8 de fevereiro de 2016

A assassina e o capitão

Celaena Sardothien, a maior assassina de Erilea e agora a campeã do Rei, não tinha se dado ao trabalho de apressar sua égua negra pelas ruelas de Forte da Fenda. Mesmo depois de duas semanas de viagem de ida e volta da base nas Montanhas Ararat, embora estivesse meio congelada e coberta com a poeira de cem estradas, ela não estava tão ansiosa para alcançar seu destino final.
Não se surpreendeu ao ver Chaol Westfall no pé da colina sobre a qual o castelo estava empoleirado – não estava surpresa ao ver a meia dúzia de guardas fazendo o possível para fingir não observar cada movimento seu, ou sinalizando o caminho sinuoso que ela havia tomado. Ela já tinha visto os homens que Chaol posicionara na própria cidade: nos portões das muralhas, nas esquinas, nos telhados, procurando por qualquer sinal de seu retorno.
Chaol parecia exatamente o mesmo de quando ela saiu, seu uniforme preto e dourado limpo, o pomo da espada em forma de águia reluzindo no sol do meio da manhã.
Pelo menos agora ele estava usando a própria espada. Depois de matar Cain no duelo, ele não a usara nas poucas semanas que levaram para ela se recuperar dos ferimentos. Quando saiu no mês anterior, ele ainda estava usava outra lâmina. Ainda tinha aquelas sombras em seus olhos de bronze.
Mas aquelas sombras haviam desaparecido agora, enquanto olhava por baixo da cobertura sombreada de seu capuz. Ele estava de pé ao lado do portão, os braços cruzados sobre o peito largo, aquele franzir familiar nos lábios.
Ela estalou sua língua e desmontou, jogando as rédeas para um dos guardas aguardando quando se virou para enfrentar o capitão.
— O que... sem flores?
O cenho franzido se aprofundou. Ela sorriu amplamente.
Esta tinha sido sua primeira missão, o primeiro teste de confiança e habilidade genuína. Celaena empurrou o queixo para um dos alforjes da égua. Uma enorme protuberância destacava-se sob o couro desgastado.
— Quando você acha que ele vai me dar alvos dignos da minha habilidade?
Os olhos de Chaol moveram-se de seu rosto para a cabeça no alforje da sela, então de volta para ela, o cenho franzido se aprofundando.
— Você está três dias atrasada.
Ela deu de ombros, e não esperou por sua permissão para começar a subir pelo caminho inclinado até o próprio castelo. Não, ela não precisava mais de permissão – não como campeã do Rei. Mas Chaol se enrijeceu, no entanto.
Ela riu em voz baixa.
— Tente você ir para os contrafortes das Montanhas Ararat em pleno inverno e veja se faz em melhor tempo. Eu quase perdi os dedos das mãos e dos pés de frio. — Ela retorceu o rosto em um sorriso primitivo. — Você nem quer saber como eu consegui me manter quente.
Nada. Nem mesmo um sinal de um sorriso.
Ela suspirou e olhou para o céu.
— Serei açoitada, torturada, ou apenas serei obrigada a atender a Corte da Rainha por uma tarde?
Ele não reagiu a isso, tampouco, simplesmente deu um passo para o lado dela.
— Eu não sou a pessoa a quem você tem que se explicar.
Ela lançou-lhe um olhar de soslaio.
— Você estava preocupado que eu não voltaria? — Quando ele não respondeu, ela disse: — Quanto tempo antes de você mandar seus cães para me caçar?
Ele olhou para ela desta vez, seus olhos dourados e ferozes.
— Uma semana. Eu lhe daria uma semana antes de enviar meus homens para investigar. Mas você teve sorte – as notícias da morte de Sir Carlin chegaram a nós logo depois que você... Cuidou dele.
O matou. Cortou a garganta e a cabeça. Jogou seu corpo no rio Ararat. Ela o observou em silêncio, desafiando-o a dizer, mas ele já desviara o olhar.
Eles estavam a meio caminho do longo trajeto antes de ele calmamente dizer:
— Você se machucou de alguma forma?
Ela bufou.
— Matar homens em suas camas não envolve muitos riscos.
Seus olhos se estreitaram.
E, embora soubesse que não devia, acrescentou:
— Ou envolve muita honra. É isso que você está pensando, certo?
Um músculo se contraiu em sua mandíbula.
— Eu sei o que sua posição implica.
Mas ela ainda se perguntou se ele de alguma forma teria esquecido até agora – como se o baile de Yule e o duelo com Caim o fizessem pensar que ela era outra pessoa, alguém inofensivo. Um lobo sem presas.
Mais silêncio, o castelo cada vez mais perto.
— Suponho que Sua Majestade saiba que estou aqui?
— Ele quer se encontrar com você imediatamente. E leve sua... Prova.
Ela fez uma careta.
— Eu sabia que ele queria as cabeças, mas... Ele quer vê-las na reunião? Quem estará lá?
— Que preocupação tem isso para você?
Ela deu de ombros novamente. Cada detalhe daquela reunião era uma preocupação, especialmente Chaol com seus olhos demasiado afiados e a capacidade de farejar até mesmo a mais inocente das mentiras dela.
— Eu só quero saber o quão ingênua posso ser.
— Na frente do rei? Você quer acabar de volta nas minas?
Ela deu a ele um sorriso doce.
— E aqui estava eu, pensando que ele e eu tínhamos nos tornado bons amigos.
Um reluzir de dentes.
— Você realmente não pensa...
— Um mês sem mim e você voltou a me tratar sério assim? Estamos de volta a isso?
Ela não tinha percebido quão profunda era essa pergunta até que ele parou de andar.
Por um momento, eles apenas olharam um para o outro, um momento durante o qual ela se lembrou daquele dia depois do duelo quando ele a segurou – não um capitão segurando um assassino, ou um amigo segurando um amigo, mas um homem segurando uma mulher...
Se tentasse segurá-lo agora, ele a afastaria? Ela não queria saber – não tinha a coragem de tentar.
Ou a coragem de perguntar por que ela queria.
— Eu confio em você — foi tudo o que ele disse.
— É por isso que você tinha homens em toda a cidade me espionando?
— Tinha homens em volta da cidade — disse ele com os dentes cerrados — porque eu queria ter uma chance de cumprimentá-la primeiro. Para ver se você estava bem.
Ela piscou e inclinou a cabeça. Cuidar dela, não espionar. Tinha passado tanto tempo desde que tinha tido quem se importava o suficiente para se preocupar.
Ela teve que engolir algumas vezes antes que pudesse responder.
— Claro que estou bem. — Uma resposta estúpida, mas ele começou a andar novamente. Ela o seguiu, piscando contra o brilho da neve derretida do castelo de vidro. — Mas se eu não estivesse bem — ela ousou perguntar — o que você teria feito?
Um encolher daqueles ombros poderosos.
— Não importa agora.
— Chaol.
Ele não olhou para ela quando respondeu.
— Eu teria feito o que precisasse fazer.
Ela rangeu os dentes.
— Pare de ser tão cauteloso.
— Eu não vejo como saber faz qualquer diferença.
Ela sentiu suas narinas inflarem, mas manteve sua boca fechada.
Tudo bem. Chegaram aos portões da frente do castelo. A agitação habitual dos cortesãos, dos servos, dos guardas e dos visitantes não foi diminuída pelo dia frio. Ela olhou para as torres superiores, seu estômago torcendo em mais do que a ideia de subir todas aquelas escadas para a sala do conselho do rei.
Tanto dependia dessa reunião – tanto que não se atreveu a pensar nisso. E certamente não na frente de Chaol, que podia ler seu rosto com uma facilidade enervante.
Então ela sorriu antes que ele pudesse se virar para vislumbrar seu rosto, para descobrir a dúvida e o medo embaixo. Confiança absoluta, arrogância absoluta: seus melhores e mais amadoas escudos e máscaras.
— Espero que Sua Majestade tenha uma mesa decente de comida para eu comer enquanto estiver sendo interrogada.
— Cuidado com a boca ou a única coisa que comerá será carvão quente.
— Você realmente faz isso às pessoas?
Seus olhos se estreitaram.
— Por que tipo de pessoa me toma?
— Você é o capitão da Guarda do homem mais poderoso do mundo. Wyrd sabe que coisas horríveis você fez às pessoas.
— Você deve estar nervosa como o inferno se está recorrendo a me provocar.
Ela não deixaria que isso a balançasse, não permitiria que o sorriso ou a presunção a parassem por um instante. Mas ela hesitou diante dos grandes e amplos degraus da frente do castelo. As melhores mentiras eram sempre misturadas com a verdade – que o deixasse acreditar no que quisesse.
— Você conhece minha história com Sua Majestade.
Afinal, ele foi o único a trazê-la para o encontro com o rei no primeiro dia da competição. Ele a vira quase em pânico ao pensar em encontrá-lo, vendo-a pálida.
Sem dúvida, ele estava pensando no mesmo encontro. Seus olhos se suavizaram, e ele colocou uma mão no ombro dela.
— Apenas seja educada. Submissa.
— Esse é um verdadeiro desafio digno de mim.
Um meio sorriso.
— Se for bem comportada, vou mandar um bolo de chocolate com avelã aos seus aposentos durante nosso almoço.
— Nosso almoço?
Uma sugestão de cautela, mas um sorriso crescente.
— A menos que você tenha outra pessoa com quem prefira comer?
Ela mastigou o interior de seu lábio, olhando para uma das torres de pedra – a torre em que Dorian tinha seus quartos. Ela quis dizer cada palavra que havia dito ao Príncipe Herdeiro naquele dia em que terminara as coisas entre eles, e manteve distância desde então.
Então não... Não havia mais ninguém com quem pudesse comer hoje, nem mesmo Nehemia.
— Suponho que poderia suportar o almoço com você — disse ela.
Ela não podia deixar de se perguntar se o sorriso dele era de diversão ou algo mais. Mas a absoluta força de seu sorriso era suficiente para fazer o mundo parar.
— Eu senti sua falta — ela admitiu.
O sorriso de Chaol falhou, e ele a encarou de novo – questionando, calculando, perguntando. Ela esperou que ele olhasse ao redor, para refletir sobre as pessoas que os assistiam e como melhor responder, mas ele continuou olhando para ela. Como se o mundo tivesse feito uma pausa para ele também.
E então ele riu em voz baixa, mais para si mesmo do que para ela, e disse:
— Era chato como o inferno sem você aqui.
Ela riu, e subiu os degraus para dentro do castelo. E embora não o segurasse, e embora ele não lhe oferecesse o braço, eles caminharam um pouco mais perto enquanto se dirigiam ao rei.

Tradução: Kethelem Jully

8 comentários:

  1. Como não amar esses dois? Celaena, nossa assassina preferida, sempre será do Chaol ♡

    ResponderExcluir
  2. Não importam o que tenha acontecido, amo Chaolaena e o protegerei eternamente ( eles eram tão bonitinhoooss) ahhh ;-;

    ResponderExcluir
  3. Eu shipava tanto esses dois. .. mas a fila anda né!

    Flavia

    ResponderExcluir
  4. eu adoro esses dois
    a caelena a maior assassina que existe e o Chaol o capitão da guarda são perfeitos uma para o outro!!!
    É muito fofo ver que os dois se gostam verdadeiramente, e mesmo com as mentiras, segredos e máscaras os dois ainda são o ponto de equilíbrio um do outro. E as coisas que eles fazem juntas não são algo extrapolante, que chama muita atenção, são coisas simples de dia-a-dia e quando há um momento dos dois juntos é algo simples e romântico
    As brincadeiras, as provocações, as brigas e até mesmo as desconfianças fazem com que eles pareçam um casal mais real e muito mais fofo. Muitas vezes ao ler eu cheguei a pensar e até mesmo em alguns momentos que não aguentava eu falava "se casem logo", "se beijem de uma vez" ou "se agarrem logo "
    #Chaolaena

    ResponderExcluir
  5. É tão dificil ler isso depois de tudo que acontece nos outros livros... Até doi,eu sinto tanta falta disso :

    — Se for bem comportada, vou mandar um bolo de chocolate com avelã aos seus aposentos durante nosso almoço.
    — Nosso almoço?
    Uma sugestão de cautela, mas um sorriso crescente.
    — A menos que você tenha outra pessoa com quem prefira comer?

    Das provocações..Sarah não tinha o direito..

    ResponderExcluir
  6. Celaena era tão menina..em comparação aos dois últimos livros

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)