6 de fevereiro de 2016

Capítulo 1

Onze dias antes

Celaena Sardothien esperara por aquela noite durante o último ano inteiro. Sentada na passarela de madeira na lateral do domo dourado do Teatro Real, ela inspirou a música que vinha da orquestra muito abaixo. As pernas pendiam sobre a beirada da grade, e ela aproximou o corpo, apoiando o queixo nos braços cruzados.
Os músicos estavam sentados em um semicírculo no palco e enchiam o teatro com um barulho tão assombroso que Celaena às vezes se esquecia de como respirar. Vira aquela sinfonia ser apresentada quatro vezes nos últimos quatro anos, mas sempre fora com Arobynn. Tinha se tornado sua tradição anual de outono.
Embora soubesse que não deveria, deixou os olhos vagarem até o camarote particular no qual, até o mês anterior, sempre se sentara.
Seria por rancor ou simples ignorância que Arobynn Hamel agora se sentava ali com Lysandra ao lado? Ele sabia o que aquela noite significava para Celaena, sabia o quanto ela ansiava pelo dia todo ano. E embora não quisesse ir com ele – e jamais quisesse ter qualquer coisa a ver com Arobynn novamente – naquela noite o mestre levou Lysandra, como se aquilo não significasse nada para ele.
Mesmo das vigas, Celaena podia ver o rei dos Assassinos segurando a mão da jovem cortesã, a perna encostada na saia do vestido cor-de-rosa. Um mês depois de Arobynn ter vencido o Leilão pela virgindade de Lysandra, parecia que ainda monopolizava o tempo dela. Não seria uma surpresa se tivesse arranjado alguma coisa com a madame da jovem para que ficasse com ela até se cansar.
Celaena não tinha certeza se sentia pena de Lysandra por isso.
A assassina voltou a atenção para o palco. Não sabia por que fora até ali ou por que dissera a Sam que tinha “planos” e não poderia encontrar-se com ele para jantar na taverna preferida dos dois.
No último mês, Celaena não vira ou falara com Arobynn, nem quisera. Mas aquela era sua sinfonia preferida; a música era tão linda que, para preencher a espera de um ano entre as apresentações, havia dominado grande parte do espetáculo no piano.
O terceiro ato terminou, e aplausos ecoaram no arco reluzente do domo. A orquestra esperou que as palmas diminuíssem antes de passar para o alegro animado que levava ao final.
Pelo menos nas vigas não precisava se incomodar em se arrumar e fingir ser parte da multidão coberta de joias abaixo. Celaena tinha facilmente se esgueirado pelo telhado, e ninguém olhara para cima para ver a figura vestida em preto sentada na grade, quase escondida da vista pelos lustres de cristal que tinham sido erguidos e apagados para a apresentação.
Lá em cima, podia fazer o que gostava. Poderia apoiar a cabeça nos braços ou agitar as pernas ao ritmo da música ou se levantar e dançar se quisesse. E daí se nunca mais se sentasse naquele amado camarote, tão lindo com os assentos de veludo vermelho e corrimões de madeira polida?
A música entrelaçava o teatro, e cada nota era mais genial que a anterior.
Celaena havia escolhido deixar Arobynn. Pagou sua dívida, e a dívida de Sam, e se mudou. Dera as costas à vida como protegida de Arobynn Hamel. Tinha sido decisão dela; e uma da qual não se arrependia, não depois do mentor tê-la traído tão profundamente. Ele a humilhara e mentira para Celaena, além de usar o dinheiro suado dela para vencer o Leilão de Lysandra apenas para deixá-la ressentida.
Embora ainda fosse a Assassina de Adarlan, parte de Celaena se perguntava quanto tempo Arobynn permitiria que mantivesse o título antes de nomear outra pessoa como sucessora. Mas ninguém a podia substituir verdadeiramente. Pertencesse ela ou não a Arobynn, ainda era a melhor. Sempre seria a melhor.
Não seria?
Celaena piscou, percebendo que, de alguma forma, tinha parado de ouvir a música. Ela deveria mudar de lugar – passar para um local no qual os lustres bloqueassem sua visão de Arobynn e Lysandra. Ficou de pé, com a lombar dolorida por se sentar por tanto tempo na madeira.
Ela deu um passo, as tábuas cedendo sob as botas pretas, mas então parou. Embora fosse como se lembrava, cada nota impecável, a música parecia dissonante agora. Por mais que conseguisse tocar de cabeça, era subitamente como se Celaena jamais a tivesse ouvido antes, ou como se o ritmo interno da assassina estivesse de alguma forma destoante do resto do mundo.
A assassina olhou mais uma vez para o camarote familiar abaixo, no qual Arobynn agora passava um braço longo e musculoso ao redor do encosto do assento de Lysandra. O antigo assento de Celaena, aquele mais perto do palco.
Mas valera a pena. Estava livre, e Sam estava livre, e Arobynn... Ele tinha feito o possível para magoá-la, para destruí-la. Abrir mão daqueles luxos era um preço baixo a pagar por uma vida sem tal homem mandando nela.
A música subiu até o frenesi do clímax, tornando-se um redemoinho de som através do qual Celaena se viu caminhando – não em direção a um novo assento, mas em direção à portinhola que levava ao telhado.
O som rugia, cada nota era um pulso de ar contra sua pele. Celaena jogou o capuz do manto sobre a cabeça ao se esgueirar pela porta e adentrou a noite além.



Eram quase 23 horas quando Celaena destrancou a porta do apartamento, inspirando os odores familiares do lar. Tinha passado grande parte do mês anterior mobiliando o espaçoso imóvel – escondido no andar de cima de um armazém próximo aos cortiços da cidade – que agora compartilhava com Sam.
Ele oferecera diversas vezes pagar por metade do apartamento, e toda vez Celaena o ignorava. Não por não querer o dinheiro dele – embora não quisesse mesmo – mas porque pela primeira vez aquele era um lugar dela. E por mais que gostasse muito de Sam, queria manter as coisas daquele jeito.
Ela entrou, observando o enorme cômodo que a cumprimentava: à esquerda, uma mesa de jantar de carvalho reluzente, grande o bastante para acomodar oito cadeiras estofadas ao redor; à direita, um sofá de plush vermelho, duas poltronas e uma mesa baixa diante da lareira escura.
A lareira fria dizia bastante. Sam não estava em casa.
Celaena poderia ter entrado na cozinha adjacente para devorar a metade restante da torta de amora que o companheiro não terminara de comer no almoço – poderia ter tirado as botas e se apoiado na janela, que ia do chão ao teto, para observar a deslumbrante vista noturna da capital. Poderia ter feito diversas coisas caso não tivesse visto o bilhete sobre a pequena mesa ao lado da porta de entrada.
Saí, dizia no papel, com a letra de Sam. Não espere acordada.
A jovem amassou o bilhete no punho. Sabia exatamente aonde ele tinha ido... e exatamente por que não queria que ela esperasse acordada. Porque se estivesse dormindo, então muito provavelmente não veria o sangue e os hematomas quando Sam chegasse cambaleando.
Xingando profusamente, Celaena jogou o bilhete amassado no chão e saiu do apartamento batendo os pés e a porta atrás de si.



Se havia um lugar em Forte da Fenda no qual a escória da capital sempre podia ser encontrada, era o Cofres.
Em uma rua relativamente calma nos cortiços, Celaena exibiu o dinheiro para os brutamontes de pé do lado de fora da porta de ferro e entrou no salão. O calor e o fedor a atingiram quase imediatamente, mas a assassina não permitiu que isso afetasse sua expressão de fria tranquilidade conforme descia até uma ala de câmaras subterrâneas. Olhou uma vez para a multidão fervilhante ao redor da arena de luta principal e soube exatamente quem fazia o público torcer.
Celaena caminhou pelos degraus de pedra, as mãos a uma distância fácil das espadas e das adagas embainhadas no cinto que pendia baixo no quadril. A maioria das pessoas teria optado por levar ainda mais armas para o Cofres, mas ela fora ao lugar vezes o bastante para antecipar as ameaças que a clientela habitual representava e sabia que podia se cuidar muito bem. Mesmo assim, manteve o capuz sobre a cabeça, escondendo grande parte do rosto na sombra. Ser uma jovem mulher naquele lugar não vinha sem obstáculos; principalmente quando uma grande parte dos homens ia até lá pelo outro entretenimento oferecido pelo Cofres.
Ao chegar à base da escadaria estreita, o fedor de corpos sujos, cerveja velha e coisas piores a acertou em cheio. Era o bastante para revirar o estômago, e ela ficou feliz por não ter comido nada recentemente.
Celaena passou pela multidão amontoada ao redor da arena principal, tentando não olhar para os quartos expostos de cada lado – para as garotas e mulheres que não tiveram a sorte de serem vendidas para um bordel da classe alta como Lysandra. Às vezes, quando se sentia particularmente disposta a ficar deprimida, Celaena imaginava se o seu destino teria sido igual ao das moças caso Arobynn não a tivesse acolhido. Imaginava se encararia os olhos das jovens e veria alguma versão sua olhando de volta.
Então era mais fácil não olhar.
Ela abriu caminho entre os homens e as mulheres reunidos ao redor da arena rebaixada, mantendo-se alerta por mãos ansiosas para levar seu dinheiro... ou uma das adagas exóticas.
Encostou-se a uma pilastra de madeira e encarou a arena.
Sam se movia tão rápido que o brutamontes diante dele não tinha a menor chance, desviando de cada nocaute com força e graciosidade – parte disso era natural, parte fora aprendida com anos de treinamento na Fortaleza dos Assassinos. Os dois homens estavam sem camisa, e o peito tonificado de Sam reluzia com suor e sangue. O sangue não era dele, reparou Celaena: os únicos ferimentos que conseguia ver eram o lábio cortado e um hematoma na bochecha.
O oponente atacou, tentando derrubar Sam no chão arenoso. Mas ele girou e, quando o gigante cambaleou e o ultrapassou, golpeou o pé descalço nas costas do brutamontes. O homem atingiu a areia com um estampido que Celaena sentiu através do piso de pedras imundas. A multidão comemorou.
Sam poderia ter deixado o homem inconsciente em um segundo. Poderia ter quebrado o pescoço do oponente naquele momento, ou ter terminado a luta de diversas formas. Contudo, pelo brilho meio selvagem de autossatisfação nos olhos do rapaz, Celaena sabia que ele estava brincando com o oponente. Os ferimentos no rosto provavelmente tinham sido erros intencionais – para fazer parecer uma luta mais ou menos equilibrada.
O objetivo de lutar no Cofres não era nocautear o adversário – era fazer da luta um espetáculo. A multidão estava quase selvagem com alegria, Sam devia ter dado uma apresentação e tanto. E, a julgar pelo sangue nele, parecia que a apresentação devia ser uma de diversas repetições.
Um gemido baixo percorreu Celaena. Havia apenas uma regra no Cofres: nenhuma arma, apenas punhos. Mas ainda era possível se machucar feio.
O oponente cambaleou até ficar de pé, mas, para Sam, bastava de esperar.
O coitado do troglodita nem mesmo teve tempo de erguer as mãos quando o jovem o atacou com um chute giratório. O pé acertou o rosto do homem com tanta força que o impacto ressoou acima dos gritos da multidão.
O rival oscilou de lado, sangue escorria da boca. Sam golpeou de novo, um soco no estômago. O homem curvou o corpo, apenas para encontrar o joelho do rapaz em seu nariz. A cabeça foi jogada para o alto, e ele cambaleou para trás, para trás, para trás...
A multidão gritou em triunfo quando o punho de Sam, coberto de sangue e areia, acertou o rosto exposto do brutamontes. Mesmo antes de terminar o golpe, Celaena sabia que seria um nocaute.
O competidor caiu na areia e não se moveu.
Ofegante, Sam ergueu os braços ensanguentados para o público ao redor.
Os ouvidos de Celaena quase estouraram com o rugido de resposta. Ela trincou os dentes quando o mestre de cerimônias caminhou até a areia e proclamou o rapaz o vencedor.
Não era justo, na verdade. Não importava que oponentes fossem jogados no caminho, qualquer pessoa que enfrentasse Sam perderia.
A assassina teve vontade de saltar para a arena e desafiá-lo ela mesma.
Essa seria uma apresentação da qual o Cofres jamais se esqueceria.
Celaena segurou os próprios braços. Não conseguira um contrato no mês desde que deixara Arobynn, e embora ela e Sam continuassem treinando o máximo que podiam... Ah, a vontade de pular naquela arena e acabar com todos era tão grande. Um sorriso malicioso se abriu no rosto dela.
Se achavam que Sam era bom, então Celaena realmente daria à multidão algo por que gritar.
Sam a viu recostada contra a pilastra. O sorriso de triunfo dele permaneceu, mas ela viu um lampejo de desprazer nos olhos castanhos do rapaz.
A jovem inclinou a cabeça na direção da saída. O gesto disse a Sam tudo o que precisava saber: a não ser que quisesse que Celaena entrasse na arena com ele, tinha acabado pela noite, e ela o encontraria na rua depois que Sam recolhesse o que ganhara.
E então a briga de verdade começaria.



— Eu deveria ficar aliviado ou preocupado por você não ter dito nada? — perguntou Sam a ela conforme caminhavam pelas ruelas da cidade a caminho de casa.
Celaena desviou de uma poça que poderia ser água da chuva ou urina.
— Estou pensando em formas de começar que não envolvam gritos.
O rapaz riu com deboche, e a assassina trincou os dentes. Uma bolsa de moedas balançava na cintura dele. Embora o capuz do manto de Sam estivesse sobre a cabeça, ela ainda conseguia ver claramente o lábio cortado.
Celaena fechou as mãos em punhos.
— Prometeu que não voltaria lá.
Sam manteve os olhos no beco estreito diante deles, sempre alerta, sempre vigiando por alguma fonte de perigo.
— Eu não prometi. Disse que pensaria a respeito.
— As pessoas morrem no Cofres! — Celaena falou isso mais alto do que queria, as palavras ecoaram pelas paredes do beco.
— As pessoas morrem porque são tolas em busca de glória. Não são assassinos treinados.
— Acidentes acontecem mesmo assim. Qualquer um daqueles homens poderia ter entrado com uma lâmina escondida.
O jovem emitiu uma risada breve e rouca, cheia de pura arrogância masculina.
— Realmente pensa tão pouco das minhas habilidades?
Os dois viraram em outra rua, na qual um grupo de pessoas fumava cachimbo do lado de fora de uma taverna mal iluminada. Celaena esperou até passarem pelo local antes de falar.
— Arriscar a vida por algumas moedas é absurdo.
— Precisamos de todo dinheiro que pudermos conseguir — falou Sam, baixinho.
Ela ficou tensa.
— Temos dinheiro. — Algum dinheiro, menos a cada dia.
— Não vai durar para sempre. Não quando não conseguimos mais contratos. E principalmente não com seu estilo de vida.
— Meu estilo de vida! — ciciou Celaena. Mas era verdade. Ela podia viver com modéstia, mas seu coração estava no luxo: em roupas chiques e comida deliciosa e móveis requintados. Tinha subestimado quanto disso lhe era fornecido na Fortaleza dos Assassinos. Arobynn podia ter uma lista detalhada do que a jovem devia a ele, mas jamais cobrou pela comida, ou pelos criados, ou pelas carruagens. E agora que Celaena estava por conta própria...
— O Cofres tem lutas fáceis — argumentou Sam. — Duas horas ali e posso conseguir um dinheiro decente.
— O Cofres é uma pilha fétida de merda — disparou Celaena. — Somos melhores que isso. Podemos conseguir dinheiro em outro lugar. — Não sabia onde, ou como, exatamente, mas poderia encontrar algo melhor que lutar no Cofres.
Sam a segurou pelo braço, fazendo-a parar para encará-lo.
— E se sairmos de Forte da Fenda? — Embora o capuz de Celaena cobrisse a maior parte do rosto, ela ergueu as sobrancelhas para o companheiro. — O que nos mantém aqui?
Nada. Tudo.
Incapaz de responder, Celaena se desvencilhou e continuou andando.
Era uma ideia absurda, na verdade. Deixar Forte da Fenda. Para onde iriam?
O casal chegou ao armazém e subiu rapidamente as escadas de madeira nos fundos, então eles entraram no apartamento do segundo andar.
Celaena não disse nada a Sam ao tirar o manto e as botas, acender algumas velas e entrar na cozinha para comer um pedaço de pão com manteiga. E ele não disse nada ao caminhar para o banheiro para se limpar. A água encanada era um luxo no qual o dono gastara uma fortuna; e tinha sido a maior prioridade para Celaena ao procurar lugares para morar.
Benefícios como água encanada eram abundantes na capital, mas não por toda parte. Se saíssem de Forte da Fenda, que tipo de coisas precisaria se acostumar a não ter?
A assassina ainda pensava quando Sam entrou na cozinha, todos os traços de sangue e areia limpos. O lábio inferior ainda estava inchado, e o rapaz tinha um hematoma na bochecha, sem falar dos nós dos dedos esfolados, mas parecia estar inteiro.
Ele se sentou em uma das cadeiras à mesa da cozinha e cortou para si um pedaço de pão. Comprar comida para a casa levava mais tempo do que Celaena imaginara, e ela estava considerando contratar uma empregada, mas... isso custava dinheiro. Tudo custava dinheiro.
Sam deu uma mordida, serviu-se de um copo de água da jarra que Celaena deixara sobre a mesa de carvalho, e se recostou na cadeira. Atrás dele, a janela acima da pia revelava a extensão reluzente da capital e o castelo de vidro iluminado erguido acima de todos.
— Simplesmente não vai falar mais comigo?
Celaena olhou para ele.
— Mudar é caro. Se deixássemos Forte da Fenda, precisaríamos de um pouco mais de dinheiro para ter algum sustento se não conseguirmos emprego imediatamente. — A jovem pensou a respeito. — Mais um contrato para cada — disse ela. — Posso não ser mais a protegida de Arobynn, mas ainda sou a Assassina de Adarlan, e você é... bem, você é você. — Sam olhou para ela de modo sombrio, e, apesar de não querer, Celaena sorriu. — Mais um contrato — repetiu ela — e poderemos nos mudar. Ajudaria com as despesas, nos daria alguma margem.
— Ou poderíamos mandar tudo para o inferno e partir.
— Não vou desistir de tudo para viver na pobreza em algum lugar. Se partirmos, faremos do meu jeito.
Sam cruzou os braços.
— Fica dizendo se, mas o que mais há para decidir?
De novo: nada. Tudo.
Celaena respirou fundo.
— Como vamos nos estabelecer em uma nova cidade sem o apoio de Arobynn?
Triunfo lampejou nos olhos dele. Celaena conteve a irritação. Não dissera de imediato que concordava em se mudar, mas a pergunta era uma confirmação para os dois.
Antes que Sam pudesse responder, ela continuou:
— Crescemos aqui, mas no último mês não conseguimos nenhum contrato. Arobynn sempre cuidou dessas coisas.
— Intencionalmente — grunhiu o rapaz. — E vamos ficar bem, acho. Não vamos precisar do apoio dele. Quando nos mudarmos, deixaremos a Guilda também. Não quero pagar comissões pelo resto da vida nem quero ter nada a ver com aquele trapaceiro desgraçado, nunca mais.
— Sim, mas sabe que precisamos da bênção dele. Precisamos... reparar as coisas. E precisamos que Arobynn concorde em nos permitir deixar a Guilda em paz. — Celaena quase engasgou, mas conseguiu dizer as palavras.
Sam pulou da cadeira.
— Preciso lembrá-la do que ele fez conosco? Do que fez com você? Sabe que o motivo pelo qual não conseguimos contratos é Arobynn ter se certificado de que espalhassem por aí que não deveríamos ser abordados.
— Exatamente. E só vai piorar. A Guilda dos Assassinos nos puniria por começar um negócio próprio em outro lugar sem a aprovação de Arobynn.
O que era verdade. Embora tivessem pagado as dívidas, ainda eram membros da Guilda e ainda estavam obrigados a pagar uma comissão anual. Todos os assassinos da Guilda respondiam ao mentor. Obedeciam a ele. Celaena e Sam tinham sido mandados mais de uma vez em busca de membros que tinham se rebelado, recusado a pagar as comissões ou infringido alguma regra sagrada da Guilda. Aqueles assassinos tinham tentado se esconder, mas fora apenas uma questão de tempo antes de serem encontrados. E as consequências não foram agradáveis.
Celaena e Sam levaram a Arobynn e à Guilda muito dinheiro, além de terem conquistado bastante notoriedade, então as decisões e carreiras dos dois assassinos tinham sido monitoradas com atenção. Mesmo com as dívidas pagas, seria requisitado que pagassem um montante de rescisão se tivessem sorte. Se não... bem, seria um pedido muito perigoso a fazer.
— Então — continuou a assassina —, a não ser que queira terminar com a garganta cortada, precisamos conseguir a aprovação de Arobynn para sair da Guilda antes de partirmos. E porque parece tão apressado para sair da capital, vamos falar com ele amanhã.
Sam contraiu os lábios.
— Não vou implorar. Não a ele.
— Nem eu.
Celaena bateu os pés até a pia da cozinha, apoiando as mãos em cada ponta da pia ao olhar pela janela. Forte da Fenda. Será que poderia mesmo deixar a cidade para trás? Poderia odiá-la às vezes, mas... Aquela era sua cidade. Deixar tudo, recomeçar em uma nova cidade, em algum lugar do continente... Conseguiria fazer aquilo?
Passos estremeceram o piso de madeira, o hálito morno acariciou seu pescoço, e os braços de Sam a envolveram pela cintura. Ele apoiou o queixo na curva entre o ombro e o pescoço da assassina.
— Só quero ficar com você — murmurou o rapaz. — Não me importo para onde vamos. É tudo que quero.
Celaena fechou os olhos e apoiou a cabeça contra a dele. Sam cheirava a sabonete de lavanda, seu caro sabonete de lavanda – aquele que já alertara o jovem para nunca mais usar. Ele provavelmente não fazia ideia de por qual sabonete tinha levado uma bronca. Celaena precisaria começar a esconder os adorados itens de banho e deixar algo barato para ele. Sam não saberia a diferença mesmo.
— Peço desculpas por ter ido ao Cofres — disse o rapaz, na direção da pele dela, dando um beijo sob a orelha.
Um calafrio percorreu a espinha de Celaena. Embora estivessem compartilhando o quarto durante o último mês, ainda não tinham ultrapassado aquele último portal de intimidade. A jovem queria – e Sam certamente queria – mas tanta coisa havia mudado tão rapidamente. Algo tão monumental podia esperar um pouco mais. Contudo, isso não os impedia de aproveitarem um ao outro.
Sam beijou a orelha de Celaena, roçando os dentes no lóbulo, e as batidas do coração da assassina perderam o ritmo.
— Não use beijos para me convencer a aceitar suas desculpas — disparou ela, embora tivesse inclinado a cabeça a fim de permitir acesso a Sam.
Ele deu um risinho, o hálito acariciou o pescoço de Celaena.
— Valeu a tentativa.
— Se for para o Cofres de novo — disse ela, enquanto o rapaz mordiscava sua orelha —, vou entrar na arena e deixá-lo inconsciente.
Celaena sentiu um sorriso contra a pele.
— Você poderia tentar. — Ele mordeu a orelha da assassina, não com força o suficiente para doer, mas o bastante para dizer que tinha parado de prestar atenção.
Celaena se virou nos braços de Sam, olhando com irritação para ele, para o rosto lindo de Sam, iluminado pelo brilho da cidade, para os olhos, tão castanhos e expressivos.
— E você usou meu sabonete de lavanda. Nunca mais faça isso...
Mas então os lábios de Sam encontraram os dela, e Celaena parou de falar por um bom tempo.
No entanto, enquanto estavam ali, os corpos entrelaçados, ainda havia uma pergunta não feita – uma pergunta que nenhum dos dois ousava proferir.
Será que Arobynn Hamel os deixaria partir?

7 comentários:

  1. MDS E TAM RUIM JA SABER OQ VAI ACONTECER!to ficando triste por Sam pq a autora faz um personagem tam legal so pra mata ele q ruim q chato!!!

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  2. Eu odeio o rei de Adarlan, mas Arobynn é tão miseravelmente desprezível... E apesar de saber o que vai acontecer eu fico triste e com medo dos próximos livros porque a autora já mostrou que não tem dó de personagem.

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    1. Na minha opinião o Rei de Ardalan nem se compara ao Arobynn... Claro que o Rei fez mal pra milhares de pessoas... Mas é que o Arobynn é tão dissimulado, falso, hipócrita, cruel que chega dá um nó no estômago. ODEIO esse cara.....

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  3. Eu acho que ele talvez volte no livro Império de Tempestade, depois que eu li A Lâmina da Assassina não imagino ela com outro que não seja Sam.

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    1. EU TAMBEM NAO MAS ESSE LIVRO EXTRA E DEPOIS DE A HERDEIRA DO FOGO AI VOCE IMAGINA ELACOMO SAM DEPOIS LE RAINHA DA SOMBRAS E IMAGINA ELA COM O ROWAN

      HERDEIRA DO FOGO--> A LAMINA DA ASSASSINA-->RAINHA DAS SOMBRAS

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  4. Celaena/Aelin tão mimada!

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