silêncio.
— O que era? O que vocês ouviram?
— Não me lembro. Sibelius? Pode ser que seja isso.
Ela deu de ombros. Quando veio para o meu lado, comecei a pintar. Lily escolheu um pincel. Não falou nada no início, mas parecia totalmente absorta na natureza repetitiva da tarefa. Também foi cuidadosa, ajeitando o pano que protegia o local para que não pingasse tinta no chão, limpando o pincel na borda da lata. Não falávamos nada, a não ser quando murmurávamos alguns pedidos: Pode me passar o pincel menor? Acha que isso vai continuar aparecendo na segunda demão? Levamos apenas meia hora para pintar a primeira parede.
— Então, o que acha? — perguntei, admirando nosso trabalho. — Acha que podemos pintar outra?
Ela moveu o pano e começou a trabalhar na parede seguinte. Colocara para tocar uma banda indie da qual eu nunca tinha ouvido falar, mas que era alegre e agradável. Recomecei a pintar, ignorando a dor no meu ombro e a vontade de bocejar.
— Você devia arranjar uns quadros.
— É mesmo.
— Tenho uma grande gravura do Kandinsky lá em casa. Não combina muito com meu quarto. Pode ficar com você, se quiser.
— Seria ótimo.
Ela passou a trabalhar mais depressa, cobrindo logo a parede e contornando com cuidado a grande janela.
— Andei pensando que a gente devia falar com a mãe do Will — comecei. — Sua avó. Tudo bem para você se eu escrever para ela?
Lily não disse nada. Agachou-se, parecendo concentrada em pintar cuidadosamente a parede até o rodapé. Por fim, se levantou.
— Ela é parecida com ele?
— Com quem?
— Com o Sr. Traynor? Ela é parecida com o Sr. Traynor?
Desci da caixa que eu estava usando como escada e limpei o pincel na borda da lata.
— Ela é... diferente.
— Esse é o seu jeito de dizer que ela é uma vaca.
— Ela não é uma vaca. É só... Leva mais tempo para conhecê-la a fundo.
— Essa é sua maneira de me dizer que ela é uma vaca e que não vai gostar de mim.
— Não estou dizendo isso de jeito nenhum, Lily. Mas ela não demonstra com facilidade os sentimentos.
Lily suspirou e largou o pincel.
— Sou basicamente a única pessoa no mundo capaz de conhecer dois avós que não sabia que tinha e depois descobrir que nenhum dos dois gosta de mim.
Nós nos entreolhamos e de repente começamos a rir.
Tampei a lata de tinta.
— Venha — falei. — Vamos sair.
— Para onde?
— É você quem diz que preciso me divertir um pouco, então pode escolher.

* * *

Tirei várias blusas de uma das caixas até Lily finalmente decidir qual era aceitável. Permiti que ela me levasse para uma minúscula boate cavernosa numa ruazinha perto da West End onde os seguranças a conheciam pelo nome e ninguém parecia cogitar, nem por um instante, que ela pudesse ter menos de dezoito anos.
— Está tocando música dos anos 1990. Coisa dos velhos tempos! — disse ela toda alegre e tentei não pensar muito no fato de que, do ponto de vista dela, eu era basicamente uma anciã.
Dançamos até eu ficar desinibida, até ficarmos com as roupas molhadas de suor, o cabelo grudado, e eu acabar com tanta dor no quadril que me perguntava se conseguiria ficar em pé atrás do bar na semana seguinte.
Dançamos como se não tivéssemos mais nada para fazer. Nossa, foi muito bom. Eu tinha me esquecido da alegria de simplesmente existir, de se perder na música, em meio a uma multidão, as sensações que surgiam quando nos tornávamos uma única massa orgânica, animada apenas por um ritmo pulsante. Durante algumas horas noturnas e vibrantes, coloquei tudo para fora, e meus problemas saíram flutuando como balões de gás: meu trabalho horrível, meu chefe meticuloso, meu fracasso em seguir adiante. Eu me tornei cheia de vida e alegre. Olhei para Lily na multidão, de olhos fechados enquanto o cabelo balançava, aquela mistura estranha de concentração e liberdade que surge nos semblantes de quem se perde no ritmo. Então abriu os olhos e eu quis ficar brava por ela estar erguendo uma garrafa que visivelmente não era de refrigerante, mas acabei rindo também, abrindo um grande sorriso eufórico e pensando em como era estranho que uma criança confusa, que mal se conhecia, tivesse tanto a me ensinar sobre a vida.

* * *

À nossa volta, Londres estava vibrante, embora fossem duas da manhã.
Paramos para Lily tirar selfies nossas na frente de um teatro, de uma placa chinesa e de um homem vestido de urso (pelo visto, tudo tinha que ter registro fotográfico), depois fomos cambaleando pelas ruas lotadas à procura de um ônibus, passando diante das lojas de kebab abertas até tarde e pelos bêbados que gritavam, pelos cafetões e pelas diversas garotas de voz estridente. Meu quadril latejava muito e o suor sob minhas roupas molhadas esfriava meu corpo de um jeito desagradável. Mesmo assim eu me sentia energizada, como se tivesse acordado para a vida.
— Só Deus sabe como vamos chegar em casa — comentou Lily com animação.
Então ouvi um grito.
— Lou! — Lá estava Sam, debruçando-se para fora da janela do motorista de uma ambulância. Quando ergui a mão em resposta, ele deu a volta no meio da rua. — Para onde estão indo?
— Para casa. Se conseguirmos achar um ônibus.
— Entrem aí. Andem logo. Isso fica entre nós. Estamos encerrando o expediente. — Sam olhou para a mulher ao seu lado. — Ah, fala sério, Don. Ela é uma paciente. Quebrou o quadril. Não posso deixá-la ir a pé para casa.
Lily ficou encantada com essa surpresa. A porta de trás se abriu e a mulher, vestindo o uniforme de paramédico, revirava os olhos e fazia sinal para a gente entrar.
— Você vai nos fazer sermos demitidos, Sam — disse ela, gesticulando para a gente se sentar na maca. — Oi. Sou Donna. Ih... me lembro de você, sim. Você é aquela que...
— ... caiu de um prédio. Essa mesmo.
Lilly me puxou para perto para fazer uma “selfie na ambulância”, e tentei evitar encarar Donna, que revirou os olhos mais uma vez.
— Onde vocês estavam? — gritou Sam lá da frente.
— Dançando — respondeu Lily. — Tenho tentado convencer Louisa a não ser uma velha chata. Podemos ligar a sirene?
— Não. Onde vocês estavam? Aliás, sou outro velho chato. Não conheço nenhuma boate.
— Na Vinte e Dois — disse Lily. — Fica atrás da Tottenham Court Road.
— Foi lá que fizemos a traqueostomia de emergência, Sam.
— Eu lembro. Parece que você teve uma ótima noite.
Ele encontrou meu olhar pelo espelho e corei um pouco. De repente fiquei feliz por ter saído para dançar. Isso passava a impressão de que eu poderia ser uma pessoa completamente diferente. Não só uma trágica atendente do bar do aeroporto que achava que uma boa noitada era cair do telhado.
— Foi mesmo ótima — falei, com um sorriso radiante.
Então ele olhou para a tela do computador no painel.
— Ah, ótimo. Tem um ponto verde na Spencer’s.
— Mas estávamos voltando — disse Donna. — Por que Lennie sempre faz isso com a gente? Esse cara é um sádico.
— Não tem mais ninguém disponível.
— O que está acontecendo?
— Apareceu um serviço. Talvez eu tenha que deixar vocês. Mas não fica longe da sua casa. Tudo bem?
— A Spencer’s — disse Donna, suspirando fundo. — Ah, que ótimo. Segurem-se, meninas.
A sirene disparou. E lá fomos nós, seguindo bruscamente pelo tráfego de Londres, com a luz azul fazendo barulho acima de nossas cabeças e Lily dando gritinhos de alegria.
Enquanto nos segurávamos no veículo, Donna nos contou que todas as noites o posto de saúde recebia ligações da Spencer’s chamando para dar um jeito naqueles que não conseguiam mais se manter de pé ou para suturar o rosto de rapazes que, após seis cervejas, ficaram agressivos e sem nenhum bom senso.
— Esses jovens deveriam estar de bem com a vida, mas em vez disso gastam cada libra extra que ganham para cair na porrada. Toda semana.
Chegamos lá alguns minutos depois. A ambulância foi diminuindo a velocidade para evitar os bêbados que invadiam a rua. Os cartazes nas janelas enfumaçadas da boate anunciavam “Bebidas grátis para mulheres até as 22h”. Apesar das noites de despedida de solteiro, dos assobios e das roupas chamativas, as ruas lotadas de gente bebendo tinham um clima tenso e explosivo, em vez de um clima de carnaval. Olhei com cautela pela janela. Sam abriu as portas de trás e pegou sua bolsa.
— Fique no carro — disse ele antes de saltar.
Um policial se aproximou dele, murmurou alguma coisa, e ficamos observando os dois se aproximarem de um rapaz sentado na sarjeta, com sangue escorrendo de um ferimento na têmpora. Sam agachou-se ao lado dele, enquanto o policial tentava manter afastados os bêbados curiosos, os amigos “prestativos”, as namoradas chorosas. Ele parecia estar cercado de figurantes bem-vestidos da série The Walking Dead, cambaleando zonzos e grunhindo, às vezes ensanguentados e tombando no chão.
— Odeio esses serviços — comentou Donna, analisando energicamente seu kit de suprimentos médicos embrulhado em plástico enquanto a observávamos. — Queria que qualquer dia desses me dessem uma mulher em trabalho de parto ou uma vovozinha simpática com cardiomiopatia. Ai, droga, ele apagou.
Sam inclinava o rosto do rapaz para examiná-lo quando outro garoto, que tinha o cabelo duro de gel e o colarinho da camisa empapado de sangue, agarrou seu ombro.
— Ei! Preciso entrar na ambulância.
Sam virou-se lentamente para o jovem bêbado, que cuspia sangue e saliva enquanto falava.
— Chegue para trás, cara. Está bem? Deixe que eu faço meu trabalho.
A bebida deixara o garoto burro. Ele olhou para os colegas e depois se posicionou diante de Sam, rosnando:
— Não me mande chegar para trás.
Sam o ignorou e continuou cuidando do rosto do outro rapaz.
— Ei! Ei, você! Preciso ir para o hospital. — Ele empurrou o ombro de Sam. — Ei!
Por um instante, Sam permaneceu agachado, sem se mover. Depois se endireitou lentamente e se virou, ficando frente a frente com o bêbado.
— Vou explicar uma coisa de um jeito que talvez você consiga entender, meu filho. Você não vai entrar na ambulância, está bem? É só isso. Então poupe sua energia, vá encerrar sua noite ao lado dos seus colegas, coloque um pouco de gelo nisso aí e vá ao médico pela manhã.
— Você não pode me dar ordem nenhuma. Eu pago seu salário. A porcaria do meu nariz está quebrado.
Enquanto Sam o encarava com firmeza, o rapaz girou a mão e empurrou o peito dele. O paramédico olhou para o próprio corpo.
— Opa — disse Donna, ao meu lado.
A voz de Sam saiu como um grunhido:
— Muito bem. Estou avisando agora...
— Não me dê aviso nenhum! — O rapaz tinha uma expressão de desdém. — Não me dê aviso nenhum! Quem você pensa que é?
Donna saltou da ambulância e saiu correndo na direção de um policial. Murmurou alguma coisa no ouvido dele e reparei que os dois olharam para a confusão. Donna parecia estar suplicando. O rapaz continuava gritando, xingando e empurrando o peito de Sam.
— Então resolva o meu caso antes de cuidar desse babaca.
Sam ajeitou o colarinho. Sua expressão ficara perigosamente calma.
Justo no instante em que me dei conta de que estava prendendo a respiração, o policial surgiu ali, no meio dos dois. Donna segurava a manga da camisa de Sam e o levava de volta na direção do rapaz no meio-fio. O policial murmurou alguma coisa no rádio, com a mão no ombro do bêbado.
O rapaz se virou e cuspiu no jaleco de Sam.
Vá se foder.
Houve um breve silêncio de choque. Sam enrijeceu o corpo.
— Sam! Venha, me dê uma mãozinha aqui, pode ser? Preciso de você. — Donna o empurrava à frente. Quando vi o rosto de Sam, seus olhos brilhavam com a dureza de um diamante. — Venha — insistia Donna, enquanto colocavam o rapaz em semicoma na parte de trás da ambulância. — Vamos dar o fora daqui.

* * *

Ele dirigiu em silêncio e Lily e eu fomos espremidas no banco da frente ao seu lado. Donna limpou as costas da jaqueta de Sam enquanto ele olhava para a frente, projetando sua mandíbula barbada.
— Poderia ter sido pior — disse Donna, animada, animada. — No mês passado, vomitaram no meu cabelo. E o monstrinho fez isso de propósito. Enfiou os dedos na goela e correu para trás de mim, só porque eu não quis levá-lo para casa, como se eu fosse um táxi. — Ela se levantou e apontou para a bebida energética no painel do veículo. — É um desperdício de recursos se pensarmos no que poderíamos estar fazendo, em vez de buscar um monte de... — Tomou um gole, depois olhou para o rapaz praticamente inconsciente. — Não sei. A gente fica se perguntando o que eles têm na cabeça.
— Quase nada — disse Sam.
— É. Bem, temos que manter esse aqui em rédea curta. — Donna deu um tapinha no ombro de Sam. — Ano passado recebeu uma advertência.
Sam me olhou de soslaio, subitamente envergonhado.
— Fomos buscar uma garota no alto da Commercial Street. Ela estava com o rosto destruído. Violência doméstica. Quando fui colocá-la na maca, o namorado saiu a toda do pub e partiu de novo para cima dela. Não consegui me conter.
— Você deu um soco nele?
— Mais de um — debochou Donna.
— É. Bem. Não foi nada bonito.
Donna virou-se para mim com uma careta.
— Bem, esse aí não pode se dar ao luxo de se meter em encrenca de novo. Ou vai ficar sem emprego.
— Obrigada — falei, quando ele nos deixou em casa. — Pela carona, quer dizer.
— Eu não poderia deixar vocês naquele hospício ao ar livre — disse ele.
Por um instante seus olhos encontraram os meus. Então Donna fechou a porta e eles seguiram para o hospital com aquela carga humana debilitada.
— Você gosta dele de verdade — comentou Lily, enquanto observávamos a ambulância se afastar.
Eu tinha até esquecido que ela estava ali. Suspirei e comecei a procurar a chave nos bolsos.
— Ele é um galinha.
— E daí? Eu transaria com ele — disse Lily, quando abri a porta para deixá-la entrar. — Quer dizer, se eu fosse velha. E um pouco desesperada... como você.
— Acho que não estou pronta para um relacionamento, Lily.
Como ela estava andando atrás de mim, eu não tive como comprovar, mas juro que ela subiu a escada fazendo caretas.

21 comentários:

  1. kkkkk essa Lily, como o Will ela esta mudando a vida da Lou

    ResponderExcluir
  2. que raiva dessa menina mal educada
    Natália

    ResponderExcluir
  3. Meu coração foi partido pela morte de will, mas ele esta sendo reconstruído porque a a Lou esta vivendo novamente!

    ResponderExcluir
  4. Meu coração foi partido pela morte de will, mas ele esta sendo reconstruído porque a a Lou esta vivendo novamente!

    ResponderExcluir
  5. NÃO SEI PORQUE VCS NÃO GOSTAM DA LILY CARAAAAAAAAAAA EU TO RINDO HORRORESSSSSSSSSS... AHHAHAAH
    "E daí? Eu transaria com ele — disse Lily, quando abri a porta para deixá-la entrar. — Quer dizer, se eu fosse velha. E um pouco desesperada... como você."

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. vdd...é aquelas adolescentes chatas irritantantes..porem muito hilaria kkk

      Excluir
  6. Parece que o povo ñ teve adolescência nasceram toda adultos comportados por aqui

    ResponderExcluir
  7. Parece que sou a unica pessoa aqui q adora a Lily ela cm o will esta mudando a vida da Lou e trazendo de volta a graça para a vida da Clark

    ResponderExcluir
  8. Saudade das roupas SUPER coloridas da Lou

    ResponderExcluir
  9. Aquela Mesma Livia25 de junho de 2016 22:22

    Só tô com um pouquinho de medo porque foi debochando dos Crush da Clark que o Will fez ela se apaixonar. Imagina a Lily com a Lou kkkkkk

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pensei a mesma coisa kkkkkk

      Excluir
  10. Estou amando o papel que a Lily está desempenhando na vida da Lou. Tomara que pelo menos o final desse livro seja feliz.

    ResponderExcluir
  11. parece que de qualquer forma que seja, Lily e Will, duas pessoas ligadas a vida de Lou... ligadas entre si... desempenham um papel importante na vida dela, pai e filha, mudando a vida dela

    ResponderExcluir
  12. Torcendo por lou e sam
    Tenho o pensamento q nao ah nada que um novo amor nao curee

    ResponderExcluir
  13. Eu só acho que a lou tem q levar a Lily p terapia

    ResponderExcluir
  14. A Lousa só consegue viver em função de alguém. Espero q as coisas mudem.

    ResponderExcluir
  15. Estou tão feliz Loi esta vontando a realmente viver e tem gente que ainda citica a Lyli se soubessem o quanto ela faz bem para a Lou. é como will ela esta mudando a Lou

    ResponderExcluir
  16. Eu sinto que bem ou mal, a Lilly está trazendo "vida" para a Lou.
    #borapramaisumcapitulo

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!