16 de janeiro de 2016

Capítulo 23 - A escolha

Outro grito acima do meu, um grito como o de uma serra elétrica cortando ferro.
A caçadora atacou, mas os dentes se fecharam a dois centímetros do meu rosto porque uma coisa a puxou para trás e a fez voar para longe.
O fogo se acumulava na dobra do meu cotovelo, e eu gritei.
Eu não estava sozinho, havia outros gritando; o rosnado metálico foi acompanhado de um lamento agudo que ecoava nas paredes e parou de repente. Um rosnado grave soava por baixo dos outros sons. Mais metal se quebrando, sendo arrebentado...
— Não! — uivou alguém em uma dor tão intensa quanto a minha. — Não, não, não, não!
A voz significava alguma coisa para mim, mesmo pela queimação que era tão mais intensa do que isso. Embora as chamas tivessem chegado ao meu ombro, a voz ainda exigia minha atenção. Mesmo gritando, ela soava como um anjo.
— Beau, por favor! — Edythe chorou. — Por favor, por favor, por favor, Beau, por favor!
Tentei responder, mas minha boca estava desconectada do resto de mim. Meus gritos sumiram, mas só porque não havia mais ar.
— Carine! — gritou Edythe. — Me ajude! Beau, por favor, por favor, Beau, por favor!
Ela estava com minha cabeça no colo, e os dedos apertavam meu couro cabeludo com força. O rosto estava desfocado, como o da caçadora. Eu estava caindo em um túnel na minha cabeça. Mas o fogo estava indo comigo, tão intenso quanto antes.
Uma coisa fria entrou na minha boca e preencheu meus pulmões. Meus pulmões reagiram. Outra respiração fria.
Edythe entrou em foco, o rosto perfeito contorcido e torturado.
— Continue respirando, Beau. Respire.
Ela colocou os lábios nos meus e encheu meus pulmões de novo.
Havia dourado ao redor das bordas da minha visão, outro par de mãos frias.
— Archie, faça talas para a perna e para o braço dele. Edythe, endireite as vias respiratórias dele. Qual é o sangramento pior?
— Aqui, Carine.
Olhei para o rosto dela enquanto a pressão na minha cabeça diminuía. Meus gritos eram só choramingos agora.
A dor não tinha diminuído, estava pior. Mas gritar não me ajudava, e magoava Edythe. Enquanto eu mantivesse os olhos no rosto dela, conseguiria me lembrar de alguma coisa além da queimação.
— Minha bolsa, por favor. Prenda a respiração, Archie, vai ajudar. Obrigada, Eleanor, agora saia, por favor. Ele perdeu sangue, mas os ferimentos não são profundos demais. Acho que as costelas são o maior problema agora. Encontre fita adesiva.
— Alguma coisa para a dor — sibilou Edythe.
— Aqui... Não tenho mãos. Você pode ajudar?
— Isso vai tornar tudo melhor — prometeu Edythe.
Alguém estava endireitando minha perna. Edythe estava prendendo a respiração, esperando, acho, que eu reagisse. Mas não doía como meu braço.
— Edythe...
— Shh, Beau, vai ficar tudo bem. Juro que vai ficar tudo bem.
— E... não... é...
Alguma coisa estava afundando no meu couro cabeludo e outra coisa puxava meu braço quebrado. Isso machucou minhas costelas, e perdi o fôlego.
— Aguente, Beau — implorou Edythe. — Por favor, aguente.
Eu me esforcei para inspirar de novo.
— Não... costelas — falei, engasgado. — Mão.
— Você consegue entender o que ele está dizendo? — a voz de Carine soou ao lado da minha mão.
— Descanse, Beau. Respire.
— Não... mão — tentei dizer, ofegante. — Edythe... mão direita!
Não consegui sentir as mãos frias dela na minha pele, o fogo estava intenso demais. Mas ouvi-a ofegar.
— Não!
— Edythe — disse Carine, assustada.
— Ela o mordeu. — A voz de Edythe quase não saía, como se ela também tivesse ficado sem ar.
Carine prendeu a respiração de horror.
— O que faço, Carine? — perguntou Edythe.
Ninguém a respondeu. A sensação de puxão no couro cabeludo continuou, mas sem doer.
— Sim — disse Edythe entredentes. — Posso tentar. Archie, bisturi.
— Há uma boa chance de você matá-lo — disse Archie.
— Me dê — disse ela rispidamente. — Eu consigo fazer isso.
Não vi o que ela fez com o bisturi. Não consegui sentir mais nada no corpo, nada além do fogo no braço. Mas a vi levar minha mão à boca, como a caçadora tinha feito.
Sangue fresco saía pelo ferimento. Ela colocou os lábios ali.
Eu gritei de novo. Não consegui evitar. Era como se ela estivesse puxando o fogo de volta pelo meu braço.
— Edythe — disse Archie.
Ela não reagiu, com os lábios ainda pressionados na minha mão. O fogo subia e descia pelo braço, indo e vindo. Gemidos escapavam pelos meus dentes trincados.
— Edythe — gritou Archie. — Olhe.
— O que foi, Archie? — perguntou Carine.
Archie esticou a mão e bateu na bochecha de Edythe.
— Pare, Edythe! Pare agora!
Minha mão caiu de perto do rosto dela. Ela olhou para Archie com olhos tão arregalados que pareciam ocupar metade do rosto. Ofegou.
— Archie! — gritou Carine.
— É tarde demais — disse Archie. — Chegamos aqui tarde demais.
— Você está vendo? — perguntou Carine, com a voz mais baixa.
— Só restam dois futuros, Carine. Ele sobrevive como um de nós ou Edythe o mata tentando impedir que aconteça.
— Não — gemeu Edythe.
Carine estava quieta. O puxão no meu couro cabeludo diminuiu.
Edythe levou o rosto até o meu. Beijou minhas pálpebras, minhas bochechas, meus lábios.
— Me desculpe, me desculpe.
— Não precisa ser lento assim — reclamou Archie. — Carine?
— Eu fiz um juramento, Archie.
— Eu não — rosnou ele.
— Esperem, esperem — disse Edythe, levantando a cabeça. — Ele merece uma escolha.
Os lábios dela estavam no meu ouvido. Trinquei os dentes para não gemer e me esforcei para ouvir.
— Beau, não vou tomar essa decisão por você. Não vou tirar isso de você. E vou entender, eu juro. Se você não quiser viver assim, não vou lutar contra você. Vou respeitar o que você quiser. Sei que é uma escolha horrível. Eu daria a você qualquer outra opção que pudesse. Eu morreria se isso pudesse trazer sua vida de volta. — A voz dela falhou. — Mas não posso fazer essa troca. Não posso fazer nada, só acabar com a dor. Se for isso que você quer. Você não tem que ser isto. Posso libertar você, se for o que precisa. — Parecia que ela estava chorando de novo. — Me diga o que quer, Beau. Qualquer coisa.
— Você — falei, entredentes. — Só você.
— Tem certeza? — sussurrou ela.
Eu grunhi. O fogo estava tocando com os dedos no meu peito.
— Tenho — eu disse, tossindo. — Só... me deixe ficar... com você.
— Saia do meu caminho, Edythe — rosnou Archie.
A voz dela soou como um chicote.
— Eu também não fiz nenhum juramento.
O rosto dela estava no meu pescoço, e não consegui sentir nada além do fogo, mas consegui ouvir o som baixo dos dentes dela rompendo minha pele.

8 comentários:

  1. Caracas! Eu Sabia! Sabia que algo tava diferente! Quando vir o nome do capitulo, tive quase certeza! Quando li:"O fogo se acumulava na dobra do meu cotovelo, e eu gritei." Tive certeza.
    Caraca! A tia Stephen nos deu um final alternativo! Eu sempre tentei imaginar como teria sido se a Bella tivesse chegado 5 minutos antes, ou se Edward tivesse demorado alguns minutos a mais... E agora eu sei!

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  2. What???????????
    Edythe vai transformar ele? NÃO É POSSÍVEL! ESSE FINAL ESTÁ BUGADO, SÓ PODE!!!!
    Respira
    Deixa eu ler o resto rsrs

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  3. eitaaaaa o final mudou.. q massa, bom até q valeu a pena passa pelos capítulos chatos e chegar aqui.. show....

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  4. Ficou legal assim pois sei que não seria possível ela continuar a sequência deste livro.quando chegar em amanhecer sabemos que nem um dos dois poderá ter filhos mas estava bem ansiosa com uma sequência até eclipse seria bem legal.

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  5. Finalmente, finalmente, finalmenteeee... Amei esse capitulo, ler o resto em 3, 2, 1

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  6. Amei, amei, amei, amei, amei, amei, amei, amei ♥♥♥

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