16 de janeiro de 2016

Capítulo 24 - Mudança

Acabei mudando de ideia.
O fogo no meu braço não foi tão ruim; a pior coisa que senti até aquele momento, sim. Mas não o mesmo que meu corpo todo em chamas.
Implorei para que ela fizesse tudo parar. Falei que era só isso que eu queria. Que a queimação parasse. Mais nada.
Ouvi Archie dizer para ela que todo mundo dizia a mesma coisa, lembrou que ela implorou que Carine a matasse também. Disse que minha primeira decisão era a que contava.
Eu me lembro de, em determinado momento, gritar para ele calar a boca.
Acho que ele pediu desculpas.
Mas, de um modo geral, era difícil prestar atenção ao que estava acontecendo fora do fogo. Sei que eles me deslocaram. Parecia que fiquei no chão coberto de sangue e vômito por muito tempo, mas era difícil julgar como os minutos passaram. Às vezes, Carine dizia alguma coisa e parecia que um ano se passava até que Archie respondesse, mas devia ser só o fogo que transformava segundos em anos.
E aí, alguém me carregou. Vi o sol por mais um segundo de um ano, parecia pálido e frio. Depois, tudo ficou escuro. Ficou escuro por muito tempo.
Eu ainda conseguia ver Edythe. Ela estava me segurando nos braços, com meu rosto perto do dela, uma das mãos na minha bochecha. Archie também estava perto. Acho que estava segurando minhas pernas.
Quando eu gritava, ela pedia desculpas, repetidas vezes.
Tentei não gritar. Não ajudava nada. Não havia alívio nem libertação. O fogo não ligava para o que eu fazia. Só queimava.
Quando meus olhos entravam em foco, eu conseguia ver luzes fracas se movendo no rosto de Edythe, embora tudo estivesse preto ao redor da cabeça dela. Fora a voz dela e a minha, o único som era um zumbido grave e constante. Às vezes, ficava mais alto, depois ficava baixo. Só percebi que estava de volta no carro preto quando parou. Não ouvi a porta ser aberta, mas o brilho de luz repentino foi cegante. Devo ter me encolhido, porque Edythe falou no meu ouvido:
— Estamos só parando para encher o tanque. Vamos chegar logo em casa, Beau. Você está indo muito bem. Isso vai acabar logo. Me desculpe.
Eu não conseguia sentir a mão dela no meu rosto; devia estar fria, mas nada estava mais frio. Tentei pegá-la, mas não conseguia saber o que meus membros estavam fazendo. Acho que eu estava me debatendo um pouco, mas Edythe e Archie me seguravam. Edythe adivinhou o que eu queria. Pegou minha mão e levou aos lábios. Eu queria poder sentir. Tentei segurar a mão dela sem saber como fazer os músculos se moverem e nem conseguir senti-los. Talvez eu tenha acertado. Ela não soltou.
Foi ficando mais escuro. Chegou uma hora em que não consegui mais enxergar. Estava escuro como breu dentro do carro, não havia diferença entre ficar com os olhos abertos ou fechados. Comecei a entrar em pânico. O fogo tornava a noite uma câmara de privação de sentidos; eu não conseguia sentir nada além de dor. Nem o banco embaixo de mim, nem Archie segurando minhas pernas, nem Edythe segurando minha cabeça e minha mão. Eu estava sozinho com a queimação e estava apavorado.
Não sei o que devo ter arfado, minha voz estava totalmente falhando agora, rouca de tanto gritar ou queimada a ponto de não poder ser usada. Não consegui saber qual das duas coisas, mas a voz de Edythe soou no meu ouvido de novo.
— Estou bem aqui, Beau. Você não está sozinho. Não vou abandonar você. Vou ficar aqui. Escute minha voz. Estou aqui com você...
A voz dela me acalmou, fez o pânico sumir, ainda que não a dor. Eu ouvi, mantendo a respiração rasa para conseguir ouvi-la melhor. Não precisava mais gritar. A queimação só aumentava e nunca diminuía, mas eu estava me adaptando. Era a única coisa que eu conseguia sentir, mas não a única em que eu conseguia pensar.
— Eu nunca quis isso para você, Beau — continuou Edythe. — Eu daria qualquer coisa para interromper isso. Cometi tantos erros. Devia ter ficado longe de você desde o primeiro dia. Nunca devia ter voltado. Eu destruí sua vida, tirei tudo de você... — Pareceu que ela estava chorando de novo.
— Não — tentei dizer, mas não sei se cheguei a formar a palavra com os lábios.
— Ele deve estar em um ponto avançado o bastante para que se lembre disso — disse Archie delicadamente.
— Espero que sim — disse Edythe, a voz falhando.
— Só estou dizendo que você devia usar o tempo de forma mais produtiva. Tem tanta coisa que ele não sabe.
— Você está certo, você está certo. — Ela suspirou. — Onde começo?
— Você pode explicar sobre sentir sede — sugeriu Archie. — Foi a parte mais difícil quando acordei. E vamos esperar muita coisa dele.
Quando Edythe respondeu, parecia que estava cuspindo a palavra com os dentes trincados.
— Não vou cobrar isso dele. Ele não escolheu isso. É livre para se tornar o que quiser.
— Rá — disse Archie. — Você já o conhece bem, Edythe. O outro jeito não vai ser bom o bastante para ele. Está vendo? Ele vai ficar bem.
O carro ficou silencioso enquanto ela se concentrava no que Archie estava vendo em pensamento. Embora eu entendesse o silêncio, ele ainda me deixava sozinho no fogo. Comecei a entrar em pânico de novo.
— Estou aqui, Beau. Estou aqui. Não tenha medo. — Ela respirou fundo. — Vou continuar falando. Tenho muitas coisas para contar. A primeira é que, quando isso passar, quando você estiver... novo, você não vai ser exatamente o mesmo que eu, não bem no começo. Ser um vampiro jovem quer dizer certas coisas, e a mais difícil de ignorar é a sede. Você vai sentir sede o tempo todo. Não vai conseguir pensar em muito mais por um tempo. Talvez um ano, talvez dois. É difícil para todo mundo. Assim que isso acabar, vou levar você para caçar. Você queria ver isso, não queria? Vamos levar Eleanor, para você ver a imitação de urso que ela faz... — Ela riu uma vez, um som desajustado. — Se você decidir, se quiser viver como nós, vai ser difícil. Principalmente no começo. Pode ser difícil demais, e entendo isso. Todos nós entendemos. Se você quiser tentar do meu jeito, vou com você. Posso dizer quem são os monstros humanos. Há opções. O que você quiser. Se... se você não me quiser com você, vou entender também, Beau. Juro que não vou seguir você se você me pedir para não...
— Não — respondi, arfando. Dessa vez, eu me ouvi, então soube que fiz certo.
— Você não precisa tomar nenhuma decisão agora. Há tempo para isso. Só saiba que vou respeitar qualquer decisão que você tomar. — Ela respirou fundo de novo. — Devo avisar sobre seus olhos. Eles não vão mais ser azuis. — Outro choro leve. — Mas não deixe que isso assuste você. Eles não vão ficar tão intensos por muito tempo. Mas acho que isso é uma coisa muito pequena... Eu devia me concentrar nas mais importantes. Nas difíceis, nas piores. Ah, lamento tanto, Beau. Você não pode mais ver sua mãe e nem seu pai. Não é seguro. Você os machucaria, não conseguiria se controlar. E... há regras. Regras que, como sua criadora, tenho que seguir. Nós dois seríamos responsabilizados se você perdesse o controle. Ah... — Ela ficou sem ar. — Tem tanta coisa que ele não sabe, Archie.
— Temos tempo, Edythe. Relaxe. Vá devagar.
Eu a ouvi inspirar de novo.
— As regras — disse ela. — Uma regra com mil permutações diferentes: a realidade dos vampiros tem que ser mantida em segredo. Isso quer dizer que vampiros recém-nascidos têm que ser controlados. Vou ensinar você, vou mantê-lo em segurança, prometo. — Outro suspiro. — E você não pode contar para ninguém o que é. Violei essa regra. Achei que não poderia fazer mal a você, achei que ninguém descobriria. Eu devia ter percebido que só de estar perto de você acabaria fazendo com que fosse destruído. Eu devia ter percebido que estragaria sua vida, que estava mentindo para mim mesma sobre qualquer outro caminho ser possível. Fiz tudo errado...
— Você está deixando que a autopunição atrapalhe a informação de novo, Edythe.
— Certo, certo. — Um suspiro profundo. — Beau. Você se lembra do quadro no escritório de Carine, dos patronos noturnos das artes de quem falei? Eles se chamam Volturi, e são... por falta de uma palavra melhor, a polícia do nosso mundo. Vou contar mais sobre eles daqui a pouco, você só precisa saber que eles existem, para que eu possa explicar por que você não pode contar a Charlie e nem à sua mãe onde está. Você não pode mais falar com eles, Beau. — A voz dela estava ficando mais aguda, como se estivesse prestes a se quebrar. — É melhor... não temos muita escolha além de deixar que pensem que você morreu. Lamento muito. Você nem pôde se despedir. Não é justo!
Houve uma longa pausa, durante a qual ouvi a respiração dela falhar.
— Por que você não volta para os Volturi? — sugeriu Archie. — Para deixar as emoções de fora.
— Você está certo — repetiu ela, em um sussurro. — Está pronto para aprender uma nova história do mundo, Beau?
Ela falou a noite inteira sem parar, até o sol nascer e eu conseguir ver o rosto dela de novo. Contou histórias que pareciam contos de fadas sombrios. Eu estava começando a vislumbrar o quanto esse mundo era, mas sabia que demoraria para compreender totalmente o tamanho.
Ela me contou sobre as pessoas que vi no quadro com Carine, os Volturi. Que eles juntaram forças durante a civilização micênica e começaram uma campanha de um milênio para criar paz e ordem no mundo dos vampiros.
Que havia seis no começo. Que traição e assassinato diminuiu o número para a metade. Alguém chamado Aro matou a irmã, a mulher do seu melhor amigo. O melhor amigo era Marcus, o homem que vi de pé com Carine. A mulher de Aro, Sulpicia, a que tinha o cabelo escuro e denso no quadro, foi a única testemunha. Ela o entregou para Marcus e seus soldados. Houve certa dúvida sobre o que fazer, pois Aro tinha um dom adicional muito poderoso, como o que Edythe tinha, porém mais, disse ela. E os Volturi não sabiam se conseguiriam se sair bem sem ele. Mas Sulpicia procurou uma jovem, Mele, a que Edythe chamou de serva e ladra, que tinha um dom próprio. Ela conseguia absorver o dom de outro vampiro. Não podia usar o dom roubado, mas podia dar para outra pessoa em quem tocasse. Sulpicia fez Mele pegar o dom de Aro, e Marcus o executou. Quando conseguiu ter o dom do marido, Sulpicia descobriu que o terceiro homem do grupo estava envolvido no plano. Ele também foi executado, e sua esposa, Athenodora, se juntou a Sulpicia e Marcus para liderar os soldados. Eles derrubaram os vampiros que aterrorizavam a Europa e os que escravizavam o Egito. Quando estavam no comando, criaram regulações que mantiveram o mundo vampiro escondido e em segurança.
Escutei o máximo que consegui. Não era distração da dor, pois não havia fuga. Mas era melhor do que pensar no fogo.
Edythe disse que foram os Volturi que criaram todas as histórias sobre cruzes e água benta e espelhos. Ao longo dos séculos, transformaram todos os relatos sobre vampiros em mito. E agora, faziam as coisas continuarem assim. Os vampiros tinham que ficar nas sombras, senão haveria consequências.
Portanto, eu não podia ir até a casa do meu pai e deixar que ele visse os olhos que Edythe disse que seriam intensos. Eu não podia dirigir até a Flórida para abraçar minha mãe e dizer que eu não estava morto. Não podia nem ligar para ela e explicar a mensagem confusa que deixei na secretária eletrônica. Se houvesse alguma coisa no noticiário, se qualquer boato se espalhasse dizendo que uma coisa não natural estava envolvida, os soldados Volturi podiam começar a investigar.
Eu tinha que desaparecer silenciosamente.
O fogo doía mais do que ouvir essas coisas. Mas eu sabia que nem sempre seria como estava. Em pouco tempo, isso doeria mais.
Edythe seguiu em frente rapidamente e me contou sobre os amigos no Canadá que viviam da mesma forma. Os irmãos russos louros e dois vampiros espanhóis que eram a família mais próxima dos Cullen. Ela me disse que dois deles tinham poderes adicionais: Kirill conseguia fazer alguma coisa elétrica e Elena sabia qual era o talento de cada vampiro que conhecia.
Ela me contou sobre outros amigos por todo o mundo. Na Irlanda e no Brasil e no Egito. Tantos nomes. Archie acabou se metendo de novo para mandar que ela priorizasse.
Edythe me contou que eu jamais envelheceria. Que sempre teria dezessete anos, feito ela. Que o mundo mudaria ao meu redor, e eu me lembraria de tudo e não esqueceria um segundo.
Ela me contou como os Cullen viviam, que se mudavam de lugar nublado para lugar nublado. Earnest reformava uma casa para eles. Archie investia os bens com retorno incrivelmente bom. Eles escolhiam uma história que explicasse o relacionamento deles, e Jessamine criava novos nomes e passados documentados para cada um. Carine assumia um emprego em um hospital usando as novas credenciais, ou voltava para a universidade para estudar um campo novo. Se o local parecesse promissor, os Cullen mais novos fingiam serem ainda mais novos para ficarem mais tempo.
Quando meu tempo sendo vampiro novo acabasse, eu poderia voltar à escola. Mas minha educação não teria que esperar. Eu tinha muito tempo à frente e me lembraria de tudo que lesse ou ouvisse.
Eu jamais voltaria a dormir.
Comida passaria a ser repugnante para mim. Eu jamais voltaria a sentir fome, só sede.
Eu jamais ficaria doente. Jamais sentiria cansaço. Conseguiria correr mais rápido do que um carro de corrida. Seria mais forte do que qualquer outra espécie viva do planeta. Não precisaria respirar. Conseguiria ver mais claramente, ouvir ainda que os menores sons.
Meu coração pararia de bater no dia seguinte ou dois dias depois e jamais voltaria.
Eu seria um vampiro.
Uma coisa boa na queimação: permitiu que eu ouvisse tudo com um certo distanciamento. Deixou que eu processasse o que ela estava me contando sem emoção. Eu sabia que as emoções viriam depois.
Quando estava começando a escurecer de novo, nossa viagem acabou. Edythe me carregou para dentro de casa como se eu fosse uma criança e se sentou comigo na sala grande. O fundo por trás do rosto dela foi de preto a branco. Eu conseguia vê-la com bem mais clareza agora e achava que não era só por causa da luz.
Nos olhos dela, meu rosto se refletiu, e fiquei surpreso de ver que parecia um rosto e não um bloco de carvão, ainda que um rosto em sofrimento. Mesmo assim, talvez eu não fosse a pilha de cinzas que me sentia.
Ela me contou histórias para ocupar o tempo, e os outros se revezaram para ajudá-la. Carine se sentou no chão ao meu lado e me contou uma história incrível sobre a família de Jules: que a bisavó dela foi uma lobisomem. Todas as coisas de que Jules debochou eram verdade.
Carine me contou que prometeu a eles que jamais morderia um humano. Era parte do acordo entre eles, o tratado que queria dizer que os Cullen não podiam ir a oeste do oceano.
Jessamine me contou a história dela. Acho que decidiu que eu estava pronto agora. Fiquei feliz, quando ela contou, de minhas emoções estarem enterradas debaixo do fogo. Ela também perdeu a família quando o homem que a criou roubou-a sem aviso. Ela me contou sobre o exército ao qual pertenceu, uma vida de carnificina e morte, e que depois se libertou. Contou-me sobre o dia que Archie deixou que ela o encontrasse.
Earnest me contou que a vida terminou antes de ele se matar, sobre a esposa instável e alcoólatra e a filha que ele amava mais do que à sua própria alma. Contou-me sobre a noite em que a esposa, em um surto alcoolizado, pulou de um penhasco com a filhinha nos braços e que ele não pôde fazer nada além de ir atrás. Depois, me contou que, após a dor, houve a mulher mais bonita do mundo de uniforme, uma enfermeira que ele reconheceu de tempos mais felizes em outra época, quando não passava de um jovem. A enfermeira não tinha envelhecido nem um dia.
Eleanor me contou que foi atacada por um urso e que viu o anjo que a levou para Carine em vez de para o céu. Contou-me que achou primeiro que tinha sido mandada para o inferno, e de forma justa, ela admitia, mas que era o paraíso, afinal.
Foi ela que me contou que o ruivo escapou. Ele não chegou perto de Charlie depois da vez que revistou a casa. Quando todos voltamos a Forks, Royal e Jessamine seguiram o rastro do homem o mais longe que conseguiram; desaparecia no mar de Salish e eles não conseguiram encontrar o local onde saiu. Até onde eles sabiam, o homem podia ter nadado direto até o Pacífico até outro continente. Ele devia ter suposto que Joss havia perdido a luta e percebeu que era mais inteligente desaparecer.
Até Royal falou. Ele me contou sobre uma vida consumida pela vaidade, por coisas materiais, ambição. Contou-me sobre a única filha de um homem poderoso (mas não entendi que tipo de poder o homem tinha) e que planejou se casar com ela e se tornar herdeiro da dinastia. Que a bela filha fingiu amá-lo para agradar o pai e que ela viu quando seu amante de uma máfia criminosa rival espancou Royal quase até a morte, que ela riu em voz alta o tempo todo. Ele me contou sobre a vingança que executou. Royal era o menos cuidadoso com as palavras. Ele me contou como foi perder a família e que nada valia o que ele perdeu.
Edythe sussurrou o nome de Eleanor; ele grunhiu uma vez e foi embora.
Acho que deve ter sido quando Royal ou Eleanor estavam falando que Archie viu o vídeo de Joss feito no estúdio de dança. Quando Royal foi embora, Archie tomou o lugar dele. Primeiro, eu não sabia de que eles estavam falando, porque só Edythe estava falando em voz alta, mas acabei entendendo. Archie estava procurando no laptop, tentando diminuir as opções de onde ele ficou quando era humano. Fiquei feliz de ele não parecer mencionar mais nada sobre a fita, o foco foi só no passado dele. Fiquei tentando lembrar como usar a voz para impedi-lo se ele tentasse dizer qualquer coisa sobre o resto. Eu esperava que Archie fosse inteligente o bastante para ter destruído a fita antes que Edythe pudesse assistir.
As histórias me ajudaram a pensar em outras coisas, a me preparar, enquanto o fogo queimava, mas só consegui prestar atenção parcialmente. Minha mente estava catalogando o fogo, vivenciando-o de novas formas. Era incrível como cada centímetro da minha pele, cada milímetro, era tão distinto. Parecia que eu conseguia sentir todas as minhas células queimando individualmente. Eu conseguia sentir a diferença entre a dor nas paredes dos pulmões e a sensação nas solas dos meus pés, dentro dos globos oculares e pela minha coluna. Todas as dores diferentes claramente separadas. Consegui ouvir meu coração disparado; parecia tão alto. Como se estivesse ligado em um amplificador. Também consegui ouvir outras coisas. Principalmente a voz de Edythe, às vezes os outros falando, embora não pudesse vê-los. Ouvi música uma vez, mas não sabia de onde vinha.
Parecia que fiquei no sofá, com a cabeça no colo de Edythe, por vários anos. As luzes ficaram acesas, então eu não sabia se era noite ou dia. Mas os olhos de Edythe estavam sempre dourados, então eu achava que o fogo estava mentindo sobre o tempo de novo.
Eu estava tão ciente de cada terminação nervosa do meu corpo que soube imediatamente quando algo mudou.
Começou com meus dedos dos pés. Não consegui senti-los. Parecia que o fogo tinha finalmente vencido, que tinha começado a queimar partes de mim. Edythe dissera que eu estava me transformando, não morrendo, mas nesse momento de pânico achei que ela tivesse se enganado. Talvez essa coisa de vampiros não fosse dar certo comigo. Talvez a queimação toda tivesse sido só um jeito lento de morrer. O pior jeito.
Edythe sentiu que eu estava surtando de novo e começou a cantarolar no meu ouvido. Tentei olhar o lado positivo. Se estava me matando, pelo menos acabaria. E, se ia acabar, pelo menos eu passei o resto da minha vida nos braços de Edythe.
E, então, percebi que meus dedos dos pés ainda estavam lá, só não estavam mais pegando fogo. Na verdade, o fogo estava passando nas solas dos pés também. Fiquei feliz de entender o que estava acontecendo, porque as pontas dos meus dedos vieram em seguida. Não havia mais necessidade de pânico, talvez fosse motivo para ter esperanças. O fogo estava indo embora.
Só que parecia estar fazendo mais do que ir embora; estava... se movendo. Todo o fogo que se afastava das minhas extremidades parecia estar indo para o centro do meu corpo, abastecendo a brasa lá, que estava mais quente do que antes.
Eu não conseguia acreditar que existia uma opção mais quente.
Meu coração, já tão alto, começou a bater mais rápido. O núcleo do fogo parecia estar lá. Estava sugando as chamas das minhas mãos e dos meus tornozelos, deixando-os sem dor, mas multiplicando o calor e a dor no meu coração.
— Carine — chamou Edythe.
Carine entrou na sala, e o incrível nisso foi que eu a ouvi. Edythe e a família nunca faziam barulho quando se moviam. Mas agora, se eu prestasse atenção, conseguia ouvir o som baixo dos lábios de Carine roçando um no outro quando ela falou.
— Ah. Está quase no fim.
Eu queria sentir alívio, mas a agonia crescente no meu peito tornava impossível que eu sentisse qualquer outra coisa. Olhei no rosto de Edythe. Ela estava mais linda do que em qualquer outra ocasião, porque eu conseguia vê-la melhor do que já tinha visto em qualquer outra ocasião.
Mas não conseguia admirá-la. Tanta dor.
— Edythe — chamei, arfando.
— Você está bem, Beau. Está acabando. Me desculpe, eu sei. Eu me lembro.
O fogo se espalhou ainda mais quente pelo meu coração, puxando as chamas dos meus cotovelos e joelhos. Pensei em Edythe passando por isso, sofrendo assim, e tive uma perspectiva diferente da minha dor. Ela nem conhecia Carine na época. Não sabia o que estava lhe acontecendo. Não foi abraçada durante o tempo todo pelos braços de alguém que ela amava.
A dor tinha sumido de quase todas as partes, menos do meu peito. A única parte que sobrava era minha garganta, mas era um tipo de queimação diferente agora... mais seca... irritante...
Ouvi mais passos, e tive quase certeza de que conseguia perceber a diferença entre eles. O passo decisivo e confiante era de Eleanor, eu tinha certeza. O de Archie era um movimento mais rápido e mais ritmado. O de Earnest era mais lento, pensativo. Jessamine foi quem parou na porta. Pensei ter ouvido Royal respirando atrás dela.
E então...
— Aaah!
Meu coração decolou, batendo como hélices de helicóptero, o som quase uma única nota suspensa. Parecia que arrebentaria minhas costelas. O fogo subiu pelo centro do meu peito, sugando todas as chamas do resto do meu corpo para alimentar a queimação mais dolorosa de todas. Era suficiente para me deixar atordoado. Meu corpo se dobrou, como se o fogo estivesse me arrastando pelo coração.
Parecia que estava havendo uma guerra dentro de mim: meu coração disparado contra o fogo ardente. Os dois estavam perdendo.
O fogo apertou com mais força e se concentrou em uma bola do tamanho de um punho formada de dor, com uma força final e insuportável. A força foi recebida por um baque grave com som vazio. Meu coração pulou duas vezes, depois bateu silenciosamente mais uma vez.
Não havia som. Nem respiração. Nem a minha.
Por um segundo, só consegui processar a ausência de dor. A queimação seca na minha garganta era fácil de ignorar, porque todas as outras partes de mim estavam com uma sensação incrível. A libertação era incrivelmente eufórica.
Olhei para Edythe, maravilhado. Parecia que havia tirado uma venda que usei toda a vida. Que visão.
— Beau? — perguntou ela. Agora que eu conseguia me concentrar, a beleza da voz dela era irreal. — É desorientador, eu sei. Você se acostuma.
Eu poderia me acostumar a ouvir uma voz assim? A ver um rosto assim?
— Edythe — falei, e o som da minha voz me assustou.
Era eu? Não parecia comigo. Não parecia... humano. Nervoso, estiquei a mão para tocar na bochecha dela.
No mesmo momento que o desejo de tocar nela entrou na minha mente, minha mão aninhou a lateral do rosto dela. Não havia meio-termo, não havia o processo de levantar a mão, vê-la se mover até o destino. Ela apenas apareceu lá.
— Hã.
Ela se inclinou para o meu toque, colocou a mão na minha e a segurou contra o rosto. Foi estranho porque foi familiar. Eu sempre adorava quando ela fazia isso, adorava ver que ela gostava de forma tão óbvia quando eu a tocava assim, que era importante para ela. Mas também não era nada parecido. O rosto dela não estava mais frio. A mão dava a sensação certa na minha. Não havia diferença entre nós agora.
Fiquei olhando nos olhos dela e depois olhei melhor para a imagem refletida neles.
— Ahh... — Um pequeno arfar escapou da minha garganta por acidente, e senti meu corpo travar de surpresa. Foi estranho, parecia a coisa natural a fazer, virar uma estátua porque eu estava chocado.
— O que foi, Beau? — Ela se inclinou mais para perto, preocupada, mas isso só trouxe o reflexo para mais perto.
— Os olhos? — sussurrei.
Ela suspirou e franziu o nariz.
— Depois muda — prometeu ela. — Eu me apavorei cada vez que me olhei no espelho durante seis meses.
— Seis meses — murmurei. — Depois vão ficar dourados, como os seus?
Ela afastou o olhar, por cima das costas do sofá, para alguém de pé atrás de nós, onde eu não conseguia enxergar. Eu queria me sentar e olhar ao redor, mas estava com um certo medo de me mexer. Meu corpo estava tão estranho.
— Depende da sua dieta, Beau — disse Carine calmamente. — Se você caçar como nós, seus olhos vão acabar ficando dessa cor. Se não, seus olhos vão ficar como os de Lauren.
Decidi tentar me sentar.
E, como antes, pensar foi fazer. Sem qualquer movimento, eu estava ereto. Edythe segurou minha mão quando a afastei do rosto dela.
Atrás do sofá, todos estavam reunidos, olhando.
Acertei meus palpites em cem por cento: Carine estava mais perto, depois Eleanor, Archie e Earnest. Jessamine na porta que levava a outra sala com Royal olhando por cima do ombro dela.
Olhei nos rostos deles, chocado de novo. Se meu cérebro não estivesse... com tão mais espaço do que antes, eu teria esquecido o que ia dizer. Mas, como estava, me recuperei bem rápido.
— Não, quero fazer do seu jeito — falei para Carine. — É a coisa certa a fazer.
Carine sorriu. Teria tirado meu fôlego se eu precisasse respirar.
— Se fosse fácil assim. Mas é uma escolha nobre. Vamos ajudar o máximo que pudermos.
Edythe tocou no meu braço.
— É melhor caçarmos agora, Beau. Vai fazer sua garganta doer menos.
Quando ela mencionou minha garganta, a queimação seca foi de repente para a frente da minha mente. Eu engoli em seco. Mas...
— Caçar? — perguntei com minha nova voz. — Eu, hã, bem, nunca cacei antes. Nem mesmo do jeito normal com rifles, então acho que eu não poderia... quer dizer, não tenho ideia de como...
Eleanor riu baixinho.
Edythe sorriu.
— Vou mostrar a você. É muito fácil, muito natural. Você não queria me ver caçar?
— Só nós? — perguntei, para confirmar.
Ela pareceu confusa por uma fração de segundo, depois o rosto relaxou.
— Claro. O que você quiser. Venha comigo, Beau.
E ela estava de pé, ainda segurando minha mão. Eu também me levantei, e foi tão simples me mexer que me perguntei por que tive medo de tentar. Qualquer coisa que eu quisesse que aquele corpo fizesse, ele faria.
Ela correu até a parede de trás da sala grande, a parede de vidro que tinha virado um espelho agora porque era noite lá fora. Vi as duas figuras pálidas surgindo e parei. O estranho foi que, quando parei, o movimento foi tão repentino que Edythe seguiu em frente, ainda segurando minha mão, e apesar de ela ainda estar puxando, eu não me movi. Meu aperto na mão dela a puxou para trás.
Como se não fosse nada.
Mas eu só estava reparando nisso com parte do meu cérebro. Eu estava mesmo era olhando para o meu reflexo.
Eu tinha visto meu rosto curvado no formato convexo dos olhos dela, só o centro, sem beiradas. Só tinha mesmo visto meus olhos, brilhantes, quase cintilando em vermelho , e isso foi o bastante para me dar foco. Agora, eu vi meu rosto todo, meu pescoço, meus braços. Se alguém tivesse cortado um contorno do meu eu humano, essa versão ainda caberia no espaço. Mas, apesar de eu ocupar o mesmo volume, todos os ângulos estavam diferentes. Mais duros, mais pronunciados. Como se alguém tivesse feito uma escultura de gelo de mim e deixado as beiradas afiadas.
Meus olhos... Era difícil olhar ao redor da cor, mas a forma deles também parecia diferente. Vagamente, como se eu estivesse me lembrando de uma coisa que só vi por água enlameada, eu me lembrei de como meus olhos eram. Indecisos. Como se eu nunca tivesse certeza de quem eu era. E então, depois de Edythe (ainda tão difícil de ver na lembrança, desconfortável de tentar), eles ficaram mais decididos de repente.
Esses olhos deram um passo além da decisão; eles eram selvagens. Se eu encontrasse esse eu em um beco escuro, ficaria morrendo de medo de mim.
Esse era o objetivo, eu acho. As pessoas deviam sentir medo de mim agora.
Eu ainda estava com a calça jeans suja de sangue, mas estava com uma camisa azul-clara desconhecida. Não me lembrei disso ter acontecido, mas eu conseguia entender; vampiro ou humano, ninguém queria andar por aí com uma pessoa encharcada de vômito.
— Opa — falei. Grudei o olhar no de Edythe pelo reflexo.
Isso também era estranho. Porque o Beau no espelho parecia... certo ao lado de Edythe. Como se ali fosse o lugar dele. Não como antes, quando as pessoas só podiam ficar imaginando que ela estava com pena de mim.
— É muita coisa — disse ela.
Eu respirei fundo e assenti.
— Tudo bem.
Ela puxou minha mão de novo, e fui atrás. Antes de um quarto de segundo ter passado, atravessamos as portas de vidro atrás da escada e fomos para o gramado dos fundos.
Não havia luar nem estrelas, as nuvens estavam densas demais. Devia estar preto como breu fora do retângulo de luz que passava pela parede de vidro, mas não estava. Eu conseguia ver tudo.
— Opa — repeti. — Isso é tão legal.
Edythe olhou para mim como se estivesse surpresa pela minha reação. Ela tinha esquecido como era a primeira vez que se via o mundo por olhos de vampiro? Eu achava que ela tinha dito que eu não esqueceria mais nada.
— Vamos ter que dar a volta pelo bosque — disse ela. — Só por garantia.
Eu me lembrei do essencial que ela me contou sobre caçar.
— Certo. Para que não haja pessoas perto. Entendi.
Mais uma vez, aquela expressão surpresa surgiu no rosto dela e sumiu.
— Me siga — disse ela.
Ela desceu pelo gramado com tanta rapidez que eu soube que ela seria invisível aos meus antigos olhos. Depois, na beira do rio, ela se lançou em um arco alto que a lançou por cima do rio até as árvores além.
— É sério? — gritei.
Eu a ouvi rir.
— Juro que é fácil.
Ótimo.
Eu suspirei e saí correndo.
Correr nunca foi meu forte. Eu ia bem em uma pista plana, se estivesse prestando atenção e mantivesse os olhos nos pés. Tudo bem, para falar a verdade, mesmo assim eu ainda conseguia embolar os pés e cair.
Isso foi diferente. Eu estava voando, voando pelo gramado, mais rápido do que já me movi, mas era simples demais colocar os pés exatamente onde deviam estar. Eu conseguia sentir todos os meus músculos, quase ver as ligações conforme eles trabalhavam juntos, mandá-los fazer exatamente o que eu precisava. Quando cheguei à beirada do rio, nem parei. Dei impulso na mesma pedra que ela usou, e aí voei de verdade. O rio passou por baixo de mim quando disparei pelo ar. Passei por onde ela caiu e desci no bosque.
Senti um instante de pânico quando me dei conta de quem nem considerei o pouso, mas minha mão já parecia saber como se apoiar em um galho grosso e virar o corpo para que meus pés batessem no chão quase sem som.
— Caramba — sussurrei, sem acreditar.
Ouvi Edythe correndo pelas árvores, e o gingado dela já era tão familiar para mim quanto o som da minha própria respiração. Eu sabia que conseguiria perceber a diferença entre o som dos passos dela e os de qualquer oura pessoa.
— Temos que fazer isso de novo! — falei assim que a vi.
Ela parou a poucos metros de mim, e uma expressão frustrada que eu conhecia bem surgiu no rosto dela.
Eu ri.
— O que você quer saber? Eu conto o que estou pensando.
Ela franziu a testa.
— Não entendo. Você está... de ótimo humor.
— Ah. Isso é errado?
— Você não está morrendo de sede?
Engoli mesmo com a queimação. Era ruim, mas não tão ruim quanto o resto do fogo que eu tinha acabado de deixar para trás. A queimação-sede estava sempre presente e ficava pior quando eu me concentrava nela, mas havia tantas outras coisas em que me concentrar.
— Sim, quando eu penso nisso.
Edythe empertigou os ombros.
— Se você quiser fazer isso primeiro, tudo bem também.
Eu olhei para ela. Obviamente, eu não estava percebendo alguma coisa.
— Fazer isso? O quê?
Ela olhou para mim por um segundo, os olhos cheios de dúvida. De repente, levantou as mãos.
— Sabe, eu achava mesmo que quando sua mente estivesse mais parecida com a minha, eu conseguiria ouvi-la. Acho que isso nunca vai acontecer.
— Desculpe.
Ela riu, mas havia uma nota infeliz no som da risada.
— Sinceramente, Beau.
— Você pode me dar uma dica sobre o que estamos falando?
— Você queria que ficássemos sozinhos — disse ela, como se isso fosse uma explicação.
— Hã, é.
— Porque você tinha coisas que queria dizer para mim? — ela firmou os ombros de novo, ficando tensa, como se esperasse uma coisa ruim.
— Ah. Bom, acho que há coisas a dizer. Ou melhor, tem uma coisa importante, mas eu não estava pensando nisso. — Ao ver o quanto ela estava frustrada pela confusão que estava acontecendo, fui totalmente sincero. — Eu queria ficar sozinho com você porque... Bom, eu não queria ser rude, mas também não queria fazer essa coisa de caçar na frente de Eleanor — confessei. — Achei que havia uma boa chance de eu fazer alguma coisa errada, e não conheço Eleanor tão bem ainda, mas tenho a sensação de que ela acharia bem engraçado.
Ela arregalou os olhos.
— Você estava com medo de Eleanor rir de você? Sério, é só isso?
— Sério. Sua vez, Edythe. O que achou que estivesse acontecendo?
Ela hesitou.
— Achei que você estivesse sendo um cavalheiro. Achei que preferisse gritar comigo sozinho e não na frente da minha família.
Eu congelei de novo. Perguntei-me se isso ia acontecer cada vez que eu ficasse surpreso. Demorei um segundo para descongelar.
— Gritar com você? — repeti. — Edythe... ah! Você está falando sobre todas aquelas coisas que veio falando no carro, certo? Me desculpe por aquilo, eu...
— Me desculpe? Por que motivo você está pedindo desculpas agora, Beau Swan?
Ela pareceu estar com raiva. Com raiva e tão linda. Não consegui imaginar por que estava tão tensa. Dei de ombros.
— Eu queria contar para você na hora, mas não consegui. Quer dizer, não conseguia nem me concentrar...
— É claro que você não conseguiu se concentrar...
— Edythe! — Atravessei o espaço entre nós em uma passada larga invisível e coloquei as mãos nos ombros dela. — Você nunca vai saber o que estou pensando se ficar me interrompendo.
A raiva no rosto dela sumiu enquanto ela se acalmava. E então, ela assentiu.
— Tudo bem — falei. — No carro... eu queria dizer naquela hora que você não precisava pedir desculpas, eu me senti péssimo por você estar tão triste. Isso não é sua culpa...
Ela começou a dizer alguma coisa, mas coloquei o dedo nos lábios dela.
— E nem é tão ruim — prossegui. — Estou... bom, minha cabeça ainda está girando e sei que há milhões de coisas em que pensar e estou triste, claro, mas também estou bem, Edythe. Estou sempre bem quando estou com você.
Ela ficou me olhando por um longo minuto.
Lentamente, levantou a mão para afastar meu dedo da sua boca. Eu não a impedi.
— Você não está com raiva de mim pelo que fiz com você? — perguntou ela baixinho.
— Edythe, você salvou minha vida! De novo. Por que eu sentiria raiva? Por causa do jeito como a salvou? O que mais poderia ter feito?
Ela expirou, quase como se estivesse com raiva de novo.
— Como você...? Beau, você tem que ver que é tudo minha culpa. Eu não salvei sua vida, eu a tirei de você. Charlie... Renée...
Coloquei o dedo sobre os lábios dela de novo e respirei fundo.
— Sim. É difícil e vai ser difícil por bastante tempo. Talvez para sempre, certo? Mas por que eu colocaria a culpa disso nas suas costas? Foi Joss que... Bem, que me matou. Você me trouxe de volta à vida.
Ela empurrou minha mão.
— Se eu não tivesse envolvido você no meu mundo...
Eu ri, e ela olhou para mim como se eu tivesse perdido a sanidade.
— Edythe, se você não tivesse me envolvido no seu mundo, Charlie e Renée teriam me perdido três meses antes.
Ela ficou me olhando com a testa franzida. Era óbvio que ela não estava aceitando nada daquilo.
— Você se lembra do que eu disse quando você salvou minha vida em Port Angeles? Na segunda vez, ou terceira — eu quase não me lembrava. As palavras eram mais fáceis de lembrar do que as imagens. Eu sabia que tinha sido mais ou menos assim. — Que você estava alterando meu destino porque minha hora tinha chegado? Bem... se eu tinha que morrer, Edythe... esse não é o jeito mais incrível de fazer isso?
Um longo minuto se passou enquanto ela me olhava, e depois balançou a cabeça.
— Beau, você é incrível.
— Acho que agora, sou.
— Sempre foi.
Eu não falei nada, e meu rosto me traiu. Ou ela era boa assim. Ela conhecia meu rosto tão bem, passou tanto tempo tentando me entender, que soube na mesma hora quando havia uma coisa que eu não estava dizendo.
— O que foi, Beau?
— Só... uma coisa que Joss disse.
Eu fiz uma careta. Apesar de ser difícil ver as coisas na minha memória antiga, o estúdio de dança era a mais recente, mais vívida.
O maxilar de Edythe se enrijeceu.
— Ela disse muitas coisas — sibilou ela.
— Ah. — De repente, senti vontade de socar alguma coisa. Mas também não queria me afastar de Edythe para fazer isso. — Você viu a fita.
O rosto dela ficou totalmente branco. Furioso e agonizante ao mesmo tempo.
— Sim, eu vi a fita.
— Quando? Eu não ouvi...
— Fones de ouvido.
— Eu queria que você não tivesse...
Ela balançou a cabeça.
— Eu tinha que ver. Mas esqueça isso agora. Em que mentira você estava pensando? — Ela cuspiu as palavras entredentes.
Demorei um minuto.
— Você não queria que eu fosse vampiro.
— Não. Não queria de jeito nenhum.
— Então essa parte não era mentira. E você anda tão chateada... Sei que se sente mal por causa de Charlie e da minha mãe, mas acho que estou com medo de parte disso ser porque, bem, você não esperava que eu ficasse por perto por muito tempo, não estava planejando isso... — ela abriu a boca tão rápido que coloquei a mão toda em cima agora. — Porque, se for isso, não se preocupe. Se quiser que eu vá embora depois de um tempo, eu posso ir. Você pode me mostrar o que fazer para que eu não coloque nenhum de nós dois em situação problemática. Não espero que você me aguente para sempre. Você não escolheu isso, tanto quanto eu. Quero que você saiba que estou ciente disso.
Ela esperou que eu afastasse a mão. Fiz isso lentamente. Eu não sabia se queria ouvir o que viria em seguida.
Ela rosnou baixinho e mostrou os dentes para mim, mas não em um sorriso.
— Você tem sorte de eu não ter mordido você — disse ela. — Na próxima vez que você colocar a mão na minha boca para dizer uma coisa tão idiota e insultante, eu vou morder.
— Desculpe.
Ela fechou os olhos. Os braços envolveram minha cintura e ela apoiou a cabeça no meu peito. Meus braços envolveram o corpo dela automaticamente. Ela inclinou o rosto para cima para olhar para mim.
— Quero que você me escute com muita atenção, Beau. Isto, ter você comigo, ficar com você aqui, é como se todos os meus desejos egoístas tivessem sido realizados. Mas o preço para tudo que quero era tirar exatamente a mesma coisa de você. Toda a sua vida. Estou com raiva de mim mesma, estou decepcionada comigo mesma. E queria tanto poder trazer a rastreadora de volta à vida para poder matá-la eu mesma, repetidas vezes, sem parar...
“O motivo para eu não querer que você fosse vampiro não era por você não ser especial o bastante, era por você ser tão especial que merecia mais. Eu queria que você tivesse o que todos nós sentimos falta, uma vida humana. Mas você tem que saber, se fosse só por minha causa, se não houvesse preço para você pagar, esta noite seria a melhor da minha vida. Venho olhando a cara da eternidade há um século, e esta noite é a primeira vez em que me pareceu bonita. Por sua causa.
“Nunca mais pense que não quero você. Eu vou sempre querer você. Não mereço você, mas sempre vou amá-lo. Está claro?
Era óbvio que ela estava sendo sincera. A verdade ecoava em cada palavra.
Um sorriso enorme se abriu no meu rosto novo.
— Então está tudo bem.
Ela também sorriu.
— Eu diria que sim.
— Essa era a coisa importante que eu queria dizer, só que eu amo você. Sempre vou amar. Soube disso desde o começo. Então, sendo assim que as coisas estão, acho que conseguimos resolver o resto.
Segurei o rosto dela nas mãos e me inclinei para beijá-la. Como todo o resto, isso era fácil agora. Nada com que me preocupar, nenhuma hesitação.
Mas foi estranho meu coração não sair batendo loucamente, o sangue não estar disparando nas minhas veias. Mas alguma coisa estava zumbindo por mim como eletricidade, cada nervo do meu corpo vivo. Mais do que vivo, como se todas as minhas células estivessem comemorando. Eu só queria segurá-la assim e não precisaria de mais nada pelos cem anos seguintes.
Mas ela se soltou, e estava rindo. Dessa vez, a gargalhada estava cheia de alegria. Parecia um canto.
— Como você está fazendo isso? — Ela riu. — Você devia ser um vampiro recém-nascido, mas aqui está, discutindo o futuro comigo calmamente, sorrindo para mim, me beijando! Você devia estar com sede e mais nada.
— Estou um monte de outras coisas — falei. — Mas estou com bastante sede, agora que você tocou no assunto.
Ela se ergueu nas pontas dos pés e me beijou uma vez, intensamente.
— Eu te amo. Vamos caçar.
Corremos juntos na escuridão que não era escura, e não senti medo. Isso seria fácil, eu sabia, como todo o resto.

10 comentários:

  1. Achei meio óbvio que ele iria se tornar um vampiro. Isso, ou morrer. Esquisito. E clichê. Mas ainda assim... Uma bonita história.

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    1. Diferente....a melhor parte na verdade. Por ser um novo contesto é mais fácil imaginar o Beau e a Edythe sem bagunçar com os inesquecíveis momentos com Bella e Edward. Legal

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  2. Não estou me importando nem um pouco com o fato da Stephanie ter mudado a historia... Na verdade tô gostando e muito! É bom saber, matar as curiosidades...
    Roselie estava certa no final das contas se a Bella tivesse um temperamento mais calmo, o controle dela seria melhor... Uou

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  3. Gostei não. Meio estranho. Fiquei comparando o tempo inteiro a transformação dele com a de Bella em Amanhecer...
    E ainda sem casamento, sem Renesmee (afinal, eles nunca poderão ter filhos mesmo )
    Faltou alguma coisa

    ~Mia

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  4. Mas já acabou?? qndo estava começando a gostar rs*... bom estou tentando n compara, afinal a Jules só foi uma colega, n teve bebê e fico imaginando os pais dele como ficaram, mais tirando isso até q n foi uma história tão ruim, gostei

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  5. Por incrível que pareça, não gostei de Crepúsculo mas, me apaixonei por esse livro.
    Sensacional!!!

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  6. É quase como se fosse os 4 livros em um so

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  7. Amei, amei, amei ♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥.
    Sinceramente, prefiro esse livro a Crepúsculo, acho mais emocionante e envolvente.
    PS: Ainda amo Crepúsculo.

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  8. vão fazer um filme dessa história, diz que pq gostei muito.

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  9. Só não entendi por que Charle e Reneé não trocaram de genero.

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