8 de fevereiro de 2016

A assassina e a princesa

O dia de inverno estava quente o suficiente para que Celaena Sardothien não se preocupasse com luvas quando partiu para Forte da Fenda.
Princesa Nehemia, no entanto, estava completamente miserável. Ainda assim, ela declinou as repetidas ofertas de Celaena para tomar uma carruagem para a rua principal da cidade. Viajar de carruagem só faria o dia passar mais rápido, dissera a princesa. E desde que elas tinham reivindicado o dia apenas para desfrutar da companhia uma da outra, nenhuma delas estava com muita pressa para vê-lo acabar rapidamente.
Então elas caminharam por Forte da Fenda, vestidas tão finamente como podiam enquanto ainda estava quente – e permaneceram relativamente despercebidas. Tomaram seu tempo atravessando a cidade, embora tivessem um acordo tácito de não se aventurar perto das docas, armazéns ou em qualquer lugar que fosse uma prova viva do império de Adarlan – a conquista brutal do continente.
Tendo passado um ano como escrava, e não particularmente inclinada a discutir os tópicos da escravidão, da guerra e do inferno geral do mundo, Celaena estava mais do que feliz em manter-se nas ruas onde elas poderiam fingir ser duas jovens mulheres prontas para gastar quantias obscenas de dinheiro.
Nehemia já visitara grande parte da cidade e não gostara de quase nada do que tinha visto, mas ainda induziu Celaena em um desvio para passar pelo Teatro Real, entrando em suas padarias favoritas e lojas de doces, e estourando em algumas livrarias. Sem surpresas, no momento em que chegou à Kavill's, a melhor loja de modistas em Forte da Fenda, Celaena já tinha gasto boa parte de seu salário mensal como campeã do Rei.
Esse era outro tópico que elas tinham concordado em ignorar durante o dia.
As duas jovens fizeram uma pausa na frente da loja, e Celaena correu um olho sobre a vitrine emoldurada em rica madeira trabalhada onde dois vestidos eram exibidos – um era um vestido de baile tradicional azul, enfeitado com dourado e salpicos de turquesa; o outro era de um ousado veludo vermelho, de mangas longas e enfeitado com renda negra.
— Kavill’s — Nehemia leu a placa ornamentada da loja balançando à brisa do rio Avery. A princesa franziu o cenho para Celaena. — É muito... extravagante — disse ela em eyllwe.
De fato, além do vidro e da exposição, Celaena podia ver um aglomerado de mulheres bem-vestidas oferecendo conselhos a uma companheira que parecia uma compradora potencial.
Celaena escondeu sua própria expressão. Elas deveriam ter um horário privado. Não apenas pela segurança da princesa, cujos guardas seguiam atrás delas, mas também para facilitar as coisas para Nehemia – que odiava fazer compras, experimentar roupas ou qualquer coisa “inútil”.
— Acho que estamos adiantadas alguns minutos — Celaena disse. Nehemia ainda franzia o rosto para a loja. — Nós poderíamos entrar em uma casa de chá, se quiser, e...
— Não, não. Minhas mãos estão completamente congeladas — Nehemia respondeu, os dedos enluvados se fechando. — Vamos só entrar e esperar.
Fazia um mês desde que Celaena tinha sido nomeada Campeã do Rei – um mês durante o qual ela tivera que enfrentar todas as dificuldades que a posição exigia – mas de algum modo a ideia de entrar na Kavill’s com uma já irritada Nehemia fez os nervos de Celaena estremecerem. Ela já sentia pena do próprio Lee Kavill... E de todos os outros clientes lá dentro.
— Lembre-se — Celaena disse em eyllwe enquanto Nehemia andava em direção à porta pintada de verde. — Eu sou Lillian Gordaina e sou só...
— Uma herdeira qualquer em Forte da Fenda, eu sei — Nehemia completou, sem olhar de volta para ela, e entrou na loja.
Celaena seguiu a princesa, dando aos guardas de Nehemia um aceno conforme eles iam para suas posições: um na frente da loja, o outro dando a volta no quarteirão para guardar a porta dos fundos. Uma vez que a reunião começasse, ninguém entrava ou saía.
O cheiro de menta e lavanda dentro da Kavill’s era ao mesmo tempo familiar e estranho.
Familiar, uma vez que nos anos em que Celaena viveu em Forte da Fenda, esta havia sido sua modista favorita. Estranho, porque o ano que passou em Endovier e os meses em que estivera no castelo de vidro fizeram tudo daquela vida anterior transformar-se em algo confuso e desconhecido.
Lee Kavill, a quem Celaena tinha visitado duas vezes desde que se tornara Campeã do Rei, estava à espera do grupo de mulheres ao lado das cortinas dos provadores, seu caderno de couro preto de croquis nos braços e uma caneta de vidro na mão.
Em seus quarenta anos, Kavill era um homem de boa aparência, suas roupas simples e elegantes, apesar das ofertas extravagantes de sua loja. Ele também era silencioso. Não tímido, mas calmo. Equilibrado. Não era espalhafatoso, não forçava e tinha os olhos de um artista para as cores, os cortes e as tendências em constante mudança.
Mas esses mesmos olhos distraíram-se com a visão delas disparando entre as mulheres reunidas e seu compromisso de uma hora.
Nehemia parou assim que passou pela porta, mas Celaena adentrou alguns passos a mais na loja acarpetada de vermelho. Kavill já estava diante delas quando Celaena sorriu e estendeu as mãos.
— Estamos um pouco adiantadas — ela disse como saudação — mas ficaremos mais que felizes em esperar. — Ela inclinou a cabeça para o divã circular verde e dourado na frente da sala – um lugar geralmente reservado para damas de companhia, maridos pacientes e crianças entediadas.
Kavill tomou as mãos dela com um sorriso. Seus dedos eram tão calejados quanto os dela, apesar de seus calos e cicatrizes serem fruto de anos com agulhas e alfinetes, não lâminas.
— Marta avisou-me da reserva de uma hora de um convidado importante, mas eu não fazia ideia de que receberia tamanha honra. — Ao terminar, olhou para Nehemia e curvou-se. — As senhoritas são imensamente bem-vindas.
Claro que ele reconheceria a princesa. Enquanto era consideravelmente fácil para Celaena se misturar, não havia como esconder quem Nehemia era. Não por causa de sua pele escura e cremosa, mas porque Nehemia portava-se como uma princesa.
Não importava onde fossem ou como estavam vestidas, Nehemia sempre mantinha a cabeça naquele ângulo e mostrava aquele o brilho em seus olhos, como se tivesse saído do útero sabendo que sangue real fluía em suas veias. Como se ela sempre usasse uma coroa invisível. Celaena ainda não estava certa se invejava ou apiedava-se da princesa por isso.
Nehemia fez um aceno superficial com a cabeça – tanto respeito quanto Kavill merecia, se não mais, considerando que ele nascera como camponês e trabalhara seu caminho para cima.
— Posso oferecer a vocês meu escritório para esperar, se preferirem — Kavill disse discretamente, especialmente quando as mulheres próximas às cortinas do provador viraram-se para examinar as recém-chegadas. — Não deve demorar mais do que alguns minutos.
Foi o seu passo para o lado que finalmente o entregou – entregou o que ele estava tentando esconder delas. E Celaena poderia ter fingido não ver se Nehemia também não tivesse notado.
A garota poderia ser de Charco Lavrado ou de Eyllwe pela pele morena, mas eram os braceletes dourados gêmeos – algemas – ao redor de seus pulsos que a marcavam como escrava. Algemas de ouro, sem correntes, que haviam sido soldadas lá – e nunca sairiam.
— Podemos ir para outro lugar — Celaena disse suavemente.
Nehemia apenas encarou a menina escrava, seu rosto inexpressivo. A garota estava bem-vestida e parecia bem alimentada, mas as algemas, tão terrivelmente bonitas, cintilando na luz morna...
As mulheres estavam olhando para elas agora, mas a escrava manteve os olhos baixos. Nem mesmo se virou de frente para elas. Celaena girou os punhos, uma pontada de dor fantasmagórica passando pelas cicatrizes que marcavam onde seus próprios grilhões – de ferro que arranhava – estiveram.
Celaena pôs a mão no cotovelo de Nehemia.
— Nós podemos...
— Não — Nehemia interrompeu, desviando o olhar da menina e lançando a Kavill um sorriso suave. — Devemos esperar. Por favor – retorne ao seu trabalho. — falou, tomando um lugar no divã.
Celaena lentamente sentou-se ao lado dela, e Nehemia mostrou um sorriso mais brilhante.
Hoje, elas haviam concordado enquanto planejavam, seria apenas sobre divertirem-se – sobre deixar Celaena enfeitar Nehemia. Hoje, elas eram duas garotas, comuns e perfeitamente felizes, fazendo compras.
Celaena deu seu melhor sorriso como resposta.
Então Kavill voltou às suas clientes, a gentil Marta veio para levar suas capas e luvas e substituí-las por chá de jasmim, biscoitos delicados e uma seleção dos jornais e revistas do dia.
— Tanto trabalho — Nehemia disse quando Marta se afastou para auxiliar Kavill a tirar as medidas e verificar as necessidades das clientes. A princesa correu os olhos ao redor das paredes adornadas, os cabideiros com modelos de vestidos, as vitrines de joias, sapatos, chapéus e sombrinhas. — Tanta opulência, também.
Celaena, que observava uma das mulheres deliberar se um quarto de polegada deixaria seu decote ousado demais, olhou para a princesa.
— Se a faz sentir-se melhor, ele recusou o cargo de alfaiate real diversas vezes.
Nehemia levantou uma sobrancelha bem feita, as joias de ouro que usava reluzindo na luz dos candeeiros com formato de lírios.
— Eu não quis ser... difícil. — Ela disse na língua comum, sem um traço de seu carregado sotaque falso.
O sotaque, Celaena descobrira, era só para enganar a corte real – fazê-los pensar que ela era idiota e falar mais abertamente quando achassem que ela não podia entender. Mas Nehemia falava melhor que o mais refinado deles, e estivera usando o conhecimento que ganhara com isso para descobrir qualquer informação das tramas que poderiam ajudar na situação de seu povo escravizado.
Por isso as duas foram às compras em primeiro lugar: para encontrar vestidos que a Rainha Georgina apreciasse – vestidos que permitissem a Nehemia ser acolhida pela rainha e seu círculo pessoal, para tentar ajudar Eyllwe convencendo a esposa do Rei de Adarlan.
— Vamos apenas aproveitar a companhia uma da outra — Celaena disse, tomando um grande gole do chá de jasmim, quase suspirando pela absoluta perfeição dele, e então ajustando as camadas de seu vestido verde-floresta. Uma peça que fora feita nessa mesma loja – coisa que ela tinha certeza de que Kavill reparara.
As cinco outras clientes lançaram alguns poucos olhares na direção delas antes de finalmente deixarem a loja em um redemoinho de capas de pele, luvas de pelica e reclamações sobre o inverno infindável. A garota escrava não olhou para cima nenhuma vez, e Celaena poderia jurar ter visto a mão de Nehemia se mover quando ela passou – como se a princesa tivesse considerado abordar a garota, mas tivesse pensado melhor sobre isso.
Quando elas saíram, Marta fechou as cortinas da janela da frente, acendeu mais alguns candeeiros e as acompanhou aos sofás de seda próximis aos provadores. O próprio Kavill lhes trouxe outro ornamentado bule de chá de jasmim e encheu as duas xícaras.
 Depois de Celaena explicar que Nehemia precisaria de pelo menos quatro vestidos, dois deles de baile e todos adequados para a realeza adarlaniana, Kavill cruzou as mãos atrás das costas e marchou enquanto indagava as cores e tecidos que Nehemia mais gostava ou odiava, sua opinião sobre o tamanho dos decotes, quanta mobilidade ela desejava e continuou assim até Celaena começar a se perguntar se Nehemia explodiria.
Mas a princesa apenas sorria para o homem esguio, respondendo-o com o sotaque carregado e hesitante que usava com todos, menos Celaena. E então sentou-se pacientemente durante a apresentação de cores, tecidos, bainhas e costuras de Kavill e Marta. Não foi até que eles foram para os fundos da loja – buscar uma amostra do vestido azul na vitrine – que a princesa se vergou levemente.
— Acho que simplesmente prefiro que a costureira real me traga alguma coisa. — ela falou, lentamente — Isso é realmente o que... o  que você gosta de fazer?
Celaena estremeceu, mas sorriu.
— Quando estou no clima para isso, sim — e agora que ela tinha o ouro do rei queimando um buraco em sua bolsa, estava mais que feliz em gastar a maior parte dele. — Eu sempre gostei de coisas bonitas – vestidos, joias, sapatos... Suponho que seja fácil marcar isso como frívolo, mas um vestido como os que Kavill faz é arte. É arte, e matemática, e economia.
As sobrancelhas de Nehemia se ergueram e Celaena deu de ombros, mas virou-se para apontar o vestido justo de veludo vermelho na vitrine.
— Esse vestido de baile na vitrine – pense em como Kavill primeiro precisou inventar um design, então encontrar as medidas absolutamente corretas para igualar à imagem em sua mente, e depois encontrar o fornecedor para prover o veludo vermelho e a renda negra perfeitos. Pense sobre de onde esses tecidos vieram – o veludo do porto de Meath, a renda de Melisande, a linha que conecta a coisa toda de um fiandeiro em Charco Lavrado. Pense de onde as tinturas para o vermelho e o preto vieram, também – pense em todas as pessoas e lugares que tomaram parte na confecção desse vestido. É como um mapa do continente, e cada parte dele conta uma história, e... — Celaena suprimiu-se e bufou — bem, deixando de lado o mapa e a história, também é bonito pra caramba.
A princesa riu baixinho.
— Acho que começo a entender. Embora eu ache que você também gosta de simplesmente estar mais bonita que todo mundo, minha amiga.
Celaena riu.
— Queria poder negar isso.
Nehemia sorriu.
— Não se incomode. É por isso que gosto de você.
O coração de Celaena se apertou com isso, seu sorriso ficando mais largo.
Kavill e Marta voltaram um momento depois, e Marta levou a princesa ao provador para experimentar o vestido azul. Tirar Nehemia de suas roupas e colocar o vestido demoraria alguns minutos, então Celaena vasculhou a seleção de vestidos dispostos na loja.
Um vestido de baile cor de lavanda bordado com renda branca chamou sua atenção – e ela parou para passar as mãos sobre a seda.
— Que cor maravilhosa — ela murmurou, mais para si mesma que para Kavill, mas ele parou ao seu lado.
— Destacaria a cor de sua pele — ele observou, segurando as mangas três-quartos — Posso fazê-las compridas, se quiser.
Ela percebeu o olhar dele para suas mãos – especificamente para as cicatrizes ao redor de seus pulsos e antebraços dos grilhões de Endovier.
No castelo, ela não precisava mais fingir ser uma cortesã, e certamente não tinha vergonha de qualquer de suas cicatrizes, mas... Elas realmente atraíam atenção. E perguntas. Mangas e costas fechadas geralmente cobriam a maior parte do dano de Endovier e de dez anos treinando como assassina – mesmo que só para evitar essas perguntas. Ou olhares de pena.
— Pensarei sobre isso — ela disse, e moveu-se para o vestido de veludo vermelho na vitrine.
Ela conhecia Kavill bem o suficiente para saber que ele não perguntaria sobre as cicatrizes, não importasse o que poderia suspeitar. Ela sempre se perguntara se ele sabia quem e o quê ela realmente era – se refletira sobre sua relação com o homem ruivo que uma vez a acompanhara até ali, querendo mostrar sua afeição por sua mais talentosa aluna.
Mas Arobynn não fazia mais parte da vida dela e, na primeira vez que fora aqui como Campeã do Rei, Kavill não perguntara por ele. Não perguntou onde ela estivera, também. Por isso ela decidira trazer Nehemia para essa loja, além dos lindos vestidos. Kavill não fofocava – nem se intrometia.
Ele tinha tentado evitar que elas vissem a menina escrava pelo bem de Nehemia, ou dela? Ela não queria saber.
Nehemia emergiu do provador, já se retraindo, mas Celaena estava radiante. Até Kavill deixou escapar um suspiro de aprovação.
— Bem, estou condenada — Celaena disse, colocando uma mão no quadril enquanto sinalizava para Nehemia se virar. — Se você não comprar isso, eu nunca te perdoarei.
— É... Diferente. — Nehemia disse na língua comum, encarando Celaena novamente. — Talvez algo mais discreto...
— Tolice — Celaena interrompeu, enxotando Marta e ajustando o vestido ela mesma. — Você usará isso no próximo baile real e fará todos os homens suspirarem por você. — Ela lançou uma olhadela significativa para o amplo busto de Nehemia. — E não ouse cobri-los com um xale.
Nehemia riu, mudando para eyllwe.
— Eu nunca ousaria desobedecer a uma ordem direta sua.
Celaena sorriu e respondeu na língua comum:
— Bom. Então vamos levar um desses — ela se virou para Kavill e Marta, que estavam em pé silenciosamente a alguns metros, rabiscando anotações das medidas no livro-razão de Kavill. — Alguma ideia de que tipo de joias podem melhor acentuar isso aqui?
Kavill abriu a boca, mas Nehemia o interrompeu em eyllwe.
— Eu tenho joias de Eyllwe.
— Não acho que combinariam.
Nehemia endireitou-se e disse, ainda em eyllwe:
— Eu gostaria de algo em mim que ainda lembre às pessoas de onde vim.
Os olhos delas se encontraram, e, por um segundo, Celaena lembrou-se da noite em que Nehemia tinha entrado em seu quarto após descobrir o massacre de quinhentos rebeldes de Eyllwe. De como a princesa chorou por seu povo, pelo desamparo deles, por seu mundo escravizado.
Era por esse mundo que Nehemia lutava – a razão para ela comprar esses vestidos e desempenhar o papel de confidente da rainha.
Talvez Nehemia tivesse pensado no mesmo, porque soltou um longo suspiro e disse:
— Talvez você esteja certa, Elentiya.
Celaena não achava que Kavill ou Marta notariam o apelido que a princesa a dera – mas deu uma olhada para eles assim mesmo. Eles agora estavam apenas assistindo, seus rostos inexpressivos, mas atenciosos. Dispostos a buscar as joias e acessórios a qualquer momento. Nehemia virou-se para eles e disse, em seu sotaque perfeitamente falso:
— Mostrem-me suas joias.
E, simples assim, eles passaram por outra apresentação de colares e brincos e braceletes, então luvas e broches e prendedores de cabelo. E quando eles finalmente decidiram o que ficava melhor, Nehemia foi medida e alfinetada mais algumas vezes, e então levada ao próximo vestido. E o próximo, e o próximo.
O relógio batia quatro horas quando eles decidiram todos os modelos, joias e acessórios que Nehemia compraria. Marta já havia levado diversas xicaras quentes de chá para os guardas de Nehemia do lado de fora. Ela voltara um pouco pálida e abalada, mas pelo menos as xícaras foram esvaziadas. Os guardas de Nehemia não eram do tipo tagarela – e não eram pouco letais.
Nehemia estava empurrando biscoitos goela abaixo enquanto Celaena passeava novamente pela loja, assimilando os vestidos. Ela já tinha encomendado o lilás de renda, e desde que Kavill possuía suas medidas mais recentes, não se incomodou em experimentá-lo, a não ser para segurá-lo contra o corpo para ter certeza de que realmente amara a cor e o tecido.
Ela parou na frente do vestido de veludo vermelho exposto, correndo os dedos pelas saias. Não havia anáguas nesse tipo de vestido, nem espartilhos – ela nunca havia visto um vestido como aquele, na verdade. Nunca tinha nem ouvido de um vestido de baile daqueles, com as costas abertas revestidas com renda preta como a meia-noite, o decote mergulhando e o corpete que mostrava as formas. Deixava pouco para a imaginação – e certamente viraria cabeças.
— Você deveria experimentá-lo. — Nehemia disse em eyllwe atrás dela, terminando seu biscoito de castanhas caramelizadas. — Você esteve comendo-o com os olhos o dia inteiro.
Celaena olhou por cima do ombro, sobrancelhas erguidas.
— É... Um pouco ousado. As pessoas ficariam escandalizadas.
A princesa sorriu.
— Quem melhor para usá-lo, então?
Celaena viu-se sorrindo em resposta.
— Quem, realmente?
Assim, cinco minutos depois, Celaena encontrava-se experimentando o vestido em exposição na frente dos três espelhos em ângulo da loja, girando lentamente sem sair do lugar.
Ousado e escandaloso era só o começo.
Nehemia deu um assobio apreciativo do divã onde estava esparramada.
— O Capitão não vai saber o que fazer consigo mesmo.
Celaena fulminou-a com um olhar sobre o ombro.
— Ele não é meu problema. — Embora ela quase pudesse imaginar a cara de Chaol quando visse o vestido: lábios apertados, olhos arregalados, um pouco confuso e mais que um pouco irritado. Quase podia ouvi-lo também, as reclamações que faria sobre a Campeã do Rei gastando quantias tão exorbitantes em pouco mais que retalhos de tecido, a reputação que ela precisava manter agora que era uma funcionária do rei... Ah, ela deveria comprar o vestido, nem que fosse só para irritar Chaol.
Nehemia se aproximou, e Celaena desceu da pequena plataforma.
— Que tipo de história esse vestido te conta? — A princesa perguntou em eyllwe.
Celaena estava prestes a abrir a boca, mas ela percebeu a direção do olhar de Nehemia: as costas abertas. A renda negra fazia um bom trabalho em esconder a pior parte das terríveis cicatrizes, mas perto assim, era fácil ver a pele mutilada por baixo.
Seus olhos se encontraram e Celaena alternou para eyllwe enquanto falava:
— Você acha que eu deveria cobri-las?
A atenção de Nehemia passou para as cicatrizes por trás da renda preta. Depois de um momento, ela negou.
— Não. — Celaena virou de volta para o espelho, mas Nehemia falou novamente, sua voz um pouco baixa demais: — Com que frequencia você pensa sobre eles – sobre Endovier?
Celaena observou o próprio reflexo no espelho, o rosto que, assim como a Kavill’s, agora era algo familiar e estranho.
— Todo dia. Toda hora.
 Era uma verdade que ela não havia admitido para ninguém – talvez nem pra si mesma – até agora.
— Você os libertaria se pudesse?
Celaena voltou a cabeça para a princesa, energicamente.
— Que tipo de pergunta é essa? Claro que eu libertaria.
Elas haviam jurado – as duas juraram esta manhã – que não teriam esse tipo de conversa. E Celaena sabia exatamente aonde a discussão iria: Nehemia falaria da escravidão, do império, de como era necessário que as boas pessoas se posicionassem e lutassem.
Kavill e Marta faziam o melhor que podiam para parecer ocupados no balcão na dos fundos da sala principal. Os olhos de Kavill levantaram-se do caderno, e quando encontrou o olhar dele, Celaena percebeu que ele sabia. Ele sabia exatamente quem ela era, talvez sempre tivesse sabido. Ela não tinha certeza do porquê, mas isso a fez se sentir... Triste. Surpreendentemente, absurdamente triste.
Ela voltou a atenção para a princesa, que deu um sorriso forçado.
— Eu não deveria ter mencionado isso. — Nehemia disse. — Hoje vamos nos divertir – apenas ser jovens mulheres.
E por algum motivo, ver esse sorriso forçado fez o peso em seu peito afundar um pouco mais.
Nehemia tinha ido para a porta da frente avisar seus guardas que estava pronta  – e encontrar uma carruagem para alugar. O sol já desaparecera, junto com todo o calor do dia, e nem Celaena nem Nehemia sentiam-se particularmente inclinadas a voltar andando na noite gelada.
Celaena estava de pé ao lado do balcão de madeira polida, terminando as instruções de onde e como entregar as roupas novas de Nehemia, e pagando por suas próprias compras. Ela decidira levar o vestido vermelho, ousado e escandaloso como era. Mesmo que não comprá-lo não a fizesse sentir-se derrotada, um sentimento de perda irreparável a impedia toda vez que pensava em deixá-lo para trás.
Ela coletou a última moeda de ouro de sua bolsa e colocou no balcão, atrás do qual Kavill contava.
— O de veludo vermelho deve ficar pronto em duas semanas — ele falou, guardando a última moeda. — Alguma ocasião especial em mente?
Ela deu de ombros, olhando de relance para Nehemia, que permanecia na porta, já parecendo miserável pelo frio iminente. A própria Celaena não estava muito ansiosa para deixar o calor da loja. Ela deveria ter trazido luvas – e um casaco mais quente.
— Tenho certeza de que encontrarei algum uso para ele antes do verão.
Kavill acenou, e fechou seu grosso caderno.
— Só me deixe saber se fizer alguém desmaiar – ou começar uma rebelião.
Ela riu por sob a respiração e virou-se para ir, enfiando as mãos nos bolsos e torcendo para que seus dedos não caíssem no caminho para casa.
— Aqui — Kavill ofereceu, e ela se virou para encontrar um par cinza-claro de luvas chiques nas mãos dele. — Por conta da casa. Pelos muitos anos de preferência leal — seu rosto exibia a máscara usual de calma educada e cortesia, mas seus olhos castanhos brilhavam. — E um presente – por um ano passado sem nenhuma luva sequer.
Se antes ela ainda tinha dúvidas, agora não havia nem um traço restante. Ele sabia quem e o quê ela era, sabia onde ela passara um ano escravizada – sabia que tipo de dinheiro pagava aqueles vestidos.
Ela não tinha palavras – nenhuma que fizesse jus a toda a bondade do gesto – então simplesmente acenou com a cabeça, pegou as luvas e saiu.
A carruagem não era muito mais quente que o lado de fora. Celaena e Nehemia se amontoaram em um canto, xingando violenta e bastante criativamente o inverno interminável.
A última invenção vulgar de Nehemia fez com que Celaena risse até gritar, tão alto que um dos guardas viajando acima da carruagem bateu no teto duas vezes para perguntar se elas estavam bem. Nehemia bateu três vezes para assegurá-lo de que não havia nada errado, mas Celaena continuou rindo até seu estômago doer.
Quando tudo estava silencioso novamente, ela olhou para a amiga e enxugou as lágrimas de riso dos olhos.
— Eu pagaria muito dinheiro para ver você falar isso na frente da Rainha Georgina.
Nehemia riu, mas o sorriso não chegou aos olhos.
— Obrigada, Elentiya, por me ajudar hoje. E-eu precisava dos vestidos. E sair um pouco do castelo.
Celaena, séria, acenou com a cabeça. Elas passaram pelo bairro nobre, um borrão de casas de alabastro e telhados de esmeralda, agora cobertos por gelo e reluzindo na luz das lanternas.
— Obrigada por fingir. Por um dia, pelo menos.
Ela podia sentir os olhos de Nehemia sobre ela, mas continuou olhando para fora, as ruas molhadas, escorregadias com um dia de neve derretendo que agora se tornava gelo. Depois de um tempo, Celaena perguntou:
— Você já imaginou como seria se nós duas fôssemos realmente pessoas comuns?
A princesa mordeu o lábio.
— Às vezes.
— Você já desejou ser? Comum, quero dizer.
Nehemia ficou em silêncio por um longo tempo, seus olhos distantes, como se estivesse em uma terra longínqua, quente e vibrante, os campos de grama ondulando debaixo de um sol quente de verão.
— É o meu sonho, meu desejo mais egoísta – ser normal, comum, livre de minhas responsabilidades.
Ela não tinha percebido estar segurando a respiração, não tinha percebido quão importante a resposta de Nehemia era para ela, até ouvi-la. Celaena suspirou.
— E ainda assim, eu e você não conseguimos fingir, nem por um único dia, estarmos livres desses fardos.
— Eu sinto muito — Nehemia disse, baixinho.
— Por que está pedindo desculpas? Foi uma coisa estúpida para pedir de você, de qualquer modo.
— Queria que você pudesse simplesmente ter um amigo normal – não uma princesa, um capitão da guarda ou o filho de um rei. Apenas um amigo comum, vivendo uma vida boa e calma.
— Não estou interessada em amigos comuns. Mesmo se eu fosse somente uma menina normal, não gostaria de ser rodeada por pessoas normais. Não, eu preferiria as princesas rebeldes e os filhos de reis, os capitães rabugentos e prostitutas e ladrões a qualquer momento. E escolheria você no lugar de mil garotas comuns.
O sorriso de Nehemia tremeu – apenas o suficiente para que Celaena virasse novamente para a janela, antes que sentisse a pontada nos próprios olhos.
A carruagem fez uma curva na rua principal e o castelo de vidro ergueu-se na frente delas, esverdeado e brilhante contra o céu noturno.
— Estou feliz que não sejamos comuns, Elentiya. — Nehemia sorria na escuridão da carruagem. — Seria tão chato se fôssemos.
Celaena sorriu.
— Incrivelmente chato.
— E, se serve de consolo, eu preferiria você a um milhão de amigos, comuns ou não. Acho que mesmo que nós apenas nos encontrássemos na rua, mesmo se eu só a visse de longe, eu saberia quem você é.
Celaena inclinou a cabeça para o lado.
— Uma assassina?
Os olhos escuros de Nehemia brilhavam conforme ela sacudia a cabeça.
— Minha irmã de coração.
Celaena teve que se virar. Quando olhou de volta, não sabia quem havia alcançado quem, mas, um momento depois, sua mão apertava forte a de Nehemia.
— Acho que eu saberia também. — Celaena respondeu suavemente, encostando-se no ombro da amiga. Ambas sorrindo fracamente, a assassina e a princesa atravessaram a cidade pacífica até o castelo de vidro à frente.

Tradução: Luuh

11 comentários:

  1. Era linda a amizade delas. ... e esse vestido. ... kkkkkkk. ... lembrei de quando ela usou ele e a reação do Chaol!

    Flavia

    ResponderExcluir
  2. Isso veio agora que eu ja estava superando o ultimo livro só pra me fazer chorar mais 😭😭😭😭😭😭

    ResponderExcluir
  3. Obrigada Karina pelo seu blog fantástico e as pessoas do seu blog.vocês tornam a minha vida maravilhosa.
    Anna!!!

    ResponderExcluir
  4. Nehemia faz falta😂😂😂😂😂😂😂😄😄😄😄.Aqueceu meu coração . Obrigado por isso

    ResponderExcluir
  5. ❤❤❤ Nehemia sempre amei ❤❤❤

    ResponderExcluir
  6. Que amor❤❤❤❤❤❤❤❤

    ResponderExcluir
  7. A amizade dessas duas aqueceu o coração de uma menina sem sono às 02:05 da madrugada. Não sei se caio na gargalhada, se rio, se assinto ou se choro, se faço uma dancinha.

    ResponderExcluir
  8. A amizade dessas duas é tão fofa. E esse vestido me fez lembrar de quando a América tentou seduzir o Maxon

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)