15 de janeiro de 2016

Capítulo 8 - Port Angeles

Jeremy dirigia mais rápido do que Charlie, então chegamos a Port Angeles às quatro horas. Fomos ao florista primeiro, onde a mulher atrás da bancada logo convenceu Allen a mudar de rosas para orquídeas. Allen tomava decisões rápido, mas Jeremy demorou bem mais tempo para decidir o que queria. A vendedora fez parecer que todos os detalhes seriam muito importantes para as garotas, mas eu tinha dificuldade em acreditar que alguém se importaria muito.
Enquanto Jeremy discutia cores de fita com a mulher, Allen e eu nos sentamos em um banco perto da vitrine.
— Ei, Allen...
Ele ergueu o rosto, provavelmente por notar a tensão na minha voz.
— O quê?
Tentei falar mais como uma pessoa aleatoriamente curiosa, como se não ligasse para qual seria a resposta.
— Hã, os Cullen faltam muita aula? Esse é o comportamento normal deles?
Allen olhou por cima do ombro, pela vitrine, quando respondeu, e tive certeza de que ele estava sendo legal. Sem dúvida conseguia ver o quanto eu me sentia constrangido de perguntar, apesar do meu esforço para parecer descolado.
— Faltam. Quando o tempo está bom, eles saem para acampar sempre, até a doutora. Eles adoram a natureza, eu acho.
Ele não fez nenhuma pergunta e nem comentário malicioso sobre minha paixonite óbvia e patética. Allen devia ser o garoto mais legal da Forks High School.
— Ah — eu disse, e deixei o assunto de lado.
Depois do que pareceu ser muito tempo, Jeremy finalmente decidiu comprar flores brancas e um laço branco, o que foi meio anticlimático. Mas, quando os pedidos foram assinados e pagos, ainda tínhamos tempo antes de o filme começar.
Jeremy queria ver se havia alguma coisa nova na loja de videogames algumas quadras a leste.
— Vocês se importam se eu for fazer uma coisa? Encontro vocês no cinema.
— Tudo bem.
Jeremy já estava arrastando Allen rua acima.
Foi um alívio ficar sozinho de novo. O passeio estava dando errado. Claro, a resposta de Allen foi encorajadora, mas eu não conseguia me obrigar a ficar de bom humor.
Nada me ajudava a pensar menos em Edythe. Talvez um livro muito bom.
Segui na direção oposta a deles, querendo ficar sozinho. Encontrei uma livraria algumas quadras ao sul do florista, mas não era o que eu estava procurando. As vitrines estavam cheias de cristais, apanhadores de sonhos e livros sobre cura espiritual. Pensei em entrar para perguntar onde havia alguma outra livraria, mas uma olhada no hippie cinquentão com sorriso sonhador atrás da bancada me convenceu de que eu não precisava ter aquela conversa.
Eu encontraria uma livraria normal sozinho.
Andei por outra rua e fui parar em uma ruazinha menor que me confundiu. Eu esperava estar indo na direção do centro de novo, mas não tinha certeza de que a rua faria uma curva na direção que eu queria. Eu sabia que devia estar prestando mais atenção, mas não consegui parar de pensar no que Allen disse e no sábado e no que eu devia fazer se ela não voltasse, e olhei para a frente e vi um Volvo prata estacionado na rua. Não era um sedã, era um utilitário, mas mesmo assim fiquei zangado de repente. Seriam todos os vampiros tão traiçoeiros?
Segui numa direção que achei que fosse nordeste, a caminho de uns prédios de frente de vidro que pareciam promissores, mas, quando cheguei lá, eram só uma loja de conserto de aspiradores e outra loja vazia. Dobrei a esquina da loja de consertos de aspiradores para ver se havia mais ali.
Era o caminho errado, só levava a um beco lateral onde ficavam os lixões. Mas não estava vazio. Ao olhar para o círculo de pessoas, tropecei no meio-fio e cambaleei para a frente, fazendo barulho.
Seis rostos se viraram na minha direção. Havia quatro homens e duas mulheres. Uma das mulheres e dois homens se viraram rapidamente de costas para mim e enfiaram as mãos nos bolsos, e tive a impressão que estavam escondendo aquilo que estavam segurando. A outra mulher tinha cabelo preto e pareceu estranhamente familiar ao olhar na minha direção. Mas não parei para pensar de onde a conhecia. Quando um dos homens se virou, eu tive o vislumbre de uma coisa que parecia uma arma enfiada na parte de trás da calça jeans.
Comecei a andar para atravessar o beco e ir para a rua seguinte, como se não os tivesse reparado ali. Assim que saí de vista, ouvi uma voz sussurrar atrás de mim:
— É um policial.
Olhei para trás, na esperança de ver alguém de uniforme, mas não havia mais ninguém na rua vazia. Eu estava mais longe da rua principal do que tinha percebido. Apertei o passo e olhei para o chão para não tropeçar de novo.
Fui parar em uma calçada que levava por vários armazéns cinza, cada um com portas amplas para carga e descarga de caminhões, presas com cadeados durante a noite. O lado sul da rua não tinha calçada, só uma cerca com arame farpado em cima para proteger um terreno de armazenamento de partes de motor. Eu já tinha passado da parte de Port Angeles que os visitantes deviam ver.
Estava escurecendo agora, as nuvens tinham voltado e se acumulavam no horizonte, criando um crepúsculo adiantado. Eu tinha deixado o casaco no carro de Jeremy, e um vento frio me fez enfiar as mãos nos bolsos. Uma van passou por mim, e a rua ficou vazia.
— Ei, porco — chamou uma voz de mulher atrás de mim.
Olhei para trás, e ali estava a mulher que vi antes, a familiar. Atrás dela estavam dois dos homens do beco, um cara alto e careca e o mais baixo que eu achava que era o que tinha uma arma.
— O quê? — perguntei, indo automaticamente mais devagar. Ela estava olhando diretamente para mim. — Me desculpe, você está falando comigo?
— Me desculpe? — repetiu ela. Eles ainda estavam andando na minha direção, e eu recuei para o lado sul da rua. — Essa é sua palavra favorita, por acaso?
— Eu... Me desculpe. Não sei do que você está falando.
Ela repuxou os lábios, que estavam pintados de um vermelho escuro e grudento, e de repente eu soube onde a tinha visto. Ela estava com o cara em quem acertei a bolsa quando cheguei em Port Angeles. Olhei para o cara mais baixo e vi na mesma hora partes das tatuagens dos dois lados do pescoço dele.
— Você não vai pedir reforço, policial?
Tive que olhar para trás de novo. Eu estava sozinho.
— Acho que vocês estão falando com o cara errado.
— Claro que estamos — disse a mulher. — E você também não viu nada lá atrás, viu?
— Ver? Não. Não, eu não vi nada.
Meu calcanhar bateu em alguma coisa enquanto eu recuava, e comecei a oscilar. Estiquei os braços para tentar me equilibrar, e o homem mais alto, o que eu nunca tinha visto, reagiu.
Ele apontou uma arma para mim.
Eu achava que era o cara mais baixo que estava com uma arma. Talvez todos estivessem.
— Ei, ei — falei, levantando as mãos ainda mais para ele ver que estavam vazias. — Não sou policial. Ainda estou no colégio.
Fui recuando até encostar na cerca.
— Você me acha burra? — perguntou a mulher. — Acha que seu disfarce à paisana me engana? Vi você com seu parceiro.
— O quê? Não, era o meu pai — eu disse, e minha voz falhou.
Ela riu.
— Então você é só um porquinho?
— Sim, claro. Então isso está esclarecido. Vou parar de atrapalhar vocês agora... — Eu comecei a chegar para o lado na cerca.
— Pare.
Era o homem careca, ainda apontando a arma. Eu congelei.
— O que você está fazendo? — indagou o homem baixo. A voz estava baixa, mas a rua estava muito silenciosa, e consegui ouvi-lo claramente.
— Não acredito nele — disse o alto.
A mulher sorriu.
— Como é aquela música pirata? Os mortos não contam histórias.
— O quê? — gemi. — Não, olha, isso... Isso não é necessário. Não vou contar nada. Não tem nada para contar.
— Isso mesmo — concordou ela. Olhou para o homem alto e assentiu.
— Minha carteira está aqui no meu bolso — ofereci. — Não tem muita coisa dentro, mas podem ficar com tudo...
Comecei a mover a mão na direção do bolso, mas foi o gesto errado. A arma se levantou dois centímetros.
Levantei as mãos de novo.
— Precisamos ser silenciosos — disse o mais baixo, e se inclinou para pegar um pedaço de cano na vala. — Guarde a arma.
Assim que a arma fosse abaixada, eu ia correr, e o careca parecia saber disso. Ele hesitou na hora que o tatuado partiu para cima de mim.
Zigue-zague, foi o que meu pai me disse uma vez. Era difícil acertar um alvo em movimento, principalmente se não estivesse se movendo em linha reta. Ajudaria se eu não estivesse fadado a tropeçar em alguma coisa. Só uma vez, que eu conseguisse correr com pés firmes. Eu podia fazer isso uma vez, não podia? Só uma vez, quando minha vida dependia disso?
O quanto um ferimento não fatal de bala doeria? Eu conseguiria continuar correndo com a dor? Eu esperava que sim.
Tentei destravar os joelhos. O homem com o cano estava a poucos passos de mim agora.
Um cantar de pneus o fez parar. Todos olhamos quando o barulho ficou mais agudo.
Faróis apareceram na esquina e seguiu na minha direção. O carro ficou a centímetros de bater no tatuado, obrigando-o a pular para sair do caminho. A cerca tremeu quando ele se chocou nela. Eu me virei para correr, mas o carro sambou inesperadamente e derrapou até parar com a porta do passageiro se abrindo a uma pequena distância de mim.
— Entra — sibilou uma voz furiosa.
Pulei para o interior escuro do Volvo, sem nem questionar como ela havia ido parar ali, com o alívio e o pânico tomando conta de mim ao mesmo tempo. E se ela se machucasse? Puxei a porta e gritei:
— Dirija, Edythe, saia daqui. Ele tem uma arma.
Mas o carro não se mexeu.
— Fique com a cabeça abaixada — ordenou ela, e ouvi a porta do motorista se abrir.
Estiquei a mão cegamente na direção do som da voz dela, e minha mão segurou o braço fino e frio. Ela parou quando toquei nela. Nada cedeu sob a pressão dos meus dedos, embora eu estivesse segurando com força o couro da jaqueta dela.
— O que você está fazendo? — perguntei. — Dirija!
Meus olhos estavam se ajustando, e consegui identificar os olhos dela no brilho refletido dos faróis. Primeiro, olharam para a minha mão segurando o braço dela, depois se apertaram e olharam pelo para-brisa para o lugar onde o homem e a mulher deviam estar olhando, avaliando.
Eles podiam atirar a qualquer momento.
— Me dê só um minuto, Beau. — Consegui perceber que os dentes dela estavam trincados.
Eu sabia que ela não teria problema para se soltar de mim, mas parecia estar esperando que eu soltasse. Isso não aconteceria.
— Se você for lá para fora, eu vou com você — falei baixinho. — Não vou deixar você levar um tiro.
Os olhos dela observaram a rua por mais meio segundo, então a porta dela se fechou e demos ré numa velocidade que parecia ser de noventa por hora.
— Tudo bem — bufou ela.
O carro girou em um arco fechado quando disparamos de ré por uma esquina, e de repente seguimos em frente.
— Coloque o cinto de segurança — disse ela.
Tive que soltar o braço dela para obedecer, mas devia ser mesmo uma boa ideia. Não era uma coisa normal ficar segurando uma garota daquele jeito. Ainda assim... fiquei triste de soltar.
O estalo do cinto de segurança soou alto na escuridão.
Ela virou para a esquerda, depois passou por várias placas de pare sem parar. Mas eu me sentia estranhamente tranquilo e nada preocupado com nosso destino. Olhei o rosto dela, iluminado só pelas luzes do painel, e senti um profundo alívio que ia além da minha fuga afortunada.
Ela estava aqui. Era real.
Demorei mais do que alguns minutos olhando o rosto perfeito para perceber mais do que isso. Para perceber que ela estava absurdamente furiosa.
— Você está bem? — perguntei, surpreso ao constatar como minha voz estava rouca.
— Não — disse ela rispidamente.
Esperei em silêncio, observando seu rosto enquanto os olhos em brasa olhavam para a frente.
O carro parou de repente, com os freios gritando.
Olhei em volta, mas estava escuro demais para ver alguma coisa além do contorno vago de árvores nas laterais da rua. Não estávamos mais na cidade.
— Você está machucado, Beau? — perguntou ela, a voz dura.
— Não. — Minha voz ainda estava rouca. Tentei dar um pigarro baixo. — Você está?
Ela olhou para mim nessa hora, com uma espécie de descrença irritada.
— É claro que não estou machucada.
— Que bom — eu disse. — Hã, posso perguntar por que você está tão furiosa? Eu fiz alguma coisa?
Ela expirou repentinamente.
— Não seja burro, Beau.
— Desculpe.
Ela lançou outro olhar de descrença e balançou a cabeça.
— Você acha que ficaria bem se eu deixasse você aqui no carro só por alguns...
Antes que ela pudesse terminar, eu estiquei o braço e segurei a mão dela, apoiada no câmbio. Ela reagiu ficando paralisada de novo; mas não afastou a mão.
Era a primeira vez que eu tocava na pele dela, sem ser acidental e nem por uma fração de segundo. Apesar de a mão dela estar tão fria quanto eu esperava, a minha pareceu queimar com o contato. A pele dela era tão macia.
— Você não vai a lugar nenhum sem mim.
Ela me olhou com irritação, e, como antes, parecia que estava esperando que eu soltasse em vez de se soltar, como poderia ter feito com facilidade.
Depois de um momento, ela fechou os olhos.
— Tudo bem — disse ela de novo. — Me dê um momento.
Eu não tinha problema com isso. Fiquei com a mão de leve onde estava, tirando vantagem dos olhos fechados dela para encarar abertamente. Lentamente, a tensão no rosto dela começou a sumir, até a pele ficar lisa e a expressão, vazia como a de uma estátua. Uma bela estátua, entalhada por um gênio artístico. Afrodite, talvez. Era ela a deusa da beleza?
Havia aquela leve fragrância no carro de novo, uma coisa que eu não conseguia identificar.
E então, ela abriu os olhos e olhou lentamente para a minha mão.
— Você... quer que eu solte? — perguntei.
A voz dela foi cuidadosa.
— Acho que seria melhor.
— Você não vai a lugar nenhum? — perguntei.
— Acho que não, se você se opõe tanto.
Contrariado, tirei a mão da dela. Parecia que eu tinha segurado cubos de gelo.
— Melhor? — perguntei.
Ela respirou fundo.
— Não exatamente.
— O que foi, Edythe? Qual é o problema?
Ela quase sorriu, mas não havia humor nos olhos dela.
— Pode ser surpresa para você, Beau, mas tenho problemas com meu gênio. Às vezes, tenho dificuldade de perdoar facilmente quando alguém... me ofende.
— Eu...?
— Pare, Beau — disse ela antes que eu pudesse dizer a segunda palavra. — Não estou falando de você. — Ela me olhou com olhos arregalados. — Você percebeu que eles estavam falando sério? Que iam mesmo matar você?
— É, eu meio que entendi que eles iam tentar.
— É totalmente ridículo! — Parecia que ela estava se irritando de novo. — Quem é assassinado em Port Angeles? Qual é seu problema, Beau? Por que tudo que é mortal parece procurar você?
Eu pisquei.
— Eu... não tenho resposta para isso.
Ela inclinou a cabeça para o lado e repuxou os lábios, expirando pelo nariz.
— Então não posso dar uma lição de boas maneiras naqueles bandidos?
— Hã, não. Por favor?
Ela deu um suspiro longo e lento, com os olhos fechados de novo.
— Que desagradável.
Ficamos em silêncio por um momento enquanto eu tentava pensar em alguma coisa para dizer que compensasse... acho que a decepção que dei a ela? Era o que parecia, que ela estava decepcionada de eu ter pedido que ela não fosse atrás de gangsteres com armas que a tinham... ofendido ao me ameaçar. Não fazia muito sentido, e menos ainda quando você contava que ela me pediu para ficar no carro. Ela planejava ir a pé? Tínhamos nos afastado quilômetros do local.
Pela primeira vez desde que a encontrei hoje, as palavras de Jules surgiram na minha mente.
— Seus amigos devem estar preocupados com você — disse ela.
Passava das seis e meia. Eu tinha certeza de que ela estava certa.
Sem dizer mais nada, ela ligou o motor e deu meia-volta. Voltamos rapidamente para a cidade. De repente, estávamos debaixo dos postes de rua, ainda seguindo rápido demais, costurando com facilidade os carros que passeavam lentamente junto ao calçadão. Ela estacionou paralelamente ao meio-fio em uma vaga que eu teria achado pequena demais para o Volvo, mas deslizou para o local sem esforço na primeira tentativa. Olhei pela janela e vi a marquise iluminada do cinema. Jeremy e Allen estavam saindo, se afastando de nós.
— Como você sabia onde...? — comecei a dizer, mas depois só balancei a cabeça.
— Faça os dois pararem antes que eu tenha que segui-los também. Não vou conseguir me controlar se me deparar com seus outros amigos de novo.
Era estranho como a voz sedosa podia soar tão... ameaçadora.
Pulei para fora do carro, mas mantive a mão na porta. Como antes, segurando-a ali.
— Jer! Allen! — gritei.
Eles não estavam longe. Os dois se viraram, e acenei com o braço livre acima da cabeça. Eles correram até mim, o alívio no rosto dos dois passando a surpresa ao verem o carro ao lado do qual eu estava. Allen olhou para dentro do carro e seus olhos saltaram de reconhecimento.
— O que aconteceu com você? — perguntou Jeremy. — Achamos que você tinha ido embora.
— Não, eu só me perdi. E depois, encontrei Edythe.
Ela se inclinou para a frente e sorriu pelo para-brisa.
Agora, os olhos de Jeremy saltaram.
— Ah, oi... Edythe — disse Allen.
Ela acenou para ele com dois dedos, e ele engoliu em seco.
— Hã, oi — disse Jeremy na direção dela; em seguida, olhou para mim. Eu devia estar estranho, com a mão segurando a porta abeta, mas sem soltar. — É que... o filme já começou, eu acho.
— Desculpe por isso.
Ele olhou no relógio.
— Ainda deve estar nos trailers. Você... — Ele olhou para minha mão no carro. — Você ainda quer ir?
Eu hesitei e olhei para Edythe.
— Você também gostaria de ir... Edythe? — perguntou Allen com educação, embora com um pouco de dificuldade de enunciar o nome dela.
Edythe abriu a porta do carro e saiu, balançando o cabelo comprido para afastar do rosto. Ela se inclinou sobre o capô e mostrou as covinhas num sorriso.
O queixo de Jeremy caiu.
— Já vi esse filme, mas obrigada, Allen — disse ela.
Allen piscou várias vezes e pareceu esquecer como falar. Fez com que eu me sentisse um pouco melhor por sempre agir como idiota perto dela. Quem conseguia evitar?
Edythe olhou para mim.
— Em uma escala de um a dez, quanto você quer ver esse filme agora? — murmurou ela.
Cinco mil negativos, eu pensei.
— Hã, nem tanto assim — sussurrei para ela.
Ela sorriu diretamente para Jeremy.
— Vou estragar a noite de vocês se eu fizer Beau me levar para jantar? — perguntou ela.
Jeremy só balançou a cabeça. Ele ainda não tinha se lembrado de fechar a boca.
— Obrigada — disse ela para ele. — Dou carona para Beau até em casa.
Ela voltou para o carro.
— Entre no carro, Beau — disse ela.
Allen e Jeremy ficaram me olhando. Dei de ombros rapidamente e entrei no banco do passageiro.
— Mas que diabos? — eu ouvi Jeremy murmurar quando bati a porta.
Não pude olhar melhor a reação deles. Ela já estava se afastando em disparada.
— Você quer mesmo jantar? — perguntei a ela.
Ela me olhou com dúvida nos olhos. Estaria pensando o mesmo que eu estava pensando, que nunca a vi comer nada?
— Achei que você talvez quisesse — disse ela.
— Estou bem — falei.
— Se você preferir ir para casa...
— Não, não — acrescentei, rápido demais. — Podemos jantar. Eu só quis dizer que não precisa ser isso. O que você quiser.
Ela sorriu e parou o carro. Estávamos estacionados na frente de um restaurante italiano.
As palmas das minhas mãos começaram a suar quando saí do carro, me apressando para segurar a porta do restaurante para ela. Eu nunca tinha saído em um encontro assim, um encontro de verdade. Já tinha saído em grupo em Phoenix, mas podia dizer com sinceridade que não me importava se voltasse ou não a ver aquelas garotas. Isso era diferente. Eu quase tinha um ataque de pânico cada vez que achava que aquela garota podia desaparecer.
Ela sorriu para mim quando passou, e meu coração saltou em um batimento duplo.
O restaurante não estava cheio; era a baixa temporada em Port Angeles. Fomos recebidos por um homem bem arrumado alguns anos mais velho do que eu, da minha altura, mas com ombros mais largos. Os olhos fizeram a mesma coisa que os de Allen e Jeremy, se esbugalharam por um segundo antes de ele controlar a expressão. Mas ele logo deu o sorriso mais caloroso que tinha e fez uma reverência profunda, tudo para ela. Eu tinha certeza de que ele nem sabia que eu estava ao lado dela.
— O que posso fazer por vocês? — perguntou ele enquanto se empertigava, ainda olhando só para ela.
— Mesa para dois, por favor.
Pela primeira vez, ele pareceu perceber que eu estava ali. O olhar que me lançou foi rápido e desinteressado. Seus olhos voltaram para ela imediatamente, não que eu pudesse culpá-lo por isso.
— Claro, er, mademoiselle. — Ele pegou dois cardápios de couro e fez sinal para Edythe segui-lo.
Eu revirei os olhos. Signorina devia ser a palavra que ele procurava.
Ele nos levou para uma mesa de quatro lugares no meio da parte mais movimentada da sala de jantar. Estiquei a mão para uma cadeira, mas Edythe balançou a cabeça para mim.
— Quem sabe um lugar mais reservado? — sugeriu ela, em voz baixa para o host. Pareceu que ela passou os dedos pela mão dele, coisa que eu já sabia que não era típica de Edythe, mas então o vi colocar a mão no bolso de dentro do paletó e percebi que ela devia ter dado uma gorjeta. Eu nunca tinha visto alguém recusar uma mesa assim, a não ser nos filmes antigos.
— Claro — disse o host, parecendo tão surpreso quanto eu. Ele nos levou por uma divisória até uma área com mesas em compartimentos, todas vazias. — Que tal aqui?
— Perfeito — disse ela, e abriu seu sorriso para ele.
Como um cervo pego por faróis de carro, ele parou por um longo segundo, depois se virou lentamente e cambaleou na direção do salão principal, com os cardápios ainda no braço.
Edythe se sentou em um dos lados do compartimento, perto da beirada, de forma que minha única opção era me sentar de frente para ela, com a mesa entre nós. Depois de um segundo de hesitação, eu também me sentei.
Um barulho soou do outro lado da divisória, como o som de alguém tropeçando nos próprios pés e se levantando. Era um som familiar para mim.
— Isso não foi muito legal.
Ela olhou para mim com surpresa.
— O que você quer dizer?
— Essa coisa que você faz, com as covinhas e a hipnose, sei lá. Aquele cara podia ter se machucado ao tentar voltar até a porta.
Ele deu um meio sorriso.
— Eu faço uma coisa?
— Como se você não soubesse o efeito que tem nas pessoas.
— Acho que consigo pensar em alguns efeitos... — A expressão dela ficou sombria por um segundo, mas se abriu, e ela sorriu. — Mas ninguém nunca tinha me acusado de hipnose por covinhas.
— Você acha que as outras pessoas conseguem o que querem com tanta facilidade?
Ela inclinou a cabeça para o lado e ignorou minha pergunta.
— Funciona em você, essa coisa que você acha que eu faço?
Eu suspirei.
— Sempre.
E depois, nosso garçom chegou com expressão de expectativa, que logo virou de assombro. O que quer que o host tenha dito, foi pouco.
— Oi — disse ele, com a surpresa deixando seu tom monótono enquanto ele recitava as falas mecanicamente. — Meu nome é Sal e serei seu garçom esta noite. O que vocês querem beber?
Assim como aconteceu com o host, os olhos dele não saíram do rosto dela.
— Beau? — perguntou ela.
— Hã, uma Coca?
Parecia que eu não tinha dito nada. O garçom só ficou olhando para Edythe. Ela deu um sorriso para mim antes de se virar para ele.
— Duas Cocas — disse ela, e, quase como um experimento, deu um sorriso largo e cheio de covinhas bem na cara dele.
Ele chegou a oscilar, como se fosse cair.
Ela apertou os lábios para não rir. O garçom balançou a cabeça e piscou, tentando se reorientar. Olhei com solidariedade. Eu sabia como ele estava se sentindo.
— E um cardápio também — acrescentou ela quando ele não se mexeu.
— Sim, claro. Volto logo com as duas coisas. — Ele ainda estava balançando a cabeça quando se afastou.
— Você nunca tinha reparado mesmo? — perguntei.
— Faz um tempo que não me importo com o que pensam de mim — disse ela. — E não costumo sorrir tanto.
— Acho mais seguro assim. Para todo mundo.
— Todo mundo, menos você. Vamos falar sobre o que aconteceu hoje?
— Hã?
— Sua experiência de quase morte? Ou você já esqueceu?
— Ah. — Na verdade, eu tinha esquecido.
Ela franziu a testa.
— Como está se sentindo?
— O que você quer dizer?
Torci para ela não ligar os olhos de hipnose e me obrigar a falar a verdade, porque o que eu sentia no momento era... euforia. Ela estava bem aqui, comigo, espontaneamente, consegui tocar na mão dela e devia ter algumas horas à frente junto com ela, pois ela prometeu me levar para casa. Eu nunca me senti tão feliz e perdido ao mesmo tempo.
— Está com frio, tonto, enjoado...?
O jeito como ela listou as palavras me fez pensar em um exame médico. E eu não sentia frio nem enjoo... nem tontura de um ponto de vista médico.
— Deveria?
Ela riu.
— Estou me perguntando se você vai entrar em choque — admitiu ela. — Já vi acontecer com menos provocação.
— Ah. Não, acho que estou bem, obrigado.
Sinceramente, quase ser assassinado não era a coisa mais interessante que tinha me acontecido naquela noite, e eu não tinha pensado muito naquilo.
— Mesmo assim, vou me sentir melhor quando você colocar alguma comida para dentro.
Bem na deixa, o garçom apareceu com nossas bebidas e um cesto de pãezinhos. Ele ficou de costas para mim enquanto os colocava na mesa, depois entregou um cardápio para Edythe. Tendo concluído seus experimentos, ela nem olhou para ele dessa vez. Só empurrou o cardápio para mim por cima da mesa.
Ele limpou a garganta com nervosismo.
— Temos alguns pratos especiais. Hã, temos um ravióli de cogumelos e...
— Parece ótimo — interrompi. Eu não me importava com o que pediria, comida era a última coisa que eu tinha na cabeça. — Quero isso. — Falei um pouco mais alto do que o necessário, mas não sabia se ele percebeu que eu estava sentado ali.
Ele olhou para mim com surpresa e voltou a atenção para ela.
— E você...?
— Vai ser só isso. Obrigada.
Claro.
Ele aguardou por um segundo, na esperança de ganhar outro sorriso, eu achava. Ávido por punição. Quando Edythe ficou com os olhos grudados em mim, ele desistiu e saiu andando.
— Beba — disse Edythe. Pareceu uma ordem.
Beberiquei, obediente, e depois tomei um gole maior, surpreso por descobrir que estava com sede. Percebi que tinha terminado tudo quando ela empurrou o copo dela para mim.
— Não, não precisa — falei.
— Eu não vou beber — disse ela, e o tom acrescentava um .
— Certo — retruquei, e, porque ainda estava com sede, tomei o copo dela também. — Obrigado — murmurei enquanto a palavra na qual eu não queria pensar girava pela minha mente de novo.
O frio do refrigerante se irradiava pelo meu peito, e precisei afastar um tremor.
— Está com frio? — perguntou ela, agora séria. Como uma médica de novo.
— É só a Coca — expliquei, lutando contra outro tremor.
— Não trouxe casaco?
— Trouxe. — Automaticamente, levei a mão ao banco vazio ao lado do meu. — Ah, deixei no carro de Jeremy — percebi. Dei de ombros e tremi.
Edythe começou a desenrolar um cachecol creme do pescoço. Percebi que nunca tinha prestado atenção ao que ela estava vestindo – não só hoje, mas sempre. A única coisa de que eu conseguia lembrar era o vestido preto do meu pesadelo... Mas apesar de não ter registrado os detalhes, eu sabia que na verdade ela só usava cores claras.
Como hoje: por baixo do cachecol, ela estava usando uma jaqueta de couro cinza-clara, curta como as de motociclista, e uma blusa branca fina de gola alta por baixo. Eu tinha certeza de que ela sempre cobria a pele, o que me fez pensar de novo no decote em V do vestido preto do sonho, e isso foi um erro. Uma área de calor começou a surgir na lateral do meu pescoço.
— Aqui — disse ela, me jogando o cachecol.
Eu devolvi para ela.
— Estou bem mesmo.
Ela inclinou a cabeça para o lado.
— Os pelos da sua nuca estão eriçados, Beau — declarou ela. — Não é cachecol de mulher, se é isso que incomoda você. Roubei de Archie.
— Não estou precisando — insisti.
— Tudo bem, tem uma jaqueta de Royal no porta-malas, eu volto logo...
Ela começou a se levantar, e eu estiquei a mão, tentando segurar a dela, fazer com que ficasse ali. Ela fugiu do meu toque e dobrou as mãos debaixo da mesa, mas não se levantou.
— Não vá — pedi baixinho. Eu sabia que minha voz estava intensa demais; ela estava só indo até o carro, não sumindo para sempre. Mas não consegui falar normalmente. — Vou usar o cachecol. Está vendo?
Peguei o cachecol na mesa (era muito macio e não estava quente como deveria estar por ter acabado de sair do contato com o corpo de outra pessoa) e comecei a enrolar no pescoço. Eu não conseguia me lembrar de já ter usado cachecol, então só fui enrolando em círculo até o tecido acabar. Pelo menos, cobriria o ponto vermelho no meu pescoço. Talvez eu devesse ter um cachecol.
O cheiro do cachecol dela era delicioso e familiar. Percebi que era o mesmo perfume do carro. Devia ser dela.
— Fiz direito? — perguntei a ela.
O tricô macio já estava aquecendo minha pele e ajudou a me esquentar.
— Fica bem em você — disse ela, mas riu, então achei que isso queria dizer que a resposta era não.
— Você rouba muitas coisas de, hã, Archie?
Ela deu de ombros.
— Ele é quem tem o melhor gosto.
— Você nunca me falou sobre sua família. Ficamos sem tempo no outro dia. — Foi na quinta anterior? Parecia bem mais.
Ela empurrou o cesto de pão para mim.
— Não vou entrar em choque — falei para ela.
— Só para me agradar? — disse ela, e fez aquela coisa com o sorriso e o olhar que sempre funcionava.
— Ugh — resmunguei enquanto pegava um pãozinho.
— Bom menino — disse ela, rindo.
Só olhei para ela de cara feia enquanto mastigava.
— Não sei como você pode agir com tanta indiferença — disse ela. — Nem parece abalado. Uma pessoa normal... — Ela balançou a cabeça. — Mas você não é muito normal, é?
Eu balancei a cabeça e engoli.
— Sou a pessoa mais normal que eu conheço.
— Todo mundo acha isso sobre si mesmo.
— Você acha isso de você? — perguntei, em desafio.
Ela repuxou os lábios.
— Certo — falei. — Você alguma vez pensa em responder minhas perguntas ou isso está fora de questão?
— Depende da pergunta.
— Me diga uma que posso perguntar.
Ela ainda estava pensando nisso quando o garçom passou pela divisória com meu prato. Percebi que, inconscientemente, tínhamos nos inclinado na direção um do outro sobre a mesa, porque nós dois nos endireitamos quando ele se aproximou. Ele colocou o prato diante de mim – parecia muito bom – e se virou rapidamente para Edythe.
— Mudou de ideia? — perguntou ele. — Não há nada que eu possa trazer para você? — Eu achava que não estava imaginando o duplo sentido da proposta.
— Outro refrigerante seria bom — disse ela, indicando os copos vazios sem afastar o olhar de mim.
O garçom olhou para mim agora, e consegui perceber que ele estava se perguntando por que uma pessoa como Edythe estava olhando para alguém com eu daquele jeito.
Ah, também era um mistério para mim.
Ele pegou os copos e saiu andando.
— Imagino que você tenha muitas perguntas para mim — murmurou Edythe.
— Só umas duas mil.
— Tenho certeza de que sim... Posso fazer uma primeiro? É injusto?
Isso queria dizer que ela ia responder as minhas?
Assenti com ansiedade.
— O que você quer saber?
Ela olhou para a mesa agora, com os olhos escondidos atrás dos cílios. O cabelo caiu para a frente e escondeu mais o rosto.
As palavras não passaram de um sussurro.
— Nós conversamos antes que você estava... tentando entender o que eu sou. Eu queria saber se você fez algum progresso com isso.
 Eu não respondi, e ela levantou o rosto. Fiquei feliz pelo cachecol de novo, embora não pudesse esconder o vermelho que eu conseguia sentir subindo pelo meu rosto agora.
O que eu podia dizer? Fiz algum progresso? Ou só tropecei em outra teoria ainda mais imbecil do que aranhas radioativas? Como eu poderia dizer aquela palavra em voz alta, aquela na qual vinha tentando não pensar a noite toda?
Não sei como minha expressão devia estar, mas a dela se suavizou de repente.
— É ruim assim? — perguntou ela.
— Posso... podemos não falar sobre isso aqui? — Olhei para a divisória fina que nos separava do resto do restaurante.
— É muito ruim — murmurou ela, em parte para si mesma.
Havia alguma coisa muito triste e... quase velha nos olhos dela. Cansaço, derrota. Doeu de um jeito estranho vê-la infeliz.
— Bem — falei, tentando deixar minha voz mais leve. — Na verdade, se eu responder a sua pergunta primeiro, você não vai responder a minha. Você nunca responde. Então... você primeiro.
O rosto dela relaxou.
— Uma troca, então?
— Isso.
O garçom voltou com as Cocas. Dessa vez colocou-as na mesa sem dizer nada e saiu novamente. Eu me perguntei se ele conseguia sentir a tensão tanto quanto eu.
— Podemos tentar — murmurou Edythe. — Mas sem promessas.
— Tudo bem... — Comecei com a pergunta fácil. — Por que você está em Port Angeles hoje?
Ela olhou para baixo e cruzou as mãos lentamente sobre a mesa vazia à frente dela. Olhou para mim por baixo dos cílios longos, e havia sugestão de sorriso no rosto.
— Próxima — disse ela.
— Mas essa foi a mais fácil!
Ela deu de ombros.
— Próxima?
Olhei para baixo, frustrado. Tirei os talheres do guardanapo, peguei o garfo e espetei com cuidado um ravióli. Coloquei-o na boca devagar, ainda de olhos baixos, mastigando enquanto pensava. Os cogumelos estavam bons. Engoli e tomei outro gole da Coca antes de olhar para ela.
— Tudo bem, então. — Eu a fitei e continuei devagar. — Digamos, hipoteticamente, que... alguém... pudesse saber o que as pessoas estão pensando, ler a mente delas, sabe como é... com algumas exceções.
Parecia idiotice. Não tinha como, se ela não ia responder a primeira...
Mas ela olhou para mim com calma e disse:
— Só uma exceção. Hipoteticamente.
Ah, caramba.
Demorei um minuto para me recuperar. Ela esperou com paciência.
— Tudo bem. — Tentei parecer casual. — Só uma exceção, então. Como uma coisa assim funcionaria? Quais são as limitações? Como... esse alguém... acharia outra pessoa exatamente na hora certa? Como poderia saber que eu estava numa encrenca? — Minhas perguntas convolutas não faziam nenhum sentido no final.
— Hipoteticamente? — perguntou ela.
— Claro.
— Bom, se... esse alguém...
— Vamos chamá-la de Jane — sugeri.
Ele deu um sorriso torto.
— Se sua Jane Hipotética estivesse prestando mais atenção, o momento não teria que ter sido tão preciso. — Ela revirou os olhos. — Ainda não entendo como isso pode acontecer. Como alguém se mete tanto em confusão, de forma tão consistente e em lugares tão improváveis? Você teria acabado com as estatísticas de criminalidade de Port Angeles por uma década, sabe.
— Não entendo como isso pode ser minha culpa.
Ela ficou me olhando com a frustração familiar nos olhos.
— Eu também não. Mas não sei quem culpar.
— Como você soube?
Ela olhou nos meus olhos, dividida, e achei que estava lutando contra o desejo de simplesmente me contar a verdade.
— Pode confiar em mim, sabe — murmurei. Estendi a mão lentamente para colocar em cima das dela, mas ela puxou as dela dois centímetros, e deixei a minha pousar na mesa.
— É o que eu quero fazer — admitiu ela, a voz ainda mais baixa do que a minha. — Mas isso não quer dizer que esteja certo.
— Por favor — pedi.
Ela hesitou mais um segundo, e tudo saiu em um jorro.
— Eu o segui até Port Angeles. Nunca tentei manter uma determinada pessoa viva, e é muito mais problemático do que eu acreditava. Mas deve ser assim porque é você. As pessoas comuns parecem passar o dia todo sem muitas catástrofes. Eu me enganei, quando disse que você era um ímã para acidentes. Essa classificação não é ampla o bastante. Você é um ímã para confusão. Se existir alguma coisa perigosa em um raio de quinze quilômetros, vai chegar a você, invariavelmente.
Não me incomodei de ela estar me seguindo; na verdade, senti uma onda estranha de prazer. Ela estava ali atrás de mim. Ela ficou olhando, esperando que eu reagisse.
Pensei no que ela disse, hoje e antes... Você acha que eu posso ser assustadora?
— Você se coloca nessa categoria, não é? — Tentei adivinhar.
O rosto dela ficou duro, sem expressão.
— Sem dúvida.
Estiquei minha mão por cima da mesa de novo e a ignorei quando ela puxou a dela um pouco mais para trás, colocando a minha em cima da dela mesmo assim. Ela ficou muito parada. Fez com que as mãos parecessem pedra: frias, duras e agora, imóveis. Pensei na estátua de novo.
— Foram duas vezes agora — eu disse. — Obrigado.
Ela só ficou me olhando com um tremor nos lábios e a testa franzida.
Tentei aliviar a tensão com uma piada.
— Já pensou que talvez minha hora tivesse chegado naquela primeira vez, com a van, e que talvez você esteja interferindo no meu destino? Como naqueles filmes tipo A premonição?
Minha piada não gerou reação. Ela franziu mais a testa.
— Edythe.
Ela virou o rosto para baixo de novo, com o cabelo caindo sobre as bochechas, e mal consegui ouvir a resposta.
— Aquela não foi a primeira vez — disse ela. — Sua hora chegou no dia que eu o conheci. Não foram duas vezes que você quase morreu. Foram três. A primeira vez que salvei você... foi de mim mesma.
Tão claramente como se estivesse de volta na primeira aula de biologia, consegui ver o olhar assassino de Edythe. Ouvi de novo a frase que passou pela minha cabeça naquela hora: Se um olhar matasse...
— Você lembra? — perguntou ela. Estava me olhando agora, com o rosto perfeito muito sério. — Entendeu?
— Sim.
Ela esperou mais um pouco, outra reação. Como não falei nada, as sobrancelhas se juntaram.
— Pode ir embora agora — disse ela para mim. — Seus amigos ainda estão no cinema.
— Eu não quero ir embora.
Ela ficou irritada de repente.
— Como você pode dizer isso?
Dei um tapinha nas mãos dela, totalmente calmo. Era uma coisa que eu já tinha decidido. Não importava para mim se ela era... uma coisa perigosa. Mas ela importava. Onde ela estivesse era onde eu queria estar.
— Você não terminou de responder a minha pergunta — eu disse, ignorando a raiva. — Como você me encontrou?
Ela me olhou com irritação por um momento, como se estivesse desejando que eu também ficasse irritado. Como isso não funcionou, ela balançou a cabeça e deu um suspiro.
— Eu estava vigiando os pensamentos de Jeremy — disse ela, como se fosse a coisa mais normal. — Sem cuidado nenhum... Como eu disse, só você pode ser ameaçado de assassinato em Port Angeles. No início, não percebi quando você saiu sozinho. Depois, quando notei que não estava mais com ele, saí dirigindo em busca de alguém que tivesse visto você. Encontrei a livraria até a qual você andou, mas percebi que você não tinha entrado. Você foi para o sul, e eu sabia que teria que dar meia-volta logo. Só estava esperando você, procurando ao acaso pelos pensamentos de todo mundo que conseguisse ouvir, para ver se alguém tinha reparado em você, e assim eu saberia onde estava. Não tinha motivos para ficar preocupada... mas comecei a ficar ansiosa... — Ela estava perdida em pensamentos agora, olhando para além de mim. — Comecei a dirigir em círculos, ainda... escutando. O sol finalmente estava se pondo e eu estava prestes a sair do carro e procurá-lo a pé. E então... — Ela parou de repente, trincando os dentes com um estalo alto.
— Então o quê?
Ela voltou a se concentrar no meu rosto.
— Eu ouvi o que ela estava pensando. Vi seu rosto na mente dela e soube o que ela estava planejando fazer.
— Mas você chegou lá a tempo.
Ela inclinou a cabeça de leve.
— Foi mais difícil do que você pode imaginar sair dirigindo, deixar que eles se safassem. Sei que foi a coisa certa, mas, ainda assim... muito difícil.
Tentei não imaginar o que ela teria feito se eu não tivesse pedido que ela se afastasse. Não queria deixar minha imaginação correr solta por aquele caminho em particular.
— Esse foi um dos motivos para eu ter feito você vir jantar comigo — admitiu ela. — Eu podia ter deixado você ir ao cinema com Jeremy e Allen, mas temia procurar aquelas pessoas se não estivesse com você.
Minha mão ainda estava sobre a dela. Meus dedos estavam começando a ficar dormentes, mas não me importei. Se ela não protestasse, eu jamais voltaria a me mexer. Ela ficou me olhando, esperando uma reação que não veio.
Eu sabia que ela estava tentando me dar um aviso com toda essa sinceridade, mas estava desperdiçando o esforço.
Ela respirou fundo.
— Vai comer mais alguma coisa? — perguntou ela.
Eu olhei para a comida.
— Não, estou satisfeito.
— Quer ir para casa agora?
Fiz uma pausa.
— Não estou com pressa nenhuma.
Ela franziu a testa, como se minha resposta incomodasse.
— Posso puxar minhas mãos agora? — perguntou ela.
Eu puxei a minha.
— Claro. Desculpe.
Ela me lançou um olhar enquanto tirava alguma coisa do bolso.
— Dá para passarmos 15 minutos sem um pedido de desculpas desnecessário?
Se era desnecessário que eu pedisse desculpas por tocar nela, isso queria dizer que ela gostava? Ou só que não se ofendia com o gesto?
— Hã, provavelmente não — admiti.
Ela riu uma vez, e o garçom apareceu.
— Como estamos? — perguntou ele.
Ela o interrompeu.
— Nós já terminamos, obrigado, e isso deve cobrir a conta, não precisa do troco, obrigada.
Ela já estava fora da cadeira.
Tentei pegar minha carteira.
— Hã, me deixe... você nem comeu nada...
— É por minha conta, Beau.
— Mas...
— Tente não se prender a papéis antiquados de gênero.
Ela saiu andando, e fui logo atrás, deixando o garçom atônito atrás de mim com o que parecia uma nota de cem dólares na mesa à frente dele.
Passei por ela e corri para abrir a porta, ignorando o que ela tinha dito sobre papéis antiquados. Eu sabia que ela era mais rápida do que eu podia imaginar, mas a sala com um monte de gente dentro olhando a obrigou a agir como se fosse uma semelhante. Ela me lançou um olhar estranho quando segurei a porta, como se estivesse tocada pelo gesto, mas irritada ao mesmo tempo. Decidi ignorar a parte irritada e passei correndo por ela para também segurar a porta do carro. Abriu-se com facilidade, ela não tinha trancado. A expressão dela foi mais de diversão do que qualquer outra coisa, e encarei como um bom sinal.
Quase corri para o lado do passageiro, passando a mão no capô no caminho. Eu tinha a sensação enlouquecedora de que ela estava lamentando ter me contado tanto e que era capaz de sair dirigindo sem mim e desaparecer na noite. Quando entrei, ela olhou diretamente para meu cinto de segurança até eu colocá-lo. Eu me perguntei por um segundo se ela era algum tipo de maníaca da segurança, até reparar que não tinha se dado o trabalho de colocar o dela e de que estávamos disparados pelo trânsito leve sem nem sinal de cautela da parte dela.
— Agora — disse ela com um sorriso sinistro — é a sua vez.

5 comentários:

  1. Gostei! Teve mais coisas diferentes! Acho que tô começando a vê-los com outros personagens, não apenas uma versão dos originais...

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    1. Tmj! Até um tempinho atrás tava mt Bella... Agr estou conseguindo ver um Beau...

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  2. É tão deprimente para mim como garota ler esse livro... Minha auto estima está lá em baixo! Essa garota é muito linda, por isso eu prefiro o Edward como o vampiro!

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  3. Eu troquei a Bella de lugar com o Edward pra imaginar eles, aí eu pego a Bella transformada do amanhecer e coloco no lugar que era do Edward, e o Edward no crepúsculo com lentes de contato pretas ou imagino cor de mel, por aí, só tive que mudar o Jacob mesmo, desse trio.

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  4. Amei o capítulo ♥♥♥
    PS: Pelo visto a cena aconteceu em Port Angeles e não em Seattle kkkkk

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