6 de fevereiro de 2016

Capítulo 12

O mundo girou. Masmorras, feno podre, pedras frias contra a bochecha, guardas conversando, pão e queijo e água. Então homens entraram, arcos apontados para ela, mãos nas espadas. Dois dias tinham se passado, de alguma forma. Um retalho e um balde d’água foram jogados para Celaena. Para se limpar para o julgamento, disseram eles. Ela obedeceu. E não lutou quando deram novos grilhões para os pulsos e tornozelos – grilhões com os quais poderia andar. Eles a levaram por um corredor escuro e frio que ecoava com gemidos distantes, depois escada acima. A luz do sol brilhava por uma janela com barras – forte, ofuscante – conforme subiam mais escadas e, por fim, entraram em uma sala de pedra e madeira polida.
A cadeira de madeira pareceu macia sob Celaena. A cabeça ainda doía, e os lugares nos quais os homens de Farran a golpearam também estavam doloridos.
A sala era grande, mas com pouca mobília. A assassina tinha sido empurrada sobre um assento no centro, a uma distância segura da enorme mesa na ponta oposta – a mesa na qual 12 homens se sentavam de frente para ela.
Não importava para Celaena quem eram, ou qual era o papel deles. Conseguia sentir os olhos sobre si. Todos na sala – os homens à mesa e as dezenas de guardas – a observavam.
Um enforcamento ou uma decapitação. A garganta dela se fechou.
Não havia objetivo em lutar, não agora.
Merecia aquilo. Por mais razões do que conseguia contar. Jamais deveria ter permitido que Sam a convencesse a matar Farran sozinho. Era culpa dela, tudo aquilo, colocado em ação no dia em que chegou a baía da Caveira e decidiu defender alguma coisa.
Uma pequena porta nos fundos da sala se abriu, e os homens à mesa se levantaram. Botas pesadas batiam no chão, os guardas se esticaram e bateram continência...
O rei de Adarlan entrou na sala.
Celaena não olharia para ele. Que fizesse o que quisesse com ela. Se o encarasse, qualquer semblante de calma que tivesse seria destruído. Então era melhor não sentir nada do que se acovardar diante do rei – do açougueiro que destruíra tanto de Erilea. Melhor ir para o túmulo entorpecida e zonza que implorar.
Uma cadeira no centro da mesa foi puxada para trás. Os homens ao redor do rei não se sentaram até que ele se sentasse.
Então silêncio.
O piso de madeira da sala estava tão polido que Celaena conseguia ver o reflexo do lustre de ferro que pendia acima.
Uma risada baixa como osso contra pedra. Mesmo sem olhar para ele, conseguia sentir a massa absoluta que o compunha; a escuridão que rodopiava ao seu redor.
— Não acreditei nos boatos até agora — falou o rei — mas parece que os guardas não estavam mentindo sobre sua idade.
Uma leve ânsia de cobrir as orelhas para abafar aquela voz miserável passou pelo fundo da mente de Celaena.
— Quantos anos tem?
Ela não respondeu. Sam havia partido. Nada que pudesse fazer – mesmo que lutasse, mesmo que se revoltasse – mudaria aquilo.
— Rourke Farran colocou as garras em você ou está apenas sendo teimosa?
O rosto de Farran, olhando-a com luxúria, sorrindo com tanta crueldade enquanto estava indefesa diante dele.
— Muito bem, então — falou o rei. Papéis farfalhando, o único som naquela sala mortalmente silenciosa. — Nega ser Celaena Sardothien? Se não falar, tomarei o silêncio como consentimento, garota.
Ela manteve a boca fechada.
— Sendo assim, leia as acusações, conselheiro Rensel.
Uma garganta pigarreou.
— Você, Celaena Sardothien, é acusada das mortes das seguintes pessoas... — E então começou uma longa recitação de todas as vidas que a assassina tirara. A história brutal de uma garota que agora tinha desaparecido. Arobynn sempre se certificara de que o mundo soubesse do trabalho dela. Sempre espalhou por canais secretos quando outra vítima caía pelas mãos de Celaena Sardothien. E agora, a mesma coisa que garantira a ela o direito de se chamar Assassina de Adarlan seria o que selaria seu destino. Quando acabou, o homem disse: — Nega alguma das acusações?
A respiração de Celaena estava tão lenta.
— Garota — falou o conselheiro, um pouco esganiçado — tomaremos a ausência de resposta como sinal de que não as nega. Entende isso?
Ela não se deu o trabalho de assentir. Tudo havia acabado mesmo.
— Desse modo, decidirei sua sentença — grunhiu o rei.
Em seguida murmúrios, mais papéis farfalhando e uma tosse. A luz no chão piscou. Os guardas na sala permaneceram concentrados nela, armas em punho.
Subitamente, passos vindos da mesa soaram em sua direção, e Celaena ouviu o barulho de armas sendo inclinadas. Reconheceu os passos antes que o rei sequer chegasse à cadeira.
— Olhe para mim.
Ela manteve o olhar nas botas dele.
— Olhe para mim.
Não fazia diferença agora, fazia? O sujeito já havia destruído tanto de Erilea – destruído partes de Celaena sem nem saber.
— Olhe para mim.
A assassina ergueu a cabeça e olhou para o rei de Adarlan.
O sangue foi drenado do rosto. Aqueles olhos pretos estavam prontos para devorar o mundo; as feições eram ríspidas e envelhecidas. O homem levava uma espada na lateral do corpo – a espada cujo nome todos sabiam – e uma túnica refinada com um manto de pele. Nenhuma coroa na cabeça.
Ela precisava fugir. Precisava sair daquela sala, fugir dele.
Fugir.
— Tem algum último pedido antes de eu anunciar a sentença? — perguntou o rei, aqueles olhos ainda perfurando qualquer defesa que Celaena um dia aprendera.
Ainda conseguia sentir o cheiro da fumaça que sufocara cada centímetro de Terrasen nove anos antes, ainda sentia o cheiro de carne queimando e ouvia os gritos inúteis conforme o homem e os exércitos destruíam qualquer resquício de resistência, qualquer resquício de magia. Não importava o que Arobynn a treinara para fazer, as lembranças daquelas últimas semanas enquanto Terrasen caía estavam marcadas no sangue dela. Então Celaena apenas o encarou.
Quando não respondeu, o rei deu meia-volta e caminhou para a mesa.
A assassina precisava fugir. Para sempre. Fogo impulsivo e tolo se acendeu e a transformou, apenas por um momento, naquela garota novamente.
— Tenho — disse ela, com a voz rouca pela falta de uso.
O rei parou e a fitou por cima do ombro.
Ela sorriu, algo malicioso e selvagem.
— Que seja rápido.
Era um desafio, não um pedido. O conselho do rei e os guardas se moveram, alguns murmuraram.
Os olhos do homem se semicerraram levemente, e, quando ele sorriu para Celaena, foi a coisa mais terrível que a assassina já viu.
— Hã? — falou o rei, virando para encará-la completamente.
Aquele fogo tolo se apagou.
— Se é uma morte fácil que deseja, Celaena Sardothien, certamente não lhe darei. Não até que tenha sofrido adequadamente.
O mundo estava equilibrado na lâmina de uma faca, escorregando, escorregando, escorregando.
— Você, Celaena Sardothien, está condenada a nove vidas de trabalhos forçados nas Minas de Sal de Endovier.
O sangue dela se transformou em gelo. Os conselheiros todos se entreolharam. Obviamente essa opção não fora discutida anteriormente.
— Será enviada com ordens para que seja mantida viva por quanto tempo for possível, para ter a chance de aproveitar o tipo de agonia especial de Endovier.
Endovier.
Então o rei virou de costas.
Endovier.
Houve um estardalhaço de movimentos, depois o homem grunhiu uma ordem para que ela fosse colocada na primeira carruagem para fora da cidade. Em seguida mãos pegaram os braços de Celaena, e arcos foram apontados para ela conforme era arrastada para fora da sala.
Endovier.
A assassina foi jogada na cela da masmorra durante minutos, ou horas, ou um dia. Então mais guardas foram buscá-la, levando-a escada acima, para o sol ainda ofuscante.
Endovier.
Novos grilhões, martelados para se fecharem. O interior escuro de uma carruagem de prisão. O fechamento de diversas trancas, o solavanco de cavalos começando a andar e muitos outros cavalos cercando a carruagem.
Pela pequena janela no alto da parede da porta, ela conseguia ver a capital, as ruas que conhecia tão bem, as pessoas perambulando e olhando para a carruagem da prisão e para os guardas montados, mas sem pensar em quem poderia estar ali dentro. O domo dourado do Teatro Real ao longe, o odor salgado da brisa do Avery, os telhados esmeralda e as pedras brancas de todas as construções.
Tudo passando, e tão rápido.
Passaram pela Fortaleza dos Assassinos na qual Celaena havia treinado e sangrado e perdido tanto, o lugar em que o corpo de Sam ainda esperava que ela fosse enterrá-lo.
Participara do jogo e perdera.
Agora, chegavam à enorme muralha de alabastro da cidade, os portões escancarados para acomodar o grande grupo.
Conforme Celaena Sardothien era levada para fora da capital, ela afundou em um canto da carruagem e não se levantou.



De pé no alto de um dos muitos telhados esmeralda de Forte da Fenda, Rourke Farran e Arobynn Hamel observavam a carruagem da prisão ser escoltada para fora da cidade. Uma brisa fria soprava do Avery, bagunçando os cabelos de ambos.
— Endovier, então — considerou Farran, os olhos sombrios ainda no veículo. — Uma reviravolta surpreendente nos eventos. Achei que tivesse planejado um grande resgate da ala de execuções.
O rei dos Assassinos não disse nada.
— Então, não vai atrás da carruagem?
— Obviamente, não — disse Arobynn, olhando para o novo lorde do crime de Forte da Fenda.
Fora naquele mesmo telhado que Farran e o rei dos Assassinos se esbarraram pela primeira vez. Farran estava a caminho de espionar uma das amantes de Jayne, e Arobynn... bem, Farran jamais soube por que o rei dos Assassinos perambulava pelos telhados de Forte da Fenda no meio da noite.
— Você e seus homens poderiam libertá-la em questão de minutos — continuou Rourke. — Atacar uma carruagem da prisão é muito mais seguro que o que tinha planejado originalmente. Embora, preciso admitir, mandá-la para Endovier seja muito mais interessante para mim.
— Se eu quisesse sua opinião, Farran, teria pedido.
O lorde do crime deu um sorriso lento.
— Pode querer reconsiderar como fala comigo agora.
— E você pode querer considerar quem lhe deu a coroa.
Farran deu uma risadinha, e o silêncio recaiu por um longo momento.
— Se quisesse que ela sofresse, poderia tê-la deixado sob meus cuidados. Eu poderia fazê-la implorar para que você a salvasse em questão de minutos. Teria sido excepcional.
Arobynn apenas sacudiu a cabeça.
— Qualquer que tenha sido a sarjeta em que cresceu, Farran, deve ser um Inferno sem comparação.
Rourke avaliou o novo aliado, com o olhar reluzente.
— Não faz ideia. — Depois de mais um momento de silêncio, perguntou: — Por que fez isso?
A atenção de Arobynn se voltou para o veículo, já um pontinho nas colinas ondulantes acima de Forte da Fenda.
— Porque não gosto de compartilhar o que me pertence.

5 comentários:

  1. EU TI ODEIO AROBYNN!!! q sua morte venha cer tao lenta e dolorosa quanto a de Sam e q vc sofra ate seu ultimo sopro de vida e lembre a cada momento restante da sua vida miserável e egoísta q vc jamais vai ter Celaena e q ela le despreza e tem nojo da sua cara, q o rosto de de repusa dela seja a ultimo rosto q vera antes de queimar no inferno!#~#
    Seu infeliz dos quintos dos infernos!!!

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  2. A morte de Arobynn tinha que ser lenta mesmo. ... canalha nojento! !

    Flavia

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  3. A morte do Arobynn tinha q ter sido mais lenta e dolorosa e ele tinha q saber que o tinha traído e planejado!
    Verme desgraçado. Possessivo filho de uma p***!!!!
    Ele matou Sam só pq Celena escolheu ele é decidiu parar de ser o bichinho desse asqueroso. Não sei quem é pior o Rei ou ele??? Mas o Arobynn pelo menos nesse livro tá ganhando.
    "Não gosto de compartilhar o q me pertence" Ele é nojento!

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  4. Não consigo odiar Arobynn, mas se tem Sam no meio da historia... Arobynn ge quero mooooooooooooorto!!!!!!
    Ass: Betta

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  5. Sério q ele fez tudo isso só pq achou q o Sam tava "roubando" a Celaena dele? Ah vá tomar no cu! Se a autora não der uma morte lenta e MUITO dolorida (muito mais q a do Sam) pra esse demônio eu vou fazer uma desgraça.
    A morte do SAm foi horrível, horrível e horrível. Antes quando eu n conhecia ele e a Celaena só citava ele eu n tava me importando mto com a morte dele, mas agora...

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