15 de janeiro de 2016

Capítulo 6 - Histórias de terror

Enquanto tentava me concentrar no terceiro ato de Macbeth, eu tentava ouvir minha picape. Achava que, mesmo com o martelar da chuva, poderia ouvir o rugido do motor. Mas, quando olhei pela janela de novo, de repente ela estava ali.
Eu não estava animado para acordar na sexta-feira, e ela mais do que cumpriu minhas expectativas negativas. É claro que houve comentários sobre o desmaio. Jeremy parecia se divertir com a história. Ele riu até engasgar quando Logan fingiu desmaiar na mesa do almoço. Por sorte, McKayla manteve a boca fechada, e ninguém parecia saber do envolvimento de Edythe. Mas Jeremy tinha muitas perguntas sobre o almoço do dia anterior.
— O que Edythe Cullen queria? — perguntou ele na aula de trigonometria.
— Não sei. — Era a verdade. — Ela não chegou a dizer.
— Ela parecia meio zangada.
Eu dei de ombros.
— Parecia?
— Nunca a vi se sentar com ninguém a não ser a família. Aquilo foi esquisito.
— É, foi esquisito — concordei.
Ele pareceu meio irritado por eu não ter respostas melhores.
A pior parte da sexta-feira foi que, embora soubesse que ela não estaria lá, eu ainda esperava. Quando fui para o refeitório com Jeremy e McKayla, não consegui deixar de olhar a mesa dela, onde Royal, Archie e Jessamine estavam conversando com as cabeças próximas. Perguntei-me se foi Archie que levou minha picape para casa ontem e o que achou da tarefa.
À minha mesa de sempre, todos estavam cheios de planos para o dia seguinte. McKayla estava animada de novo, confiando muito mais no meteorologista local do que eu achava que ele merecia. Eu teria que ver o prometido sol para acreditar. Pelo menos, estava mais quente, quase quinze graus. Talvez o passeio não fosse completamente infeliz.
Interceptei alguns olhares não amistosos de Logan durante o almoço, que não entendi. Assim como todo mundo, eu ri do desmaio falso dele. Mas fui entender quando todos fomos para a aula juntos. Acho que ele não percebeu como eu estava perto dele, logo atrás.
Ele passou a mão pelo cabelo louro platinado penteado para trás com gel.
— Não sei por que Beaufort — disse meu nome com desprezo — não se senta logo com os Cullen agora — eu o ouvi murmurar para McKayla.
Eu nunca havia percebido que a voz dele era anasalada, e fiquei surpreso pela malícia implícita. Eu não o conhecia bem, não o suficiente para que ele não gostasse de mim. Ou assim eu pensei.
— Ele é meu amigo, ele senta com a gente — respondeu McKayla. Leal, mas possessiva. Parei para deixar que Jeremy e Allen passassem. Não queria ouvir mais nada.



No jantar, Charlie parecia entusiasmado com minha viagem a La Push de manhã. Acho que ele se sentia culpado por me deixar em casa sozinho nos fins de semana, mas passara tempo demais formando seus hábitos para abandoná-los agora. E eu não me importava de ficar sozinho.
É claro que sabia os nomes de todos os adolescentes que iam, e dos pais deles, e dos bisavós também, provavelmente. Ele aprovava, claro. Eu me perguntei se ele aprovaria meu plano de pegar uma carona para Seattle com Edythe Cullen. Ele parecia gostar muito dos Cullen. Mas não havia motivo para contar a ele.
— Pai, você conhece um lugar chamado Goat Rocks ou coisa assim? Acho que fica ao sul de Mount Rainier.
— Conheço, por quê?
Dei de ombros.
— Um pessoal estava falando de acampar lá.
— Não é um lugar muito bom para acampar. — Ele pareceu surpreso. — Tem ursos demais. A maioria das pessoas vai lá na temporada de caça.
— Ah. Talvez eu tenha entendido errado.
Eu queria dormir um pouco mais, mas a claridade me acordou. Em vez da meia-luz sombria que me acordou todos os dias nos últimos dois meses, havia uma luz amarela intensa jorrando pela minha janela. Eu nem acreditei, mas ali estava, finalmente, o sol. Estava no lugar errado, baixo demais e não tão perto quanto deveria, mas definitivamente era o sol. Nuvens ainda tingiam o horizonte, mas um grande trecho de azul ocupava boa parte do céu. Coloquei as roupas rapidamente, com medo de o azul sumir assim que eu desse as costas.
A loja Olympic Outfitters, dos Newton, ficava no norte da cidade. Eu já tinha visto a loja, mas nunca parei ali, pois não tinha muita vontade de comprar os equipamentos necessários para ficar ao ar livre intencionalmente por um longo período de tempo. No estacionamento, vi o Suburban de McKayla e o Sentra de Taylor. Quando estacionei perto dos carros delas, vi o grupo parado na frente do Suburban. Erica estava lá, junto com outras duas meninas que reconheci da minha turma. Eu tinha quase certeza de que os nomes eram Becca e Colleen. Jeremy estava ali, ladeado por Allen e Logan. Outros três caras estavam junto deles, inclusive um que eu me lembrava de ter derrubado na educação física na sexta-feira. Esse me lançou um olhar de raiva quando eu saí do meu carro e disse alguma coisa para Logan. Eles riram alto, e Logan fingiu estar desmaiando.
O outro cara o segurou primeiro, depois deixou cair. Os dois caíram na gargalhada de novo, com Logan ainda deitado no chão com as mãos atrás da cabeça.
Então seria assim.
Pelo menos McKayla ficou feliz em me ver.
— Você veio! — gritou ela, parecendo animada. — E prometi que hoje ia fazer sol, não foi?
— Eu falei que viria.
— Só estamos esperando Leann e Sean... a não ser que você tenha convidado alguém — acrescentou ela.
— Não, sou só eu — menti de leve, esperando não ser pego. Mas valeria a pena ser pego se quisesse dizer passar o dia com Edythe.
McKayla sorriu.
— Quer ir no meu carro? É nele ou na minivan da mãe de Leah.
— Claro.
O sorriso dela foi enorme. Era tão fácil deixar McKayla feliz.
— Pode sentar na frente — prometeu ela, e vi Jeremy olhar para nós e fazer cara feia. Não era tão simples assim fazer McKayla e Jeremy felizes ao mesmo tempo.
Mas os números deram certo. Leah trouxe mais duas pessoas, e cada espaço no carro era necessário. Fiz Jeremy entrar antes de mim, então ele ficou entre mim e McKayla no banco da frente do Suburban. McKayla podia ter disfarçado melhor, mas pelo menos Jeremy parecia satisfeito.
Eram só 24 quilômetros de Forks a La Push, com florestas verdes, densas e lindas margeando a estrada na maior parte do caminho, e o amplo rio Quillayute serpenteando embaixo. Fiquei feliz por me sentar junto à janela. Baixamos os vidros – o Suburban era meio claustrofóbico com nove pessoas lá dentro – e tentei absorver o máximo de sol que pude.
Eu já tinha ido muitas vezes às praias de La Push durante meus verões em Forks com Charlie e já conhecia a curva de oitocentos metros da primeira praia. Mas ainda era de tirar o fôlego. A água era cinza-escura, mesmo ao sol, com cristas brancas, e quebrava na praia rochosa. As ilhas surgiam das águas em escarpas empinadas, coroadas por abetos austeros e elevados. A praia só tinha uma lasca de areia na beira da água; depois disso, se alargava em milhões de pedras grandes e lisas que pareciam uniformemente cinzentas à distância, mas, de perto, tinham todos os tons que uma pedra podia ter. A linha da maré era tomada de enormes troncos trazidos pelo mar, embranquecidos pelas ondas salgadas, alguns em pilhas na beira da floresta, outros deitados solitários, fora do alcance das ondas.
Havia um vento fresco vindo das ondas, frio e salgado. Pelicanos flutuavam nas ondas enquanto gaivotas e uma águia solitária rodavam acima deles. As nuvens ainda circundavam o céu, ameaçando invadir a qualquer momento, mas por enquanto o sol brilhava corajosamente em seu halo de céu azul.
Pegamos o caminho pela areia densa para a praia, McKayla na frente, até um anel de troncos que obviamente tinham sido usados para festas como a nossa. Já havia um círculo de fogueira montado, cheio de cinzas escuras. Erica e a garota que eu achava que se chamava Becca juntaram galhos quebrados das pilhas mais secas junto à floresta, e logo havia uma construção no formato de uma tenda indígena no alto das cinzas antigas.
— Já viu uma fogueira de madeira de praia? — perguntou McKayla.
Eu estava sentado em um dos bancos desbotados; Jeremy e Allen estavam sentados dos meus dois lados, mas a maior parte do resto do pessoal estava sentada do outro lado do círculo. McKayla se ajoelhou junto à fogueira, acendendo um dos gravetos menores com um isqueiro.
— Não — eu disse enquanto ela colocava o graveto aceso cuidadosamente na tenda.
— Então vai gostar dessa. Olhe só as cores. — Ela acendeu outro galho e o colocou junto do primeiro. As chamas começaram a lamber rapidamente a madeira seca.
— É azul — falei, surpreso.
— É por causa do sal. Legal, né?
Ela acendeu mais um galho, colocou onde a fogueira ainda não tinha pegado, e depois veio se sentar do meu lado. Felizmente, Jeremy estava do outro lado dela. Ela se virou para McKayla e começou a fazer perguntas sobre o planejamento do dia. Fiquei olhando as estranhas chamas azuis e verdes estalarem para o céu.
Depois de meia hora de bate-papo, algumas meninas queriam andar até as piscinas da maré baixa próximas, mas a maioria dos garotos queria ir até a única loja do vilarejo para comprar comida.
Eu não sabia a quem me juntar. Não estava com fome e adorava as piscinas de maré baixa, e isso desde que eu era criança; era uma das poucas coisas que queria ver quando tinha que vir a Forks. Por outro lado, também já caí muito nelas. Não é grande coisa quando se tem sete anos e está com seu pai. Isso me lembrou de repente de Edythe (não que ela não estivesse sempre em algum lugar dos meus pensamentos) e do pedido dela para que eu não caísse no mar.
Foi Logan quem decidiu por mim. Ele tinha a voz mais alta na discussão e queria comer. O grupo se dividiu em três partes, os que iam comer, os que iam caminhar e os que iam ficar ali, sendo que a maioria foi com Logan.
Esperei até que Taylor e Erica decidissem ir com ele para me levantar em silêncio e me juntar ao grupo da caminhada. McKayla sorriu quando viu que eu ia com eles.
A caminhada era curta, mas detestei perder o sol nas árvores. A luz verde da floresta era um ambiente estranho para o riso adolescente, obscura e agourenta demais para se harmonizar com as brincadeiras ao meu redor. Tive que me concentrar nos pés e na cabeça, evitando raízes embaixo e galhos em cima, e logo fiquei para trás.
Quando atravessei o limite escuro da floresta e reencontrei a praia rochosa, fui o último. A maré estava baixa, e um rio passava por nós a caminho do mar. Junto a suas margens seixosas, piscinas rasas que nunca eram completamente drenadas fervilhavam de vida marinha.
Tive o máximo cuidado para não me inclinar demais na beira das piscinas. Os outros não tinham medo, pulavam nas pedras, empoleiravam-se precariamente na beira.
Achei uma pedra que parecia muito estável na margem de uma das maiores piscinas e me sentei ali com cautela, fascinado com o aquário natural abaixo de mim. Os buquês de anêmonas ondulavam na correnteza invisível, caranguejos eremitas corriam pelas margens dentro das conchas espiraladas, estrelas-do-mar prendiam-se imóveis nas rochas e em outras estrelas, enquanto uma pequena enguia preta de listras brancas ondulava pelas algas verde-claras, esperando o retorno do mar. Fiquei completamente absorto, a não ser por uma pequena parte da minha mente que imaginava o que Edythe estaria fazendo agora e tentando adivinhar o que ela diria se estivesse aqui comigo.
De repente, todo mundo ficou com fome, e eu me levantei, rígido, para segui-los de volta. Dessa vez, tentei acompanhar o ritmo pela floresta, então, naturalmente, caí algumas vezes. Fiquei com alguns arranhões leves nas palmas das mãos, mas não saiu muito sangue.
Quando voltamos para a primeira praia, o grupo que deixamos tinha se multiplicado. À medida que nos aproximávamos, pude ver o cabelo preto, liso e reluzente e a pele acobreada dos adolescentes recém-chegados da reserva que apareceram para fazer uma social. A comida já estava sendo distribuída, e todo mundo que estava na caminhada correu para reivindicar uma parte. Erica nos apresentava à medida que cada um de nós entrava na roda da fogueira. Allen e eu fomos os últimos a chegar, e, quando Erica disse nossos nomes, vi uma menina mais nova sentada nas pedras perto da fogueira olhar para mim com interesse. Sentei ao lado de Allen, e McKayla nos trouxe sanduíches e refrigerantes. A garota que parecia ser a mais velha dos visitantes falou o nome dos sete que estavam com ela. Só o que captei foi que um dos meninos também se chamava Jeremy, e a menina que notou minha presença se chamava Julie.
Foi relaxante ficar sentado ali com Allen; ele era o tipo de pessoa sossegada, que não sentia a necessidade de preencher cada silêncio com tagarelice e me deixava livre para pensar enquanto comíamos. E eu estava pensando em como o tempo parecia fluir de forma estranha em Forks, às vezes passando indistintamente, com algumas imagens se destacando de forma mais clara do que outras. Mas, em outras ocasiões, cada segundo era significativo, grudado em minha mente. Eu sabia exatamente o que provocava a diferença e isso me perturbava.
Durante o almoço, as nuvens começaram a avançar, disparando por um momento na frente do sol, lançando sombras compridas pela praia e escurecendo as ondas. Enquanto terminavam de comer, as pessoas começaram a se afastar em grupos de dois ou três. Algumas desceram para a beira da praia, tentando jogar pedras pela superfície agitada. Outras se reuniram numa segunda expedição às piscinas da maré baixa. McKayla, com Jeremy como uma sombra, seguiu para a lojinha. Alguns garotos do lugar foram com eles; outros acompanharam a caminhada. Depois que todos se espalharam, fiquei sentado sozinho em meu tronco na praia, com Logan e Taylor conversando ao lado do CD player que alguém pensara em trazer, e três adolescentes da reserva, inclusive a menina chamada Julie e a garota mais velha, que tinha agido como porta-voz.
Alguns minutos depois de Allen sair com os andarilhos, Julie veio sentar-se ao meu lado. Parecia ter 14 anos, talvez 15, e tinha cabelos pretos brilhantes e compridos, presos com elástico num rabo de cavalo na nuca. Sua pele era linda, com seda acobreada, os olhos eram escuros e amplos sobre as maçãs altas do rosto e os lábios se curvavam como um arco. Era um rosto muito bonito. Mas minha opinião foi prejudicada pelas primeiras palavras que saíram de sua boca.
— Você é Beaufort Swan, não é?
Foi como se o primeiro dia de aula estivesse se repetindo.
— Beau. — Eu suspirei.
— Certo — disse ela, como se já soubesse. — Meu nome é Julie Black. — Ela estendeu a mão. — Você comprou a picape da minha mãe.
— Ah — eu disse, aliviado, apertando sua mão quente. — Você é filha da Bonnie. Eu devia me lembrar de você.
— Não, eu sou a mais nova da família. Você deve se lembrar dos meus irmãos mais velhos.
De repente, me lembrei.
— Adam e Aaron.
Charlie e Bonnie e o marido dela – George, eu lembrava agora; ele tinha morrido alguns anos antes, de acidente de carro ou alguma coisa assim, e Charlie ficou muito triste – nos reuniam muitas vezes durante minhas visitas, para nos manter ocupados enquanto eles pescavam. Nunca fizemos muito progresso na amizade. É claro que eu tive acessos de raiva suficientes para dar um fim às viagens de pescaria quando tinha 11 anos.
— Adam e Aaron e... Jules, não era?
Ela sorriu.
— Você lembra. Ninguém me chama assim desde que meus irmãos saíram de casa.
— Eles não estão aqui? — Examinei os garotos na beira do mar, perguntando-me se os reconheceria agora.
— Não. Adam conseguiu uma bolsa de estudos na Washington State University, e Aaron se casou com uma surfista samoana. Agora mora no Havaí.
— Casou. Caramba. — Eu estava pasmo. Os gêmeos só eram um pouco mais de um ano mais velhos do que eu.
— E aí, gostou da picape? — perguntou ela.
— Adorei. Funciona maravilhosamente.
— É, mas é bem lenta. — Ela riu. — Fiquei tão aliviada quando Charlie a comprou. Minha mãe não queria me deixar trabalhar na montagem de outro carro quando tínhamos um veículo em perfeito funcionamento ali.
— Não é tão lenta assim — objetei.
— Já tentou passar de noventa por hora?
— Não — admiti.
— Ainda bem. Não tente. — Ela sorriu.
Não consegui deixar de sorrir também.
— Ela é ótima em batidas — propus, em defesa de minha picape.
— Acho que nem um tanque poderia derrubar aquele monstro velho — concordou ela com outra risada.
— Então você monta carros? — perguntei, impressionado.
— Quando tenho tempo e peças. Por acaso você sabe onde posso conseguir um cilindro mestre de um Volkswagen Rabbit 1986? — perguntou ela, de brincadeira. Tinha uma voz interessante, calorosa e meio rouca.
— Não, desculpe. — Eu ri. — Não vi nenhum ultimamente, mas vou ficar de olho para você. — Como se eu soubesse o que era aquilo. Era muito fácil conversar com ela.
Ela abriu um sorriso brilhante e olhou para mim de um jeito que eu estava aprendendo a reconhecer. E eu não fui o único a perceber.
— Você conhece o Beaufort, Julie? — perguntou Logan. Eu devia saber que alguém como Logan repararia no quanto não gosto do meu nome.
— Beau e eu nos conhecemos praticamente desde que eu nasci — disse Jules, sorrindo para mim de novo.
— Que legal — retrucou Logan. Eu não tinha reparado antes em como os olhos verde-claros dele eram frios.
Jules ergueu as sobrancelhas ao perceber o tom dele.
— Não é maravilhoso?
O sarcasmo dela pareceu abalar Logan, mas ele ainda não tinha acabado de implicar comigo.
— Beau, Taylor e eu estávamos falando que foi uma pena nenhum dos Cullen ter podido vir aqui hoje. Ninguém pensou em convidá-los?
Ele olhou para mim como se soubesse que eu tinha chamado Edythe e achasse hilário ela ter recusado. Só que não pareceu rejeição no momento, pareceu que ela queria ter vindo comigo, mas não podia. Eu interpretei errado?
Minhas preocupações foram interrompidas por uma voz forte e clara.
— Quer dizer a família da Dra. Carine Cullen?
Era a garota mais velha que antes apresentou o pessoal da reserva. Ela era mais velha do que eu pensava, agora que estava olhando melhor. Não mais uma garota, mas uma mulher. Diferentemente de Julie, o cabelo dela estava cortado curto, como o de um garoto. Ela estava de pé agora, e vi que era quase tão alta quanto eu.
Logan olhou para ela, olhou para cima, porque ela era mais alta do que ele, irritado por ela ter falado antes de eu poder responder.
— É, você conhece? — perguntou ele de um jeito condescendente, virando- se um pouco para ela.
— Os Cullen não vêm aqui — disse ela, e, no tom de voz claro e forçado, pareceu menos uma observação e mais uma... ordem. Ela ignorou a pergunta dele, mas a conversa estava encerrada.
Taylor, tentando recuperar a atenção de Logan, pediu a opinião dele sobre um CD que estava segurando. Ele estava distraído.
Olhei para a mulher, que estava de pé com postura confiante e ereta, olhando na direção da floresta escura. Ela disse que os Cullen não iam ali, mas o tom implicava mais alguma coisa; que eles não tinham permissão para isso, eram proibidos de ir. Suas maneiras deixaram uma estranha impressão em mim e tentei ignorá-las, sem sucesso.
Jules interrompeu minhas reflexões.
— E aí, Forks já está te deixando louco?
Eu franzi a testa. Possivelmente, eu já estava louco naquele momento.
— Ah, eu diria que este é um jeito suave de dizer a verdade.
Ela sorriu com solidariedade.
Eu ainda estava repensando o breve comentário da mulher sobre os Cullen e comparando com o que interpretei da reação de Edythe no outro dia. Olhei para Jules com especulação.
— O quê? — perguntou ela.
— Quer ir até a praia comigo?
Ela olhou para Logan, depois para mim e deu um sorriso rápido.
— Quero. Vamos sair daqui.
Enquanto seguíamos para o norte até o quebra-mar de troncos, as nuvens finalmente venceram. O sol desapareceu, o mar ficou negro e a temperatura começou a cair. Enfiei as mãos nos bolsos do casaco.
Enquanto andávamos, pensei no jeito como Edythe sempre me fazia falar, quando ela me olhava por baixo dos cílios compridos e o dourado dos olhos ardia, e eu esquecia tudo: meu nome, como respirar, tudo, menos ela. Olhei para a garota andando ao meu lado agora. Jules só estava usando uma blusa de manga comprida, mas balançava os braços enquanto andava, sem se incomodar com o frio. O vento soprava o cabelo preto e sedoso em curvas e nós nas costas dela. Havia algo muito natural e aberto no rosto dela. Mesmo que eu soubesse fazer aquela coisa ardente que Edythe fazia, aquela garota provavelmente só riria de mim. Mas não com crueldade, eu achava. Com Jules, você sempre estaria por dentro da piada.
— Amigos legais — comentou ela quando estávamos longe o bastante da fogueira para o barulho das pedras debaixo dos nossos pés ser o suficiente para afogar nossas vozes.
— Não são meus amigos.
Ela riu.
— Deu para perceber.
— Aquelas outras pessoas eram seus amigos? Aquela que estava falando parecia meio que... mais velha.
— É a Samantha. Sam. Ela tem 19 anos, eu acho. Não ando muito com ela. Uma das minhas amigas estava lá antes, a Quil. Acho que ela foi até a loja.
— Não lembro quem ela era.
Ela deu de ombros.
— Eu também não guardei muitos nomes. Só me lembrei do seu porque você puxava meu cabelo.
— Puxava? Desculpa!
Ela riu.
— Olha só a sua cara. Não, só os meus irmãos puxavam. Mas eu podia ter convencido você de que era culpado.
Era fácil rir com ela.
— Acho que podia. Ei, posso perguntar uma coisa?
— Manda.
— O que aquela garota, Sam, o que ela quis dizer sobre a família da médica?
Jules fez uma careta e afastou o olhar, na direção do oceano. Ela não disse nada.
Isso tinha que querer dizer que eu estava certo. Havia mais alguma coisa por trás do que Sam disse. E Julie sabia o que era.
— Olha, eu não queria ser grosseiro nem nada.
Julie se virou com outro sorriso, meio que pedindo desculpas.
— Não se preocupe. É que... não posso falar sobre isso.
— É segredo?
Ela repuxou os lábios curvos.
— Mais ou menos.
Eu levantei as mãos.
— Esqueça que perguntei.
— Mas já estraguei tudo, não foi?
— Eu não diria que foi você. Aquela garota, Sam, foi meio... intensa.
Ela riu.
— Legal. A culpa é de Sam então.
Eu também ri.
— Não de verdade. Estou muito confuso.
Ela olhou para mim e sorriu como se já tivéssemos um segredo só nosso.
— Posso confiar em você?
— Claro.
— Você não vai sair correndo para contar para o seu amigo louro?
— Logan? Ah, claro, não consigo esconder nada daquele cara. Somos como irmãos.
Ela gostou disso. Quando riu, me fez parecer que eu fui mais engraçado do que realmente fui.
A voz rouca ficou um pouco mais baixa.
— Gosta de histórias de terror, Beau?
Por um segundo, consegui ouvir a voz de Edythe com clareza na mente. Você acha que eu posso ser assustadora?
— De que tipo de terror estamos falando?
— Você nunca mais vai dormir — prometeu ela.
— Ah, agora eu tenho que ouvir.
Ela riu e olhou para baixo, com um sorriso brincando nos cantos dos lábios. Consegui perceber que ela tentaria fazer a história ser boa.
Estávamos perto de um dos troncos na praia, um esqueleto branco enorme com raízes viradas e todas emaranhadas, como cem pernas de aranha. Jules foi se sentar em uma das raízes mais grossas enquanto eu me sentava abaixo dela, no tronco da árvore. Tentei parecer apenas interessado enquanto olhava para ela, e não como se estivesse levando aquilo a sério.
— Estou pronto para ficar apavorado.
— Conhece alguma das nossas histórias antigas, sobre de onde viemos... quer dizer, dos quileutes? — começou ela.
— Na verdade não — admiti.
— Há muitas lendas, e dizem que algumas datam da grande inundação. Ao que parece, os antigos quileutes amarraram as canoas no topo das árvores mais altas da montanha para sobreviver, como Noé e a arca. — Ela sorriu, para me mostrar que também não estava levando a sério. — Outra lenda diz que descendemos de lobos, e que as lobas ainda são nossas irmãs. É contra a lei da tribo matá-los. E há histórias sobre os frios. — A voz dela ficou um pouco mais baixa.
— Os frios? — perguntei. Eu parecia interessado demais agora? Ela conseguia adivinhar que a palavra frio teria algum significado para mim?
— É. Há histórias dos frios tão antigas quanto as lendas dos lobos, e algumas são mais recentes. De acordo com a lenda, minha bisavó conheceu alguns. Foi ela quem fez o acordo que os manteve longe de nossas terras. — Ela revirou os olhos.
— Sua bisavó? — Eu a estimulei.
— Ela era uma anciã da tribo, feito minha mãe. Olhe só, os frios são os inimigos naturais do lobo. Bom, não do lobo, mas dos lobos que se transformam em mulheres, como nossas ancestrais. Você pode chamar de lobisomens.
— As lobisomens têm inimigos?
— Só um.
Fiquei olhando para ela com ansiedade, tentando disfarçar minha impaciência como se fosse interesse.
— Então, veja você — continuou Jules — por tradição, os frios são nossos inimigos. Mas aquele bando que veio para o nosso território na época da minha bisavó era diferente. Eles não caçavam como os outros da espécie deles. Não deviam ser perigosos para a tribo. Então, minha bisavó fez uma trégua com eles. Se prometessem ficar longe de nossas terras, nós não os revelaríamos aos caras-pálidas. — Ela deu uma piscadela para mim.
— Se eles não eram perigosos, então por quê...?
— Sempre há um risco para os seres humanos que ficam perto dos frios, mesmo que eles sejam civilizados, como este clã alegava que era. Nunca se sabe quando podem ficar famintos demais para resistir. — Ela deliberadamente assumiu um tom de ameaça.
— Como assim, “civilizados”?
— Eles diziam que não caçavam seres humanos. Supostamente, de algum modo, conseguiam caçar só animais.
Tentei manter minha voz casual, mas tenho certeza de que falhei.
— E o que é que isso tem a ver com os Cullen? Eles são iguais aos frios que sua bisavó conheceu?
— Não... — Ela fez uma pausa dramática. — Eles são os mesmos.
Ela deve ter pensado que a expressão no meu rosto significava que eu estava absorto com a história. Ela sorriu, satisfeita, e continuou.
— Agora há mais deles, têm uma fêmea nova e um macho novo, mas os outros são os mesmos. Na época da minha bisavó, já conheciam a líder, Carine. Ela esteve aqui e se foi antes que o seu povo tivesse chegado. — Ela reprimia outro sorriso e tentava manter o tom sério.
— E o que eles são? — perguntei, por fim. — O que são os frios?
— Bebedores de sangue — respondeu ela numa voz de dar calafrios. — O seu povo os chama de vampiros.
Olhei a arrebentação agitada depois que ela respondeu, sem ter certeza do que minha expressão demonstrava. Você acha que posso ser assustadora?, a voz de Edythe ficava repetindo na minha cabeça.
— Você está arrepiado. — Jules riu, satisfeita.
— Você sabe contar uma história — comentei, ainda olhando as ondas.
— Obrigada, mas você só está é com frio. É muito louco, né? Não surpreende que minha mãe não queira que a gente fale sobre isso com ninguém.
Não consegui controlar minha expressão o suficiente para olhar para ela.
— Não se preocupe, não vou falar nada.
— Acho que acabo de violar o trato. — Ela virou a cabeça para trás e deu uma gargalhada.
— Vou levar isso para o túmulo — prometi, e depois estremeci.
— Mas, sério, não conte nada ao Charlie. Ele ficou muito chateado com minha mãe quando soube que alguns de nós deixaram de ir ao hospital desde que a Dra. Cullen começou a trabalhar lá.
— Não vou dizer nada para Charlie, claro que não.
— Então, você acha que somos um bando de nativos supersticiosos ou o quê? — perguntou ela, num tom de brincadeira, mas com um toque de preocupação. Eu ainda não havia tirado os olhos do mar.
Eu me virei e sorri para ela com a maior naturalidade que pude.
— Não. Mas acho que você conta histórias de terror muito bem. Ainda estou arrepiado, está vendo? — Ergui o braço.
— Legal. — Ela sorriu.
E depois, ouvimos o som de pedras se chocando na praia. Nossas cabeças se viraram ao mesmo tempo e vimos McKayla e Jeremy a uns cinquenta metros de distância, andando na nossa direção.
— Aí está você, Beau — gritou McKayla, aliviada, acenando o braço acima da cabeça.
— Essa é sua namorada? — perguntou Jules, alertada pela pontada de ciúme na voz de McKayla.
Fiquei surpreso por ficar tão óbvio.
— Não. Por que todo mundo acha isso?
Jules riu com deboche.
— Talvez por ela querer que todo mundo pense.
Eu suspirei.
— Se precisar de um tempo desses seus amigos, me avise.
— Ótima ideia — eu disse, e estava falando sério.
Eu não sabia se era por nos conhecermos havia mais tempo, ainda que não muito bem, ou se porque Jules era tão simpática, mas eu já estava mais à vontade com ela do que com qualquer outra pessoa com quem voltaria para casa.
McKayla nos alcançou, e Jeremy ainda estava alguns passos atrás, se esforçando para acompanhar. McKayla olhou Julie de cima a baixo uma vez, depois se virou para mim com um jeito que pareceu estranhamente alheio à presença dela. Jules deu outra gargalhada debochada e baixa.
— Onde você estava? — perguntou McKayla, embora a resposta estivesse bem diante dela.
— A Jules estava me mostrando a praia. — Eu sorri para Jules, e ela sorriu para mim. Mais uma vez, foi como se a gente compartilhasse um segredo. Claro que agora era verdade.
— Bom — disse McKayla, olhando para Jules de novo. — Estamos indo embora. Parece que vai chover.
Todos olhamos para o céu. As nuvens estavam pesadas e pretas e com aparência muito úmida.
— Tudo bem — falei. — Estou indo.
— Foi bom ver você de novo — disse Julie, com ênfase no final, e eu sabia que ela estava provocando McKayla.
— Foi mesmo. Da próxima vez que Charlie vier ver Bonnie, eu também venho.
Ela sorriu de orelha a orelha e mostrou os dentes brancos e retos.
— Isso seria legal.
— E obrigado — acrescentei com voz baixa, de forma não muito casual.
Ela piscou para mim.
Puxei o capuz enquanto andávamos sobre as pedras para o estacionamento. Algumas gotas começavam a cair, criando manchas escuras nas pedras em que pousavam.
Quando chegamos ao Suburban, os outros já estavam guardando tudo nos carros. Entrei no banco traseiro ao lado de Allen e Taylor, anunciando que já havia tido minha oportunidade de sentar na frente. Allen ficou olhando pela janela a tempestade que se formava, e Logan se contorcia no meio do banco para ocupar a atenção de Taylor, então fiquei livre para recostar a cabeça, fechar os olhos e me esforçar muito para não pensar.

20 comentários:

  1. A versão feminina do Jacob é Jules ou Julie?

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    1. É Julie, Jules é o apelido como Jake é na versão masculina.

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    2. Julie é o nome, Jules deve ser só apelido.

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    3. Julie é o nome dela, Jules é apelido

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    4. Ela chama se julie black como Jacob black e a alcunha dela é Jules tal com jake

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    5. Gente, esse apelido dela, Jules, me lembra muito o Julian Blackthorn de Artifícios das Trevas. O apelido dele é Jules e toda vez que li o apelido da Julie eu lembrei dele
      ashuashuashua

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  2. Karina, o nome da Quileute é JulIE ou JulES? Boiei

    Déa

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    1. Julie é o nome dela, Jules é apelido ^^

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  3. Fico me perguntando como vai ser esse triangulo...

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  4. pelo que vi algumas palavras estao erradas o genero e como se fosse uma menina,estou certa?

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    1. Sim, Rafaele... a editora aproveitou Crepúsculo e só mudou o necessário... corrigi as palavras erradas que vi, mas sempre deixo passar, né? ehauehaueh Oq vc viu aqui?

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    2. Amoo melhor blog s2

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  5. Karina, não tem muito a ver mas, vc pretende postar a saga lux e memórias de um vampiro? Estou loucaaa pra ler! Obrigada
    P.S. seu blog é maravilhoso! !
    Ass: Nathália

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    1. Um dia, Nathália, quem sabe? heuaheau
      obrigada eu :)

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  6. O Logan é versão masculina de quem ?

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    1. Quem é Lauren??? acho que vou reler Crepúsculo pra relembrar esses personagens!!!

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  7. Estou amando. A Julie (Jake) é um amorzinho.

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  8. muito legal no inicio foi difícil se acostumar mas agora estou gostando, karina 4 livro que leio no seu blog muito bom !!

    ATT, synthia

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  9. Não lembrava que Jack tinha irmãs!!! lembrei agora...

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