15 de janeiro de 2016

Capítulo 4 - Convites

Em meu sonho, estava muito escuro, e a luz fraca que havia parecia irradiar da pele de Edythe. Eu não conseguia ver seu rosto, só suas costas enquanto ela se afastava de mim, deixando-me na escuridão. Por mais rápido que eu corresse, não conseguia alcançá-la; por mais alto que gritasse, ela não se virava. Fui ficando mais e mais desesperado para chegar até ela, até que a ansiedade me acordou. Era o meio da noite, mas não consegui dormir de novo pelo que pareceu um longo tempo. Depois disso, ela entrou em meus sonhos quase todas as noites, mas sempre fora da cena, nunca ao meu alcance.
O mês seguinte ao acidente foi inquietante, tenso e, no início, constrangedor. Virei o centro das atenções pelo resto da semana, o que achei um saco. Taylor Crowley ficou superchata, seguindo-me por toda parte, inventando jeitos hipotéticos de se redimir. Tentei convencê-la de que o que eu mais queria dela era que esquecesse tudo aquilo – em especial porque não tinha acontecido nada comigo – mas ela não desistia. Seguia-me entre as aulas e se sentava à nossa mesa, agora abarrotada. McKayla e Erica não pareciam estar gostando; olharam mais torto para ela do que olhavam uma para a outra, o que me deixou preocupado com a possibilidade de ter ganhado outra fã indesejada. Como se gostar do garoto novo fosse a nova moda.
Ninguém estava preocupado com Edythe; ninguém a seguia e nem pedia o relato dela de testemunha ocular. Eu sempre a incluía na minha versão; ela era a heroína, ela havia me tirado do caminho e quase fora atropelada também. Mas o que todo mundo dizia era que não tinham percebido que ela estava ali até a van ser afastada.
Eu refleti muito sobre o motivo de ninguém mais a tê-la visto parada tão longe, encostada no carro, antes de salvar a minha vida de forma tão repentina e impossível. Eu só conseguia pensar em uma solução, e não gostei nada dela. Tinha que ser porque mais ninguém prestava tanta atenção em Edythe. Ninguém a observava da forma como eu fazia. Era patético e meio apavorante.
As pessoas continuaram evitando Edythe do mesmo jeito de sempre. Os Cullen e os Hale sentavam-se à mesma mesa de sempre, sem comer, conversando entre si. Nenhum deles voltou a olhar na minha direção.
Quando Edythe se sentou ao meu lado na aula, o mais distante possível, como sempre, pareceu totalmente inconsciente da minha presença. Como se minha cadeira estivesse vazia. Só vez ou outra, quando seus punhos de repente se fechavam – a pele esticada ainda mais branca sobre os ossos – é que eu me perguntava se ela estava tão distraída como parecia.
Eu queria muito continuar nossa conversa do corredor do hospital, e, no dia seguinte ao acidente, tentei. Ela estava furiosa quando conversamos da primeira vez. E, apesar de eu querer muito saber o que aconteceu e de achar que eu merecia a verdade, eu também sabia que fui bem insistente, considerando que ela tinha acabado de salvar minha vida e tudo o mais. Eu achava que não tinha agradecido direito.
Ela já estava na cadeira quando cheguei à aula de biologia. Nem se virou quando me sentei, continuou olhando para a frente. Não deu sinais de ter percebido minha presença.
— Oi, Edythe — falei.
Ela virou a cabeça um centímetro na minha direção, mas os olhos continuaram grudados no quadro. Balançou a cabeça uma vez e depois desviou o rosto.
E esse foi o último contato que tive com ela, apesar de ela estar ali, a trinta centímetros de distância, todos os dias. Eu a olhava às vezes, incapaz de me conter – mas sempre de longe, no refeitório ou no estacionamento. Eu vi os olhos dourados ficarem perceptivelmente mais escuros dia após dia (e depois dourados de novo, de repente. Aí, a progressão lenta começava de novo). Mas, na aula, eu não conseguia ter mais acesso a ela do que ela permitia. Foi horrível. E os sonhos continuaram.
Ela desejava não ter me tirado do caminho da van de Taylor. Eu não conseguia pensar em nenhuma outra explicação. Como ela me preferia morto, estava fingindo que eu estava morto.
Apesar das minhas mentiras cabais, o tom de meus e-mails deixou minha mãe preocupada. Ela ligou algumas vezes, querendo saber se eu estava bem. Tentei convencê-la de que era só a chuva que me deixava desanimado.
McKayla, pelo menos, ficou satisfeita com a frieza evidente entre mim e minha parceira de laboratório. Eu achava que ela estava com medo de o trauma compartilhado nos ter aproximado, talvez. Ela foi ficando mais confiante, sentando-se na beirada da minha mesa para conversar antes que começasse a aula de biologia, ignorando Edythe completamente, como ela nos ignorava.
A neve desapareceu de vez depois daquele dia perigosamente gelado. McKayla reclamou por não ter podido armar a grande guerra de bolas de neve, mas ficou satisfeita porque logo seria possível fazer a viagem à praia. Porém, a chuva continuava pesada, e as semanas se passaram.
Eu não percebi que tanto tempo tinha se passado. A maioria dos dias era igual, cinza, verde e mais cinza. Meu padrasto sempre reclamava que Phoenix não tinha estações, mas, pelo que eu conseguia perceber, Forks era bem pior. Eu não fazia ideia de que a primavera estivesse perto de aparecer até estar indo para o refeitório com Jeremy em uma manhã chuvosa.
— Ei, Beau — disse ele.
Eu queria sair logo da chuva, mas Jeremy estava andando bem devagar. Fui mais devagar também, para acompanhá-lo.
— O que está rolando, Jeremy?
— Eu queria saber se alguém já convidou você para o baile de primavera. É a garota que convida.
— Ah. Hã, não.
— Ué. Você quer... Quer dizer, você acha que a McKayla vai te convidar?
— Espero que não — falei, talvez um pouco rápido demais.
Ele me olhou com surpresa.
— Por quê?
— Eu não vou a bailes.
— Ah.
Andamos mais um pouco em silêncio. Ele estava pensativo. Eu estava impaciente para sair da chuva.
— Você se importa se eu disser isso a ela? — perguntou ele.
— Não. Acho que é uma boa ideia. Não quero ter que dizer não para ninguém.
— Tudo bem.
— Quando é mesmo o baile?
Estávamos perto do refeitório agora. Ele apontou para um pôster amarelo berrante anunciando o baile. Eu nunca tinha reparado, mas estava meio enrugado nas beiradas e apagado, como se estivesse ali havia muito tempo.
— No outro sábado — disse ele.
Eu tinha certeza de que Jeremy já tinha falado alguma coisa quando, na manhã seguinte, McKayla não estava com o humor esfuziante de sempre na aula de inglês. No almoço, ela se sentou longe de Jeremy e de mim, e não falou quase nada com ninguém. Ficou em silêncio ao andar ao meu lado para a aula de biologia, mas foi se sentar como sempre na beirada da minha mesa no laboratório.
Como sempre, fiquei ciente demais de Edythe sentada perto, ao alcance da minha mão, mas ainda tão distante que podia muito bem ser produto da minha imaginação.
— Então — disse McKayla, olhando para o chão e não para mim —, o Jeremy me disse que você nunca vai a bailes.
— É verdade.
Ela olhou para mim, com expressão magoada e meio zangada. Eu ainda nem tinha dito não para ela, mas já me sentia culpado.
— Ah — disse ela. — Achei que ele podia ter inventado.
— Ah, desculpa, não. Por que ele inventaria uma história assim?
Ela franziu a testa.
— Acho que ele quer que eu o chame.
Eu forcei um sorriso.
— E você devia. Jeremy é gente boa.
Ela deu de ombros.
— Acho que é. — Em seguida, respirou fundo e me olhou nos olhos com um sorriso rápido e nervoso. — Esse negócio de “não vou a bailes” não mudaria se eu convidasse você para ir?
Com o canto do olho, vi a cabeça de Edythe se virar de repente na minha direção. Como se ela também estivesse prestando atenção à minha resposta.
Demorei tempo demais para responder. Eu ainda me sentia culpado, mas estava mais distraído. Por que Edythe estava prestando atenção?
— Ah, peço desculpas de novo.
O rosto de McKayla se transformou.
— Seria diferente se outra pessoa convidasse?
Edythe teria visto como McKayla desviou os olhos na direção dela?
— Não. E não adianta, de qualquer jeito. Vou estar em Seattle nesse dia.
Eu precisava sair da cidade. Dali a dois sábados era o momento perfeito para eu ir.
— Tem que ser naquele fim de semana? — perguntou McKayla.
— Tem. Mas não se preocupe comigo. Você devia chamar Jeremy. Ele é bem mais divertido do que eu.
— É, tem razão — murmurou ela, e se virou para voltar ao lugar dela.
Vi os ombros dela penderem para a frente e me senti péssimo. Fechei os olhos e apertei os dedos nas têmporas, tentando expulsar a postura derrotada de McKayla da minha cabeça. A Sra. Banner começou a falar. Suspirei e abri os olhos.
Edythe estava me encarando abertamente, com aquela expressão familiar de frustração ainda mais evidente nos olhos escuros.
Sustentei o olhar, surpreso, esperando que ela desviasse o rosto. Mas ela não desviou. Os olhos continuaram grudados nos meus, como se estivesse tentando encontrar alguma coisa importante ali. Também continuei olhando, incapaz de romper a ligação, mesmo que quisesse. Minhas mãos começaram a tremer.
— Srta. Cullen — chamou a professora, esperando pela resposta a uma pergunta que eu não ouvira.
— O ciclo de Krebs — respondeu Edythe, parecendo relutante ao se virar para a Sra. Banner.
Baixei a cabeça e fingi ler o livro assim que os olhos dela desgrudaram de mim. Fiquei incomodado com a onda de emoção que pulsou por mim, só porque ela por acaso olhou para mim pela primeira vez em seis semanas. Não era normal. Era bem patético, provavelmente mais do que isso. Doentio.
Eu me esforcei muito para não ficar atento a ela pelo resto da aula ou, como era impossível, pelo menos não deixar que ela soubesse que eu estava atento a ela.
Quando o sinal finalmente tocou, dei as costas para ela para guardar os livros, esperando que ela saísse de imediato, como sempre.
— Beau.
A voz dela não devia ser tão familiar para mim, como se a ouvisse por toda a vida e não um pouco aqui e um pouco ali havia algumas semanas.
Eu me virei devagar na direção dela, sem querer sentir o que sabia que sentiria quando olhasse para aquele rosto perfeito demais. Tenho certeza de que minha expressão era de cautela; a dela estava ilegível. Ela não disse nada.
— O quê? — perguntei.
Ela só olhou para mim.
— Então... hã, você... está falando comigo ou não?
— Não — disse ela, mas os lábios se curvaram em um sorriso, exibindo as covinhas.
— Tudo bem...
Eu afastei o olhar, para as mãos e depois para o quadro.
Era difícil me concentrar quando eu olhava para ela, e aquela conversa não estava fazendo muito sentido.
— Desculpe — disse ela, e não havia humor em sua voz agora. — Tenho sido muito rude, eu sei. Mas é melhor assim, pode acreditar.
Olhei para ela de novo. Seu rosto estava muito sério.
— Não sei o que você quer dizer.
— É melhor não sermos amigos — explicou ela. — Confie em mim.
Meus olhos se estreitaram. Eu já ouvira isso antes.
Ela pareceu surpresa com a minha reação.
— O que você está pensando? — perguntou ela.
— Acho... que é uma pena você não ter chegado a essa conclusão antes. Teria poupado o arrependimento.
— Arrependimento? — Minha resposta pareceu pegá-la de surpresa. — Arrependimento do quê?
— De não ter deixado a van da Taylor me esmagar quando houve a oportunidade.
Ela pareceu chocada. Ficou me olhando por um minuto, com olhos arregalados, e quando finalmente falou, parecia quase furiosa.
— Você acha que me arrependo de ter salvado sua vida? — As palavras saíram baixas, sussurradas, mas bem intensas.
Olhei rapidamente para a frente da sala, onde duas pessoas ainda estavam. Vi uma olhando para nós. Ela afastou o olhar e eu me virei para Edythe.
— Acho — respondi, a voz tão baixa quanto a dela. — O que mais pode ser? Parece meio óbvio.
Ela fez um som estranho: expirou pelos dentes e pareceu um sibilar. Continuava com cara de raiva.
— Você é um idiota — disse ela.
Aquele foi meu limite.
Já era bem ruim eu estar tão obcecado por aquela garota, bem ruim eu pensar nela o tempo todo, sonhar com ela todas as noites. Eu não precisava ficar ali como o cretino que ela achava que eu era, olhando enquanto ela me insultava. Peguei meus livros e pulei da cadeira, sabendo o tempo todo que ela estava certa, eu era um idiota, porque queria ficar, mesmo que tivesse que ouvir mais agressões vindas dela. Eu tinha que sair da sala o mais rápido possível, então, claro, tropecei na entrada e quase caí pela porta, deixando os livros se espalharem pelo chão. Fiquei parado por um momento, de olhos fechados, pensando em deixá-los para trás. Depois, suspirei e me abaixei para pegá-los.
Edythe estava ali; já empilhara meus livros e os entregou a mim.
Peguei-os sem olhar para ela.
— Obrigado — murmurei.
— Não há de quê — retrucou ela. Ainda com raiva, ao que parecia.
Eu me endireitei rapidamente e corri para o ginásio sem olhar para trás.
A aula de educação física não deixou meu dia melhor.
Agora, estávamos jogando basquete. No primeiro dia, apesar de todo mundo ter me visto jogando vôlei, meus colegas ainda pareciam achar que eu devia ser bom. Não demorou para eles perceberem. Nunca me passavam a bola agora, o que era bom, mas, com tanta corrida, eu ainda conseguia causar alguns acidentes a cada jogo.
Aquele dia foi pior do que o anterior porque eu não conseguia me concentrar nos meus pés. Eu só conseguia pensar em Edythe.
Como sempre, foi um alívio poder ir embora. Eu mal conseguia esperar para voltar para dentro da picape, sozinho. O carro sofrera danos mínimos com o acidente. Tive que substituir as luzes de ré, mas só isso. Se a tinta já não estivesse horrível, talvez eu precisasse fazer alguma coisa nos aranhões novos. Os pais de Taylor tiveram que vender a van para o desmanche.
Meu coração quase parou quando virei a esquina. Uma figura pequena e magra estava encostada na lateral da minha picape. Parei de repente e respirei fundo. Era só Erica. Comecei a andar novamente.
— Oi, Erica — falei.
— Oi, Beau.
— E aí? — perguntei enquanto ia abrir a porta.
Olhei para ela e me enrolei com a chave. Ela parecia pouco à vontade.
— Hã, eu queria saber se você gostaria de ir ao baile de primavera comigo.
Enfiei a chave na fechadura com cuidado.
— Me desculpe, Erica, eu não vou ao baile.
Precisei olhar para ela nessa hora. O rosto dela estava virado para baixo e o cabelo preto escondia os olhos.
— Ah, tá.
— Porque vou para Seattle — acrescentei rapidamente, tentando fazê-la se sentir melhor. — É o único dia em que posso ir. Então, você sabe, né. Espero que seja divertido e tudo.
Ela ergueu o rosto.
— Tudo bem — disse ela, mas a voz estava um pouco mais alegre agora. — Quem sabe no próximo.
— Claro — concordei, mas me arrependi na mesma hora. Eu esperava que ela não entendesse isso tão literalmente.
— Tchau — disse ela por cima do ombro.
Ela já estava fugindo. Eu acenei, mas ela não viu.
Ouvi um risinho baixo.
Edythe estava passando pela minha picape, olhando para a frente, e a boca não dava nem sinal de sorriso.
Parei por um segundo. Eu não estava preparado para ficar tão perto dela. Estava acostumado a me preparar antes da aula de biologia, mas aquilo foi inesperado. Ela continuou andando. Abri o carro num rompante e pulei para dentro, batendo a porta ruidosamente. Acelerei o motor ensurdecedor duas vezes e dei a ré para a rua.
Edythe já estava no carro dela, a duas vagas de distância, passando suavemente por mim, me dando uma fechada. Ela parou ali – para esperar pela família, eu supus. Pude ver os quatro se aproximando, mas ainda perto do refeitório. Olhei pelo retrovisor. Vi que começava a se formar uma fila. Bem atrás de mim, Taylor Crowley estava no Sentra usado recém-adquirido, acenando. Eu baixei a cabeça e fingi não a ver.
Enquanto eu estava sentado ali, concentrando todos os meus esforços em não olhar para a motorista na minha frente, ouvi uma batida na janela do carona.
Era Taylor.
Olhei novamente pelo retrovisor, confuso. O carro dela ainda estava ligado, a porta, aberta. Inclinei-me na cabine para abrir a janela. Estava dura. Consegui abrir pela metade, depois desisti.
— Desculpe, Taylor, não posso andar. Estou preso. — Eu indiquei o Volvo. Era óbvio que não havia nada que eu pudesse fazer.
— Ah, eu sei. Eu só queria perguntar uma coisa enquanto estamos atolados aqui. — Ela sorriu.
Qual era o problema daquela escola? Era algum tipo de pegadinha? Confundir o cara novo?
— Quer ir ao baile de primavera comigo? — continuou ela.
— Eu não estarei na cidade, Taylor. — Percebi que fui meio ríspido. Tive que me lembrar de que não era culpa de Taylor que McKayla e Erica já tivessem gasto minha quota de paciência.
— É, McKayla me contou — admitiu ela.
— Então por quê...?
Ela deu de ombros.
— Eu esperava que você só estivesse se livrando dela do jeito mais fácil.
Tudo bem, a culpa era toda dela.
— Desculpe, Taylor — pedi, não me sentindo tão mal quanto fiquei quando recusei McKayla e Erica. — Eu não vou ao baile.
— Tudo bem — disse ela, sem se deixar afetar. — Ainda temos o baile dos estudantes.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ela estava voltando para o carro. Pude sentir os pontos vermelhos surgindo na minha cara. À frente, Archie, Royal, Eleanor e Jessamine estavam entrando no Volvo. Pelo retrovisor, vi os olhos de Edythe me encarando. Estavam enrugados nos cantos, e os ombros dela tremiam de tanto rir. Era como se ela tivesse ouvido tudo que Taylor disse e achasse minhas reações hilárias. Apertei mais o acelerador, pensando no tamanho do dano que o Volvo e o carro preto ao lado dele sofreriam se eu abrisse caminho para fugir dali. Eu tinha certeza de que minha picape podia vencer aquela briga.
Mas todos estavam dentro do carro, e Edythe saiu em disparada com o motor quase silencioso.
Tentei me concentrar em alguma coisa, qualquer coisa, enquanto dirigia.
McKayla convidaria Jeremy para o baile? Ele me culparia se ela não convidasse? Taylor estava falando sério sobre o baile dos estudantes? Qual seria a minha desculpa quando o dia dele chegasse? Talvez eu pudesse planejar uma visita à minha mãe, ou talvez ela pudesse vir. O que eu faria de jantar? Não comíamos frango já tinha um tempo.
Mas, cada vez que eu terminava de responder às minhas próprias perguntas, minha mente voltava a Edythe. Quando cheguei em casa, eu já não tinha mais perguntas, então desisti de tentar pensar em outra coisa.
Decidi fazer enchiladas de frango, porque isso me deixaria ocupado por um tempo, e eu não tinha tanto dever assim. Eu tinha que me concentrar em tudo que precisava cortar, o frango, a cebola e a pimenta. Mas, o tempo todo, eu ficava repensando a aula de biologia, tentando analisar todas as palavras que ela disse para mim. O que ela quis dizer com era melhor se não fôssemos amigos?
Meu estômago se revirou quando entendi o que ela devia estar querendo dizer. Ela devia ter percebido como eu estava obcecado por ela; eu não devia estar disfarçando muito bem. Ela não queria dar a entender que eu tinha chance... então não podíamos nem ser amigos... porque ela não queria ferir meus sentimentos do jeito que feri os de McKayla e Erica hoje. (Taylor pareceu bem.) Edythe não queria ter que sentir essa culpa. Porque não estava interessada em mim.
E isso fazia sentido, obviamente, porque eu não era interessante.
Meus olhos estavam começando a arder e lacrimejar por causa da cebola. Peguei um pano de prato, botei embaixo da torneira e esfreguei nos olhos. Não ajudou muito.
Eu era sem graça e sabia que era assim. E Edythe era o oposto de sem graça. Isso não tinha nada a ver com o segredo dela, fosse qual fosse, se é que eu me lembrava daquele momento insano com clareza. A essa altura, eu já estava quase acreditando na história que contei para todo mundo. Fazia bem mais sentido do que o que pensei ter visto.
Mas ela não precisava de um segredo para ser areia demais para o meu caminhãozinho. Ela também era brilhante e misteriosa e linda e completamente perfeita. Se era mesmo capaz de levantar uma van com a mão, não importava. De qualquer forma, ela era uma fantasia e eu era o tipo mais mundano de realidade.
E não tinha problema nisso. Eu podia deixá-la em paz.
Eu a deixaria em paz. Passaria por minha sentença autoimposta aqui no purgatório e depois, com sorte, uma universidade no sudoeste, ou possivelmente no Havaí, me ofereceria uma bolsa de estudos.
Tentei pensar em palmeiras e no sol enquanto terminava o jantar.
Charlie pareceu preocupado quando chegou em casa e sentiu o cheiro de pimentão, mas relaxou depois da primeira dentada. Foi uma sensação estranha, mas também foi bom vê-lo começar a confiar em mim na cozinha.
— Pai — falei quando ele quase havia acabado.
— O quê, Beau?
— Hã, eu só queria avisar que vou a Seattle no sábado que vem. Para passar o dia. — Eu não queria pedir permissão, isso estabeleceria um precedente ruim, mas pareci grosseiro, então acrescentei: — Tudo bem?
— Por quê? — Ele pareceu surpreso, como se fosse incapaz de imaginar qualquer motivo que fosse fazer alguém querer sair de Forks.
— Bom, eu queria comprar alguns livros, a biblioteca daqui é muito limitada. E talvez algumas roupas mais quentes. — Eu tinha um dinheiro guardado, uma vez que, graças a Charlie, não tive que pagar pelo carro, apesar de a picape exigir um gasto maior de gasolina do que eu esperava, e as roupas de frio que comprei em Phoenix pareciam feitas por pessoas que nunca passaram por temperaturas menores que vinte graus e só ouviram uma descrição de como devia ser.
— Essa picape não deve ter um consumo de gasolina muito bom — disse ele, ecoando meus pensamentos.
— Eu sei, vou parar em Montessano e em Olympia. E em Tacoma, se for preciso.
— Você vai sozinho?
— Vou.
— Seattle é uma cidade grande. Você pode se perder — avisou ele.
— Pai, Phoenix é cinco vezes maior do que Seattle. E sei usar um mapa, não se preocupe.
— Quer que eu vá com você?
Eu me perguntei se ele estava mesmo tão preocupado comigo ou se só achava que todos os sábados que tinha me deixado sozinho eram atos de negligência. Mas devia ser preocupação. Eu tinha certeza de que, na cabeça dele, ele ainda me via como um garotinho de cinco anos na maior parte do tempo.
— Está tudo bem. Não vai ser um dia muito interessante.
— Você vai voltar a tempo para o baile?
Só fiquei olhando para ele até ele entender.
Não demorou muito.
— Ah, certo.
— É — eu disse. Não herdei meus problemas de equilíbrio da minha mãe.
Na manhã seguinte, na escola, estacionei o mais distante possível do Volvo prata. Eu ficaria longe. Não prestaria mais atenção nela. Ela não teria reclamação nenhuma de mim de agora em diante.
Quando bati a porta da picape, soltei a chave, e ela caiu numa poça a meus pés. Enquanto me abaixava para pegar, uma pequena mão branca apareceu de repente e pegou a chave antes de mim. Endireitei o corpo rapidamente e quase bati a cabeça na dela. Edythe Cullen estava bem ali, encostada casualmente no meu carro.
— Como é que você faz isso ? — perguntei com surpresa.
— Faço o quê? — Ela esticou a mão com a minha chave ao falar. Quando fiz menção de pegá-la, ela a largou na palma da minha mão.
— Aparecer do nada desse jeito.
— Beau, não é culpa minha se você é excepcionalmente distraído. — A voz dela era só um murmúrio aveludado, e os lábios seguravam um sorriso. Como se ela me achasse hilário.
Como eu poderia ignorá-la se ela não me ignorava? Era o que ela queria, não era? Eu, longe do cabelo comprido de bronze dela? Não foi o que ela disse ontem? Nós não podíamos ser amigos. Então por que ela estava falando comigo? Era sádica? Era essa a ideia dela de diversão, torturar o garoto idiota com o qual ela não tinha como se importar?
Fiquei olhando para ela, frustrado. Os olhos estavam claros de novo hoje, uma cor de mel dourada. Meus pensamentos ficaram confusos e tive que olhar para baixo.
Os pés dela estavam a quinze centímetros dos meus, virados para mim, imóveis. Como se estivesse esperando uma resposta.
Olhei para trás dela, para a escola, e disse a primeira coisa idiota que me passou pela cabeça.
— Por que o engarrafamento de ontem? Pensei que você estivesse fingindo que eu não existo.
— Ah. Foi por causa da Taylor. Ela estava meio que morrendo para ter uma chance com você.
Eu fiquei olhando para ela.
— O quê? — A irritação pela lembrança do dia anterior apareceu na minha voz. Eu não achava que Edythe e Taylor eram amigas. Taylor tinha pedido...? Não parecia provável.
— E não estou fingindo que você não existe — continuou ela, como se eu não tivesse falado.
Olhei nos olhos dela de novo, me esforçando para manter a concentração, independente do quanto pareciam dourados, do quanto os cílios eram longos nas pálpebras violeta.
— Não sei o que você quer de mim — eu disse para ela.
Era irritante como meus pensamentos pareciam explodir pelos lábios quando eu estava perto dela, como se eu não tivesse filtro nenhum. Eu jamais teria falado assim com qualquer outra garota.
O meio sorriso divertido desapareceu, e o rosto dela ficou na defensiva de repente.
— Nada — disse ela, rápido demais, quase como se estivesse mentindo.
— Então você devia ter deixado a van acabar comigo. Teria sido mais fácil assim.
Ela ficou me olhando por um segundo, e, quando respondeu, a voz saiu fria.
— Beau, você só fala besteira.
Eu devia estar certo sobre a ideia de tortura. Eu era um jeito de ela passar o tempo naquela cidade chata. Um alvo fácil.
Passei por ela com uma passada larga.
— Espere — disse ela, mas eu me obriguei a seguir em frente, a não olhar para trás.
— Desculpe, foi grosseria minha — disse ela ao meu lado, acompanhando meus passos apesar de minhas pernas terem provavelmente o dobro do tamanho das dela. — Não estou dizendo que não é verdade, mas foi uma grosseria dizer aquilo.
— Por que não me deixa em paz?
— Eu queria perguntar uma coisa, mas você está me evitando.
Suspirei e andei mais devagar, apesar de ela não parecer estar com dificuldade para acompanhar.
— Tudo bem. — Eu era um imbecil. — O que você quer?
— Eu queria saber se, no outro sábado... Sabe, o dia do baile de primavera...
Eu parei e me virei para ela.
— Você acha isso engraçado ?
Ela ficou me olhando, parecendo indiferente ao chuvisco que caía. Parecia não estar usando maquiagem nenhuma, nada estava escorrendo e nem manchado. Claro, o rosto dela era perfeito daquele jeito, naturalmente. Por um segundo, senti raiva, raiva de ela ter que ser tão linda.
Raiva porque a beleza dela a tornou tão cruel. Raiva de ser objeto da crueldade dela, e apesar de saber disso, não consegui sair andando para longe dela.
A expressão divertida voltou, com a sugestão de covinhas ameaçando surgir nas bochechas.
— Quer por favor me deixar terminar? — pediu ela.
Vá embora, eu disse para mim mesmo.
Mas não me mexi.
— Eu soube que você vai a Seattle nesse dia e estava pensando se queria uma carona.
Por essa eu não esperava.
— Hã?
— Quer uma carona para Seattle?
Eu não sabia qual seria o final da piada dela.
— Com quem?
— Comigo, é claro. — Ela enunciou cada sílaba, como se achasse que eu não falava a mesma língua que ela.
— Por quê?
Qual era a pegadinha?
— Bom, eu pretendia ir a Seattle nas próximas semanas e, para ser sincera, não tenho certeza se sua picape vai aguentar.
Eu finalmente consegui voltar a andar, motivado pelo insulto à minha picape.
— Pode rir de mim o quanto quiser, mas deixe minha picape fora disso — falei.
Mais uma vez, ela me acompanhou com facilidade.
— Por que você acharia que estou rindo de você? — perguntou ela. — O convite é genuíno.
— Minha picape é ótima, obrigado.
— Sua picape consegue chegar a Seattle com um tanque de gasolina?
Antes da picape, eu não ligava para nenhum carro, mas conseguia sentir um preconceito contra Volvos se formando.
— Não entendo como isso pode ser problema seu.
— O desperdício de recursos não renováveis é problema de todo mundo — disse ela com afetação.
— Francamente, Edythe. — Senti um arrepio subir pelo corpo ao dizer o nome dela em voz alta, e odiei isso. — Eu não consigo entender você. Pensei que não quisesse ser minha amiga.
— Eu disse que seria melhor se não fôssemos amigos, e não que eu não queria ser.
— Ah, uau, que legal, agora está tudo muito claro. — Sarcasmo pesado.
Percebi que tinha parado de andar de novo. Olhei para o rosto dela, molhado de chuva, limpo e perfeito, e meus pensamentos tremeram e sumiram.
— Seria mais... prudente para você não ser meu amigo — explicou ela. — Mas estou cansada de tentar ficar longe de você, Beau.
Não havia humor na voz dela agora. Os olhos estavam intensos, apertados, com as longas linhas dos cílios negras sobre a pele. A voz tinha um calor estranho. Eu não conseguia me lembrar de como se respirava.
— Você vai aceitar minha carona para Seattle? — perguntou ela, a voz ainda ardente.
Eu não consegui falar, então só balancei a cabeça. Um breve sorriso modificou o rosto dela, mas logo ela ficou séria de novo.
— Você devia mesmo ficar longe de mim — alertou ela. — Vejo você na aula.
Ela se virou abruptamente e voltou pelo caminho de onde viemos.

24 comentários:

  1. Só eu que to achando isso muito estranho?Tipo, pra uma garota receber 3 convites, de boa. Ela é uma garota bonita.
    Mas ai um cara recebe 3 convites e fica inventando desculpas... E pela descrição são garotas bonitas e com carros melhores que o seu... Depois disso acreditar em vampiros fica até fácil

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    1. kkkkkkkkkkk
      Beau é antissocial, não sabe dançar, não gosta de bailes. Ele não iria de qualquer maneira... e nessa festa, são as garotas que convidam - e Beau é a nova sensação de Forks -q

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  2. rsrsrsrs.... Ele é a versão menos irritada da Bella... hahahaha

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  3. fala serio,isso e ridiculo! o que deu na cabeça da meyer pra fazer isso!sou mais o original,edward e bella.

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    1. Então leia só o original, ué.
      Eu particularmente estou gostando muito mais dessa versão. Talvez seja só porque a Steph corrigiu algumas "falhas" que percebeu ao longo dos anos, mas acho Beau e Edythe muito mais divertidos que Edward e Bella.

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    2. Concordo, os acho bem mais legais e sociáveis q Edward e Bella, e mto menos bestinhas kkkkkkk estou adorando saber como é o Edward mulher e a Bella homem, tá mto legal ❤

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  4. Esse beau é meio gay kkkkkk

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    1. que metade dele é gay N° seis???

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  5. Eu tô querendo desistir, mas não tô conseguindo, eu fico toda hora achando que vai rolar alguma coisa bem diferente do que aconteceu com Bellward mas tô vendo que vai ser improvável.
    Aaah Stephenie Meyer, o que tu foi fazer muié?!

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  6. Não é tão ruim... Mas cara, tá ficando muito paia isso! E olha q eu não sou das fãs da saga original... Isso é só uma versão feminina da Bella! Sinceramente ... A Meyer tem mta criatividade... Ela poderia colocar algumas coisas parecidas, mas tá dando a impressão que ela pegou os textos de crepúsculo, colou aqui e trocou o gênero...

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  7. É incrível. Adorei esse livro, embora não tenha conseguido passar do primeiro capítulo de Crepúsculo.

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  8. Aff gente, esse é uma releitura de crepusculo por isso é parecido se vcs queriam um livro diferente o blog tem dezenas deles, e ngm é obrigado a ler esse aqui, agora só fica aqui criticando o livro, pois eu achei ele otimo como é, ele era pra ser uma releitura com uma mudança de genero e cumpriu minhas espectativas, to amando ele.

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    1. Né, esse povo e muito chato, se vcs tivessem lido a carta que ela fez, teriam entendido que esse livro é uma releitura, n tem muita diferenca, era só pra mudar os generos mesmo, ai vcs ficam criticando a mulher, se n gostou parem de ler e n fica ai falando besteira, e se acham q ficou horrível façam melhor, deveriam agradecer à stefannie por nos proporcionar outra leitura dessa saga maravilhosa, por mais que seja quase idêntica à de crepúsculo


      Ass: filhafavoritadeposeidon

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    2. Exatamenteeeeeee!!!!!!!!! Concordo totalmente

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    3. Finalmente pessoas que leram a carta (e entenderma a ideia) aparecerão!!! Tá ficando chato a reclamação sem noção do pessoal.

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  9. mudança de gênero?
    Isso ficou muito aboiolado...
    Foi feita a releitura do livro mas a personalidade e as falas da Bella continuam nele...
    Até onde eu sei nos comentários vc coloca a sua opinião e pelo que vi esta bem dividido
    Não correspondeu as minhas expectativas, nas espero que até o fim melhores um pouco... Ao menos espero que Beau fique menos afeminado

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  10. LADY.DOCETE.BEWARD.BEADITHE3 de abril de 2016 01:53

    Okay, estou realmente achando interessante. Me sinto como a primeira vez continuo curiosa e sinto o gostinho de quero mais. Realmente sempre fui team Edward mas agora sou Team Edythe rsrsrs... Shipo Beadithe

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  11. Karina, vi escrito assim:
    — Tudo bem — disse ela, mas a voz estava um pouco mais alegre agora. — Quem sabe no próximo.
    — Claro — concordei, mas me arrependi na mesma hora. Eu esperava que ---ele--- não entendesse isso tão literalmente.

    Acho que é ela, não é? Parabéns pelo trabalho de nos trazer este livro e muito obrigada!

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  12. Gente, tipo, se o Jake era transfigurador, no Lua Nova, o que será que vai acontecer? Que será que ele vai ser? .-.

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    1. Ahn, continuaria normal, suponho eu...

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  13. Eu realmente tô amando (ao contrário de muitos pelo visto). Eles são muito mais interessantes que na versão original (eu também AMO a versão original). Também gosto do empoderamento feminino subjetivo, é bom ver que a mulher é a forte e não a "frágil" (não que o Beau seja frágil, ele é apenas humano).

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  14. Logica da Edythe/Edward "Nos temos que ficas longe um do outro, mas quer uma carona e passar mais de 2 horas no carro comigo?"
    Não existe cérebro que não bugue. A bipolaridade ta do tamanho de Júpiter.

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