31 de janeiro de 2016

Capítulo 40

Celaena gemeu quando uma coisa gelada e úmida roçou sua bochecha e lambeu seu rosto. A assassina abriu os olhos e viu a cadelinha encarando-a com o rabo balançando. Ajeitando-se na cama, ela se encolheu diante da luz do sol. Não pretendera dormir tanto. Teriam uma prova em dois dias, e Celaena precisava treinar. Era a última prova antes do duelo final, a prova que definiria os quatro finalistas.
Celaena esfregou o olho e coçou atrás das orelhas da cadela.
— Você fez xixi em algum lugar e está querendo me contar?
— Ah, não — disse alguém, quando a porta do quarto se abriu. Dorian. — Eu a levei para fora com os outros cachorros quando amanheceu.
A assassina deu um sorriso fraco quando ele se aproximou.
— Não está um pouco cedo para visitas?
— Cedo? — Dorian riu e se sentou na cama. Celaena se afastou um pouco. — São quase 13 horas! Philippa disse que você dormiu pesado a manhã toda.
Uma da tarde! Dormira tanto assim? E as aulas com Chaol? Celaena coçou o nariz e puxou a cadelinha para o colo. Pelo menos nada acontecera na noite anterior; se outro ataque tivesse ocorrido, ela saberia. A assassina quase suspirou de alívio, ainda que a culpa pelo o que tinha feito, a pouca fé depositada em Nehemia, ainda a deixasse péssima.
— Já deu um nome para ela? — perguntou Dorian, casual, calmo, contido.
Será que o príncipe agia daquele jeito para se exibir ou o beijo não fora tão importante para ele?
— Não — respondeu Celaena, mantendo a expressão neutra, apesar de querer gritar diante daquela situação constrangedora. — Não consigo pensar em nada apropriado.
— Que tal — disse Dorian, passando a mão no queixo — Dourad... inha?
— É o nome mais idiota que já ouvi.
— E você consegue pensar em um melhor?
Celaena pegou uma das pernas da cadela, examinou as patas macias, então apertou a almofada da pata com o polegar.
— Ligeirinha. — Era um nome perfeito. Na verdade, parecia que o nome sempre estivera ali, e Celaena finalmente fora capaz de perceber. — Sim, é isso, Ligeirinha.
— Tem algum significado? — perguntou o príncipe, e a cadela levantou a cabeça para olhá-lo.
— Vai ter quando ela deixar seus cães de raça comendo poeira. — Celaena segurou o animal nos braços e beijou-lhe a cabeça. A jovem balançou os braços para cima e para baixo, e Ligeirinha olhou a assassina nos olhos, com a testa enrugada. A cadela era absurdamente macia e fofa.
Dorian deu uma risadinha.
— Veremos.
Celaena pousou a cadela na cama. Ligeirinha prontamente se enfiou embaixo das cobertas e desapareceu.
— Dormiu bem? — perguntou ele.
— Dormi. Mas pelo visto você não, para ter acordado tão cedo.
— Olhe — começou Dorian, e Celaena teve vontade de se jogar da varanda — ontem à noite... Desculpe-me se fui rápido demais com você. — Ele parou. — Celaena, você está fazendo uma careta.
Ela estava?
— Ãhn... Desculpa.
— Então aborreceu mesmo você.
— O quê?
— O beijo!
Celaena engasgou, então tossiu.
— Ah, aquilo não foi nada — falou ela, batendo no peito enquanto pigarreava. — Não me importei. Mas não odiei, se é o que você está pensando!
E, imediatamente, a jovem se arrependeu.
— Então você gostou. — Dorian exibiu um sorriso preguiçoso.
— Não! Ah, vá embora! — Celaena se jogou sobre os travesseiros e puxou o cobertor até a cabeça.
Ia morrer de vergonha.
Ligeirinha lambeu seu rosto quando a assassina se escondeu na escuridão dos lençóis.
— Ah, por favor — protestou Dorian. — Parece até que você nunca foi beijada.
Celaena jogou as cobertas para o lado, e Ligeirinha ficou ainda mais escondida.
— Claro que já fui beijada — disparou ela, tentando não pensar em Sam e no que tinham vivido juntos. — Mas não por um principezinho almofadinha, pomposo e arrogante!
Dorian olhou para si mesmo.
— Almofadinha?
— Ah, cale a boca — esbravejou Celaena, e bateu em Dorian com um travesseiro.
A jovem foi até o outro lado da cama e se levantou em direção à varanda.
Celaena sentiu que o príncipe a observava, olhava para suas costas e para as três cicatrizes que o decote da camisola deixava à mostra.
— Vai ficar aqui enquanto me troco? — Ela se virou para encará-lo. Dorian não a olhava do mesmo modo que na noite anterior. Havia certa cautela em seu olhar e algo inexplicavelmente triste. O sangue de Celaena pulsava forte nas veias. — Então?
— Suas cicatrizes são horríveis — falou ele, quase sussurrando.
Celaena colocou a mão no quadril e andou até o armário.
— Todos carregamos cicatrizes, Dorian. As minhas são apenas mais visíveis que as da maioria. Sente-se aí se quiser, mas vou me vestir. — A jovem saiu do aposento.



Kaltain andava ao lado de duque Perrington, ao longo das intermináveis mesas da estufa do palácio. O enorme edifício de vidro era cheio de sombras e de luz, e a jovem se abanava conforme o calor fumegante a sufocava. O homem escolhia os lugares mais absurdos para uma caminhada. Kaltain se interessava tanto por plantas e flores quanto por uma poça de lama no canto da rua.
Perrington colheu um lírio, branco como a neve, e o entregou a ela, fazendo uma reverência com a cabeça.
— Para você.
Kaltain tentou não se encolher diante da visão daquela pele marcada e avermelhada e do bigode laranja. A ideia de ficar presa a ele a fez querer arrancar todas as plantas pela raiz e jogá-las na neve.
— Obrigada — agradeceu Kaltain, ronronando.
Mas Perrington a estudava atentamente.
— Você parece desanimada hoje, Lady Kaltain.
— Pareço? — A jovem inclinou a cabeça do jeito mais recatado possível. — Acho que o dia de hoje está esmaecido comparado à diversão que tive ontem no baile.
Os olhos negros do duque se detiveram em Kaltain, e ele franziu o cenho enquanto a pegava pelo cotovelo e a impulsionava para a frente.
— Não precisa fingir comigo. Eu vi que você observava o príncipe herdeiro.
Kaltain nem se abalou, ergueu as sobrancelhas bem delineadas e o olhou de soslaio.
— Observava?
Perrington passou um dedo gorducho por uma samambaia. O anel negro em seu dedo brilhou, e a cabeça de Kaltain latejou de dor em resposta.
— Eu também o observei. A garota, para ser mais exato. Ela emana problemas, não é?
— Lady Lillian? — Naquele momento, Kaltain piscou, sem saber se já podia respirar aliviada. O duque não notara que ela cobiçava o príncipe, mas sim que percebera como Lillian e Dorian não se desgrudaram a noite toda.
— É como ela diz se chamar — murmurou Perrington.
— Esse não é o nome dela? — perguntou Kaltain, sem pensar.
O duque se voltou para a jovem com os olhos tão negros quanto o anel dele.
— Você não acredita mesmo que aquela garota é uma dama legítima?
O coração de Kaltain se sobressaltou.
— E não é?
Então Perrington sorriu e finalmente lhe contou tudo.
Quando o duque acabou, Kaltain só conseguia encará-lo. Uma assassina. Lillian Gordaina era Celaena Sardothien, a assassina mais famosa do mundo. E fincara as garras no coração de Dorian. Se Kaltain queria a mão do príncipe, então teria de ser muito, muito esperta. Revelar a verdadeira identidade de Lillian poderia ser o suficiente. Mas também poderia não ser. Ela não podia correr o risco. A estufa estava silenciosa, como se prendesse a respiração.
— Como podemos permitir que isso continue? Como podemos deixar o príncipe se arriscar dessa forma?
A expressão de Perrington mudou por um momento para algo dolorido e feio, mas foi tão rápido que Kaltain quase não notou, distraída com o martelar na própria cabeça. Ela precisava do cachimbo, precisava se acalmar antes que tivesse um ataque.
— Não podemos — concordou ele.
— Mas como impediremos? Contando ao rei?
Perrington balançou a cabeça, pousando a mão na espada enquanto pensava por um momento. Kaltain examinou uma roseira e roçou a longa unha na curva de um espinho.
— Ela ainda precisa enfrentar os campeões que restam em um duelo — disse o duque, devagar. — E, no duelo, haverá um brinde em honra da Deusa e dos deuses. — Não era apenas o espartilho apertado que impedia Kaltain de respirar enquanto o duque continuava. — Eu ia pedir que você, como representante da Deusa, conduzisse o brinde. Talvez possa adicionar alguma coisa na bebida dela.
— Matá-la eu mesma? — Contratar alguém era uma coisa, mas usar as próprias mãos...
O duque ergueu as mãos.
— Não, não. Mas o rei concordou que medidas drásticas devem ser tomadas, de maneira que Dorian acredite que foi um... acidente. Se conseguirmos apenas colocar uma dose, não fatal, de sanguinária, só o suficiente para que ela perca o controle, será a vantagem de que Cain precisa.
— Ele não pode matá-la sozinho? Acidentes acontecem o tempo todo em duelos.
Kaltain sentiu uma rajada de dor aguda e intensa na cabeça, que ecoou por todo o corpo. Talvez drogá-la fosse mesmo mais fácil...
— Cain acha que sim, mas não quero arriscar. — Perrington agarrou as mãos da jovem. O anel dele parecia frio como gelo contra a pele de Kaltain, e a moça segurou o impulso de se livrar das garras do duque. — Você não quer ajudar Dorian? Quando ele estiver livre...
Será meu. Ele será meu, como deveria ser.
Mas matar para isso... Ele será meu.
— Então poderemos colocá-lo no caminho certo, não é? — terminou Perrington, com um sorriso largo, o qual fez com que os instintos de Kaltain gritassem para que fugisse dali sem olhar para trás.
Mas tudo que a mente da moça via eram uma coroa e um trono, e o príncipe que deveria se sentar a seu lado.
— Diga-me o que tenho de fazer — disse ela.

13 comentários:

  1. Eu fico pensando se ela é má por natureza ou é o duque que a está influenciando. Mas por enquanto ela é uma vadia, odeio esses porcos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Porcos são baixos fofos (#chovinista) esses dois estão mais pra lesma =p

      Excluir
    2. Emma, acho que ela é uma vadia também, mas acho que o duque que a está influenciando.

      Excluir
  2. Com certeza ele e o mal ....

    ResponderExcluir
  3. Axo q o mal tem alguma relação com o rei, pelo jeito eles estão nessa juntos

    ResponderExcluir
  4. Eu tenho raiva dessa mulher e ao mesmo tempo pena.

    ResponderExcluir
  5. tenho quase certeza que Celaena é descendente dos antigos por isso o ódio.
    kimberly.

    ResponderExcluir
  6. Se envenenarem Celaena entro no livro e mato os dois com minhas próprias mãos.

    ResponderExcluir
  7. Mano, parece que o cara tá fazendo lavagem celebral nela, porque toda vez que ela se opõe, a cabeça dói. E tenho várias outras teorias sobre ele.

    ResponderExcluir
  8. Eu to achando que ele tá colocando pensamentos na mente dela. Tipo, eu tenho certeza que um cara como esse não esperaria tanto pra uma transa. Ele deve não gostar dela, mas aproveitou a "cobiça" dela dara incentiva-la

    ResponderExcluir
  9. Acho que essa mulher e a fera, ela ate comentou das unhas enormes.
    Ass; Mirelli

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Boa leitura :)