31 de janeiro de 2016

Capítulo 33

Ao sair do quarto, Kaltain beliscou as bochechas. As aias borrifaram-lhe perfume, e a jovem tomou um gole de água com açúcar antes de colocar a mão na porta. Estava fumando cachimbo quando o duque Perrington fora anunciado.
Kaltain correra até o armário e mudara de roupa, esperando que o cheiro não perdurasse. Se ele descobrisse sobre o ópio, ela poderia usar como desculpa as dores de cabeça que andava tendo ultimamente. Kaltain passou pelo quarto, atravessou o foyer e então chegou à sala de visitas.
Como de costume, ele parecia pronto para a batalha.
— Vossa Alteza — disse ela, e fez uma reverência.
O mundo estava nebuloso e Kaltain sentia o corpo pesado. Perrington beijou-lhe a mão quando ela a estendeu, e o toque dos lábios do duque pareceu úmido e frio. Seus olhares se encontraram quando ele ergueu o rosto, e Kaltain sentiu como se parte do mundo tivesse desabado. Até onde iria para assegurar a posição ao lado de Dorian?
— Espero não estar incomodando — disse ele, soltando a mão da jovem.
As paredes do quarto surgiram, então o chão e o teto, e Kaltain teve a sensação de estar presa numa caixa, uma bela caixa cheia de tapeçarias e almofadas.
— Estava só cochilando, milorde — respondeu ela, sentando-se. Perrington fungou, e a jovem teria ficado muito nervosa se não fosse a droga que se alastrava em sua mente. — A que devo o prazer desta visita inesperada?
— Queria saber como você estava. Não a vi no jantar. — Perrington cruzou os braços, que pareciam ser capazes de esmagar o crânio de Kaltain.
— Eu estava indisposta. — Ela resistiu à tentação de descansar a cabeça pesada no sofá.
O duque disse alguma coisa, mas os ouvidos da jovem já não escutavam. A pele dele pareceu endurecer e congelar, e seus olhos se tornaram impiedosas esferas de mármore. Até o cabelo ralo estava congelado como pedra. Kaltain observou, boquiaberta, a boca branca do duque se mexendo, expondo uma garganta esculpida em mármore.
— Desculpe-me. Não estou me sentindo bem.
— Quer que eu traga um copo d’água? — O duque se levantou. — Ou devo ir embora?
— Não! — disse Kaltain, quase gritando. Seu coração palpitou. — Quero dizer... estou bem o suficiente para desfrutar da sua companhia, mas por favor, perdoe minha distração.
— Não diria que é distraída, Lady Kaltain — falou o duque, enquanto se sentava. — É uma das moças mais espertas que conheço. Sua Alteza me disse a mesma coisa ontem.
A coluna de Kaltain se endireitou imediatamente. Viu o rosto de Dorian e a coroa que descansava sobre sua cabeça.
— O príncipe disse isso... a meu respeito?
O duque colocou uma das mãos no joelho da jovem, acariciando-o com o dedão.
— É claro. Mas Lady Lillian o interrompeu antes que pudesse dizer mais.
Kaltain virou a cabeça.
— Por que ela estava com ele?
— Não sei. Mas queria que não estivessem juntos.
Kaltain precisava fazer alguma coisa para impedir aquilo. A moça agia rápido – rápido demais para os artifícios de Kaltain. Lillian capturara Dorian em sua armadilha, e agora Kaltain teria de libertá-lo. Perrington conseguiria fazê-lo. Poderia fazer com que Lillian desaparecesse e nunca mais fosse encontrada. Mas não – Lillian era uma dama, e um homem com tanta honra quanto Perrington nunca atacaria alguém de sangue nobre. Ou será que atacaria? Esqueletos dançavam ao redor da mente de Kaltain. E se ele acreditasse que Lillian não era uma dama...? A dor de cabeça voltou com a força de uma explosão, deixando-a sem ar.
— Tive a mesma reação — disse ela, esfregando a testa. — É difícil acreditar que alguém com a má reputação de Lady Lillian seja capaz de conquistar o coração do príncipe. — Talvez as dores de cabeça parassem quando estivesse ao lado de Dorian. — Talvez fosse bom alguém falar com Sua Alteza.
— Má reputação?
— Ouvi dizer que seu passado não é tão... puro quanto deveria ser.
— O que você ouviu? — Perrington exigiu saber.
Kaltain começou a brincar com a joia pendurada na pulseira.
— Não soube dos detalhes, mas alguns nobres não acreditam que ela mereça ser companheira de nenhum membro da corte. Seria bom se soubéssemos mais sobre ela, não acha? É nosso dever como servos da coroa proteger nosso príncipe de tais elementos.
— É verdade — respondeu o duque, em voz baixa.
Algo estranho e selvagem gritou dentro de Kaltain, sobrepondo-se à dor de cabeça, e as imagens de tulipas e de jaulas desapareceram de sua mente. Ela deveria fazer o que era necessário para salvar a coroa – e seu futuro.



Celaena ergueu os olhos do antigo livro de teorias sobre marcas de Wyrd quando ouviu a porta abrir, rangendo alto o bastante para acordar os mortos. Seu coração palpitou, e ela se esforçou para agir com naturalidade. Mas não era Dorian Havilliard que entrara, nem alguma criatura feroz.
A porta se abriu completamente, e Nehemia, com um belo vestido de fios dourados, apareceu diante dela. A princesa não olhou para Celaena e não se mexeu, ficou parada na soleira da porta. Os olhos fitavam o chão, e rios de Kohl escorriam por suas faces.
— Nehemia? — chamou Celaena, levantando-se. — O que aconteceu na peça?
Os ombros de Nehemia tremiam. Devagar, a princesa levantou a cabeça, expondo os olhos avermelhados.
— Eu... eu não sabia aonde ir — disse ela, em eyllwe.
Celaena sentiu dificuldade em respirar.
— O que houve? — perguntou.
Foi quando a assassina notou o pedaço de papel nas mãos trêmulas de Nehemia.
— Foram todos massacrados — sussurrou ela, com os olhos arregalados, e sacudiu a cabeça como se negasse as próprias palavras.
Celaena congelou.
— Quem?
Nehemia soluçou desesperadamente, e Celaena sentiu na pele a agonia daquele som.
— Uma tropa do exército de Adarlan capturou quinhentos rebeldes de Eyllwe que se escondiam na fronteira entre a floresta de Carvalhal e o pântano de Pedra. — Lágrimas escorriam pelas faces de Nehemia, molhando o vestido branco. Ela amassou o papel em uma das mãos. — Segundo meu pai, a intenção era levá-los a Calaculla como prisioneiros de guerra. Mas alguns dos rebeldes tentaram escapar durante a jornada e... — Nehemia ficou ofegante, tentando expulsar as palavras presas na garganta. — E, como punição, os soldados mataram todos, até as crianças.
O jantar de Celaena lhe subiu à garganta. Quinhentas pessoas... massacradas.
Ela se deu conta dos guardas pessoais de Nehemia de pé à porta, com os olhos brilhantes. Quantos desses rebeldes eram pessoas que eles conheciam – que Nehemia ajudara e protegera de alguma forma?
— Para que ser princesa de Eyllwe se não posso ajudar meu povo? — perguntou Nehemia. — Como posso me chamar de princesa deles quando sei que estão sofrendo tais injustiças?
— Sinto muito — sussurrou Celaena.
Como se essas palavras quebrassem o feitiço que segurava a princesa no lugar, Nehemia correu para abraçá-la. Suas joias de ouro pressionaram-se contra a pele de Celaena. Nehemia soluçava. Incapaz de falar, a assassina só a abraçou, pelo tempo que levasse até que a dor da amiga se abrandasse.

18 comentários:

  1. Essa vadia, odeio ela.
    E coitada da princesa, ter que ouvir sobre um massacre desses e não poder fazer nada a respeito

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  2. Estou desconfiada dessa princesa... Se o cara Perrintong (sei lá como escreve hashushs) é um vilão mt obvio, e quanto a ela?

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  3. Estou desconfiando muito da Kaltain será a besta sai dela quando se droga...

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    1. kkkk' Vai que seja isso mesmo ! Ashuash..

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  4. Nossa, q susto!!!!!!!!!!! Achei q o pessoal do teatro tinha sido massacrado na frente dela!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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    1. Também vei kkkkkkkkkk fiquei morta de medo de Dorian estivesse junto e tivesse morrido af

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  5. Também tinha entendi isso, Caius! Hahahaha

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  6. Pensei a mesma coisa pensei que a besta tinha atacado em público meu coração ate acelerou .

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  7. Aí que susto achei que a peça que a rainha tinha levado ela era pra ver os rebeldes morrendo, já tava xingando horrores

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  8. Bah! Vocês só pensam em coisas horríveis, nossa!
    Mas eu aprendi, depois de ler livros da Agatha Christie, a desconfiar de todos, principalmente nos mais óbvios e nos menos óbvios, por exemplo o Nox. Eu também desconfio dele.

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    1. Qual outro livro bom da Agatha que vc leu? Recomenda algum

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    2. Eu li Um corpo na biblioteca e gostei, Thalissa, dá uma olhada nesse

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    3. Ah os livros da Agatha Christie são muito bons, O Natal de Poirot me surpreendeu muito!

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    4. Haha meio tarde, mas "cartas na mesa", "uma dose mortal" e "os elefantes não esquecem" são muito bons também. São todos os que eu ja li. São de Poirot, mas ela tem livros de outros personagens também.

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  9. Quinhentas... pessoas...massacradas...

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  10. Eu não sei mais o que pensar! Desisto! Como se não bastasse desconfiar dos vivos, agora tem fantasmas, e coisas com garras matando! Vou só continuar lendo...lendo e lendo.

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  11. Vaca nojenta.
    Chorei quando a princesa falou do acontecido e de seus guardar :'(

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  12. Não sei, mas só eu que desconfia da princesa ?
    Acho que por causa de tantos livros que li, fiquei meio que desconfiando de todo mundo, pq todo mundo sabe que é óbvio demais acaba não sendo ninguém, e quem é amigo sempre é do mal, aprendi muito lendo A rainha vermelha haha

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