15 de janeiro de 2016

Capítulo 7 - Pesadelo

Eu disse a Charlie que tinha muito dever de casa para fazer e que tinha comido muito em La Push, por isso não ia querer jantar. Havia um jogo de basquete que o estava empolgando, embora, é claro, eu não fizesse ideia do que existia de especial nisso, então ele não percebeu nada incomum no meu rosto.
No meu quarto, tranquei a porta. Vasculhei minha mesa até encontrar meus velhos fones de ouvido e os conectei no pequeno CD player. Escolhi um CD que Phil me dera de Natal. Era de uma das bandas preferidas dele, mas era um pouco pesada demais para o meu gosto.
Coloquei o CD no lugar e me deitei na cama. Pus os fones, apertei play e aumentei o volume até machucar meus ouvidos. Fechei os olhos e coloquei um travesseiro na parte de cima do rosto.
Eu me concentrei só na música, tentando entender a letra, desvendar o padrão complicado da bateria. Na terceira vez que ouvi todo o CD, eu sabia pelo menos toda a letra dos refrãos. Fiquei surpreso em descobrir que eu afinal de contas gostava da banda, depois de conseguir passar pelo barulho ensurdecedor. Eu teria que agradecer a Phil novamente.
E deu certo: graças à batida de rachar os tímpanos, foi impossível pensar – e era esse o propósito do exercício.
Ouvi o CD repetidas vezes, até que estava cantando todas as músicas e até que, finalmente, dormi.
Abri os olhos em um lugar familiar. Apesar de parte da minha mente parecer saber que eu estava sonhando, a maior parte de mim estava apenas presente na luz verde da floresta. Eu podia ouvir as ondas quebrando nas pedras em algum lugar por perto e sabia que, se achasse o mar, poderia ver o sol. Tentava seguir o som, mas então Jules estava ali, puxando minha mão, arrastando-me para a parte mais escura da floresta.
— Julie? Qual é o problema? — perguntei.
O rosto dela estava assustado enquanto ela me puxava com toda a força, tentando me levar para a escuridão.
— Corre, Beau, você tem que correr! — sussurrou ela, apavorada.
— Por aqui, Beau! — Era a voz de McKayla que eu ouvia agora, gritando do meio das árvores, mas não consegui vê-la.
— Por quê? — perguntei, ainda tentando me libertar de Jules. Encontrar o sol era muito importante para o eu do sonho. Era a única coisa em que eu conseguia me concentrar.
Nessa hora, Jules soltou minha mão; ela deu um gritinho estranho e, tremendo de repente, caiu no chão e começou a se contorcer. Olhei com pavor, sem conseguir me mexer.
— Jules! — gritei, mas ela tinha sumido. Em seu lugar havia uma loba grande e castanho-avermelhada de olhos negros. A loba desviou os olhos de mim, apontando o focinho para a praia, o pelo eriçado nos ombros, emitindo rosnados baixos por entre as presas à mostra.
— Corre, Beau! — gritou McKayla novamente de trás de mim. Mas não me virei. Eu estava vendo uma luz que vinha da praia na minha direção.
E aí, Edythe apareceu no meio das árvores. Ela estava com um vestido preto. Ia até o chão, mas deixava os braços os ombros à mostra e tinha um decote profundo em V. A pele brilhando um pouco, os olhos negros. Ergueu uma das mãos e acenou para que eu fosse até ela. As unhas estavam lixadas com pontas afiadas e pintadas de um vermelho tão escuro que pareciam quase tão pretas quanto o vestido. Os lábios estavam da mesma cor.
A loba entre nós rosnou.
Dei um passo à frente, na direção de Edythe. Ela sorriu e, entre os lábios escuros, os dentes eram afiados e pontudos como as unhas.
— Confie em mim — sussurrou ela.
Dei outro passo.
A loba se atirou no espaço entre mim e a vampira, as presas mirando a jugular dela.
— Não! — gritei, erguendo-me da cama.
Meu movimento súbito fez os fones puxarem o CD player da mesa de cabeceira, e ele caiu no chão de madeira.
Minha luz ainda estava acesa e eu estava sentado todo vestido na cama, ainda de sapatos. Olhei, desorientado, o relógio na cômoda. Eram cinco e meia da manhã.
Gemi, caí de costas e me virei de bruços, tirando as botas. Mas estava desconfortável demais para conseguir dormir. Rolei na cama e desabotoei a calça jeans, arrancando-a desajeitado ao tentar continuar na horizontal.
Puxei o travesseiro para cima dos olhos.
É claro que foi inútil. Meu subconsciente tinha decidido se concentrar na palavra que tentei tanto evitar. Eu teria que lidar com ela agora.
Uma coisa de cada vez, pensei, feliz por adiar o máximo possível. Peguei minhas coisas de higiene.
O banho não durou tanto. Eu não sabia se Charlie ainda estava dormindo ou se já tinha saído. Fui olhar pela minha janela e a radiopatrulha não estava lá. Pescaria de novo.
Vesti-me lentamente com a calça jeans do dia anterior e um moletom velho e depois fiz minha cama – só para protelar.
Mas eu não podia mais adiar. Fui para minha escrivaninha e liguei o velho computador.
Eu odiava usar a internet aqui. Meu modem era artigo de museu e meu provedor gratuito mostrava que a qualidade do serviço depende mesmo do quanto se paga. Só a discagem levava tanto tempo que decidi preparar uma tigela de cereal enquanto esperava.
Comi devagar, e o finalzinho ficou mole demais para eu querer comer. Lavei a tigela e a colher e guardei. Meus pés se arrastavam ao subir a escada. Fui primeiro pegar meu CD player, enrolei o fio dos fones de ouvido e guardei na gaveta da escrivaninha. Toquei o mesmo CD, mas baixinho, até ficar como ruído de fundo.
Com um suspiro, me virei para o computador, já me sentindo idiota antes mesmo de terminar de digitar a palavra.
Vampiro.
Senti-me ainda mais idiota ao olhar para ela.
Os resultados foram difíceis de avaliar. A maioria era de entretenimento: filmes, programas de TV, RPG, bandas de heavy metal... Havia roupas e maquiagem gótica, fantasias de Halloween e programações de convenções.
Acabei encontrando um site promissor – Vampiros de A-Z – e esperei impacientemente que carregasse. A página era simples e com aparência acadêmica, texto preto em um fundo branco. Duas citações me receberam na home page:

Em todo o vasto mundo das sombras de fantasmas e demônios, não há figura tão terrível, nenhum personagem tão medonho e abominado , e no entanto travestido de tal fascínio temeroso, como o vampiro, que não é nem fantasma nem demônio, mas participa da natureza das sombras e possui as qualidades misteriosas e terríveis de ambos.
— Rev. Montague Summers

Se há neste mundo um relato bem documentado, é o dos vampiros. Nada falta ali: relatórios oficiais, atestados de pessoas reputadas, de médicos, de padres, de magistrados; a prova judicial é a mais completa. E com tudo isso, quem há que acredite em vampiros?
— Rousseau

O resto do site era uma lista em ordem alfabética de todos os diferentes mitos de vampiros que existem em no mundo. O primeiro em que cliquei, o Danag, era um vampiro filipino supostamente responsável pelo cultivo de inhame nas ilhas havia muito tempo. Dizia o mito que o Danag trabalhou com seres humanos por muitos anos, mas um dia a parceria terminou, quando uma mulher cortou o dedo e um Danag chupou sua ferida, desfrutando tanto do sabor que drenou totalmente o sangue de seu corpo.
Li atentamente as descrições, procurando alguma coisa que parecesse familiar, sem mencionar plausível. Parecia que a maioria dos mitos de vampiros tinha mulheres bonitas como demônios e crianças como vítimas; também pareciam conceitos criados para explicar o alto índice de mortalidade de crianças novas e dar aos homens uma desculpa para a infidelidade. Muitas histórias envolviam espíritos incorpóreos e alertas contra enterros inadequados. Não havia muito que se parecesse com os filmes que eu vira, e só alguns, como o Estrie hebraico e o Upier polonês, ainda se preocupavam em beber sangue.
Só três verbetes realmente prenderam minha atenção: o romeno Varaco laci, um morto-vivo poderoso que podia aparecer como um ser humano bonito de pele clara; o eslovaco Nelapsi, uma criatura tão forte e tão rápida que podia massacrar uma aldeia inteira na primeira hora depois da meia-noite; e outro, chamado Strego ni benefici.
Sobre este último, só havia uma frase curta.

Strego ni benefici: vampiro italiano que se diz e star do lado do bem e é inimigo mortal de todos os vampiros do mal.

Foi um alívio estranho, aquele pequeno verbete, o único mito entre centenas que afirmava a existência de vampiros do bem.
Entretanto, no geral, pouco havia que coincidisse com as histórias de Jules ou minhas próprias observações. Fiz um pequeno catálogo em minha mente enquanto lia e o comparei cuidadosamente com cada mito. Beleza, velocidade, força, pele clara, olhos que mudavam de cor; e depois, os critérios de Jules: bebedores de sangue, inimigos de lobisomem, pele fria e imortais. Havia poucos mitos que combinassem ao menos com um dos fatores.
E depois, outro problema, uma questão de que eu me lembrava do pequeno número de filmes de terror que vira e era sustentada pela leitura de hoje: os vampiros não podiam sair à luz do dia, o sol os queimava até que virassem cinzas. Eles dormiam em caixões o dia todo e só saíam à noite.
Exasperado, apertei o botão para desligar o computador, sem esperar para desligar tudo adequadamente. Em minha irritação, senti um constrangimento dominador. Era tudo tão idiota. Eu estava sentado no meu quarto, pesquisando vampiros. O que havia de errado comigo?
Precisava sair de casa, mas não havia aonde eu quisesse ir que não envolvesse uma viagem de três dias. Calcei as botas assim mesmo, sem ter certeza do meu destino, e desci a escada. Vesti a capa de chuva sem olhar o tempo e disparei porta afora.
Estava nublado, mas ainda não chovia. Ignorei meu carro e parti para o leste a pé, atravessando na diagonal o jardim de Charlie em direção à floresta. Pouco tempo depois, eu havia avançado bastante, a casa e a rua estavam invisíveis e o único som era o esmagar da terra molhada debaixo dos meus pés.
Havia ali uma trilha estreita que levava para o interior da floresta. A trilha entrava cada vez mais fundo na floresta, principalmente para o leste, pelo que eu podia perceber. Serpenteava pelos espruces e as cicutas, os teixos e bordos. Só conhecia vagamente os nomes das árvores em volta de mim, e tudo o que eu sabia se devia ao fato de Charlie apontá-las da janela da viatura na minha infância. Havia muitas que eu não conhecia e outras sobre as quais não podia ter certeza porque estavam cobertas demais de parasitas verdes.
Segui a trilha pelo tempo que a raiva me impeliu. Quando começou a amainar, diminuí o passo. Algumas gotas de água escorriam do dossel verde acima de mim, mas eu não podia ter certeza se estava começando a chover ou se eram simplesmente gotas que restaram de ontem, presas nas folhas no alto, caindo devagar na terra. Uma árvore recém-caída – eu sabia que era recente porque não estava totalmente atapetada de musgo – pousava no tronco de uma de suas irmãs, criando um pequeno banco abrigado a uma distância segura da trilha. Passei por cima das samambaias, me sentei e encostei a cabeça coberta pelo capuz na árvore viva.
Era o lugar errado para ir. Eu devia saber, mas para onde mais iria? A floresta era de um verde intenso e parecida demais com a cena do sonho da noite passada para que eu ficasse tranquilo. Agora que não havia mais o som dos meus passos ensopados, o silêncio era penetrante. As aves também estavam quietas, a frequência das gotas aumentava, então devia estar chovendo no alto.
As samambaias eram quase da altura da minha cabeça agora que eu estava sentado, e eu sabia que alguém podia andar pela trilha, a um metro de distância, e não me ver. Aqui, nas árvores, era muito mais fácil acreditar nas palavras absurdas que me constrangiam entre quatro paredes. Nada mudara nessa floresta havia milhares de anos, e todos os mitos e lendas de cem terras diferentes pareciam muito mais prováveis nessa névoa verde do que em meu quarto claro.
Obriguei-me a me concentrar nas duas questões mais importantes que eu precisava responder.
Primeiro, eu tinha de decidir se era possível que aquilo que Jules dissera sobre os Cullen fosse verdade. Minha mente reagiu imediatamente com uma negativa retumbante. Era tolice considerar essa ideia. Eram histórias bobas. Só lendas velhas e mórbidas. Mas o quê, então?, perguntei a mim mesmo. Não havia explicação racional para o modo como sobrevivi à van.
Relacionei novamente em minha cabeça as coisas que observei: a beleza inumana, a velocidade e a força impossíveis, a cor dos olhos mudando do preto para o dourado e voltando ao preto, a pele branca e gélida. E mais, coisinhas que entraram na minha cabeça aos poucos: eles nunca pareciam comer, e havia a elegância perturbadora com que cada um se movimentava. E o modo como ela falava às vezes, com uma cadência desconhecida e expressões mais adequadas a um romance histórico do tipo que minha mãe amava do que a uma sala de aula do século XXI. Ela matou aula naquele dia em que fizemos a tipagem sanguínea. Não disse não para a viagem à praia até saber aonde iríamos. Parecia saber o que todos por perto dela estavam pensando... a não ser eu. Ela me dissera que era a vilã, perigosa... Poderiam os Cullen serem vampiros?
Bom, eles eram alguma coisa. Algo fora dos limites do normal e são estava acontecendo naquela cidadezinha insignificante. Fossem os frios de Jules ou minha teoria do super-heróis, Edythe Cullen não era... humana. Era algo mais.
Então – talvez. Essa teria que ser minha resposta por enquanto.
E havia a questão mais importante de todas. O que eu ia fazer?
Se Edythe fosse uma vampira (eu mal conseguia pensar na palavra), o que eu deveria fazer? Definitivamente estava fora de cogitação envolver outra pessoa. Eu nem conseguia acreditar; qualquer um com quem eu tentasse falar sobre o assunto me internaria.
Apenas duas opções pareciam práticas. A primeira era aceitar o conselho dela: ser inteligente e evitá-la ao máximo. Cancelar nossos planos, voltar a ignorá-la da melhor maneira que eu pudesse. Fingir que havia um vidro grosso e impenetrável entre nós em uma aula onde éramos obrigados a sentar juntos. Dizer a ela que ela estava certa e nunca mais voltar a falar com ela.
E doeu, a mera ideia, mais do que deveria. Mais do que eu achava que conseguiria aguentar. Mudei de direção e pulei para a opção seguinte.
Eu não podia fazer nada diferente. Afinal, se ela era uma coisa... sinistra, até agora não tinha feito nada de ruim. Na verdade, eu seria um amassado no para-lama do carro de Taylor se ela não tivesse agido com tanta rapidez. Tão rápido, argumentei comigo mesmo, que podia ter sido por mero reflexo. Mas, se foi um reflexo para salvar uma vida, como ela poderia ser má? Minha cabeça girava sem respostas.
Havia algo de que eu tinha certeza, se é que tinha certeza de alguma coisa. A Edythe de vestido preto com dentes e unhas afiados era só a encarnação das palavras de Jules, não a verdadeira Edythe. Mesmo assim, quando ela gritou de horror na hora que a lobisomem atacou, não foi medo da loba que me fez gritar. Não. Foi medo de que ela fosse ferida. Mesmo com ela me chamando com presas afiadas, eu temia por ela.
E eu sabia que havia uma resposta aí. Não sabia se havia alternativa. Eu já mergulhara fundo demais. Agora que eu sabia – se é que sabia – o que eu podia fazer? Porque, ao pensar nela, na voz, nos olhos hipnóticos, na força magnética com a qual o corpo dela atraía o meu, eu só queria estar com ela agora. Mesmo que... Mas eu não queria pensar na palavra de novo. Não aqui, na floresta silenciosa. Não enquanto a chuva a tornava sombria como um crepúsculo sob as árvores e tamborilava como passos no chão de terra lamacenta. Eu tremi e me levantei, preocupado que de algum modo a trilha sumisse com a chuva.
Mas estava ali, sinuosa na sombra verde gotejante. Dei passos maiores agora, e fiquei surpreso, à medida que quase corria pelas árvores, com o quanto fui longe.
Comecei a me perguntar se estava saindo da floresta ou se seguiria a trilha ainda mais para os confins dela. Mas, antes que o pânico fosse demasiado, comecei a vislumbrar alguns espaços abertos pela teia de galhos. Depois, pude ouvir um carro passando na rua, e eu estava livre, o gramado de Charlie debaixo dos meus pés.
Era meio-dia quando entrei em casa. Fui para o segundo andar e me troquei, jeans e uma camiseta, uma vez que ia ficar em casa. Não precisei de muito esforço para me concentrar na tarefa do dia, um trabalho sobre Macbeth que devia entregar na quarta. Comecei a escrever um rascunho, mais sereno do que me sentia desde... Bom, desde a tarde de quinta-feira, para ser franco.
Mas esse sempre foi o meu jeito. Tomar decisões era a parte dolorosa para mim, a parte que me angustiava. Mas, depois que a decisão era tomada, eu simplesmente seguia em frente, aliviado por ter decidido. Às vezes o alívio era tingido de desespero, como minha resolução de vir para Forks. Mas ainda era melhor do que lutar com as alternativas.
Era quase fácil demais conviver com aquela decisão.
Perigosamente fácil.
O resto do dia foi tranquilo e produtivo; terminei o trabalho antes das oito. Charlie chegou em casa com muitos peixes, e fiz uma nota mental para comprar um livro de receitas de peixe quando estivesse em Seattle na semana seguinte. Os arrepios de adrenalina que sentia sempre que pensava nessa viagem não eram diferentes daqueles que senti antes de dar o passeio com Jules.
Deviam ser diferentes, mas eu não sabia como me fazer sentir o tipo certo de medo.
Naquela noite, dormi sem sonhos, exausto por ter começado o dia tão cedo. Acordei, pela segunda vez desde que cheguei a Forks, com a luz amarela de um dia de sol. Cambaleei até a janela, atordoado ao ver que quase não havia uma nuvem no céu. Abri a janela, surpreso quando esta se moveu em silêncio, sem agarrar, pois não a abria desde quem sabe quantos anos antes, e respirei o ar relativamente seco. Estava quase quente e praticamente não ventava. Meu sangue vibrou nas veias.
Charlie estava terminando o café da manhã quando eu desci e percebeu meu estado de espírito de imediato.
— Está um lindo dia — comentou.
— É — concordei com um sorriso.
Quando ele dava um sorriso assim tão grande, era mais fácil imaginá-lo como o homem que se casou impulsivamente com uma garota bonita que mal conhecia quando só tinha três anos a mais do que eu agora. Não havia sobrado muito daquele homem. Ele foi se apagando com os anos, como o cabelo castanho encaracolado que foi se afastando da testa.
Tomei o café da manhã com um sorriso no rosto, vendo a poeira se agitar na luz do sol que jorrava pela janela dos fundos. Charlie gritou um até logo, e ouvi a radiopatrulha sair da casa. Hesitei a caminho da porta, a mão na capa de chuva. Seria uma provocação com o destino deixá-la em casa. Dobrei-a sobre o braço e saí para a luz mais brilhante que eu via em meses.
Depois de uma batalha curta, consegui que as duas janelas da picape ficassem quase completamente abertas.
Fui um dos primeiros a chegar na escola; nem mesmo olhei o relógio, na pressa que tive de sair. Estacionei e segui para os bancos de piquenique no lado sul do refeitório. Os bancos ainda estavam meio molhados, então eu me sentei em cima da capa de chuva, feliz por encontrar utilidade para ela. Meu dever de casa estava pronto, mas havia alguns problemas de trigonometria que eu não tinha certeza de que estavam certos. Abri o livro, mas, na metade da revisão do primeiro problema, minha mente já estava longe, vendo o sol brincar nas árvores de tronco vermelho. Rabisquei sem atenção nas margens do meu dever de casa. Depois de alguns minutos, de repente percebi que tinha desenhado cinco pares de olhos escuros me encarando da página. Passei a borracha neles.
— Beau! — ouvi alguém gritar, e parecia McKayla.
Olhei em volta e percebi que a escola tinha se povoado enquanto eu estava sentado ali. Todos estavam de camiseta, alguns até de short, apesar de a temperatura não poder ser de mais do que quinze graus. McKayla vinha na minha direção com uma saia que chegava na metade das coxas e uma camiseta regata.
— Oi, McKayla — respondi.
Ela veio se sentar ao meu lado, o sol cintilando no cabelo recém-alisado, um sorriso se espalhando pelo rosto. Estava tão contente em me ver que não pude deixar de retribuir.
— Lindo dia, não é?
— Do jeito que eu gosto — concordei.
— O que você fez ontem? — O tom de voz era um tanto possessivo, e lembrei o que Jules disse. As pessoas achavam que eu era namorado dela porque McKayla queria que achassem isso.
Mas eu estava com o humor bom demais para me deixar afetar.
— Trabalhei no dever sobre Macbeth.
— Ah, é. É para a quinta, não é?
— Hmmm, para quarta, eu acho.
— Quarta? — O sorriso dela desapareceu. — Isso não é bom. Acho que vou ter que fazer hoje. — Ela franziu a testa. — Eu ia perguntar se você queria sair.
— Ah. — Fiquei abalado. Por que eu não podia mais ter uma conversa com McKayla sem que ficasse constrangedor?
— Bom, a gente podia sair para jantar ou coisa assim... e eu podia fazer o trabalho depois. — Ela sorriu para mim, cheia de esperança.
— McKayla... — Aí vem a culpa, eu pensei. — Não acho que seria uma boa ideia.
Ela ficou com a cara no chão.
— Por quê? — perguntou, os olhos na defensiva. Meus pensamentos se voltaram para Edythe, e eu me perguntei se McKayla estava pensando a mesma coisa.
— Olha, estou violando todos os códigos masculinos ao dizer isso, então não me dedure, tá?
— Códigos masculinos?
— Jeremy é meu amigo, e, se eu saísse com você, ele ficaria chateado.
Ela ficou me olhando.
— Eu nunca falei nada disso, tá? É sua palavra contra a minha.
— Jeremy? — perguntou ela, a voz tomada de surpresa.
— Falando sério, você é cega?
— Ah. — Ela expirou, parecendo atordoada. Hora de fugir.
Enfiei o livro na mochila.
— Não quero me atrasar de novo. Já estou na lista de Mason.
Andamos em silêncio para o prédio três, e ela tinha uma expressão desligada. Eu esperava que os pensamentos em que estivesse imersa a levassem na direção correta.
Quando vi Jeremy na aula de trigonometria, ele estava tão animado pelo dia de sol quanto eu. Ele, Allen e Logan iam a Port Angeles ver um filme e encomendar flores para o baile, e fui convidado. Fiquei indeciso. Seria legal sair da cidade, mas Logan estaria lá. E quem sabia o que eu podia estar fazendo à noite... Mas essa era a coisa errada em que pensar. É claro que eu estava feliz de ver o sol de novo. Mas isso não era totalmente responsável pelo meu estado de espírito, nem chegava perto.
Então respondi com um talvez, mentindo sobre deveres de casa atrasados.
Finalmente fomos almoçar. Eu estava tão ansioso para ver não só Edythe, mas todos os Cullen, que foi quase doloroso. Precisava compará-los com as desconfianças que me assombravam. Talvez, com todos juntos em um mesmo lugar, eu conseguisse ter certeza de que estava errado, de que não havia nada de sinistro neles. Assim que passei pela soleira da porta do refeitório, senti o primeiro tremor de medo latejar no meu estômago. Eles conseguiriam saber o que eu estava pensando? E depois, uma sensação diferente me abalou: Edythe estaria me esperando de novo?
Como era minha rotina, olhei primeiro para a mesa dos Cullen. Senti uma pequena onda de pânico quando vi que estava vazia. Com esperança cada vez menor, meus olhos varreram o resto do refeitório, torcendo para encontrá-la sozinho. O local estava quase lotado, a aula de espanhol nos atrasara, mas não havia sinal de Edythe nem de ninguém da família dela. De uma hora para outra, meu bom humor desapareceu.
Estávamos tão atrasados que todos já estavam em nossa mesa. Evitei a cadeira vazia ao lado de McKayla e fui para outra perto de Allen. Percebi vagamente que McKayla tinha guardado uma cadeira para Jeremy, cujo rosto se iluminou com isso.
Allen fez algumas perguntas em voz baixa sobre o trabalho de Macbeth, que respondi com a maior naturalidade possível enquanto caía numa espiral de infelicidade. Ele também me convidou para ir com eles à noite, e dessa vez eu concordei, procurando uma distração.
E se Edythe soubesse o que fiz no fim de semana? E se mergulhar mais fundo nos segredos tivesse levado ao desaparecimento dela? E se eu tivesse provocado aquilo?
Percebi que me agarrava ao último fiapo de esperança quando entrei na aula de biologia, vi o lugar dela vazio e senti uma nova onda de decepção.
O resto do dia se arrastou. Não consegui acompanhar a discussão da aula de biologia, e nem tentei prestar atenção na aula da treinadora Clapp sobre as regras de badminton. Fiquei feliz por sair do campus, assim eu poderia parar de fingir que estava bem até a hora de ir a Port Angeles. Mas, logo depois de entrar pela porta de casa, o telefone tocou. Era Jeremy, para cancelar nossos planos. Tentei parecer feliz com o fato de McKayla tê-lo convidado para jantar, mas acho que só pareci irritado. Ele reprogramou o cinema para terça.
Isso me deixou sem distrações. Temperei o peixe para o jantar e terminei meu dever, mas só levei meia hora. Chequei meu e-mail e percebi que vinha ignorando minha mãe. Ela não estava muito feliz.

Mãe,
Desculpe. Estive fora. Fui à praia com alguns amigos. E precisei escrever um trabalho.

Minhas desculpas eram muito patéticas, então desisti delas.

Hoje fez sol – eu sei, estou chocado também – então vou ficar lá fora e me encharcar do máximo de vitamina D que eu puder. Eu te amo,
Beau.

Eu tinha uma pequena coleção de livros favoritos que vieram comigo para Forks, e agora peguei Vinte mil léguas submarinas e uma colcha velha do armário de roupas de cama no alto da escada.
Lá fora, coloquei a colcha no meio do ponto mais ensolarado do pequeno quintal quadrado de Charlie e me joguei em cima. Folheei o livro, esperando que uma palavra ou frase captasse meu interesse, normalmente uma lula gigante ou uma narwhal eram adequadas, mas dessa vez folheei o livro todo duas vezes sem encontrar nada de intrigante o bastante para me fazer começar a ler. Fechei o livro. Tudo bem, tanto faz. Eu me bronzearia, então.
Deitei de costas e fechei os olhos.
Tentei argumentar comigo mesmo. Não havia motivo para surtar. Edythe disse que ia acampar. Talvez os outros planejassem se juntar a ela. Talvez todos tivessem decidido ficar mais um dia porque o tempo estava tão bom. Faltar alguns dias não afetaria as notas perfeitas dela. Eu podia relaxar. Amanhã eu a veria novamente, sem dúvida.
Mesmo se ela ou algum dos outros conseguisse saber o que eu estava pensando, isso não era motivo para sumirem. Eu não acreditava em nada daquilo, e eu não ia mesmo dizer nada para ninguém. Era burrice. Eu sabia que a ideia toda era ridícula. Obviamente, não havia nenhum motivo para ninguém, vampiro ou não, reagir com exagero.
Era igualmente ridículo imaginar que alguém era capaz de ler meus pensamentos. Eu precisava parar de ser tão paranoico. Edythe voltaria amanhã. Ninguém achava neurose uma coisa atraente, e eu duvidava de que ela fosse a primeira.
Tranquilo. Relaxado. Normal. Eu conseguia lidar com isso. Era só inspirar e expirar.
Quando dei por mim, percebi o som da viatura de Charlie virando no piso da entrada de carros. Sentei-me, surpreso de ver que a luz sumiu e eu estava nas sombras das árvores agora. Eu devia ter adormecido. Olhei em volta, ainda desnorteado, com a sensação repentina de que não estava só.
— Charlie? — perguntei. Mas consegui ouvir a porta batendo na frente da casa.
Fiquei de pé num pulo, tenso e me sentindo idiota por me sentir assim, e peguei a colcha e meu livro. Corri para dentro a fim de colocar o óleo para esquentar no fogão; graças ao meu cochilo, o jantar sairia atrasado. Charlie estava pendurando o cinto da arma e tirando as botas quando entrei.
— Desculpe, o jantar ainda não está pronto. Eu dormi lá fora. — Dei um bocejo enorme.
— Não se preocupe com isso — disse ele. — Eu queria pegar o placar do jogo, de qualquer forma.
Para ter alguma coisa para fazer, vi TV com Charlie depois do jantar. Não havia nada a que eu quisesse assistir, mas ele sabia que eu não gostava de basquete, então colocou numa série estúpida de que nenhum de nós gostou. Mas ele parecia feliz por fazermos alguma coisa juntos. E foi bom, apesar da minha depressão idiota, fazê-lo feliz.
— Só pra você saber, pai — falei durante um intervalo — vou ao cinema com uns caras da escola amanhã à noite, então você vai estar por sua conta.
— Alguém que conheço? — perguntou ele.
Quem ele não conhecia na cidade?
— Jeremy Stanley, Allen Weber e Logan sei lá qual é o sobrenome dele.
— Mallory — disse ele.
— Se você diz.
— Tudo bem, mas tem aula no dia seguinte, então não exagere.
— Vamos logo depois da aula para não voltarmos tarde. Quer que eu deixe alguma coisa para o seu jantar?
— Beau, eu me alimentei por dezessete anos antes de você vir para cá — lembrou ele.
— Não sei como sobreviveu — murmurei.
Tudo pareceu menos horrível de manhã, estava sol de novo, mas tentei não me encher de esperanças. Vesti um suéter mais fino, para tempo mais quente, uma peça que eu usava no auge do inverno em Phoenix.
Eu tinha planejado minha chegada à escola de modo que mal tivesse tempo para entrar na sala. Meu humor despencou rapidamente enquanto eu circulava pelo estacionamento cheio, procurando por uma vaga... e também procurando o Volvo prata que claramente não estava ali.
Foi igual ao dia anterior: eu não conseguia evitar que as sementes da esperança brotassem na minha mente, para depois vê-las sendo esmagadas sem dó enquanto eu procurava em vão pelo refeitório e me sentava no lugar vazio na carteira de biologia. E se ela nunca mais voltasse? E se eu nunca mais a visse?
A ida a Port Angeles seria aquela noite, e ficou mais interessante pelo fato de que Logan não poderia ir. Eu mal podia esperar para sair da cidade, para que pudesse parar de olhar por sobre o ombro, na esperança de vê-la aparecer do nada, como sempre fazia. Jurei ficar de bom humor para não irritar Jeremy e Allen. Talvez eu conseguisse encontrar uma boa livraria lá. Eu não queria pensar que podia ter que ir sozinho a Seattle no fim de semana. Ela não cancelaria sem me avisar, não é? Mas quem sabia que tipos de regras sociais os vampiros sentiam que tinham que seguir?
Depois da aula, Jeremy me acompanhou até em casa com seu velho Mercury branco para que eu pudesse deixar a picape e fomos para a casa de Allen. Ele estava nos esperando. Minha empolgação foi aumentando à medida que saíamos dos limites da cidade.

10 comentários:

  1. Hilário,
    — Por quê? — perguntou, os olhos na defensiva. Meus pensamentos se voltaram para Edythe, e eu me perguntei se McKayla estava pensando a mesma coisa.
    — Olha, estou violando todos os códigos masculinos ao dizer isso, então não me dedure, tá?
    — Códigos masculinos?
    — Jeremy é meu amigo, e, se eu saísse com você, ele ficaria chateado.
    Ela ficou me olhando.
    — Eu nunca falei nada disso, tá? É sua palavra contra a minha.

    Me diz 1 garota q caiu nisso? No mínimo iria querer q os caras saíssem no soco por ela. Entretanto fico curioso para saber como seria a versão em q a Jules tentasse beija-lo, ele desse um soco nela e quebrasse a mão e dps a Edythe aparecesse para socar a Jules... Acreditar em vampiros é o menor dos seus problemas, esse mundo é mais surreal do que Alice no País das Maravilhas

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    1. Bem, é claro que ela preferiria isso, mas é crível, sim. Se os dois são amigos, Beau não quereria mesmo estragar a amizade por causa dela. E acho que essa cena com Jules sairia diferente, Beau não tentaria socá-la kkkkkkk

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    2. É realmente hilário... Tem cenas que é preciso mudar, mas mesmo assim fico imaginando como seria se não mudasse... kkkkkkkkkkk

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    3. Não sei como funciona a mente dos garotos, mas sou garota e garanto que não estou nem um pouco afim de ter dois caras "saindo no soco" por mim. É uma situação no mínimo incômoda.

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    4. Eu fico imaginando a cena em que o Edward põe a Bella nas costas e sai correndo kkkk tipo, o beau é bem mais alto e a edythe é bem delicada, seria o máximo essa parte desse jeito!

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    5. Eu imagino a cena ele fugindo d 4 garotas e a edyth assim? Salva ele

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  2. katherine gregianin23 de janeiro de 2016 10:04

    o beau parece meus amigos se eu falto um dia eles já pensam que caiu um meteoro e me matou

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  3. Codigo masculino.....sério isso? É muita idiotice para um sexo só, se bem que eu sou menina e a gente tb tem determinadas coisas que me irritam

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  4. Ainda ansiosa para ver como o Beau irá fugir dos homens/mulheres (não sei qual) em Seattle 😂😂😂
    PS: Amando o livro

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  5. NA VERDADE SÓ CONSIGO PENSAR QUE ROMANTICO VAI SER ELA CARREGAR ELE NAS COSTAS KKKK TIPO NA CENA EM QUE VÃO PARA A ACAMPINA

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