15 de janeiro de 2016

Capítulo 9 - Teoria

— Posso... Posso fazer só mais uma pergunta? — gaguejei depressa enquanto ela acelerava rápido demais na rua silenciosa.
Eu não estava com pressa de responder à pergunta dela.
Ela balançou a cabeça.
— Nós tínhamos um acordo.
— Não é exatamente uma pergunta — argumentei. — Só um esclarecimento de uma coisa que você disse antes.
Ela revirou os olhos.
— Que seja rápido.
— Bom... Você disse que sabia que eu não tinha entrado na livraria e que fui para o sul. Estou aqui me perguntando como sabia disso.
Ela refletiu por um momento.
— Pensei que tínhamos deixado as evasivas para trás — murmurei.
Ela me lançou um olhar de foi você que pediu.
— Tudo bem, então. Eu segui o seu cheiro.
Não tive resposta para isso. Fiquei olhando pela janela, tentando absorver a informação.
— Sua vez, Beau.
— Mas você não respondeu a minhas outras perguntas.
— Ah, pare com isso.
— Estou falando sério. Você não me falou como é que isso funciona, esse negócio de ler a mente. Você consegue ler a mente de qualquer um, em qualquer lugar? Como faz isso? Toda a sua família é capaz de fazer a mesma coisa?
Era mais fácil falar disso no carro escuro. As luzes dos postes já tinham ficado para trás, e, no brilho fraco do painel, todas as coisas malucas pareciam um pouco mais possíveis.
Parecia que ela tinha a mesma sensação de não realidade, como se a normalidade estivesse pausada enquanto estivéssemos naquele espaço juntos. A voz saiu casual quando ela respondeu.
— Não, só eu. E não consigo ouvir todo mundo, em qualquer lugar. Tenho que estar bem perto. Quanto mais conhecida for a... “voz” da pessoa, maior a distância em que posso ouvi-la. Mas ainda assim, só a poucos quilômetros. — Ela parou pensativamente. — É meio como estar em uma sala enorme cheia de gente, todas falando ao mesmo tempo. É como um zumbido, um murmúrio de vozes ao fundo. Até que me concentro em uma só voz, e depois o que ela está pensando fica claro.
“Na maior parte do tempo, fico fora de sintonia. Isso tudo pode ser muito incômodo. E é mais fácil parecer normal — ela franziu a testa quando disse a palavra — quando não estou respondendo sem querer aos pensamentos de alguém, em vez de às palavras.
— Por que acha que não consegue me ouvir? — perguntei, curioso.
Ela olhou para mim, os olhos parecendo perfurar os meus, com aquela expressão frustrada que eu conhecia bem. Percebi agora que cada vez que ela me olhava daquele jeito, ela devia estar tentando ouvir meus pensamentos e fracassando. A expressão relaxou quando ela desistiu.
— Não sei — murmurou. — Talvez sua mente não funcione da mesma maneira que a mente dos outros. Como se seus pensamentos estivessem na frequência AM e eu só pegasse FM. — Ela deu um sorriso para mim, divertindo-se de repente.
— Minha mente não funciona bem? Eu sou alguma aberração? — A especulação dela ficou clara. Eu sempre suspeitei disso e me constrangi com a confirmação.
— Eu ouço vozes na cabeça e você está com medo de ser a aberração. — Ela riu. — Não se preocupe, é só uma teoria... — O rosto dela se enrijeceu. — O que nos leva de volta a você.
Franzi a testa. Como diria isso em voz alta?
— Pensei que tivéssemos deixado as evasivas para trás — lembrou ela delicadamente.
Desviei os olhos de seu rosto, tentando reunir os pensamentos em palavras, passei os olhos pelo painel... e vi o velocímetro.
— Caramba! — gritei.
— Qual é o problema? — perguntou ela, olhando para a direita e para a esquerda em vez de para a frente, para onde devia estar olhando. O carro não desacelerou.
— Está indo a 180 por hora! — Eu ainda estava gritando.
Lancei um olhar de pânico pela janela, mas estava escuro demais para ver grande coisa. O caminho só era visível no longo trecho de luz azulada dos faróis. A floresta junto às margens da estrada era como um muro preto: duro feito uma barreira de aço se derrapássemos na estrada nesta velocidade.
— Relaxe, Beau. — Ela revirou os olhos, ainda sem reduzir.
— Está tentando nos matar? — perguntei.
— Não vamos bater.
Tentei modular a voz.
— Por que estamos com tanta pressa, Edythe?
— Eu sempre dirijo assim. — Ela se virou para me dar um sorriso.
— Não tire os olhos da estrada!
— Nunca sofri um acidente, Beau. Nunca fui nem multada. — Ela sorriu e deu um tapinha na testa. — Detector embutido de radar.
— Mãos no volante, Edythe!
Ela suspirou, e vi com alívio o ponteiro aos poucos cair para os 130.
— Satisfeito?
— Quase.
— Odeio dirigir devagar — resmungou ela.
— Isso é devagar?
— Chega de comentários sobre como eu dirijo — rebateu ela. — Ainda estou esperando sua resposta.
Forcei os olhos para longe da estrada à frente, mas não sabia para onde olhar. Era difícil olhar para o rosto dela sabendo a palavra que eu teria que dizer agora. Minha ansiedade deve ter ficado óbvia.
— Prometo que não vou rir desta vez — disse ela delicadamente.
— Não estou preocupado com isso.
— Com o quê, então?
— Se você vai ficar... chateada. Infeliz.
Ela tirou a mão do câmbio e esticou na minha direção, só alguns centímetros. Uma oferta. Olhei para ela rapidamente, para ter certeza de que tinha entendido, e os olhos dela estavam suaves.
— Não se preocupe comigo — disse ela. — Consigo aguentar.
Segurei a mão dela, e ela envolveu meus dedos com os dela com delicadeza por um breve segundo, depois baixou de novo até o câmbio. Com cuidado, coloquei a mão em cima da dela de novo. Passei o polegar pela parte externa da mão, do pulso até a ponta do mindinho. A pele era tão macia, ainda que não cedesse. Mas macia como cetim. Ainda mais, até.
— O suspense está me matando, Beau — sussurrou ela.
— Desculpe. Não sei como começar.
Houve outro longo momento de silêncio, só com o zumbido do motor e o som da minha respiração pesada. Eu não conseguia ouvir a dela. Acompanhei novamente a lateral da mão perfeita dela.
— Por que você não começa do início? — sugeriu ela, a voz mais normal agora. Prática. — É uma coisa que você pensou sozinho ou alguma coisa levou você a essa conclusão, como um gibi ou um filme?
— Nada assim — falei. — Mas não pensei sozinho.
Ela esperou.
— Foi no sábado. Na praia.
Arrisquei uma olhada para a cara dela, que parecia confusa.
— Encontrei uma velha amiga da família, Jules. Julie Black. A mãe dela, Bonnie, e Charlie são amigos desde que eu era bebê.
Ela ainda parecia confusa.
— Bonnie é uma das líderes dos quileutes...
A expressão de confusão pareceu congelar no rosto dela. Era como se todas as partes planas do rosto tivessem virado gelo. Estranhamente, ela ficou ainda mais linda assim, uma deusa de novo na luz do painel. Mas não parecia muito humana.
Ela ficou parada, e senti que devia explicar o resto.
— Tinha uma mulher quileute na praia, Sam alguma coisa. Logan fez um comentário sobre você, tentando tirar sarro com a minha cara. E essa Sam disse que sua família não ia à reserva, só que pareceu que ela queria dizer mais do que isso. Jules pareceu saber do que a mulher estava falando, então fiquei sozinho com ela e enchi o saco dela até ela me contar... as lendas antigas dos quileutes.
Fiquei surpreso quando ela falou. O rosto dela estava muito parado e os lábios quase não se moveram.
— E que lendas eram essas? O que Jules Black disse que eu era?
Abri um pouco a boca, mas voltei a fechar.
— O quê?
— Não quero dizer — admiti.
— Também não é minha palavra favorita. — O rosto dela se aqueceu um pouco; ela parecia humana de novo. — Mas não dizer não faz com que suma. Às vezes... acho que não dizer torna a palavra mais poderosa.
Eu me perguntei se ela estava certa.
— Vampira? — sussurrei.
Ela se encolheu.
Não. Dizer em voz alta não tornava a palavra menos poderosa.
Engraçado como não parecia mais idiotice, como pareceu no meu quarto. Não parecia que estávamos falando sobre coisas impossíveis, sobre lendas antigas ou filmes e livros de terror imbecis. Pareceu real.
E muito poderoso.
Seguimos em silêncio por mais um minuto, e a palavra vampira pareceu ficar cada vez maior dentro do carro. Não parecia pertencer a ela, na verdade, era mais como se tivesse o poder de machucá-la. Tentei pensar em alguma coisa, qualquer coisa que apagasse o som da palavra.
Antes que eu pudesse pensar em alguma coisa, ela falou.
— O que você fez depois?
— Ah. Hã, eu pesquisei um pouco na internet.
— E isso o convenceu? — Ela foi bem objetiva.
— Não. Nada se encaixava. A maior parte das coisas era meio boba. Mas eu...
Parei abruptamente. Ela esperou, depois olhou para mim, quando não terminei.
— Você o quê? — insistiu ela.
— Ah, não importa, não é? Então eu deixei pra lá.
Ela arregalou os olhos, mas de repente os apertou bem na minha direção. Eu não queria ter que dizer de novo que ela devia olhar para onde estava indo, mas a velocidade passou de 150 agora, e ela parecia totalmente alheia à estrada curva à nossa frente.
— Hã, Edythe...
— Não importa? — Ela meio falou, meio gritou, com a voz aguda e quase... metálica. — Não importa?
— Não. Não para mim, pelo menos.
— Você não liga que eu seja um monstro? Que eu não seja humana?
— Não.
Ela voltou a olhar para a estrada, com os olhos ainda apertados de raiva. Consegui sentir o carro acelerando embaixo de mim.
— Você está chateada. Está vendo, eu não devia ter dito nada — murmurei.
Ela balançou a cabeça e respondeu por entre dentes.
— Não, eu prefiro saber o que você está pensando, mesmo que seja loucura.
— Desculpe.
Ela deu um suspiro exasperado, depois ficou em silêncio de novo por alguns minutos. Passei o polegar lentamente pela mão dela.
— Em que você está pensando agora? — perguntou ela. A voz estava mais calma.
— Hã... em nada, na verdade.
— Fico louca de não saber.
— Não quero... sei lá, ofender você.
— Bota pra fora, Beau.
— Tenho muitas perguntas. Mas você não precisa responder. Só estou curioso.
— Sobre o quê?
— Quantos anos você tem.
— Dezessete.
Fiquei olhando para ela por um minuto, até parte dos lábios dela se erguerem em um sorriso.
— Há quanto tempo você tem 17 anos? — perguntei.
— Há algum tempo — admitiu ela.
Eu sorri.
— Tudo bem.
Ela me olhou como se eu tivesse perdido a cabeça.
Mas isso era melhor. Mais fácil, com ela sendo ela mesma, sem se preocupar em me deixar no escuro. Eu gostava de saber das coisas. O mundo dela era onde eu queria estar.
— Não ria... mas como você pode sair durante o dia?
Ela riu mesmo assim.
— Mito.
O som da gargalhada dela foi caloroso. Senti como se tivesse engolido um raio de sol. Meu sorriso ficou maior.
— Queimada pelo sol?
— Mito.
— Dormir em caixões?
— Mito. — Ela hesitou por um momento e acrescentou, baixinho: — Eu não durmo.
Levei um minuto para absorver essa informação.
— Nunca?
— Nunca — murmurou ela. E se virou para me olhar com uma expressão pensativa. Sustentei o olhar e me perdi no tom dourado. Depois de alguns segundos, perdi completamente a linha de pensamento.
De repente, ela virou o rosto e apertou os olhos de novo.
— Você ainda não me fez a pergunta mais importante.
— A pergunta mais importante? — repeti. Não consegui pensar no que ela queria dizer.
— Não está curioso com a minha dieta? — perguntou ela com tom debochado.
— Ah. Isso.
— É. Isso — disse ela friamente. — Você não quer saber se bebo sangue?
Eu fiz uma careta.
— Bom, Jules disse alguma coisa sobre isso.
— Disse?
— Ela disse que vocês não... caçam pessoas. Disse que sua família não devia ser perigosa porque vocês só caçavam animais.
— Ela disse que não éramos perigosos? — A voz dela estava profundamente cética.
— Não exatamente. Jules disse que vocês não deviam ser perigosos. Mas os quileutes não querem vocês nas terras deles mesmo assim, por segurança.
Ela olhou para a frente, mas eu não sabia se estava vendo a estrada.
— E aí, ela estava certa? Sobre não caçar pessoas? — Tentei manter minha voz o mais estável possível.
— Os quileutes têm boa memória — sussurrou ela. Tomei isso como confirmação. — Mas não permita que isso o deixe complacente — alertou ela. — Eles têm razão em manter distância de nós. Ainda somos perigosos.
— Não entendi.
— Nós... tentamos — explicou ela. A voz foi ficando mais pesada e mais lenta. — Em geral, somos muito bons no que fazemos. Às vezes, cometemos... erros. Eu, por exemplo, me permitindo ficar sozinha com você.
— Isso é um erro? — Ouvi a tristeza em minha voz, mas não sabia se ela também tinha percebido.
— Um erro muito perigoso — murmurou ela.
Nós dois ficamos em silêncio. Olhei os faróis girando com as curvas da estrada. Andavam rápido demais; não parecia real, parecia um videogame. Eu estava ciente de que o tempo passava rapidamente, como a estrada escura diante de nós, e senti um medo pavoroso de nunca ter outra oportunidade de estar com ela assim de novo, abertamente, sem os muros entre nós, pelo menos uma vez. O que ela estava dizendo parecia... uma despedida.
Apertei a mão sobre a dela. Eu não podia perder um minuto que fosse com ela.
— Me conte mais. — Eu não me importava com o que ela diria, só queria ouvir sua voz.
Ela me olhou rapidamente, sobressaltada com a mudança em meu tom de voz.
— O que mais quer saber?
— Me conte por que vocês caçam animais em vez de gente — falei.
Foi a primeira pergunta em que consegui pensar. Minha voz soou rouca. Pisquei duas vezes para afastar a umidade dos olhos.
A resposta dela foi em voz baixa.
— Eu não quero ser um monstro.
— Mas os animais não bastam?
Ela fez uma pausa.
— Não posso ter certeza, mas eu compararia a viver de tofu e leite de soja; nós nos dizemos vegetarianos, nossa piadinha particular. Não sacia completamente a fome, ou melhor, a sede. Mas nos deixa fortes o suficiente para resistir. Na maior parte do tempo. — Sua voz ficou agourenta. — Às vezes, é mais difícil.
— Está muito difícil para você agora? — perguntei.
Ela suspirou.
— Está.
— Mas agora você não está com fome — eu disse, afirmando e não perguntando.
— Por que pensa assim?
— Seus olhos. Tenho uma teoria sobre isso. Parece que a cor está ligada ao seu humor, e as pessoas costumam ficar mais mal-humoradas quando estão com fome, não é?
Ela riu.
— Você é mais observador do que eu achava.
Ouvi o som da risada dela para guardar na memória.
— Então tudo que eu pensei que vi naquele dia da van. Tudo aquilo aconteceu de verdade. Você segurou a van.
Ela deu de ombros.
— Foi.
— O quanto você é forte?
Ela olhou para mim de rabo de olho.
— Bem forte.
— Tipo, conseguiria levantar duas toneladas?
Ela pareceu meio abalada com meu entusiasmo.
— Se eu precisasse. Mas não sou de demonstrações de força. Isso deixa Eleanor competitiva, e nunca vou ser tão forte assim.
— Quanto?
— Sinceramente, se ela quisesse, acho que conseguiria levantar uma montanha sobre a cabeça. Mas eu jamais diria isso perto dela, porque aí ela teria que tentar. — Ela riu, e foi um som relaxado. Carinhoso.
— Você foi caçar no fim de semana com Eleanor? — perguntei quando ela ficou em silêncio de novo.
— Fui. — Ela parou por um segundo, como se decidindo se diria ou não alguma coisa. — Eu não queria ir, mas era necessário. É um pouco mais fácil ficar perto de você quando não estou com sede.
— Por que não queria ir?
— Me deixa... angustiada... ficar longe de você. — Seus olhos eram gentis, mas intensos, e pareciam dificultar minha respiração. — Eu não estava brincando quando lhe pedi para tentar não cair no mar nem ser atropelado na quinta passada. Fiquei dispersa o fim de semana todo, preocupada com você. E depois do que aconteceu esta noite, é uma surpresa que você tenha passado por todo o fim de semana incólume. — Ela balançou a cabeça, depois pareceu se lembrar de alguma coisa. — Bom, não totalmente incólume.
— Como é?
— Suas mãos — lembrou ela. Olhei para as palmas das mãos, para os arranhões quase curados. Ela não perdia nada.
— Eu caí.
— Foi o que pensei. — Seus lábios se curvaram nos cantos. — Imagino que, sendo você, podia ter sido muito pior. E essa possibilidade me atormentou o tempo todo em que estive fora. Foram três dias muito longos. Eu dei nos nervos de Eleanor.
— Três dias? Você não voltou hoje?
— Não, voltamos no domingo.
— Então por que não foram à escola? — Eu estava frustrado, quase com raiva ao pensar no quanto a ausência dela me afetou.
— Bom, você perguntou se o sol me machucava, e não machuca. Mas não posso sair na luz do sol. Pelo menos, não onde todo mundo possa ver.
— Por quê?
— Um dia eu mostro — prometeu ela.
Pensei nisso por um momento.
— Você podia ter me telefonado.
Ela ficou confusa.
— Mas eu sabia que você estava bem.
— É, mas eu não sabia onde você estava. Eu... — Hesitei, baixando os olhos.
— O quê? — A voz sedosa era tão hipnótica quanto os olhos.
— Vai parecer besteira... mas, bem, eu meio que surtei. Achei que você talvez não voltasse. Que sabia que eu sabia e... fiquei com medo de você desaparecer. Eu não sabia o que ia fazer. Eu tinha que ver você de novo.
Minhas bochechas começaram a ficar quentes.
Ela ficou em silêncio. Olhei para ela, que parecia abalada, como se alguma coisa a estivesse machucando.
— Edythe, você está bem?
— Ah — gemeu ela, baixinho. — Isso é um erro.
Não consegui entender a resposta dela.
— O que eu disse?
— Não vê, Beau? Uma coisa é eu ficar infeliz, outra bem diferente é você se envolver tanto. — Ela virou os olhos angustiados para a estrada, suas palavras fluindo quase rápidas demais para que eu entendesse. — Não quero ouvir que você se sente assim. É errado. Não é seguro. Vou machucar você, Beau. Você vai ter sorte se sair vivo.
— Não ligo.
— É uma coisa muito idiota de se dizer.
— Pode ser, mas é verdade. Já falei, não importa o que você é. É tarde demais.
A voz dela soou baixa e ríspida.
— Nunca diga isso. Não é tarde demais. Posso fazer as coisas voltarem a ser como eram. Vou fazer isso.
Fiquei olhando para a frente, feliz de novo pelo cachecol. Meu pescoço era um amontoado de manchas vermelhas, eu tinha certeza.
— Não quero que as coisas voltem a ser como eram — murmurei.
Eu me perguntei se devia afastar a mão. Mas fiquei parado. Talvez ela esquecesse que estava ali.
— Me desculpe por ter feito isso com você. — A voz dela ardia de arrependimento.
A escuridão deslizava por nós em silêncio. Percebi que o carro estava indo mais devagar, e mesmo no escuro reconheci alguns lugares. Estávamos passando pelos limites de Forks. Demorou menos de vinte minutos.
— Vou ver você amanhã?
— Você quer? — sussurrou ela.
— Mais do que qualquer outra coisa que já quis.
Era patético o quanto as palavras eram verdadeiras. Seria impossível eu bancar o difícil.
Ela fechou os olhos. O carro não se desviou nem um centímetro do centro da pista.
— Então, eu estarei lá — disse ela. — Tenho que entregar um trabalho.
Ela olhou para mim, e o rosto estava mais calmo, mas os olhos estavam perturbados.
De repente, estávamos diante da casa de Charlie. As luzes estavam acesas, minha picape no lugar dela, tudo completamente normal. Era como acordar de um sonho, o tipo de sonho que você não quer que escape, o tipo pelo qual você ficava de olhos apertados, rolava e cobria a cabeça com um travesseiro, tentando encontrar um jeito de voltar para ele. Ela parou o carro, mas eu não me mexi.
— Você guarda meu lugar no almoço? — perguntei com hesitação.
Fui recompensado com um sorriso largo.
— Isso é fácil.
— Promete? — Não consegui deixar meu tom leve o bastante.
— Prometo.
Olhei nos olhos dela, e foi como se ela fosse um ímã de novo, como se estivesse me puxando para ela e eu não tivesse força para resistir. Eu não queria tentar. A palavra vampira ainda estava entre nós, mas era mais fácil ignorar do que eu acharia possível. O rosto dela era tão insuportavelmente perfeito que doía de um jeito estranho olhar para ela. Ao mesmo tempo, eu nunca quis afastar o olhar. Eu queria saber se os lábios dela eram tão macios e sedosos como a pele da mão...
De repente, a mão esquerda dela estava ali, com a palma para fora, a dois centímetros do meu rosto, me avisando para recuar, e ela estava encolhida contra a porta do carro, os olhos arregalados e assustados e os dentes trincados.
Eu pulei para longe dela.
— Desculpe!
Ela ficou me olhando por um longo momento, e eu podia jurar que não estava respirando. Depois de um tempo, ela relaxou um pouco.
— Você tem que tomar mais cuidado, Beau — disse ela com a voz seca.
Com cautela, como se fosse feita de vidro, a mão esquerda tirou a minha de cima da direita dela e soltou.
Eu cruzei os braços sobre o peito.
— Talvez... — começou ela.
— Posso fazer ainda melhor — falei, interrompendo-a. — Me diga quais são as regras e eu as sigo. O que você quiser de mim.
Ela suspirou.
— É sério. Me mande fazer alguma coisa e eu vou fazer.
Arrependi-me das palavras assim que saíram da minha boca. E se ela me pedisse para esquecê-la? Havia algumas coisas que eu não tinha como fazer.
Mas ela sorriu.
— Tudo bem, tem uma coisa.
— Tem? — perguntei, cauteloso.
— Não vá à floresta sozinho.
Consegui sentir a surpresa no meu rosto.
— Como você sabia disso?
Ela tocou a ponta do nariz.
— É sério? Você deve ter um sentido incrível...
— Você vai concordar com o que pedi ou não? — interrompeu ela.
— Claro, isso é fácil. Posso perguntar por quê?
Ela franziu o cenho, e seus olhos estavam semicerrados ao fitar pela janela atrás de mim.
— Nem sempre eu sou a coisa mais perigosa por lá. E vamos parar por aqui.
A súbita frieza na voz dela me deu um ímpeto de estremecer, mas também fiquei aliviado. Ela poderia ter pedido uma coisa bem mais difícil.
— Como quiser.
Ela suspirou.
— Vejo você amanhã, Beau.
Eu sabia que ela queria que eu fosse agora. Abri a porta sem vontade.
— Amanhã — eu disse, com ênfase na palavra. Comecei a sair.
— Beau?
Eu me virei e me inclinei, desajeitado, e ela estava inclinada na minha direção, o rosto pálido de deusa a centímetros do meu. Meu coração parou de bater.
— Durma bem — disse ela.
Seu hálito soprou em meu rosto; era o mesmo aroma atraente que assombrava o carro, mas de forma mais concentrada. Eu pisquei, totalmente perplexo. Ela se afastou.
Demorei alguns segundos até meu cérebro se estabilizar e eu conseguir voltar a me mexer. Saí do carro, mas precisei me apoiar na porta. Pensei ter ouvido Edythe rir, mas o som foi baixo demais para que eu tivesse certeza.
Ela esperou até que eu cambaleasse para a porta da frente e depois ouvi o motor acelerar baixinho. Eu me virei e vi o carro prata desaparecer na esquina. Percebi que estava muito frio.
Peguei a chave mecanicamente e destranquei a porta.
— Beau? — chamou meu pai da sala.
— É, pai, sou eu. — Tranquei a porta e fui até lá para vê-lo. Ele estava no sofá favorito, com um jogo de basquete na TV.
— O filme acabou cedo?
— Está cedo? — Parecia que eu tinha ficado dias com ela... ou talvez só alguns segundos. Não tempo suficiente.
— Ainda não são nem oito horas — disse ele. — O filme foi bom?
— Hã, não muito, na verdade.
— O que é isso no seu pescoço?
Peguei o cachecol que tinha esquecido e tentei arrancar fora, mas estava enrolado demais no meu pescoço e só me enforquei.
— Hã, eu esqueci de levar casaco e me emprestaram um cachecol.
— Ficou esquisito.
— É, imaginei. Mas esquenta.
— Está tudo bem? Você está meio pálido.
— Não estou sempre meio pálido?
— Acho que sim.
Na verdade, minha cabeça estava girando, e eu ainda estava com frio, apesar de saber que a sala estava quente. Não seria a minha cara acabar entrando em choque?
Controle-se.
— Eu, hã, não dormi muito bem ontem — falei para Charlie. — Acho que vou cair na cama cedo.
— Boa noite, garoto.
Subi a escada devagar, um estupor pesado nublando minha mente. Eu não tinha motivo para estar tão exausto e nem com tanto frio. Escovei os dentes e joguei água quente no rosto; isso me fez tremer. Não me dei nem ao trabalho de mudar de roupa, só tirei os sapatos e subi na cama de roupa, a segunda vez em uma semana. Enrolei-me no cobertor e lutei contra uma série de pequenos tremores.
Minha mente girava como se eu estivesse tonto. Estava cheia de impressões e imagens, algumas que eu queria ver melhor, algumas que não queria recordar. A estrada passando rápido demais, a luz amarela e fraca do restaurante cintilando no cabelo metálico dela, a forma dos lábios quando ela sorria... quando franzia a testa...
Os olhos de Jeremy se esbugalhando, os faróis vindo na minha direção, a arma apontada para o meu rosto enquanto o suor frio cobria minha testa. Minha cama tremeu junto comigo.
Não, havia coisas demais que eu queria lembrar, queria cimentar na mente, para perder tempo com as coisas desagradáveis. Tirei o cachecol que ainda estava usando e inspirei o aroma dela. Quase imediatamente, meu corpo relaxou e os tremores pararam. Imaginei o rosto dela, cada ângulo, cada expressão, cada humor.
Eu tinha certeza de algumas coisas. Primeiro, Edythe era uma vampira de verdade. Segundo, havia uma parte dela que me via como alimento. Mas, no final, nada disso importava. A única coisa que importava era que eu a amava, mais do que imaginei que fosse possível amar alguma coisa. Ela era tudo que eu queria, a única coisa que eu quereria na vida.

16 comentários:

  1. Uouuuuu Acho que tá ficando melhor que eu esperava!

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  2. É a primeira vez que eu leio sobre um garoto tentando bancar o difícil... é interessante.

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  3. É estranho, acho o original melhor, por exemplo como poderia existir a Renesmee??

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    1. Então.. não existiria. Ou ela seria filha de outra pessoa... sei lá

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    2. Tipo da Julie kkk

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    3. A autora mudou o final(espero nao estar dando spoiler), vai ter que ler para entender

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  4. não existirá!, pq a autora ficara apenas neste livro.

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  5. LADY.DOCETE.BEWARD.BEADITHE.4 de abril de 2016 00:05

    Sabe, desde do começo sabia que veria algo diferente e legal aqui. Lembro me que quando descobri que eo livro saiu fiz dancinha da Vitória. E hoje sai gritando eu amo beward e também amo beadithe. Claro que me acharam maluca...

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  6. No começo tava achando estranho me acostumar com a ideia dos gêneros trocados más agora vejo que esta sendo legal ver a historia de um jeito diferente,Esta a cada capitulo mais interessante ansiosa para ler o final ❤

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  7. — Pode ser, mas é verdade. Já falei, não importa o que você é. É tarde demais.
    A voz ----dele---- soou baixa e ríspida.
    — Nunca diga isso. Não é tarde demais. Posso fazer as coisas voltarem a ser como eram. Vou fazer isso.

    Acho que é dela.

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    1. Corrigido, Sandra. Obrigada por avisar :)

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  8. As vzs ainda estranho, imagino berma e Edward , mais aos poucos vou me acostumando, tá ficando legal a história

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Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!